Escolhas



N/A: há algumas citações nesse capítulo, vcs vão ver mais pra frente (no ensaio de casamento), que pertencem a primeira fic (“O amor fala mais alto que o sangue”). A situação que vai ser citada se encontra entre o capítulo 13 e 17. Quem já leu, desconsidere o aviso. Quem não leu e quiser conferir, sinta-se a vontade.

Boa leitura.



~~



Capítulo 16
Escolhas






"- Então, você me trouxe aqui por algum motivo ou não?

- Ah, claro que foi por algum motivo!

- E poderia me dizer qual é?

- Sim, te trouxe aqui pra lhe pedir em casamento!"


O sol ainda começava dar sinais de que iria nascer, e Sophie já estava acordada. Na verdade, a loira não havia pregado o olho durante toda a noite. Depois de convencer Rose que preferia ficar no sofá que havia no primeiro andar do quarto da monitoria, Sophie apenas se encolheu e deixou que seus pensamentos vagassem, bloqueando a dor toda vez que vinha lhe consumir. Não chorara nem um minuto, desde que acordara de seu súbito desmaio.

Quando os primeiros raios de sol puderam ser vistos despontando no horizonte, Sophie finalmente se colocou de pé. Depois de utilizar o banheiro para sua higiene pessoal, a jovem escreveu um bilhete e deixou em cima da mesa de Rose, próxima aos relatórios, informando onde havia ido.

O castelo estava completamente deserto. Apenas o barulho do vento atravessando as grandes janelas e dos passos de Sophie eram ouvidos pelos corredores.

Sophie foi direto para o Salão Comunal da Sonserina. Como já previra, estava vazio. Uma fumaça fraca vinha da lareira, que agora só tinha cinzas. Ainda era muito cedo para que os alunos estivessem acordados e isso facilitaria todo seu trabalho. Detestaria se porventura chorasse, alguém lhe parasse e perguntasse o que havia acontecido. Sem público tudo era bem mais fácil de lidar.

Sophie entrou no quarto que pertencia a Vincent. Embora nem ele, e muito menos ela não fossem mais monitores, a diretora havia deixado que continuassem utilizando seus antigos quartos, agora que faltava apenas um ano para se formarem.

Se ela estivesse certa – coisa que agora começava a duvidar – Vincent acordaria assim que os raios despontassem por sua janela e clareasse parte do ambiente. Eram raros os dias que o moreno acordava tarde. Decidida e sem pressa nenhuma, ela se sentou na cadeira de sua escrivaninha e esperou em silêncio, pela hora que finalmente resolveria aquela situação.



***



Como Sophie havia previsto, a pouca claridade que invadia o quarto foi suficiente para despertar Vincent.

O jovem praguejou alguma coisa sobre sua dor de cabeça do dia anterior, e se sentou na cama. Levou as mãos à cabeça e passou pelos cabelos, até que por fim seus olhos percorreram por todo quarto. Vincent abriu um sorriso enorme ao ver que Sophie estava lá.

- Bom dia, amor! – Vincent disse animado – Está aqui há muito tempo?

- O suficiente para ver o sol nascer. – Sophie respondeu indiferente.

- Por que não se deitou comigo? Você tem noção do quanto essa cama pode ser grande e fria? – Vincent se levantou, e caminhou até seu armário para pegar suas roupas.

- Achei melhor não acordar você. – a voz de Sophie ainda mantinha o tom indiferente.

Vincent se virou e encarou melhor o rosto da namorada. Sophie não parecia disposta a brincadeiras e muito menos a sorrir. Vincent a conhecia bem o suficiente para saber que ela queria lhe dizer algo, e estava esperando só o momento certo pra começar.

- Vou tomar um banho rápido, e já volto.

- Tudo bem. Vou continuar aqui, nós precisamos conversar.

- Eu sei. E espero entender o motivo dessa conversa.

- Vai entender, não se preocupe.

~

Vincent estava parado em frente ao espelho, enxugando os cabelos na toalha. Encarava pensativo seu reflexo no espelho, enquanto procurava em sua mente alguma coisa que pudesse ter feito para deixar Sophie tão estranha.

Lembrou-se do café da manhã, do tempo vago em que ficaram no pátio da escola, da aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, do almoço, da maldita dor de cabeça, do treino de Quadribol e... Era após o treino que suas lembranças começavam a falhar. Não que ele não se lembrasse, mas as imagens eram completamente desconexas e sem foco. Algo relacionado a biblioteca, corredor da escola...

Sophie ainda estava sentada, quando Vincent saiu do banheiro já vestido para a primeira aula, que especialmente naquela manhã seria do Clube dos Duelos. Ela ergueu os olhos para encarar Vincent, e sentiu seu coração apertar. Precisou reunir todas suas forças para bloquear a dor que vinha como uma onda gigantesca atingi-la. “Precisa ser forte!”, ela repetia mentalmente a frase, para não fugir de seu principal objetivo.

- Sente-se, por favor!

- Certo. – Vincent assumiu uma postura séria e se sentou em frente à namorada. – Sobre o que exatamente é essa conversa?

- Você e eu.

- Foi o que imaginei.

Sophie fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes, até que finalmente voltou a encará-lo.

- Vincent, antes de qualquer coisa eu queria te agradecer por ter feito parte da minha vida durante todos esses anos. Em especial nos últimos três anos, em que começamos a namorar. Enquanto esteve comigo foi uma pessoa maravilhosa. Rimos juntos, sofremos juntos... Aprendi tantas coisas que não seria capaz de descrever em simples palavras. – a voz de Sophie era firme e sua expressão era séria – Você foi a pessoa mais importante da minha vida e de certa forma vai continuar sendo. Os melhores momentos da minha vida foram ao seu lado e eu... – ela engoliu em seco – Eu nunca vou esquecer.

Vincent que ouvia tudo calado, tinha uma expressão que mesclava confusão e insegurança. Ao ver que Sophie havia feito uma pausa em seu discurso, respirou fundo e disse:
- Espero que haja um bom motivo para que todos os verbos do seu pequeno discurso tenham sido usados no passado.

- O motivo para os verbos estarem no passado, é porque o futuro já não existe, Vincent. – a voz de Sophie assumira um tom frio e cortante.

Vincent agora assumira uma expressão de completo desespero. Se ele havia entendido bem, Sophie estava lhe dizendo com todas as letras que o relacionamento dos dois estava terminado. Era o fim.

- Me diz que isso não é...

- Verdade? – Sophie deu uma curta risada – Por favor, o que mais você esperava depois de ontem? E não me olhe com essa expressão confusa, deve saber do que estou falando.

- Não, eu não sei. Sophie, por Merlin! Seja mais direta, porque não consigo acompanhar a lógica dos seus pensamentos desse jeito.

- Quer que eu seja mais direta? Então está bem! Ontem eu estava na biblioteca. Sim Vincent, pode se surpreender, eu vi o momento exato que você se declarou a Paola Gusmand e disse com todas as palavras que eu já não significava mais nada! – Sophie não percebeu o momento que largou a posição indiferente, e se colocou de pé, gritando e demonstrando toda sua mágoa.

- Eu disse o... – Vincent parou no meio da frase. Agora algumas imagens faziam sentido para ele. A biblioteca, os livros... A garota. – Não! – ele exclamou e se colocou de pé – Sophie, você precisa realmente me ouvir. Eu...

- Vincent, não tente se explicar.

- Mas eu preciso! Sophie, por Deus, acredite quando eu digo...

- Vincent, eu vi e ouvi tudo que aconteceu entre vocês! Não busque explicações para tornar minha dor menor. Não sou criança e entendo que nada é pra sempre. Nem o amor é pra sempre! – ela dizia tudo muito rápido, sem deixar espaço para que Vincent falasse – Eu só gostaria de não ter descoberto daquela forma, entende? Você poderia ter vindo até mim e explicado tudo. Mas ao invés disso, guardou tudo pra você e a procurou antes. Se achava que eu não seria capaz de suportar, se você...

- PELO AMOR DE MERLIN, CALA A BOCA! – o grito de Vincent ecoou por todo o quarto. Ele estava furioso – Você está sendo absurda! Completamente absurda, nunca, em toda minha vida ridícula, pensei ou amei outra garota, então pára de agir como se de uma hora pra outra isso fosse mudar. Se não consegue ter certeza dos meus sentimentos, só posso lamentar. Se não ficou claro pra você, nesses últimos três anos, tudo que sinto, o problema não é comigo! Eu não amo a Paola. Seja lá o que você tenha visto ou ouvido, NÃO FOI VERDADE!

- NÃO FOI VERDADE? – Sophie gritou de volta – Todas as palavras soaram bem reais pra mim. A forma como olhava pra ela... Até seu beijo foi muito real, Williams, e a não ser que você seja um ótimo ator, tudo que presenciei foi real e com bastante sentimento. – Sophie respirou fundo para se controlar. Aquilo estava fugindo de seu controle, mais um pouco começaria a chorar e a última coisa que precisava era que seu ex sentisse pena dela – Escute, não vim aqui pra brigar com você ou alguma coisa parecida. Não vim aqui pra gritar e bancar a louca. Só vim aqui dizer que você não precisa continuar se preocupando comigo. Vai ficar tudo bem, e você está livre pra viver sua linda história de amor com a Gusmand ou com qualquer outra pessoa da sua escolha. – ela engoliu em seco e caminhou em direção a porta. Antes de sair, retirou seu anel de noivado e o colocou sobre a cama desarrumada de Vincent – Seja Feliz! – foi a última coisa que disse, antes de sair pela porta do quarto.

- Sophie, volte aqui! – Vincent a chamou – SOPHIE, POR MERLIN, NÃO FAZ ISSO COMIGO! – ele gritou e correu para fora do quarto, mas ela já não estava mais lá.


