CAPÍTULO VII



CAPÍTULO VII

- O rei Luís não irá intervir na sucessão. – disse Harry.
Ele estava de pé diante da lareira, com as mãos cruzadas às costas. Embora sua voz estivesse calma e controlada, graves preocupações pareciam agitar-lhe o espírito.
- A medida que o tempo passa, torna-se cada vez mais evidente que ele não porá seus homens nem seu ouro a serviço do príncipe.
Rony jogou sobre a mesa a carta trazida havia pouco por um mensageiro e começou a andar de um lado para o outro da sala.
- Há um ano, Luís parecia disposto a sustentar a causa dos Stuart. Mais do que isso. Estava ansioso!
- Há um ano - observou Harry - Luís acreditava que Charles pudesse lhe ser útil. Mas desde março, quando a idéia de invasão da Inglaterra foi abandonada, o príncipe passou a ser ignorado pela corte francesa.
- Então, iremos à luta sem os franceses!
Rony fitou o pai, ansioso.
- Nosso povo dará a vida pelos Stuart.
- Pode ser. - concordou Arthur, a expressão carregada. - Precisamos de união. Para vencer, os clãs deverão lutar unidos sob uma só bandeira.
- Como lutamos antes! - disse seu filho exaltado. - Não pode haver dúvida alguma sob que partido os chefes se unirão.
- Gostaria que fosse verdade. - tornou Arthur pensativo. - Não podemos pretender que cada chefe proteste lealdade e dedicação ao verdadeiro rei, ou leve seu clã a cerrar fileiras em torno do príncipe. Temo que muitos erguerão seus braços contra nós, unindo-se às forças do governo.
Harry apanhou a carta e leu-a mais uma vez. Depois rasgou-a muito devagar e atirou-a ao fogo. Enquanto a via arder lentamente, disse:
- Espero a qualquer momento notícias de meu contato em Londres. Se forem as que imagino, a nossa empresa mudará completamente de aspecto.
Rony voltou-se para ele.
- Quanto tempo ainda teremos que esperar? Quantos meses, quantos anos teremos que ficar aqui, enquanto o usurpador permanece sentado no trono?
- Acho que a hora da rebelião chegará mais cedo do que imagina. O príncipe está impaciente.
- Os chefes da Alta Escócia vão se unir novamente. - anunciou Arthur. - Eles temem que uma ação prematura ou mal planejada possa causar grave dano e debilitar a fé dos escoceses numa causa que reivindica para si o direito ao trono inglês. Mas temos que tomar cuidado com essas reuniões para não despertar a suspeita dos "Black Watch".
- Malditos sejam. - rosnou Rony entre dentes, à menção dos escoceses colaboracionistas.
- Outra caçada? - perguntou Harry imperturbável.
- Tenho em mente algo um pouco diferente.
Ao som de uma carruagem que se aproximava, Arthur sorriu e guardou o cachimbo.
- Um baile, rapazes! É hora de oferecermos algum entretenimento aos nossos vizinhos. E a jovem que vem nos visitar é, a meu ver, um lindo pretexto.
Harry aproximou-se da janela e levantou a ponta da cortina a tempo de ver Gina descer correndo a escadaria de pedra. Quase ao mesmo tempo, uma jovem de cabelos escuros saltou da carruagem e atirou-se em seus braços.
- Mione MacDonald.
- Exatamente. Ela está em idade de se casar, assim como minha filha mais velha.
Harry sorriu, pouco à vontade, e murmurou uma observação banal.
Arthur pousou os olhos nele, pensativo.
"Eu teria que ser cego para não ver que há algo entre esse lorde inglês e Gina."
- Nada mais razoável do que oferecer um baile para apresentá-las aos jovens dândis das redondezas, não acha?
- Muito bem pensado.
- O diabo me carregue se eu permitir que essa moça me distraia, enquanto estivermos afiando nossas espadas. - disse Rony com mau humor. - Não vou levá-la para cavalgar nem ficar ouvindo suas conversas fúteis!
Arthur caminhou para a porta, dizendo por cima do ombro:
- Não se preocupe. Gina e Gwen irão cuidar bem de nossa hóspede.
No instante em que as portas do salão foram abertas, o som de vozes e de risos femininos invadiu a sala. Arthur adiantou-se, a voz retumbante ecoando no hall:
- Venha dar um beijo em seu velho tio, mocinha!
