Inconvenientes



 Willian Kenbril recostou-se, satisfeito, a sombra de uma grande árvore frutífera presente no meio da pastagem entre um vilarejo e outro. Há dias viajava a pé, sem ter um destino concreto e planejado, vagando por pequenas comunidades inglesas trouxas. Procurando se camuflar. Tinha certeza que em breve o Ministério estaria procurando por ele, mas isso não o preocupava. Preocupação, por sinal, era algo incomum em sua vida. Gostava de levá-la tranquilamente, uma vez que sempre fora de planejar tudo com muita antecedência. E o resultado era... Perfeito. Sempre.


    Era uma característica que herdara de sua mãe. Sorriu com leve tristeza ao se lembrar dela. Mais de dez anos haviam se passado, mas a sensação permanecia a mesma: impotência. Impotência esta que, se tudo corresse como previsto, encontraria seu fim muito em breve. Finalmente, teria a chance de vingá-la.


    Sacudiu a cabeça, afastando tais pensamentos da mente. Era importante permanecer focado na tática, na teoria. Sem divagações adicionais, pois elas poderiam ser fatais na execução de um plano tão ousado como o dele. Um plano digno de honras e méritos,pensou. Realmente.


     Até então, tudo correra exatamente como planejado, e estava adiantado em seu cronograma particular. Sua estadia em Hogwarts fora curta, de fato, mas muito proveitosa. Enquanto brincava de gato-e-rato com Granger e Potter, tivera tempo de realizar as buscas que necessitava. Quase tinha sido descoberto por Potter uma vez, mas sua rapidez de pensamento e magia mostrara-se novamente muito eficaz.


      Potter, precisava admitir, era dono de um poder raro. Infelizmente, sua capacidade de pensamento deixava muito a desejar. Sempre pensara que seria mais difícil enganá-lo. Seu preparo começava a parecer muito amplo, tendo em vista a facilidade com que os acontecimentos se desenrolavam. Melhor para ele.


       Mas Harry Potter contava com uma vantagem peculiar: possuía um protetor oculto. Severo Snape era uma ca 


rta coringa no baralho, mas decididamente intervira por Potter em algumas ocasiões. Snape possuía mais facetas do que qualquer um poderia imaginar, o que fazia, dele, um homem muito perigoso. E isso o intrigava de muitas formas. Em seu tempo livre, tentara descobrir mais sobre esse misterioso integrante do corpo docente, mas não obtivera nenhuma prova concreta sobre nada. Contudo, acreditava na suposição de um agente duplo em Hogwarts. Afinal, estava sendo julgado na ocasião de sua festinha particular para Potter e Granger.


          Dois elementos, infiltrados perfeitamente na escola de magia mais famosa do mundo, sem serem descobertos por tanto tempo. Dumbledore estava realmente perdendo a prática. Afinal, não havia muito que pudesse fazer da posição que estava: confinado a um quadro, sua mente parecia começar a se tornar senil. Minerva MacGonagall, apesar dos pulsos firmes e seriedade mental, não tinha os mesmo talentos de seu antecessor ao controlar uma escola daquele tamanho. Basicamente, Hogwarts se tornara uma muralha com muitas imperfeições: mesmo mantendo a aparente imponência ao longe, tornara-se dona de uma burocracia lenta e sistema falho, talvez não de ensino, mas certamente de segurança.


          Mas a etapa Hogwarts havia terminado, e era hora de continuar. Havia muitos preparativos a serem feitos antes do grand finale. E como será glorioso, refletia. Inesquecível. Contudo, havia algo que precisava fazer antes de dar continuidade ao seu plano. Precisava ter uma conversinha com sua marionete preferida.


 


       Harry seguia pelo corredor da enfermaria, sem nenhum destino eminente. Precisava pensar um pouco sobre tudo aquilo. Seus ferimentos latejavam, mas eram como uma suave lembrança dos acontecimentos anteriores, e conseqüentemente seu dever como ser humano de fazer o possível para melhorar a situação. Sabia que deveria procurar Dumbledore. Contudo, optara por fazê-lo em outro momento. Tinha certeza que, cedo ou tarde, o ex-diretor o chamaria.


         Eram grandes as possibilidades de Willian nunca mais ser visto, e o moreno sabia disso. Sequer suspeitava dos motivos do loiro. Mas ele dissera que não trabalhava para o Lorde Negro, e isso o intrigava profundamente. Para quem mais, então? Não era possível que houvesse duas causas o querendo morto. Não só ele, mas também sua namorada. Sua namorada?