***



A grande sala reservada para as aulas práticas do Clube dos Duelos, pouco a pouco foi se enchendo. Todos os alunos foram convidados a participar do que seria a última aula antes das férias. Apesar de esporádica, as aulas ministradas por Harry e Rony eram as favoritas dos alunos. Todos gostavam de aprender a duelar com dois grandes bruxos da história, e ainda poderem escutar algumas de suas aventuras da juventude. Obviamente a parte de mau comportamento e detenções eram bastante editadas, já que Minerva sempre lhes lançava um olhar de repreensão.

Harry e Rony já estavam na sala, esperando que os alunos entrassem. Seus filhos e sobrinhos ainda não haviam chegado. Provavelmente estavam esperando uns aos outros, terminarem o Café da manhã. Por sorte eles concordavam que era muito Weasley/Potter para administrar.

Não demorou para que as “crianças” da família começassem a aparecer. Lily, Hugo, Roxanne, Fred, Lucy, Dominique, Molly, Louis, Rose, Alvo e Luiza cruzaram a porta da sala e todos estampavam um grande sorriso no rosto.

- Papai! – Lily e Rose exclamaram juntas. As ruivas correram em direção aos seus respectivos pais e os abraçaram.

Sentado do lado oposto onde estavam os professores, Scorpius apenas admirou o sorriso iluminado de Rose e sua alegria ao rever a família.

- Como vocês estão? – Rony perguntou para os filhos e sobrinhos.

- Bem! – eles responderam em uníssono.

- Que bom! Não aprontaram nada né? Da última vez que cismaram de sair da linha, Rose praticamente se mudou para ala hospitalar!

- Papai, estamos todos bem e se nenhum castigo. A coisa mais perigosa que aconteceu nas últimas semanas foi o ataque de fúria da Dominique por descobrir que seria a coruja de estimação da Victoire, mas agora ela já superou isso! – Rose explicou entre risos.

- Ei, eu ainda não superei isso ok?! Guardo minha fúria para descontar na futura noiva quando encontrá-la. Afinal de contas, se é pra atingir alguém, que sejam os responsáveis por tal evento! – Dominique disse séria, mas logo caiu na risada ao ver as expressões chocadas dos tios – Certo, não sou tão cruel assim!

- Na verdade, você é pior! Mas nós fingimos que não porque somos legais! – Fred bagunçou o cabelo da prima com a mão – Então, vamos começar a nos atacar ou precisamos esperar mais alguém?

- Vamos, claro! – Harry disse, se divertindo com a conversa – Rose e Alvo, por favor, vocês podem...

- Começar o duelo, e mostrar para todos como um casal deve resolver seus problemas? – Alvo completou a frase do pai – Claro, sem problemas! Venha moranguinho, eu preciso acabar com você hoje!

- Corta essa, meu bem! Acabo com você antes que consiga soletrar “Accio”.

Rose riu e caminhou com o primo para o centro da sala.

- É realmente lindo ver que o espírito competitivo não toma conta da nossa família! – Rony comentou com o cunhado, e juntos os dois caíram na risada.

~

A aula do Clube dos Duelos como sempre fora bastante proveitosa. Os alunos se divertiram como nunca, testando suas habilidades e descobrindo os pontos fracos de seus adversários. Quando Harry e Rony anunciaram o fim das atividades, um grande coral de “AHHHHHHHH” foi ouvido, e os dois riram, prometendo que depois do natal dariam um jeito de comparecerem mais vezes ao castelo.

Conforme os alunos iam se despedindo e saindo da sala, os filhos e sobrinhos aproveitaram para se aproximar novamente de Harry e Rony, que agora conversava com Neville e Minerva.

- ... As coisas estão realmente tensas. Mamãe e Fleur estão à beira do pânico por causa da chegada dos convidados! – Rony balançou a cabeça e riu do próprio comentário.

A palavra “convidados”, entretanto, chamara atenção de Rose para um fato.

- Papai? – ela chamou Rony educadamente.

- Só um minuto filha. – Rony disse e se voltou para os amigos – Então, como eu ia...

- Papai? – Rose puxou a beirada das vestes do pai.

- Rose, só um instante! Então Nevi...

- Papai? – Rose puxou novamente a roupa do pai, obrigando ele se virar.

- O que foi filha?

- Você estava falando dos convidados e... Bom, não era hoje que o vovô e a vovó iam chegar? – Rose deixou a cabeça tombar para o lado, encarando o pai, intrigada.

- Na verdade, eu... – Rony parou subitamente, com os olhos arregalados. Olhou para Harry e em seguida para a filha, que ainda mantinha sua expressão interrogativa e de repente entrou em pânico – Meu Merlin, Mione vai me matar! – ele disse de repente – Céus, meus sogros, no aerotorto me esperando, preciso ir. Sou um homem morto, Mione vai arrancar meu fígado com os dentes e em seguida fazer ensopado!

- É aeroporto pai! E mamãe não seria tão cruel assim! – Rose estava dividida entre a vontade de rir e de ajudar o pai.

- Até parece que não conhece sua mãe! – ele disse, e tratou de reunir suas coisas para ir embora. Harry, Neville, e todos os outros já riam abertamente da situação.

Rony se despediu de todos com muita pressa, puxou os dois filhos, tão forte, para um abraço, que os fizera bater um na cabeça do outro. Os soltou com um empurrão bem rápido, que Hugo caiu sentado no chão desequilibrado, e Rose foi salva por Alvo, que a segurou bem a tempo.

- Vejo vocês depois... Por Merlin, esquecer dos meus sogros é pior que suicídio! – e com essa frase Rony desapareceu pelos corredores, arrancou mais risadas de todos.


***



Enquanto algumas pessoas já se fartavam no Salão Principal, do lado de fora, duas amigas travavam uma discussão, que começou aparentemente “do nada”.

Lily e Alice há algum tempo, não andavam mais tão unidas. Depois da mudança de comportamento da castanha, Lily mal reconhecia a amiga e suas atitudes lhe incomodavam bastante. Sempre atrasada e esquecida. Alice realmente havia mudado, e pra pior.

- Eu realmente não acredito que você esqueceu de fazer a sua parte no trabalho. Alice, precisamos entregá-lo amanhã e ensaiar hoje nossa apresentação. E só podemos fazer isso se a sua parte estiver pronta. – Lily estava revoltada.

- Lily, nós vamos dar um jeito, ok?!

- Nós vamos? NÓS VAMOS? Por Merlin, você agora só tem essa desculpa no seu repertório? Alice, ultimamente você SEMPRE esquece as responsabilidades e diz a mesma coisa. Onde você anda com a cabeça?

- Ohhhhh, desculpe se não sou perfeita como você Lily! – Alice debochou. – Sabe, nem todos têm a mesma sorte em ser tão aplicada e responsável.

Lily balançou a cabeça negativamente. Aquela menina, debochada e irresponsável, não era sua melhor amiga. Podia ter o mesmo rosto, a mesma voz, mas definitivamente não era a Alice.

- Quer saber? Não se preocupe com o trabalho, eu vou fazer. – Lily disse por fim – Me encontre no salão comunal às 17h00min para ensaiarmos a apresentação. Sabe Alice, eu esperava mais de você. Desde que se separou do Alvo se tornou uma pessoa tão... Tão...

- Irresponsável? – Alice riu de forma seca – Obrigada pelo “elogio”!

- Não. Se fosse irresponsável, você ainda teria algum adjetivo. Mas você se tornou vazia. – Lily suspirou – Você se esqueceu de quem é, e se tornou essa pessoa estranha, indiferente.

- Brigue com seu irmão! Ele foi o responsável, por...

- Ele? Tem certeza? – agora foi a vez de Lily rir – Por favor, olhe pra você! Foi Alvo quem te disse pra ser irônica e sarcástica? Foi Alvo quem lhe obrigou a ser tão indiferente com os amigos? Não Alice. Não responsabilize meu irmão por algo que você mesma fez. Alvo não teve culpa de nada. Ele apenas sofre em silêncio pelo que você se transformou.

Alice gargalhou e encarou incrédula a amiga. Não podia acreditar que depois de tudo, Lily lhe culpava pelo que aconteceu.

- Seu irmão sofre em silêncio? Por favor, Alvo está melhor do que todos dessa escola juntos.

- Sabe qual o seu problema Alice? Você só quer enxergar as coisas superficialmente. Alvo não está bem! Ele nunca esteve bem, desde que vocês terminaram, e você não deixou que ele se explicasse. Não estou dizendo que não tenha motivos para ter ficado chateada com ele, e sim que não lhe deu chances de dizer como se sentia. De lhe dizer o que realmente aconteceu. – Lily disse – Quando conversaram da última vez, você o olhou nos olhos? Quero dizer, encarou diretamente? Buscou entender a verdade, procurando no fundo daquela íris verde? Não. Você não fez. Porque se tivesse feito, saberia que meu irmão sofre por não estar com você e que trocaria tudo para ficar ao seu lado.

Alice engoliu em seco e abaixou a cabeça. Talvez Lily estivesse certa. Talvez ela estivesse sendo muito dura e muito burra a ponto de não enxergar uma verdade tão óbvia. Quando terminou com Alvo acreditou cegamente que ele havia lhe traído. Mas, se aquilo fosse realmente verdade, Alvo deveria ter voltado para sua antiga vida, coisa que ele não fez. E se ela estivesse errada? E se Alvo realmente a amasse e ela perdesse seu amor para sempre?

- Lily, isso é verdade? – Alice perguntou, sem encarar a amiga.

- Qual parte da conversa?

- Ele... Ele sofre por... Ele sofre por mim?

- Sim. Todos os dias. E você não enxerga isso, porque está muito ocupada pensando em si mesma e nessa sua subvida vazia e sem objetivos! – Lily disse de forma dura, e saiu caminhando em direção ao Salão Principal.