Ao voltar para o salão, acompanhado por Mione, Rony levantou-se, mas foi incapaz de proferir uma palavra. Ela parecia uma boneca, ao lado de seu pai, uma visão de sonhos vestida de veludo azul. Os cabelos, escuros como a noite, caíam-lhe graciosamente até os ombros, formando um belo contraste com a tez delicadamente alva. Os olhos, profundos, pareciam capazes de inflamar e enternecer, de ordenar e suplicar. Ficou a contemplá-la, boquiaberto, pensando que jamais vira beleza tão viva e dominadora.
Mione sorriu-lhe e então voltou-se para cortejar Harry.
- Lorde Potter...
- E um prazer tornar a vê-la, Srta. MacDonald. - Ele tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios. - Fez boa viagem?
- Muito boa, obrigada.
Gina adiantou-se e empurrou-a na direção do irmão.
- Você se lembra de Rony, não é, Mione?
- Claro que me lembro!
Mione ergueu os olhos e sentiu o coração bater descompassado. Ele era muito mais bonito do que ela se lembrava: mais alto, mais charmoso...
- E muito bom ver você, Rony. Espero que seu ferimento já tenha cicatrizado.
- Que ferimento?
- Seu pai nos contou que houve uma emboscada, durante sua viagem de volta de Londres.
- Oh... não foi nada.
- Tenho certeza de que foi coisa séria, mas estou contente de vê-lo em boa forma. É maravilhoso estar em Glenroe novamente! Tio Arthur... tia Molly, agradeço a ambos pelo convite.
Nesse instante, a criada chegou com a bandeja do chá e todos se acomodaram diante da lareira. Ao invés de se retirar, como havia anunciado, Rony viu-se disputando a cadeira mais próxima de Mione. Harry aproveitou o instante de confusão e inclinou-se para Serena com o pretexto de passar-lhe um prato de bolinhos.
- Você está me evitando, Gina.
- Absurdo!
- Estou plenamente de acordo. Seria um absurdo.
- O senhor se tem em altíssima conta, Sassenach!
- É gratificante ver como eu a deixo nervosa. - Ele sorriu, satisfeito, e depois voltou-se para os outros. - Gwen, você fica encantadora de rosa.
"Ele nunca me disse que sou encantadora", pensou Gina, olhando o fogo que agonizava. "Nunca me fez reverências nem disse frases galantes. Comigo são apenas farpas e ironias. E beijos", lembrou-se, com um estremecimento involuntário. "Beijos profundos, possessivos..."
Faria melhor não pensando nisso... ou nele. Fora criada na Alta Escócia, mas não era nenhuma tola. Estava ciente da liberdade de costumes que imperava na aristocracia inglesa. E Harry não podia ser diferente de seus pares.
Não capitularia diante das emoções poderosas e irresistíveis que ele lhe despertava, entregando-se levianamente. Não queria um mero prazer, passageiro e febril. Queria um sentimento profundo e duradouro, e isso era algo que Harry não seria capaz de lhe oferecer.
- Sonhando de olhos abertos, meu amor? - murmurou ele, de súbito, com voz sedutora. - Espero que seja comigo.
Libertando-se a custo da melancólica magia das brasas e das cinzas, respondeu-lhe com sarcasmo:
- Estava pensando nas vacas que devem ser ordenhadas.
Harry riu e depois observou com uma ponta de ironia:
- Pelo jeito, Rony não está se aborrecendo com a srta. MacDonald.
Gina olhou para o irmão. Ele estava corado e alegre.
- Rony dá a impressão de alguém que foi atingido por um raio!
- Ou no coração, por uma flecha de Cupido. Quem acreditaria numa coisa dessas? Acha que ele chegará ao ponto de dizer versos à sua amada?
Harry suspirou fundo, com simulada resignação.
- Os homens fazem as coisas mais insensatas quando amam.
- Há alguns anos, ele não podia nem ouvir falar em Mione.
- Agora ela não é mais uma criança. É mulher feita e muito bonita, por sinal. - Gina sentiu um aperto no coração.
- Sim, muito bonita. Parece que ela fascinou a todos.
Ele ergueu um pouco as sobrancelhas escuras e depois sorriu.
- Quanto a mim, prefiro uma jovem de olhos verdes e língua afiada.
- Não estou habituada aos flertes de salão, my lord.
- Essa é outra coisa que eu preciso lhe ensinar.
Ela percebeu que estava em desvantagem e decidiu-se por uma retirada estratégica.
- Venha, Mione. - disse levantando-se. - Vou lhe mostrar seus aposentos.