         Refletia agora sobre Hermione. Será que apenas ameaças eram suficientes para convencê-la a fazer o que fez? Justo ela. Tão esperta, tão rápida tão observadora? Harry suspeitava que houvesse algo mais ali, algo que ela não quisesse compartilhar com ele. Algo terrível o suficiente para amedrontá-la. Recordou-se do desespero em sua voz no começo daquela noite, logo depois de deixarem o gabinete. Ela não queria voltar a se encontrar com Willian, aquela idéia a apavorava. E Harry, agora, se perguntava por que.


            De maneira geral, a história da morena não era concreta. Parecia até mesmo absurda, em alguns aspectos, e isso o preocupava. As duas únicas opções que ele conseguia imaginar eram igualmente ruins: ou Willian tinha feito algo tão terrível, a ponto de convencê-la a submeter-se a seus termos, ou sua falsidade era grande o suficiente para inventar tudo aquilo. Das duas formas, Harry estava em uma situação bem incomoda.


            Pensou se deveria retornar ao dormitório. Naquele ponto, todos já deveriam ter notado a sua ausência. Além, o pânico provavelmente havia sido maximizado pela falta de luz e pelo feitiço que atingiu, muito provavelmente, todo o castelo. Resolveu que era melhor não. Perguntou-se, então, para onde deveria ir. Acabou por deixar seus pés o guiarem, sem prestar atenção para onde exatamente eles o levavam. Naquele momento, simplesmente sentia que não era importante.


 


           Snape adentrou com rapidez no imenso castelo de mármore, a poucos quilômetros de Hogwarts. Localizava-se entre quatro colinas, que o rodeavam e o mantinha escondido de qualquer um que passasse por ali. Também era protegido por fortes feitiços, que impediam a eventual entrada de visitantes indesejados. Apenas uns poucos privilegiados tinham acesso direto à fortaleza: Snape, é claro, era um deles.


           O castelo era uma bela obra construída inteira em mármore verde-escuro, sustentada por colunas romanas imaculadamente brancas. O visual geral era imponente: as colunas romanas dispunham-se simetricamente diante da entrada principal, uma grande porta de carvalho, e nas duas extremidades, logo abaixo do parapeito de duas das dezesseis grandes janelas que compunham o ultimo andar. O telhado, feito a mão, era feito da chamada cerâmica celadon, coisa que o concedia o mesmo tom verde-acinzentado do mármore. Cada telha era ricamente incrustada, também a mão, com inúmeros desenhos que, se vistos como um todo, de cima, formavam um gigantesco dragão. Acima da porta, completando o cenário, havia um imenso semicírculo de ônix, que se estendia em detalhes por toda a estrutura. A combinação verde-preto-branco dava ao castelo um ar misterioso que o Lorde Negro considerava muito satisfatório.


            Quando Snape atravessou o imenso portal, deu com uma sala comprida, onde localizava-se uma mesa no mesmo formato e era palco de reuniões pessoais com o mestre. Contudo, ele não se encontraria com ele ali – o mestre sequer sabia de sua chegada. Teria de ir diretamente a seus aposentos, localizado atrás da última porta a esquerda. Bateu por três vezes antes de entrar.


             Voldemort encontrava-se sentado em sua habitual poltrona de veludo vermelho, na parte mais distante do aposento. Ao seu lado, uma mesa exibia plantas do Ministério, Hogwarts e um mapa da Inglaterra, marcado com pontinhos vermelhos e azuis. Sua função não estava exatamente clara para a maioria dos comensais – apenas o Lorde Negro sabia ao certo o que significavam.


               - Milorde? – chamou Snape, com cautela. O humor do bruxo era muito imprevisível.


              - Ah, Severo. Tinha certeza que viria. – respondeu, e sua voz fria cortou o ambiente. Apesar de muito acostumado ao mestre, Snape não deixava de sentir arrepios diante de certos aspectos macabros de Voldemort. – Soube que houve uma grande festa em Hogwarts, estou certo? Permitiu até mesmo sua fuga.


              - De fato, a situação foi muito propícia. Mas temo que tenhamos uma pequena... Inconveniência, com a qual temos de lidar – prosseguiu ele. Como em nenhum momento Voldemort se virara, não havia como saber sua expressão. Ele também era um homem que se desagradava facilmente.


             - Ouvi sobre isso também. O garoto me parece muito talentoso. Não é um dos nossos, é?


             - Na realidade, não. E ele me preocupa. Parece muito interessado em Potter, e em Hermione Granger. Mas, como não faz parte de nosso grupo, não compreendo a finalidade de seus ataques. – disse Snape.