Alice ficou para trás, perdida nos próprios pensamentos. De uma coisa ela tinha certeza: as coisas não poderiam continuar assim. Mas diante dos fatos só tinha duas saídas. A primeira era esquecer o passado e acreditar no amor de Alvo; a segunda era ignorar tudo e continuar vivendo da forma que estava. Sem amor, sem felicidade... Talvez Lily estivesse certa e ela estivesse realmente vazia.


***



Como a aula do Clube dos Duelos havia ocupado toda a manhã, depois do almoço os alunos foram dispensados de suas tarefas. Todos os professores concordaram que não havia mais matéria para ser dada e que a aula de Harry e Rony havia sido bastante instrutiva. Dessa forma, os alunos puderam passar a tarde fazendo os trabalhos que estavam pendentes, ou simplesmente jogando conversa fora nos jardins da escola.

Alvo Potter caminhava só, pelos terrenos próximos ao campo de Quadribol. Considerou várias vezes a possibilidade de buscar sua vassoura e voar um pouco para se distrair, e fazer o tempo passar. Desistiu da ideia todas as vezes. Nem mesmo a ideia de voar foi capaz de fazer com que seu ânimo melhorasse. Não acordara muito disposto a fazer coisas divertidas.

Alvo continuou caminhando, até que, por fim também se cansou disso. Sem muita vontade, se jogou não chão e deitou-se sobre a neve. O frio não lhe incomodou de imediato.

Colocou as mãos por trás da cabeça e encarou o céu por alguns instantes. Estava nublado, mas não de um jeito que indicava que iria chover. Provavelmente a noite seria de nevasca novamente.

Suspirou e fechou os olhos. A neve parecia ser a única capaz de entender o que estava se passando.

Durante os últimos meses, Alvo aprendeu a bloquear todo sentimento de dor e perda. Como ele costumava dizer, não havia deixado de sofrer com a separação de Alice. Apenas se acostumara com aquela dor que lhe rasgava os pulmões e lhe fazia perder o ar. Não havia nada para se fazer. Não havia motivos para lutar, ao que parecia, por uma causa perdida. A solução era apenas se conformar... Se conformar por estar só; se conformar por ter perdido o amor da sua vida; se conformar por jamais conseguir esquecer...

- Potter? – uma voz baixa e melodiosa quebrou o silêncio.

Alvo abriu os olhos e encarou levemente surpreso, a pessoa que havia lhe chamado. Alice não costumava lhe dirigir a palavra.

- Sim? – ele respondeu.

- Você está bem? – sem esperar convite Alice se sentou ao lado de Alvo, que ainda permanecia deitado.

- Não tenho resposta pra sua pergunta. Deixe-me pensar por alguns instantes, e logo chego a uma conclusão. – Alvo respondeu divertido e se sentou também. – Aconteceu alguma coisa?

- Não, por quê?

- Simples. Você não costuma falar comigo, então achei que tivesse acontecido algo que justificasse tal milagre. – ele riu sem vontade.

Alice abaixou a cabeça e respirou fundo algumas vezes. Não podia se zangar com a insinuação de Alvo, pois ele estava certo. Desde que terminaram, foram pouquíssimas vezes que trocaram alguma palavra. Uma das vezes ela estava bêbada e disse coisas que não queria. Nas outras, ela simplesmente lhe dirigiu a palavra para dizer “com licença”.

- É que eu estava andando e te vi aqui jogado no chão... Fiquei preo...

- Se disser que ficou preocupada, vou achar que é o apocalipse! – Alvo brincou e ao ver Alice corar, riu – Tô brincando.

- Por que não está junto com os outros? – ela tentou mudar o assunto.

- Eu deveria fazer essa mesma pergunta a você! – Alvo desconversou. Não contaria que o motivo de ter se afastado fora um desânimo repentino, causado pela falta que sentia de Alice. Seria constrangedor demais. – Desde quando você fica tão curiosa para saber as coisas que eu faço?

- Desde sempre. – ela respondeu distraída, e logo se arrependeu ao se dar conta do que havia falado. – Quero dizer...

- Não precisa se explicar. Não vou cobrar nada. – Alvo deu de ombros.

Houve alguns minutos de silêncio. Os dois não se encararam. Apenas olharam pra frente, pro nada.

- Está com frio? – Alvo perguntou, quando viu Alice tremer, graças a uma brisa gélida que soprara.

- Um pouco. – ela admitiu.

- Talvez devesse voltar pro castelo. Lá é quente e seco.

- Mas não tem você! – Alice disparou e no mesmo instante se viu perdida dentro dos olhos verdes esmeralda de Alvo, que agora lhe encaravam profundamente.

- Achei que gostasse da idéia de um lugar em que eu não estivesse. – Alvo disse, sem desviar o olhar do rosto da menina.

Alice abaixou a cabeça, dividida entre a vontade de dizer tudo que sentia e a de aparentar que já não sentia nada. Optou pela primeira.

- Eu não consigo imaginar um universo em que você não exista. – admitiu – Na verdade, você sempre está presente em toda e qualquer imaginação de lugar perfeito.

- Alice, isso é algum tipo de brincadeira? Porque se essa é a ideia que tem de diversão, preciso lhe informar é quem bem cruel e estranha.

- Por que você acha que estou brincando?

Novamente, Alvo riu sem vontade.

- Deixe-me ver. Você nunca me deixou explicar o que aconteceu naquele dia no treino de quadribol; disse e fez coisas que nunca imaginei ver você fazendo; tentou me colocar o mais distante possível da sua vida... E agora vem dizer que seu mundo perfeito me tem como um dos personagens principais? – ele balançou a cabeça – Isso só pode ser piada.

Desesperada para que Alvo lhe encarasse e visse que não estava mentindo, Alice se colocou de joelhos na neve, e segurou o rosto de Alvo entre as mãos.

- Me escute. Por favor. – ela disse num desespero incontrolável. Só ali, encarando Alvo de perto, conseguia ver através de seus olhos, todas as feridas que lhe causara – Eu sei que parece brincadeira e que parece mentira. Sei que errei Alvo, mas acredite em mim quando digo que você é, sempre foi, e sempre vai ser o único cara que eu amo. Estou arrependida, quero lhe explicar tudo. Eu...

Alvo segurou os braços de Alice e a puxou de encontro ao seu corpo. Antes mesmo que ela pudesse terminar o que estava dizendo, ele a beijou.

Amor, dor, sofrimento, saudade, desejo... Um misto de sentimentos era transmitido naquele beijo. Fazia tanto tempo que não se tocavam que chegava ser estranho perceberem que ainda tinham uma química perfeita. Que seus beijos ainda lhes causavam arrepios, e que suas vidas só pareciam completas quando estavam juntos.

Uma alma gritava por outra, desesperadamente, durante todos os dias, desde a separação. Finalmente os gritos foram escutados.

Alice se sentou no colo de Alvo, o abraçou com todas as forças que conseguiu reunir, e afundou seu rosto no ombro do moreno. Lágrimas de tristeza e culpa, começaram cair antes mesmo que pudesse impedir.

- Eu... Eu fui uma tola. Uma idiota. Alvo, eu não aguento mais! – a voz de Alice saia abafada pelo choro – Ver você e não estar com você. Ser quem eu não sou... Tudo pra que? Pra chamar sua atenção e te fazer sentir raiva. Mas eu não quero fazer você se machucar mais! Não quero! Eu não posso, porque eu te amo.

Alvo acariciou os longos cabelos castanhos da menina e apertou mais o abraço. Ali, tão frágil e inocente, ela voltara a ser sua Alice. A menina doce e gentil que ele conhecia. Incapaz de fazer mal as pessoas.

- Está tudo bem, Alice! Está tudo bem! – Alvo sussurrou no ouvido da menina.

Alice se afastou para encará-lo. Precisava ter certeza de que ele não a perdoaria apenas por seu comportamento desesperado.

- Alvo, você consegue entender se eu disser que tudo que eu fiz, foi uma maneira ridícula de te fazer olhar pra mim? Quando... Quando te vi com a Jude naquele vestiário, me senti um nada. Olhei pra ela e depois pra mim, a diferença era enorme. Todas as meninas com quem você saía eram lindas e charmosas, e quem eu era?

- Você é a menina perfeita! – Alvo respondeu a pergunta que deveria ser retórica – É aquela capaz de me fazer ficar a noite acordado, pensando se está dormindo ou não. É aquela que consegue iluminar meu dia só com um sorriso, com um olhar. É a menina inteligente, meiga e gentil, que faz de tudo para ajudar as pessoas. É a única menina capaz de fazer meu coração disparar quando eu menos espero e me fazer voar com um simples beijo. Alice, você é a menina perfeita pra mim.

Mais uma vez os olhos de Alice transbordaram em lágrimas. Gentilmente, Alvo as enxugou com o polegar.

- Eu não conseguia entender...

- Era só olhar em meus olhos Alice. – Alvo acariciou o rosto da jovem – Olhe agora, e me diga o que vê. Mas olhe com atenção, e me diga o que enxerga.

Sem entender bem, Alice fez o que lhe foi pedido. No início, apenas enxergou o verde. Aquele verde intenso e perfeito, que deixava qualquer um tonto se encarasse muito tempo. Até que finalmente ela viu, e abriu um enorme sorriso.

- Sou eu. – ela disse, encarando o próprio reflexo dentro dos olhos de Alvo.

- Sim. Você sempre esteve aqui Alice. Sempre foi a imagem refletida em meus olhos. A imagem perfeita e única da pessoa que eu amo.

- Você... Você consegue me perdoar?

- Alice, você foi perdoada antes mesmo de errar. – e dizendo isso, novamente se beijaram. Não precisavam perder mais tempo com palavras.