Gina não se surpreendia de que sua amiga estivesse ainda apaixonada por Rony. O que a deixava cada vez mais perplexa, à medida que os dias iam passando, era o fato de que seu irmão parecia retribuir esse sentimento com igual intensidade. Isso era algo quase inacreditável. Mas não podia negar o que estava acontecendo debaixo de seus próprios olhos. Ele que, dois anos antes arrumava sempre uma porção de pretextos para evitá-la, agora procurava outros tantos para ficar na companhia dela!
Mione, por sua vez, parecia aceitar a situação com naturalidade, o que, no fundo, Gina admitia lhe causar um pouco de inveja. Por que o amor fazia sua amiga tão feliz, enquanto ela se sentia insatisfeita e até amedrontada?
O tempo continuava frio, as brumas elevavam-se das ásperas encostas para logo, envolvidas nos turbilhões do vento cortante de março, desfazer-se em flocos e desaparecer. Mas o inverno chegava ao fim. "Dentro de um mês, as árvores estarão cobertas de folhas novas e as primeiras flores silvestres se abrirão ao sol", pensou Gina. Já se ouviam pios de aves e houve um fugaz brilho de asas, quando os cavalos perturbaram a quietude do bosque.
Cavalgavam a passo moderado e isso a impacientava. Sabia que Mione era uma exímia cavaleira, mas sua amiga preferia retardar-se na trilha, ao lado de Rony, do que lançar-se num galope estimulante.
- Quer apostar uma corrida? - perguntou-lhe Harry, colocando-se ao lado dela.
- Bom... sim.
- O que estamos esperando, então? Vamos! Eles nos alcançarão mais tarde.
Gina hesitou. Sua mãe não aprovaria que cavalgassem aos pares, ao invés de num único grupo.
- Não ficaria bem.
- Está com medo de não poder me acompanhar?
Ela o fitou, com os olhos faiscantes.
- Inglês nenhum é páreo para uma Weasley!
- Prove isso, Gina. - disse ele brandamente. - O lago fica a menos de uma milha daqui.
Um desafio era um desafio. Sem refletir, Gina inclinou-se sobre seu cavalo e pressionou-lhe os flancos com os calcanhares, estimulando-o a lançar-se para a frente. Com mão leve e evitando os ramos baixos, guiou-o através de curvas e desvios, fazendo-o saltar sobre eventuais troncos caídos.
A senda que seguiam era tão estreita que mal dava lugar para os dois animais, mas nenhum deles queria ceder seu espaço ao outro, de modo que cavalgavam quase ombro a ombro. Ela olhou rapidamente para seu companheiro, o rosto moreno aberto num sorriso, e tornou a esporear sua montaria. A floresta ecoou com sua risada clara, quando tomou a dianteira.
Seus olhos brilhavam, seus lábios entreabriam-se. Experimentava uma sensação de bem-estar, de leveza do coração, que vinha sobretudo da companhia de Harry. Essa emoção persistia, fazendo-a desejar que o lago estivesse a dez milhas de distância, para que eles continuassem a cavalgar cada vez mais velozmente sob os raios do sol, que iluminavam, em remendos resplandecentes, a trilha pela qual abriam caminho.
Harry olhou-a com admiração. Ela cavalgava como uma deusa. Elegantemente e com uma confiança inabalável. Se estivesse em companhia de outra mulher, teria contido o cavalo, receoso pela segurança dela. Mas com Gina, sentia-se estimulado a prosseguir com mais ardor, pelo puro prazer de vê-la voar ao longo do rústico atalho, a capa enfunada sobre o traje cinzento de montaria.
"Você não vai ganhar", disse a si mesmo, ao ver a superfície azul do lago brilhar por entre os troncos nodosos dos carvalhos.
Impeliu o cavalo para a frente e logo estavam galopando lado a lado, colina abaixo. Alcançaram a margem juntos, mas Gina esperou até o último instante para refrear o cavalo, que estacou com um sonoro relincho de protesto. Ela ria, os olhos verdes espelhando triunfo. Se já não estivesse apaixonado, ficaria naquele instante, tão irremediavelmente quanto um homem fulminado por um raio.
- Venci, Sassenach!
- Engana-se. Fui eu que venci e por uma cabeça de vantagem.
- Dane-se a cabeça de vantagem! Eu venci, mas você não é homem para admitir isso!
Gina inspirou fundo e continuou, tomada por uma estranha sensação de desafio:
- Se estivesse usando calção, ao invés deste traje, eu o teria deixado para trás, a comer a poeira da estrada!
Harry não esboçou reação alguma. Ficou mudo, enfeitiçado por aqueles olhos verdes, cujo brilho era atenuado pelos cílios longos e sedosos.