             - Motivos pessoais, talvez. Mas não quero correr o risco de deixar Potter ser morto por esse protótipo de bruxo das trevas. Teremos de eliminá-lo. – o lorde fez uma pausa, pensativo – Em quem você disse que ele estava interessado? Granger? A sangue-ruim? Mas o que ela poderia ter a oferecer? – a pergunta, obviamente retórica, foi seguida de uma risadinha debochada. – Deixarei Willian Kenbril sobre sua responsabilidade, Severo. Se quiser, coloque alguém a sua procura. Seu rastro provavelmente não será fácil de seguir, contudo.


               - Acredito que conheço a pessoa perfeita para tal missão – respondeu Snape, automaticamente pensando em um nome. Seria o mais adequado. – O garoto não terá a mínima chance.


               - Ótimo. E não deixe de trabalhar em nosso exército... O momento se aproxima. – disse Voldemort. Naquele momento, sorriu largamente, encoberto pelas sombras. Harry Potter finalmente conheceria seu fim, de uma maneira mais dolorosa do que poderia imaginar. – Já tenho tudo orquestrado.


              - Certamente, milorde. Terei mais tempo agora, que me livrei da incumbência como professor. – disse Snape e, reconhecendo que a conversa chegara ao fim, retirou-se. Já no corredor, permitiu-se soltar um suspiro de alívio. Tal conversa poderia ser potencialmente perigosa, dadas as circunstancias. Mas a incomum calma do mestre demonstrava sua segurança. Não tinha conhecimento de seus planos. Entretanto, pareciam muitíssimo satisfatórios.


 


            Jason, razoavelmente recuperado do choque de sua arrebatadora descoberta, recuperou a presença de espírito e recolocou os papéis em sua gaveta, tomando o cuidado de girar por duas vezes a chave ao trancá-la. Passando uma das mãos pela testa, em um gesto pensativo, analisou suas possibilidades. Precisava encontrar Harry, mas a estatística estava contra seu propósito.


          Estavam no meio da madrugada. Não acreditava que ele pudesse estar até aquele horário na enfermaria. Madame Ponfrey não permitiria. Também duvidava que o rapaz tivesse a audácia de voltar ao salão comunal de sua casa; o rebuliço se instalara muito fortemente para que as circunstancias permitissem tal retorno. Ótimo, pensou, desgastado.Isso reduz muito as minhas possibilidades.


          Quando a idéia lhe ocorreu, pensou imediatamente em censurar-se. Quais eram as possibilidades? Contudo, o amadurecimento de tal idéia em sua mente foi inevitável. E, com o tempo, ela pareceu tornar-se menos absurda.


           Levantou-se, decidido, ainda que contrafeito. Haviam certas obsessões humanas que ele nunca iria compreender.


 


          Assim que Harry se deu conta de onde estava, estacou. Acabara de bater os olhos em uma pequena poça de sangue. Seu sangue, pensou. Não compreendia porque, mas a perspectiva de levantar o olhar o assustava. Era como se esperasse encontrar a mesma cena novamente, como em um de seus pesadelos. De uma forma ou de outra, ele o fez.


         Era interessante a compulsão que o levara de volta àquele corredor. Sequer se dera conta disso. O medo, ao mesmo tempo em que o consternava, o atraia. E esse mesmo medo, essa lembrança do que havia ocorrido, esboçava agora em sua imaginação uma forma qualquer, um elemento figurativo. E o mandava tocar aqui... e aqui...e aqui...


          Mera metafísica, ele sabia. Filosofias vulgares. Mas sua mente não conseguia evitá-las. A clareza desta também o surpreendia: não mais o borrão de desespero que tomara seu lugar anteriormente. Apenas... A realidade. Do jeito que era.


           Avistou poças de sangue por todo lugar. Sangue dele, de Hermione, de Willian. Estátuas caídas, armaduras despedaçadas contra a parede. Mechas do cabelo de Hermione, cruelmente arrancadas e espalhadas pelo chão. Seu coração acelerou.


          Ouvia passos. Passos, novamente. Seu racional o dizia para manter a calma. O medo acordava, mostrando os dentes. Não era nada. Tinha que não ser nada. Sacudiu a cabeça, ordenando os pensamentos. Recompondo-se. Reprimiu-se mentalmente – acabaria ficando louco.


           Ao menos, os passos não eram fruto de sua imaginação. Tampouco o inimigo. Quando identificou a figura vestida de preto, respirou aliviado. Era apenas Jason.


           - Harry! – exclamou o mentor – Como você está?


           - Bem... – na medida do possível, completou – Como conseguiu me achar? O castelo é enorme.


           - Sabia que, cedo ou tarde, você retornaria a esse lugar. Curioso, não? – respondeu Jason, vago.