***



Os membros da Sonserina são conhecidos por serem frios, astutos, calculistas e muitas vezes sem coração. Alguns ousam dizer que todo bruxo Sonserino é mal, entretanto nem todo bruxo mal é Sonserino. Talvez o ditado seja confuso, mas sem dúvida é verdadeiro.

Todo Sonserino é conhecido por seu espírito competitivo e sua sede de vencer e demonstrar ser o melhor. Todo Sonserino tem uma fama cruel, que foi conquistada durante os séculos. Todo Sonserino é uma lenda.

Vincent Brandon Williams, Vincent Williams ou só Vincent, é um Sonserino. Entretanto, não se encaixa nos padrões de maldade e crueldade que sua casa carrega. Não. Vincent apresentava outras qualidades Sonserinas como ironia, sarcasmo, deboche e como um extra, sempre tivera o dom para o humor.

Se todo Sonserino é uma lenda, Vincent com certeza se tornara a lenda de sua casa naquela geração. Quem pode dizer que nunca ouviu uma piada do rapaz? Ou sua ironia tão bem desenvolvida, que às vezes as pessoas até acreditavam que estava falando sério? Quem nunca ouviu um dos apelidos que Vincent tinha mania de distribuir para as pessoas? Até mesmo Minerva McGonagall já rira de suas piadas e comentários impróprios fora de hora. Sem dúvida, nos sete anos que passara na escola, Vincent havia conquistado vaga no posto de “lendas vivas” de Hogwarts.

Entretanto algo naquela manhã de quarta feira havia mudado. Nenhuma risada foi ouvida ecoando pelo salão comunal da Sonserina. Nenhuma piada foi ouvida. Não houve comentários ou ironias. Embora as conversas estivessem presentes e alguns alunos se esforçassem para serem engraçados, faltava algo naqueles corredores. Faltava algo durante a aula do Clube dos Duelos. Faltava alguém que não precisasse forçar a barra para parecer engraçado ou divertido. Faltava Vincent.

Desde a conversa que tivera com Sophie, pela manhã, Vincent não saíra do quarto. Ninguém se atrevia a chamá-lo e saber como estava. O silêncio do moreno era um aviso claro de que quem tentasse conversar com ele, arcaria com as conseqüências.

Já havia passado da hora do almoço, quando finalmente decidira sair de seu refúgio e encarar a multidão. Tinha consciência de que se esconder e passar o dia trancado não resolveria sua situação.

Vincent caminhou pelos corredores. As pessoas que passavam por ele não passavam de borrões. Ele não enxergava mais quem estava ou não a sua frente. Faltava cor, faltava forma, e Vincent tinha consciência de que isso não era um problema de visão. Era ele e sua vontade de desaparecer que deixavam tudo informe, desconexo, sem vida.

Somente quando seus pés tocaram a neve e a barra de sua calça ficou úmida, que Vincent se deu conta de que já estava nos jardins do colégio. Deu de ombros. Desde quando aquele grande terreno coberto de neve tornara-se tão ridículo? Por que alguns alunos insistiam em se deitar no chão e fazer anjos de neve? Será que eles não sabiam que aquele desenho desaparecia rapidamente? Idiota era quem pensava que um terreno comum pudesse trazer diversão a alguém.

Vincent caminhou sem rumo para longe daquele aglomerado de pessoas que achavam tudo muito divertido. Por que aqueles sorrisos? Todos tinham mesmo que achar tanta graça nas coisas?

Vincent só parou de andar quando decidiu que estava bem afastado das pessoas. Sentou-se de qualquer jeito na neve, dobrou as pernas e encostou a própria cabeça no joelho. Uma vontade de gritar e mandar todos para o inferno se apossara dele com tamanha violência, que Vincent sentia-se incapaz de conviver em paz com os amigos novamente. Queria ficar só e apagar aquele dia da lembrança.

- Vincent, finalmente te encontrei! – disse Paola de forma animada, e correu na direção do moreno. – Onde você esteve?

Vincent, sem nenhuma vontade, levantou a cabeça e encarou a menina, que lhe sorria. Sentiu vontade de lhe lançar um crucio só para ver aquele sorriso desaparecer.

- Você está bem? Parece-me tão estranho! – ela sorriu e se sentou ao lado de Vincent – Não apareceu na hora do almoço, fiquei preocupada...

- É mesmo?

- Sim. Ia perguntar a um de seus amigos seu paradeiro, mas resolvi deixar pra lá e procurar por você sozinha. – ela sorriu mais uma vez. Qualquer pessoa menos cara de pau e com amor a vida teria corrido, diante o olhar mortal de Vincent.

- Bom pra você e ruim pra mim! – Vincent se pôs de pé.

Paola, no mesmo instante, também se colocou de pé e segurou Vincent pelo casaco, na tentativa de impedir que ele saísse dali.

- O que está acontecendo? – ela se fez de inocente – Eu achei que...

- Achou que depois de ontem, coisa que sinceramente ainda tento entender, eu iria ficar com você? – Vincent gargalhou sombriamente e se virou pra ela – Você não tem tanta sorte assim, menina!

- Você não pode dizer essas coisas depois do que me disse ontem! – alguma coisa no olhar de Vincent fez com que Paola recuasse, dando pequenos passos pra trás. Finalmente pareceu ter notado o estado em que ele se encontrava.

Vincent deu um sorriso de lado, ironizando toda aquela cena.

- Eu posso dizer o que eu quiser, sabia?! País livre, liberdade de expressão, enfim, direitos que todos temos, e caso não conheça nenhum, aconselho a perguntar alguém o que significa. – Vincent deu um passo ameaçador para frente. Isso fez com que Paola recuasse ainda mais e se encostasse em uma árvore. Sorriu mais uma vez. Aproveitaria aquela situação para esclarecer algumas coisas e ainda descontar toda sua raiva em alguém – Me diga, Gusmand, o que te faz pensar que alguém como eu, possa me interessar por uma pessoa como você?

Paola engoliu em seco. Nunca havia visto Vincent de um jeito capaz de assustar qualquer pessoa. Com um olhar furioso, palavras frias e cortantes. Pensou seriamente em gritar para que alguém viesse a seu socorro. Vincent estava a assustando como ninguém nunca havia feito.

- Eu... Eu...

- Eu... Eu... – Vincent imitou a voz amedrontada da menina – Ah, qual é, não vai dizer que está com medo de mim né? – ele se aproximou mais da garota, e encostou suas mãos no tronco da árvore, uma de cada lado da Paola, prendendo-a no local – Responda minha pergunta! – exigiu.

- Você está me assustando!

- Que bom! – ele sorriu de novo.

- Você ontem disse... Disse...

- Eu sei o que disse ontem, Gusmand! Não sou um retardado. – disse Vincent de forma seca – Quero saber o que te faz pensar que tudo aquilo é verdade?

- Você me beijou!

- Ok, naquele momento eu estava sendo um retardado.

Os dois se encararam. O contraste das feições seria cômico se a situação não fosse séria. O olhar de Vincent faiscava de puro ódio, enquanto o de Paola demonstrava todo seu desespero.

- Me deixa sair daqui. – ela praticamente implorou.

- Não! – Vincent disse numa voz arrastada – Não antes de te dizer umas coisinhas. A primeira delas é que não consigo entender muito bem o que me deu para que agisse daquela forma ontem. Tenho minhas suspeitas, e algo me diz que você está por trás disso, mas como não tenho provas, não vou lhe acusar... Pelo menos ainda.

Paola engoliu em seco mais uma vez. Nunca sentira tanto medo de alguém como sentia de Vincent naquele instante.

De longe, uma terceira pessoa acompanhava a cena boquiaberta. Sophie estava vendo demais, ou aquele era realmente Vincent praticamente em cima da Paola? Não, ela não estava vendo demais. Reconheceria Vincent em qualquer lugar.

Sophie balançou a cabeça entristecida. No final das contas, ele estava apenas tentando não fazê-la sofrer tanto, naquela manhã.

Sem deixar que a vissem, Sophie voltou para o castelo. Não aguentaria ver mais um beijo deles.

- A segunda delas é que nunca, nem nos seus sonhos mais desvairados, conseguiria ter algo comigo. E o motivo é simples! Gosto de pessoas com conteúdo, coisa que não tem. Não é preciso conviver com você para saber que só pensa em si e provavelmente só se preocupa se sua faixa de cabelo vai combinar com a próxima roupa que vai vestir.

- Eu...

- Cale a boca, ainda não terminei! – ele ordenou – A terceira delas, embora eu ache que não seja tão estúpida a ponto de não ter percebido isso, é que eu não te amo, nunca te amei e nunca vou te amar. E sabe por quê? Porque meu mundo se resume a uma única pessoa, e esta se chama Sophie Charlotte Horowitz, ou simplesmente Sophie. Pra você Srta. Horowitz, é claro. Eu a amo, e não importa quanto tempo nós fiquemos afastados, sempre vou amar. Minha vida nunca terá espaço para outra mulher, então se em algum momento passou pela sua cabeça vazia que eu poderia ficar com você, esqueça!

Apesar de não sentir nada por Vincent – pelo menos ela achava que não sentia. Apesar de não se importar com o que acontece em sua vida. As palavras dele fizeram com que Paola chorasse. Nunca ninguém havia lhe dito tantas palavras duras ao mesmo tempo. Nunca ninguém fora tão cruel a ponto de lhe dizer tais coisas.

- Como pode dizer essas coisas? Como pode ser tão frio? Tenho sentimentos, sabia? – perguntou Paola, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

- E quem lhe disse que eu ligo?

- Está sendo cruel!

- É claro que estou! – ele se afastou da jovem o suficiente para apontar para o símbolo de sua casa bordado em sua capa – Sou um sonserino, lembra? – dizendo isso, Vincent lançou um último olhar de desdém para a menina e saiu. Se ficasse um segundo a mais tendo aquela conversa, terminaria não respondendo pelos seus atos.