- Mas você não tem do que se envergonhar. É um bom cavaleiro. Quase tão bom quanto um escocês estropiado e cego de um olho. - acrescentou ela com uma risada.
- Seus elogios me desvanecem, embora a senhora pareça não levar em conta que venci a corrida. My lady é muito presunçosa... ou muito obstinada para admiti-lo.
Gina lançou a cabeça para trás. O chapéu caiu-lhe e os cabelos se espalharam, numa massa de cachos acobreados.
- Fui eu que venci. E um cavalheiro teria a fineza de me conceder a vitória.
- Uma verdadeira dama nunca teria disputado uma corrida.
- Oh!
Ela não se importava de ser chamada de presunçosa ou obstinada, mas ressentia-se quando lhe diziam que não era uma dama.
- A idéia da corrida foi sua! Se eu tivesse recusado, você me chamaria de covarde. Mas eu aceitei e venci, e então você se vinga, dizendo que não sou uma dama!
- Aceitou e perdeu. - corrigiu-a Harry, gostando do modo como suas faces ficavam coradas no calor da discussão. - Comigo, você não precisa portar-se como uma dama. Gosto de você assim como é.
- Ou seja...
- Uma deliciosa gata selvagem que usa calções e sabe lutar como um homem.
Ela o encarou, possessa de raiva e, num impulso, deu uma palmada na anca da montaria dele, fazendo o animal pular para a frente. Se Harry não reagisse prontamente, puxando as rédeas, teria sido lançado de ponta-cabeça nas águas geladas do lago.
- Megera. - murmurou ele, num misto de perplexidade e admiração. - Está querendo me afogar?
Ela deu de ombros, com indiferença, e pôs-se a contemplar o lago. Raios oblíquos de sol refletiam-se nas águas claras, brincavam no contínuo enovelar-se das ondas. Libélulas azuis pairavam sobre a superfície, lutando contra súbitas lufadas de ar ainda úmido e frio. Tudo era tão calmo e bonito, que ela sentiu seu aborrecimento esvaecer-se como por encanto.
- Proponho uma trégua.
- Posso saber por quê?
- Não teria ninguém com quem conversar, enquanto Mione e Rony namoram.
Harry saltou agilmente ao chão e colocou-se ao lado dela.
- A senhora aquece meu coração.
Gina sorriu e estendeu-lhe as mãos, para que ele a ajudasse a descer. Mas, antes que percebesse suas intenções, ele a agarrou pela cintura e a jogou rudemente sobre os ombros.
- Está ficando louco? Ponha-me já no chão! - gritou ela, esperneando.
Sem fazer-lhe caso, ele caminhou até a margem.
- Não quer experimentar as águas do lago?
- Você não se atreveria! - Havia uma nota de pânico na voz dela.
- Minha querida, já lhe disse que um Potter nunca se omite diante de um desafio. Sabe nadar?
- Melhor do que você, Sassenach! Mas se não me largar...
Ele ameaçou atirá-la na água e ela soltou um grito de terror.
- Não faça isso, as águas estão geladas! - Depois, pôs-se a rir e a dar-lhe pontapés ao mesmo tempo. - Juro que o matarei, quando recuperar a liberdade.
- Isso não me anima a soltá-la. Porém, se você admitir que eu venci a competição...
- Nunca!
- Nesse caso...
Ele deu mais um passo para a frente, mas Gina esmurrou-lhe as costas com tanta força que o fez cambalear e tropeçar numa raiz.
Quase em seguida, os dois foram ao chão, numa confusão de saiotes e maldições.
- Olhe só o estado de minha saia! - queixou-se ela.
- A culpa é toda sua! Você me fez perder o equilíbrio.
- Foi mesmo? Tomarei mais cuidado na próxima vez. - Gina sorriu, satisfeita, e examinou-lhe o calção sujo de terra. - Parkins vai repreendê-lo, quando vir o estado desse lindo traje de montaria.
- Meu criado é uma pérola e não vai dizer palavra.
- Que juízo você faz do caráter desse Parkins?
- Ele é correto, leal, mas um tanto teimoso. Por quê?
- A sra. Drummond acha que ele daria um bom marido.
- A sra. Drummond? - Brigham fitou-a, incrédulo. - A "sua" sra. Drummond e... Parkins?
- Por que não? A sra. Drummond é uma ótima pessoa.
- Não duvido disso. Mas... Parkins?
Harry pôs-se a rir. Não podia imaginar seu criado fazendo par com a corpulenta cozinheira dos MacGregor.