          - Nem me diga. Sequer percebi para onde estava indo, até me ver aqui – havia algo cômico naquilo tudo, Harry percebeu. Estavam tendo uma conversa tão casual. Parecia inadequado a situação.


         - Bem, eu... Precisava te encontrar, Harry. Eu temo que esse não seja o momento mais agradável para termos essa discussão, mas eu fiz uma constatação... Preocupante. – disse Jason, com cuidado. Harry franziu a testa. – Tenho fortes motivos para acreditar... Que o Ministro está sob o controle da maldição Imperius desde o início do ano letivo em Hogwarts.


        Harry, que se encontrava de costas para o homem até então, rapidamente girou nos calcanhares, surpreso. Assim como Jason, o fato em si não era o principal motivo de sua consternação. Sim, o que isso implicava. Eram muitos os mistérios que giravam em torno da figura coringa de Willian Kenbril, mas, Harry julgava, poderia contar ao menos com uma base. Agora, lhe vinha à mente que nada de que o garoto dissera era verdade.


         E que ele, brilhantemente, os havia passado a perna.



N/A – Hehe. Capítulo curioso, não?


           Como anteriormente dito, tirei aquele aviso improvisado do ar, para não comprometer a contagem de capítulos. O nome do cap é óbvio, quando comparado a seu conteúdo, portanto não necessita de explicações adicionais. Parece-me que Willian terá alguns problemas, o que para muita gente vem como colírio. A minha idéia é criar justamente esse dilema, sobre aquele personagem que chega e vira inimigo até do inimigo da história. Que, aliás, teve sua primeira participação triunfal nesta fic. Espero ter dado a ele uma introdução satisfatória. Apesar de pretender incluí-lo mais nos caps, agora na reta final, não sei se me arriscaria a fazer um Voldemort POV, já que ele não foi muito descrito nos livros originais.


            Outro dia me perguntaram se eu faria um Dumbledore POV. Sou ambiciosa com meus personagens, mas tentar descrever a lógica inebriante do velho diretor beira a insanidade.


            Coloquei uma pequena referencia neste capítulo. Quando eu estava escrevendo, me lembrei do prefácio de um dos livros de Stephen King, no qual ele descrevia o escritor de terror com relação ao medo. E me veio a cabeça a célebre frase: “e o autor toma suas mãos nas dele e o leva de encontro ao medo, aquela forma debaixo do lençol. E o manda tocar aqui...aqui...e aqui...” . Achei que traduzia bem o sentimento de Harry naquele momento.


             Há algumas pontas menores soltas que pretendo finalizar no próximo ou seguinte capítulo. Depois, vamos direto ao que interessa: preciso terminar isso antes do capítulo 50. Por questões de IBOPE, inclusive. Eu bem sei que a maioria das pessoas não se entusiasma a ler uma fic com 30 caps. Ou 40. Quem dirá 50?


             Já faz algum tempo parei de comentar os caps. Acho que, nessa altura do campeonato, comentar é colocar na cabeça de vcs ideias que eu quero que concluam sozinhos. Se não, perde a graça. Sem contar que, vai que falo demais?


              Devidos créditos à Erica, que com este novo capítulo, marca o reinício da nossa parceria. Estou muito grata a ela, e vocês provavelmente também, uma vez que escrevo picado, quando dá vontade, me preocupando mais com o enredo do que com a ortografia, e não, não vou além do corretor ortográfico do Word. Mania besta minha.


             Pessoal, comentem, por favor. Nessa altura, vcs não tem idéia de como é importante.


 


Bjo, Giovanna de Paula

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Comentários (4)

  • Evandro Bernardi

    50 capitulos. PORQUE TÃO POUCOS???????????/   uma bela historia prescisa dos detalhes e nao de mediocridade. um belo exemplo disso é a fic Harry Potter e o Espelho real. postada aqui no FeB que já tem 87 capitulos e ainda promete muitos outros   Posta logo presciso me distrair e rapido ou enlouqueço

    2011-09-10
  • Andre Donatti

    Primeira vez que comento em um capitulo , mas , a historia ta chegando num ponto bem legal, mas eu discordo em uma coisa com voce, eu não acho que as pessoas nao se entusiasmam a ler uma fic com 50 capitulos, pelo menos eu prefiro os com muitos capitulos, mas de qualquer forma, a fic continua otima, pena que como voce disse, ela ta chegando ao fim. Bjo. Até o proximo cap.

    2011-09-03
  • matthew malfoy

    muito bom, aguardando o próximo, cap.

    2011-08-18
  • rosana franco

    Muitas perguntas e poucas respostas,pelo menos isso nos deixa muita anciedade pela próxima atualização.

    2011-08-17
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