Paola caiu sentada no chão, abaixou a cabeça e chorou. Sentia-se tão humilhada e pequena, que julgava ser impossível encarar alguém naquele estado. Por algum motivo as palavras de Vincent a feriram. Ela só não sabia qual motivo era esse.

Maris, que caminhava distraidamente, ao ver a amiga caída no chão, visivelmente desesperada, deu de ombros. “Ninguém merece esses ataques!”, ela pensou e se virou para sair. A última coisa que queria naquele momento era ouvir as lamentações da menina.


***



Alice estava no quarto de Alvo, terminando o trabalho que deveria ter feito e entregue a Lily naquela manhã. O moreno já havia feito aquela mesma apresentação de História da Magia quando estava no 5º ano, e se propôs ajudá-la.

Enquanto trabalhavam, conversavam sobre coisas bobas e faziam algumas pausas bem longas para beijos e novas juras de amor. Quem os visse, nunca diria que haviam passado tanto tempo separados.

- Não acredito que ainda faltam 15 cm! – Alice reclamou, enquanto media o pergaminho com a fita métrica – Meus dedos estão doendo!

Alvo riu, segurou a mão dela e beijou carinhosamente.

- Isso é para senhorita aprender que não se deve deixar tudo pra última hora. – ele advertiu e tocou a ponta do nariz dela com o dedo indicador.

- Você diz isso porque tem a Rose como ajuda! – ela acusou.

- Sim! E adoro me gabar por tal fato! – ele riu e se levantou da cadeira – Escreva ou não vai terminar a tempo!

Alvo se afastou e foi se sentar em uma poltrona, que ele mesmo havia conjurado, em frente à lareira. Alice até pensou em questionar, mas não o fez. Alvo estava certo. Se ficasse reclamando não terminaria aquele trabalho tão cedo.

Algum tempo se passou, e o único barulho que se ouviu foi o crepitar das chamas na lareira e a pena de Alice se mover no pergaminho.

- Terminei! – ela disse finalmente e levantou as mãos para o alto, em sinal de comemoração.

- Que bom! Traga aqui para eu conferir. – Alvo estava se divertindo com a animação da namorada.

Alice enrolou o pergaminho e foi até onde Alvo estava. Sentou-se no braço da poltrona, e entregou o trabalho para que ele revisasse.

Os olhos de Alvo percorreram todo trabalho de forma avaliativa. Aparentemente, ela não deixara nenhum detalhe para trás, e sintetizara muito bem todo o assunto.

- Muito bom! – Alvo disse – Claro que se você tivesse feito com antecedência...

- Ahhhhhhh nem vem! – Alice protestou, puxando o pergaminho das mãos do moreno e enrolando com cuidado – Não quero ouvir outro sermão!

- E quer fazer o que, posso saber?

- Claro que sim! – Alice jogou o trabalho no chão, ao lado da poltrona, e segurou o rosto de Alvo com uma das mãos. Lentamente, roçou seus lábios no do moreno e em seguida o beijou.

Não demorou para que Alvo puxasse Alice do braço do sofá e a colocasse em seu colo. Os dois passaram tempo longe demais para se preocupar em serem cautelosos com suas ações.

Alice só se deu conta do quanto sentia falta de Alvo, quando sentiu novamente seus lábios sobre os seus; quando sentiu os braços dele lhe apertarem contra seu corpo e o perfume dele invadir suas narinas, fazendo-a delirar.

Enquanto o beijava, as mãos de Alice percorriam toda extensão dos braços de Alvo, que graças ao ambiente aquecido, não estava de casaco. Era impressão dela ou ele ficara mais forte nos últimos meses?

O beijo se tornava mais intenso e profundo a cada segundo. Alice e Alvo pareciam estar unidos por aquele beijo. A castanha sentia as mãos de Alvo apertar sua cintura e a puxar mais para perto de si, e aquilo a fazia perder o controle.

Enquanto Alvo ocupava-se beijando o pescoço de Alice, ela não resistiu a tentação de saber se seu corpo todo era tão forte quanto seus braços, e antes que pudesse perceber, suas mãos já estavam dentro da camisa do moreno, passeado por suas costas e voltando em direção ao abdômen – que ela constatou ser bem atlético.

De repente um novo desejo tomou conta de Alice. Ela mesma se surpreendeu com aquela sensação. Sua mente por alguns segundos visualizou a cena em que ela e Alvo estariam juntos e...

Antes mesmo que pudesse completar a cena em sua mente, sentiu Alvo afastá-la gentilmente e em seguida segurar suas mãos que insistiam em tentar tirar a camisa do moreno.

- O que... – ela o encarou, completamente confusa – Aconteceu algo?

- Não. – Alvo respondeu sorrindo.

- Então por que...?

- Alice, eu estou apenas tentando separar o que quero nesse momento, do que é bom para você!

- Você já se perguntou se o que quer, não é o mesmo que eu quero? – Alice se aproximou de novo, parando a centímetros do rosto de Alvo.

- Você só tem 15 anos. – Alvo revirou os olhos.

- Faço 16 no próximo dia trinta! – ela insistiu como uma criança teimosa. Alvo riu.

- Ok, Senhorita “serei mais velha em breve”, quando fizer 16, nós podemos conversar sobre isso! – Alvo a beijou no rosto.

- E que diferença faz? Por Merlin, é só um número! – Alice disse irritada. Isso fez Alvo rir ainda mais.

- Você não está preparada! – ele deu de ombros.

- Como você pode ter tanta certeza? – ela protestou novamente.

- Tem razão... – uma das mãos de Alvo subiu pelas costas de Alice lentamente, e parou em sua nuca. Ela estremeceu – Como é que posso ter tanta certeza, não é? – ele entrelaçou os dedos no cabelo da menina e puxou para trás devagar, fazendo-a inclinar a cabeça – Como eu vou saber? – Alvo deu uma leve mordida no lábio inferior de Alice, mas ao invés de beijá-lo, ele desceu com os lábios em direção ao queixo e depois ao pescoço, intercalando os beijos com pequenas mordidas. Aproveitando o fato de que quando entrou no quarto, Alice retirou a capa e o casaco e ficou apenas de camiseta, Alvo ergueu uma das mãos, abaixou a alça da blusa e começou a beijar o ombro da jovem, enquanto acariciava o braço dela com as pontas dos dedos. – Eu realmente não tenho como adivinhar se está pronta... – Alvo sussurrou no ouvido de Alice, e ela estremeceu ainda mais. Ele se esforçou para prender uma risada.

- Nã... Não tem! – Alice respondeu com a voz falha. Desejava ter aceitado a sugestão dele de esperar. Agora percebia que realmente não estava pronta.

- É, não tenho... – Alvo retomou sua série de beijos provocantes, indo dessa vez, em direção ao colo de Alice. Levou sua mão livre para a outra alça da blusa da menina, e parou ali, fazendo menção em abaixá-la – Você tem certeza que está pronta? – Alvo encarou a namorada.

Alice engoliu em seco.

- Aha... Aham! – ela gaguejou e foi a única coisa que conseguiu responder.

- Eu posso abaixar sua blusa, voltar a te beijar e depois nós podemos terminar o que começamos ali na minha cama, sem nenhum problema? – Alvo insistiu, enquanto uma de suas mãos acariciava a cintura de Alice por baixo de sua blusa. Ela apenas balançou a cabeça. – Então está certo! Se você tem tanta certeza assim. – ele encarou a menina de forma significativa. Fez menção de tirar sua blusa, e ao ver que Alice fechou os olhos e estremeceu, apenas aproximou seu rosto do dela e lhe beijou carinhosamente. – Achou mesmo que eu ia ceder tão fácil? – ele perguntou divertido, quando se separaram.

- Bom... eu...

- Alice, por Merlin! Eu te amo! Nunca iria fazer algo com você se não tivesse 100% de certeza de que estivesse preparada. – ele acariciou o rosto de Alice – Agora vá atrás de Lily entregar o trabalho e ensaiar a apresentação.

- Mas...

- Amor, nós vamos ter todo tempo do mundo! Não precisa se apressar ok?! Eu posso esperar o quanto for preciso, e quando tiver certeza que está mesmo preparada, teremos nosso momento! – Alvo sorriu.

- E isso vai acontecer quando eu tiver 16 anos, acertei?

- É bem provável! Mas se quiser esperar até os 17, eu prometo fazer um esforço. Mas, mais que isso não aguento então, por favor, não abuse de mim desse jeito! – ele brincou e os dois riram.

- Eu deveria ser cruel com você e te fazer esperar até os 30! – ela disse e se levantou do colo de Alvo, em busca de seu trabalho.

Alvo sorriu e se levantou também, parando em frente a menina.

- Por você, amor, eu espero até os 100! – ele disse carinhosamente – Obviamente depois você vai arcar com as consequências, mas prometo esperar!

- Ok, acho que essa é a hora que eu saio, fingindo que entendi completamente o assunto e que depois te dou uma resposta!

- É, acho que sim! – Alvo riu – Vejo você no jantar.

Alice deu um rápido beijo em Alvo.

- Até mais tarde então! – ela colocou o casaco e a capa, e saiu do quarto.

Alvo balançou a cabeça e riu. Sem dúvida aquele era o melhor dia de sua vida.

- Ok, agora eu acho que preciso de um banho frio!


***



A hora passou depressa, e todos os alunos se encontravam desfrutando os maravilhosos pratos que eram servidos durante o jantar.

Aquele dia havia sido bastante conturbado. Várias fofocas eram ouvidas em todos os cantos. A volta de Alvo e Alice; o término de Vincent e Sophie; a suposta trégua entre Rose e Scorpius... Todos pareciam perdidos em meio a tantas novidades.

No Salão Comunal da Sonserina, algumas pessoas se encontravam sentados no chão, comendo sanduíches e bebendo cerveja amanteigada. Chad havia ido com Michael até a cozinha da escola, e como sempre, os elfos ficaram muito felizes em servi-los.