- Ele está a par das intenções dela?
- Ainda não. A sra. Drummond pretende convencê-lo com suas tortas e seus molhos, exatamente como Mione está encantando Rony com sua beleza e seu sorriso tímido.
Harry lançou-lhe um olhar perscrutador.
- Isso a incomoda?
- Oh, não! Gostaria muito que eles se casassem. Mas...
- Mas...
- Vendo-os juntos, não posso deixar de pensar que depois do degelo, quando romper a primavera, o país estará em guerra.
- Preferia que não houvesse guerra?
Ela suspirou e ficou olhando as nuvens, que corriam rápidas no céu azul.
- Sinto-me dividida. Gostaria de lutar, mas também de ficar esperando a renovação da primavera.
Ele tomou-lhe a mão. Era frágil demais para empunhar a espada.
- Haverá outras primaveras. E outras florações.
Ela o fitou, dominada pelo magnetismo dos olhos cinzentos. Sentia-se bem a seu lado, ouvindo-o, enquanto pássaros invisíveis cantavam em meio à espessura das árvores e o perfume da terra evolava-se ao calor do sol.
Seus dedos entrelaçaram-se aos dele, num gesto tão instintivo que não soube o que havia feito até não perceber a mudança que houve na expressão de Harry: o súbito escurecimento das pupilas, a intensidade do olhar. Era como se o mundo à sua volta houvesse desaparecido, e só eles estivessem ali, as mãos unidas, os olhos nos olhos.
Súbito, num instinto de defesa, retraiu-se.
- Não!
Harry envolveu-a pela cintura, rápido.
- Eu poderia deixá-la ir embora, Gina. Mas isso não mudaria o que há entre nós.
- Não há nada entre nós.
- Obstinada... - Ele traçou-lhe o contorno dos lábios com a ponta do dedo. - Voluntariosa... linda!
- Não sou nada disso.
- Você é tudo isso! - Ele mordiscou-lhe de leve o queixo e depois o lóbulo da orelha, fazendo-a estremecer de prazer.
- Não faça isso!
- Esperei muito tempo para ficar a sós com você e fazer exatamente isso.
Ele a apertou nos braços e, rosto contra rosto, murmurou:
- Diga que será minha. Diga!
Ela desprendeu-se sem violência e respondeu numa voz fraca e lenta:
- Não posso. Não posso.
Harry guardou silêncio por alguns momentos. Quando falou de novo, sua voz era suave e terna:
- Às vezes acontece algo especial entre um homem e uma mulher. Algo que queima como uma chama eterna, embora ambos tentem ignorar o fato e lutem contra seus próprios sentimentos. Você quer me odiar, mas não pode.
- Não diga mais nada! Não consigo pensar direito.
- Não pense. - Ele a agarrou pelos ombros e pressionou o corpo contra o dela. - Sinta, apenas.
A pressão cálida daquela boca sensual, Gina sentiu-se dominada pela paixão e um frêmito de desejo subiu por seu corpo, deixando-o indolente e submisso. Ele tinha razão! Havia entre eles uma atração que fazia o sangue de ambos fervilhar, seus sentidos despertarem com intensidade. Incapaz de resistir, correspondeu ao beijo com total abandono.
- Quero que seja minha. - murmurou ele, aninhando-lhe a cabeça no peito vigoroso.
- Preciso de tempo para pensar. - murmurou ela, perturbada e fraca.
- Precisamos apenas conversar. Quero que você entenda o que eu sinto por você.
Gina compreendeu que ele queria torná-la sua amante e, como tal, lhe tornaria a vida amável, diferente, colorida, toda nova. Se cedesse, porém, iria sentir-se a mais indigna das criaturas. Por outro lado, se encontrasse forças para recusá-lo, conservando intacto o seu orgulho, se sentiria completamente infeliz.
- Preciso pensar. - tornou a dizer, confusa.
Curvado sobre ela, Harry a fitava com ar interrogativo.
- Você me ama, Gina?
Ela olhou-o um momento, hesitou e disse muito baixo:
- Que importância pode ter isso?
Ele endireitou-se e suspirou resignado.
- Compreendo. Eu sou ainda o inglês que veio de Londres. E você jamais esquecerá isso, não importa o que sinta por mim, não importa o que possamos significar um para o outro!
- Não posso esquecer quem você é, nem quem eu sou. - Bruscamente ele se desvencilhou dela.
- Está bem. Você terá tempo para pensar. Mas lembre-se: não vou implorar por seu amor.


Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.