Os amigos conversavam animadamente, até que viram Vincent aparecer. Não sabiam se deviam falar com ele ou continuar agindo naturalmente. Ficaram parados, encarando uns aos outros, até que a voz de Vincent ecoou pelo local.

- Não precisam agir assim! Ninguém morreu aqui. – Vincent revirou os olhos e se sentou em uma poltrona, afastado dos demais.

- Qual é cara?! Você não pode ficar nesse desânimo! Precisa reagir, precisa voltar a ver graça nas coisas! – Chad tentou animá-lo. Naquele exato momento, Sophie entrou no Salão Comunal.

- Que graça Chad? – Vincent perguntou, enquanto encarava Sophie. A loira sustentava seu olhar de maneira firme – Não há mais graça em nada! – dizendo isso, ele se levantou e voltou para seu quarto.

Sophie apenas respirou fundo e também foi em direção ao seu aposento.

Michael, Chad e companhia apenas se encararam. Definitivamente aquele final de ano não seria um dos mais alegres.





***



Bom dia, caros alunos de Hogwarts!

Finalmente férias! As tão sonhadas e desejadas férias de dezembro, que nos remetem as festas de fim de ano e nos fazem lembrar as saborosas comidas e trocas de presentes. E é como amiga de vocês que lhes aconselho a não comerem demais e a deixar de serem pão duros e comprarem presentes decentes para seus amigos e parentes chatos que só aparecem para contar piadas sem graças e se fartarem com as rabanadas.

Com o final dessa temporada, eu deveria fazer um balanço geral dos acontecimentos mais bombásticos dos últimos meses. Mas convenhamos que vocês já estão carecas de saber da amizade, separação, briga, inimizade, amizade de novo, rolo, ódio, amor reprimido, inimizade e amizade de Rose e Scorpius; já estão de saco cheio de comentar sobre a volta de Alvo e Alice; e com certeza já gastaram muita saliva falando sobre a separação de Vincent e Sophie. Então vamos pular essa parte.

É triste – para vocês e não para mim, é claro – a despedida, eu sei. Mas animem-se queridos. Hoje nós voltaremos para casa e é como dizem “não há lugar como nosso lar!”

Preciso encerrar esse texto. Não posso perder o trem, não é?!

Até a volta! Não se esqueçam que mesmo de longe, estarei de “olho” em vocês.

XoXo,

Garota Misteriosa.





***







A estação de King’s Cross estava lotada de pais e parentes, todos extremamente ansiosos pela chegada do trem. Alguns conversavam animados e outros simplesmente andavam de um lado para o outro, consultando o relógio a cada cinco segundos.

Duda Dursley, sem dúvida, era o mais impaciente de todos.

- Pelas calças do Barney! O trem está atrasado! – ele disse, caminhando até próximo aos trilhos e voltando – Será que ele quebrou? Será que precisaremos esperar até que algum técnico vá lá consertá-lo? POR FAVOR, DIGAM ALGUMA COISA!

Draco, que estava junto com a família Potter/Weasley, revirou os olhos diante a tal desespero. Como o primo de Harry conseguia ser tão exagerado?

- Em primeiro lugar, o Expresso nunca se atrasa! – disse Draco pausadamente – Em segundo lugar, se formos chamar um técnico, será para corrigir os defeitos do seu cérebro. – Draco ignorou o cutucão que a esposa deu em sua costela – E em terceiro lugar, é MERLIN! Quantas vezes teremos que lhe dizer isso? Precisa que soletre ou sua intenção é realmente fazer diversas variações do nome do maior mago do mundo? Pelas minhas contas já temos cinco nomes na lista.

- Por favor, Draco! Não seja tão duro! – Astoria brigou com o marido – É normal se desesperar na primeira vez!

- Ast, por favor, essa não é a primeira vez! Já se esqueceu em setembro de quando ele quase se jogou nos trilhos e correu atrás do Expresso? – Draco acusou – Alguém precisa abrir os olhos desse homem, e pelo visto o único a ter coragem pra isso sou eu.

Duda fungou, e sua esposa Melanie, o abraçou, tentando controlar a enorme vontade de rir. Não que ela concordasse com o fato do marido receber broncas, mas toda aquela situação era realmente hilária.

- Amor, Luiza estará aqui em breve. – Melanie acariciou o rosto de Duda.

- Pra ser mais exato em 5 minutos! – Harry anunciou, consultando o relógio e logo se arrependeu.

Duda dera um salto tão grande, que qualquer um poderia jurar que havia levado uma mordida de um cachorro no traseiro.

- Está com o presente que compramos para Luiza? E os que papai e mamãe mandaram? Precisamos mostrar que não esquecemos dela! – Duda falava depressa.

- Está tudo aqui amor! – Melanie levantou uma sacola cheia de embrulhos.

- Certo. Deixe-me segurar a caixa da boneca.

- Eu não trouxe a boneca amor! – Melanie disse, e também logo se arrependeu. Os olhos de Duda pareciam dispostos a saltar de seu rosto.

- VOCÊ NÃO TROUXE A BONECA? Mas era um lançamento, ela iria gostar de ganhar e fazer inveja as outras crianças!

- Ô trouxa, é importante ressaltar que estamos em meio a pessoas bruxas, e se sua filha quiser causar inveja a crianças da idade dela, precisa ter no mínimo, uma vassoura recém lançada!

- Por Merlin, por que não me avisaram antes?

- E agora ele decide acertar o nome... – Rony comentou baixinho, arrancando risadinhas dos demais.

- Eu teria comprado uma vassoura novinha pra ela no mercado, e você poderia enfeitiçar! – Duda lançou um olhar acusador para esposa.

- HARRY, por favor, controle seu primo e explique a ele que as coisas no nosso mundo não funcionam dessa forma, antes que eu perca a minha pouca paciência e transforme-o em um porco! – Draco ameaçou.

- Boa idéia, Draco! Hagrid colocou um rabinho nele quando tínhamos 11 anos. Quem sabe agora você possa terminar a transformação! – Rony entrou na brincadeira.

Duda se preparou para responder, mas foi interrompido por Gina e Hermione, que olharam para longe e exclamaram juntas: - Lá vem o trem!

Nem um feitiço seguraria Duda. O primo gordo e loiro de Harry começou a caminhar impaciente, a dar pequenos saltos, a se atrapalhar com as tantas caixas de presente que comprara para filha, enquanto o trem fazia a curva e ia perdendo a velocidade conforme se aproximava da estação.

Quando finalmente o trem parou, Duda agarrou todas as caixas de presente e começou a caminhar em direção a porta. Ainda ouviu Jorge alertá-lo com a frase “se eu fosse você, não faria isso!”, mas não deu ouvidos. Se arrependeu profundamente, quando foi engolido por uma multidão que surgira do nada, e praticamente passava por cima dele, em direção ao trem.

Todos os presentes se espalharam pelo chão. Várias pessoas pisaram no seu pé, e alguma criança sem educação, fez questão de limpar a mão suja de chocolate em seu suéter branco. Muito mal humorado, Duda recolheu os pacotes e voltou para onde a família Potter, Weasley e Malfoy, se encontrava, e agora riam abertamente da cena.

- Sabe primo, eu adoraria fingir que estou realmente sentido por toda essa situação, mas não dá! – Harry se curvou de tanto rir – Precisava ver sua cara!

- Todos os pacotes voando pelos ares foi realmente engraçado! – Rony acompanhou o amigo nas gargalhadas.

Duda ia responder aos dois, mas ao ver a cara de sua esposa, contorcida em uma careta, obviamente se controlando para não cair na gargalhada, ele falou:
- Pode rir também, Mel! Não precisa fazer essa cara de quem está com dor de barriga só para me apoiar!

No mesmo instante, Melanie caiu na risada, sendo acompanhada por todos. Duda até tentou permanecer sério, mas diante de tantas gargalhadas, acabou cedendo e riu também.

- Lição número 1, meu amigo: NUNCA corra até o trem! Deixe que seus filhos venham até você! – Gui deu palmadinhas amigas no ombro de Duda.

- Vou me lembrar! – ele concordou.

Pouco tempo depois, do meio daquela multidão, emergiram várias cabeças contentes, que corriam em direção a onde a família Weasley, Potter, Malfoy e Dursley se encontrava.

Rapidamente todos se viram em meio a troca de abraços – alguns que faziam as costelas das crianças lutarem para permanecerem inteiras – e beijos. Todos estavam muito felizes com a volta dos filhos para casa.

- Onde estão o vovô e a vovó Granger? – Rose perguntou, assim que conseguiu se soltar do abraço do pai e respirar novamente.

- N’A Toca, junto com Molly e Arthur. – Hermione respondeu – Eles preferiram esperar vocês lá, e nós concordamos. Toda essa confusão teria deixado os dois de cabelo em pé.

- Ou teria feito eles perderem o ar de tanto rir. Filha, você precisava ver o Du...

- Ronald! – Hermione exclamou, e o marido logo encolheu os ombros – É melhor voltarmos logo para A Toca, ou Molly entrará em pânico!

- É verdade! Mamãe nos fez prometer não demorar! – Gina falou, passando os braços por cima do ombro da filha.

- Certo! Crianças... – Harry começou a dizer, mas ao ver o olhar dos filhos e sobrinhos o repreendendo, logo corrigiu – Tá legal, nem tão crianças assim! Vamos colocar os malões nos carrinhos e fazer fila para atravessar a barreira.

- Luiza, você vai adorar a casa da vovó! – Louis exclamou animado.

- Nós vamos também papai? – Luiza se virou e encarou o pai de forma esperançosa. Louis havia comentado tanto a respeito da casa de sua avó e em como cozinha bem, que se sentia extremamente curiosa em saber como eram as coisas por lá.

Duda e Melanie se entreolharam, e por fim, ela falou:
- Filha, nós combinamos com seus avós de almoçarmos com eles. Petúnia até levantou mais cedo para preparar sua sobremesa favorita.

- Ahhhh... – a expressão de Luiza murchou. – Então acho que não vou conhecer a casa da sua avó hoje, Louis!

Louis sorriu, encorajando a menina melhorar o ânimo e segurou sua mão.

- Não esquenta! Você ainda vai poder ir lá, antes de voltarmos para escola. – ele disse animado – Não é, Sr. e Sra. Dursley?

- É sim! Nós prometemos levá-la para uma visita! – Duda respondeu, tentando parecer animado, embora não estivesse gostando nada de ver Louis segurando a mão de sua pequena filha.

- Ótimo então! – Luiza se animou também – Te vejo em breve, Louis! – ela deu um beijo na bochecha do menino, e foi na direção da mãe, ajudá-la a carregar os pacotes de presente.

Louis levou um susto com a atitude da amiga, mas logo sorriu e correu em direção a sua mãe, que o chamava para se unir aos demais.



***




Não muito longe de onde a família Weasley, Potter e Malfoy estava reunida e se preparando para sair da estação, Maris, Paola e Krum, apareceram, também a procura de seus familiares. Diante de tanta confusão, eles preferiram esperar, para poder saírem sem correr o risco de serem pisoteados.

- Viram meu pai? – Paola se colocou na ponta dos pés, tentando enxergar mais a frente.

Maris lançou um olhar para as costas da amiga que mesclava pena e tristeza. Sabia que a procura pelo pai era algo inútil, mas decidiu não desanimá-la. Seria cruel demais fazer isso.

- Talvez ele esteja mais lá pra frente. – ela incentivou e os três continuaram abrindo caminho entre a multidão.

- Acho que vi meu pai! – Adam anunciou – Sem dúvida é ele! Bom meninas, vejo vocês na volta. Não me escrevam! – dizendo isso, o moreno sumiu na multidão, deixando as amigas para trás.

Maris e Paola se entreolharam e continuaram seu caminho. Não muito longe dali, Maris avistou seus pais, acompanhado de seu irmão mais novo.

- Veja, mamãe está acenando pra mim! – ela comentou com a amiga, acenando e sorrindo para família – Venha comigo, talvez você...

- Não! – Paola disse com a voz firme – Vá você, eu ainda preciso achar meu pai.

- Pah...

- É sério Maris! Vou ficar bem. Agora vá, antes que o sorriso de sua mãe congele no rosto! – disse Paola de forma divertida, e ao ver a amiga se afastar, continuou sua procura.

Não demorou muito para que Paola avistasse uma senhora um tanto gordinha, usando vestes trouxas de inverno e com um coque bem apertado perto da nuca. Era Georgina, uma empregada da família Gusmand, que se tornara uma segunda mãe para Paola, considerando que cuidou dela desde que nasceu.

Mas Georgina não estava só. Ao seu lado, uma linda jovem com idade entre 23 e 25 anos se encontrava parada, com um grande sorriso no rosto. Tinha aparência física muito semelhante a de Paola. Era sua irmã mais velha, Philippa.

- Pippa! – Paola exclamou e correu em direção a sua irmã, segurando sua gata firme entre os braços – Merlin, não sabia que você estava na cidade!

Philippa sorriu para irmã e a abraçou carinhosamente. Estava parada próxima a um grupo de rapazes, que de costas e no calor da emoção, Paola não reconheceu serem Vincent, Scorpius e Michael.

- Como você está, Mon Petit? – Philippa afastou a irmã para observá-la melhor.

- Bem, e você? – Paola sorriu para irmã e se colocou na ponta dos pés, a procura de mais alguém.

Isso não passou despercebido por Philippa.

- Ele não veio, não é? – perguntou Paola, antes mesmo que a irmã pudesse elogiar sua roupa ou falar sobre seu penteado, na tentativa de distraí-la.

Philippa encarou Georgina de forma significativa, e depois olhou para irmã.

- Não, não veio! – disse finalmente.

Poucos segundos antes de Paola assumir uma máscara de indiferença, sua expressão foi de dor. Era tolice da parte dela esperar que seu pai aparecesse.

- Ah, que grande novidade, ele não vir! Mas você pelo menos está aqui, o que significa que não sou tão esquecida! – Paola riu, sem nenhuma vontade – Ah, por favor, Georgina! Não faça essa expressão de piedade. – ela revirou os olhos. – Vamos aproveitar que ele não está aqui e sairmos para fazer compras!

Vincent, que até então tentava manter uma conversa com os amigos, se desligou completamente da conversa que os outros rapazes travavam e se virou para observar a reação de Paola. Ele estava ouvindo mal ou a menina havia mesmo convidado a senhora para fazer compras com ela? “Quanta superficialidade!”, ele pensou.

- Nós deveríamos voltar para casa! – Georgina tentou convencê-la, mas sem sucesso.

- Ah não! Vamos aproveitar que ao cruzar a barreira da estação estaremos em solo inteiramente trouxa, e vamos às compras. Você precisa de roupas trouxas novas, e eu também preciso de coisas novas. Precisamos comprar uma nova cama para Belle – ela levantou a gata – Agora quero lhe dar um bercinho real para dormir. Digno de uma princesa! Comprarei uma nova coleira e uma coroa também. E luvas, ahhhh preciso de novas luvas, porque as que eu tenho não vão combinar com todas as minhas roupas de inverno, e... – nesse instante, os olhos de Paola cruzaram com os de Vincent. Sentiu vontade de rir da expressão incrédula dele – E também preciso de faixas novas para o cabelo! Preciso garantir que terei uma que combine com a roupa que usarei amanhã.

Dizendo isso, Paola segurou o braço de Georgina, e a arrastou pela estação. Sua irmã, Philippa, havia ficado para trás, colocando as malas da caçula em um carrinho.

- Com tanta coisa que ela tem, precisa mesmo fazer compras? – Philippa resmungou próximo a Vincent.

- Desculpe, está falando comigo? – perguntou Vincent, um pouco confuso.

- Não, não! – Philippa sorriu – Estava pensando alto. Sou Gusmand, Philippa Gusmand e você é...?

- Williams, Vincent Williams, prazer! – Vincent estendeu a mão para cumprimentar. – Você deve ser a...

- Irmã da Paola! – ela sorriu – Você é amigo dela? – Philippa ergueu uma das sobrancelhas.

Scorpius e Michael apenas acompanhavam tudo, sem dizer uma palavra.

- Sim. Quero dizer, nós somos! – ele apontou para Michael e Scorpius, que ficaram sem reação – Sabe como é escola, união das casas, enfim...

- Estranho...

- Estranho o que? – Vincent quis saber.

- Paola não é do tipo de pessoas que faz amigos, sabe? Quero dizer, ela tem a Maris. As duas, apesar de se desentenderem às vezes, são amigas desde crianças. Mas essa é a primeira vez que escuto alguém dizer que é amigo dela.

Vincent deu de ombros.

- Acho que ela considera as compras suas melhores amigas, é por isso que não escuta muito ela falar...

Philippa estreitou os olhos, encarando os três meninos.

- Você tem certeza de que é amigo dela?

- Sim, por quê? – Vincent tentou parecer inocente.

- Porque se fosse amigo mesmo, saberia que Paola só age assim, porque nosso queridíssimo pai – ela fez uma expressão de desdém ao se referir à figura paterna – esquece que ela precisa de sua companhia e pede que se console gastando todo dinheiro possível.

- Bom, eu...

- Não deve julgar as pessoas pelo que vê, rapaz! Algumas coisas são mais complicadas do que parecem! – sem dizer mais nada Philippa empurrou o carrinho com as malas e foi em direção a Paola e Georgina, que já estava paradas em frente a barreira mágica que dava acesso ao mundo trouxa.

Vincent se virou para encarar os amigos. Parte dele agora compreendia – ou ele achava isso – o motivo de Paola ser sempre tão cheia de si e achar que pode brincar com o destino das pessoas. Mas nem diante disso, ele conseguia adquirir simpatia pela menina. Como todo bom sonserino, Vincent não se importaria tanto que ela sofresse, desde que não fizesse os demais sofrerem junto.




***




Quando finalmente todos, ou melhor, quase todos os Potter, Weasley e Malfoy estavam reunidos em frente à barreira, um a um começou atravessar.

Astoria, ao ver seu filho se aproximar, foi em sua direção e lhe deu um beijo no rosto.

- Já ia mesmo chamar você, meu pequeno! – ela disse, com um sorriso – Já se despediu de todos seus amiguinhos?

Rose que vinha um pouco mais atrás fez um barulho estranho com a garganta quando quis prender a risada, e tentou disfarçar dando uma grande e exagerada tossida.

Scorpius riu.

- Já mãe! A senhora não quer saber se minhas fraldas também estão boas ou precisam ser trocadas? – ele revirou os olhos.

- Não. Acho que suas fraldas estão em ordem. Mas se quiser, posso conferir aqui mesmo! – ela riu.

- Não, obrigado mãe!

Rindo, Astoria se afastou em direção a Draco, que combinava com os outros quem iria com quem nos três carros, com o interior magicamente ampliado, que se encontrava no estacionamento trouxa da estação de trem.

Rose aproveitando que Scorpius ficou para trás, se aproximou e sussurrou de forma que somente ele escutasse:
- E depois a “bebê” e “anãzinha” do papai aqui sou eu!

- Bom, pelo menos o “meu pequeno” é no sentido figurativo da palavra. O “anãzinha” no seu caso, é no sentido literal! – Scorpius alfinetou, e foi sua vez de prender uma risada.

Rose estreitou os olhos violentamente e empinou o queixo demonstrando superioridade.

- Pro seu governo, tenho uma altura bem normal para uma pessoa de 17 anos! – disse ela, levemente aborrecida.

- Ah claro. 1,65m é uma altura realmente normal! Quando procuramos você, nós olhamos para o chão, ao invés de olhar pra frente. – ele alfinetou mais uma vez, mas não fez questão de esconder a risada.

Irritada com a provocação, Rose deu um tapa no braço de Scorpius. Isso fez com que ele risse ainda mais.

- Pare de rir! – ela ordenou.

- Não! – a gargalhada de Scorpius ecoava por toda estação. Molly e Dominique até pararam pouco antes de atravessar a barreira, para ver o motivo de tanta graça.

- Pare de rir agora! – disse Rose, com as mãos na cintura e o ar mandão que todos conheciam bem.

Ainda rindo, Scorpius se aproximou dela e passou o braço por cima de seus ombros, puxando-a para perto de si. Com toda aquela brincadeira, ele havia esquecido temporariamente que ainda estava chateado.

- Ah qual é?! Ser anãzinha não é tão ruim assim! – disse ele, enquanto caminhava abraçado a ela em direção a família.

- Eu não vou comentar isso, Scorpius Hyperion Malfoy! – Rose disse, ainda emburrada.

- Certo, não comente. Eu gosto mesmo de ganhar as discussões! – ele provocou.

- Hey! – Rose deu outro tapa em Scorpius – Você não ganhou nada aqui.

- Claro que ganhei! Você não quer comentar!

- Crianças, deixem a agressão física para depois do almoço! Agora, se não se importam, atravessem logo a barreira ou Molly servirá nossos fígados no almoço! – Angelina disse, encarando a sobrinha e Scorpius.

Depois de se entreolharem e finalmente notarem em como estavam próximos, os dois coraram levemente e finalmente atravessaram a barreira.

Há coisas que nem mesmo as brigas são capazes de apagar da memória de Rose e Scorpius. E uma delas, sem dúvida, era a facilidade com que se relacionavam e faziam o mundo inteiro desaparecer, quando suas atenções estavam focadas apenas neles.


***



Poucos dias se passaram após o retorno de Hogwarts. Dias esses em que a casa de Molly e Arthur Weasley permaneceu completamente lotada, com a presença dos netos, que apesar de não serem mais tão crianças, conseguiam fazer uma bagunça enorme.

Embora todos estivessem curtindo as férias, havia um evento maior a se preocupar do que a festa de natal e de ano novo. O casamento de Victoire e Teddy seria no dia 24, e essa data estava mexendo com os nervosos de todos da família.

Conforme havia sido combinado, no dia 22, o jantar de ensaio foi marcado, para que ninguém errasse na hora da entrada, e muito menos a posição que deveria ficar no altar.

Vic, como sempre, estava à beira de um ataque de pânico. Repetiu sua entrada triunfal mais de dez vezes, fazendo com que as damas de honra (que não achavam nenhuma honra serem submetidas a tamanha “tortura”), tivessem crises nervosas.

Até Teddy, que era o noivo e só tinha o dever de ficar parado, esperando Victoire aparecer e caminhar quinze metros sobre um tapete vermelho foi vítima dos gritos e lágrimas de Vic.

“Está tudo errado... Meu casamento vai ser um fracasso e todos vão rir... DOMINIQUE PARE QUIETA... LOUIS EU VOU TE MATAR!... Não me chame de criança papai!... Eu estou horrível... EU QUASE QUEBREI UMA UNHA!” essas frases eram muito comuns serem ouvidas durante todo ensaio. Os convidados já nem se importavam tanto com as ofensas. A única coisa que queriam, era que aquilo acabasse logo e pudessem ir para A Toca, desfrutar do maravilhoso jantar preparado por Molly Weasley.

Até mesmo Vincent e Sophie, que não trocaram mais nem uma palavra desde a conversa que tiveram em Hogwarts, concordaram que para o bem de todos – e principalmente para preservarem suas integridades físicas e mentais – era melhor manter o clima de paz, e se tratarem como “amigos”. Tudo para não deixar Victoire mais nervosa.

Quando todos já estavam prestes a pirar e alguns decididos a deixar Teddy sem noiva (Dominique havia sugerido discretamente que alguém esganasse sua irmã com o próprio cachecol, e todos ficaram muito tentados a colocar esse plano em prática), Fleur, usando e abusando do seu francês (com o nervosismo, ela havia esquecido de falar em inglês para compreensão de todos), anunciou o fim do ensaio.

É claro que algumas pessoas ainda ficaram paradas, esperando mais alguma ordem, até que Gui fez a bondade de traduzir o que a esposa havia dito, corrigindo sua gafe, e fazendo a alegria de todos presentes no local.

Através de Chave de Portal, todos saíram da casa de Andrômeda Tonks e foram para A Toca. Molly, utilizando de seu talento para convencer as pessoas, (ou seja, colocando as mãos na cintura e encarando com uma expressão que não admitia contestação), conseguiu com que o jantar fosse servido em sua casa. Queria ter uma participação mais efetiva no casamento de sua primeira neta, e já que ela escolheu realizar o evento no jardim da casa da avó de Teddy, ao menos o jantar deveria acontecer em sua casa.

Aproveitando o fato de que todos estavam famintos e estressados demais, por conta do desgastante ensaio, Rose se aproximou de sua mãe e informou que não estava com fome e preferia fazer uma pequena caminhada para refrescar sua mente. Hermione pensou em contestar o pedido da filha, mas ao olhar em seus olhos, viu que Rose realmente precisava ficar sozinha. Todo aquele clima tenso de casamento, e todas as pessoas comentando sobre a união feliz e duradoura que Victoire e Teddy teriam, provavelmente haviam feito com que Rose se lembrasse de que não tinha mais um noivo com quem pudesse fazer planos malucos e se divertir com tal assunto.

Discretamente, a ruiva despistou os olhares dos demais, e saiu sem ser notada – ou assim ela pensava. Provavelmente se arrependeria por não comer nada, mas depois ela daria um jeito. A estradinha que dava acesso A Toca, como era de se esperar, estava coberta de neve, graças ao inverno rigoroso. Mas Rose não se importava com isso. Pelo contrário, estava bem melhor ali, naquela rua fria e deserta do que na casa de sua avó, com todas aquelas pessoas conversando animadas.

Rose virou à esquerda, no final da estrada, e começou a subir uma pequena colina. Sabia que ali não era um lugar perigoso, pois sempre que podia, escapava com seus primos para lá quando eram crianças. Ela subiu, sabendo perfeitamente seu destino. Queria se sentar recostada em uma árvore e observar o quintal d’A Toca lotado de pessoas. Foi só quando chegou próxima ao seu destino, que percebeu que estava sendo seguida.

- Você não devia ficar andando por aí sozinha! – a voz de Scorpius ecoou pelo local.

- E você não deveria estar me seguindo! – Rose disse e continuou seu caminho pela colina.

- Você não é a única a gostar de passeios noturnos, ok?! – Scorpius disse, e continuou seguindo a ruiva.

- E desde quando seus passeios noturnos são os mesmos que os meus? – Rose perguntou, enquanto empurrava um galho de árvore pro canto e caminhava mais pra frente.

- Desde quando você conhece esse lugar melhor que eu! A propósito, onde estamos indo? - Scorpius abaixou a cabeça para não bater num galho mais baixo e parou atrás de Rose – Tá, acho que devo mudar minha pergunta para: Já chegamos?

- Sim. A não ser que você esteja planejando ir a outro lugar! – ela se sentou e abraçou os próprios joelhos, olhando em direção à casa dos avós.

- Não. Eu fico por aqui também.

Scorpius, num movimento silencioso, se sentou ao lado da ruiva, mas ao invés de encarar o nada, ele encarou a jovem. Sua cabeça vagava por mil e uma lembranças – felizes e infelizes – mas por algum motivo, ficar ali parado, apenas observando Rose, o deixava mais tranqüilo. Era como se todos os acontecimentos do ano tivessem sido apagados e tudo de ruim não passasse de um pesadelo.

- Você nunca me trouxe aqui! – Scorpius observou, quebrando o silêncio que havia se instaurado.

- Fazia tempo que não vinha. – ela respondeu, sem desviar os olhos para encará-lo.

- Isso explica o fato deu não conhecer, então...

- Talvez...

Novamente fez-se um silêncio incômodo. Este durou mais do que o primeiro.

- Por que não quis ficar para o jantar? Sabe, o cheiro da comida está delicioso. – mais uma vez, Scorpius quebrou o silêncio, tentando estabelecer uma conversa amigável.

- Não estou com fome! – ela deu de ombros, e finalmente se virou para encará-lo.

- Uau, deve ser a única então. Todo mundo lá embaixo ta se matando por um pedaço da famosa torta de maçã da sua avó.

- Nem todo mundo. – ela observou – Você também está aqui.

- É... Eu estou aqui... – Scorpius desviou o olhar – Eu sempre vou estar aqui. – ele completou em voz baixa.

- Por que Scorpius? – Rose perguntou de repente, fazendo com que Scorpius voltasse a encará-la – Por que chegamos a esse ponto? Por que é tudo tão difícil? Por que não podemos...

- Não podemos...?

- Esquece! – Rose se pôs de pé rapidamente, pronta para sair.

Scorpius também se pôs de pé e a impediu de sair, parando bem atrás dela, e a segurando pela cintura.

- Por que não podemos o que? – ele perguntou em voz baixa.

Rose respirou fundo. Aquela proximidade toda deixava as coisas bem complicadas.

- Porque não podemos voltar a ser como antes? Scorpius, caso não tenha notado, eu preciso de você! – a voz de Rose também era baixa, e ela julgava não ter forças para falar mais alto que isso.

- Rose...

- Será que tudo que passamos não foi suficiente para fazer você acreditar em mim? – ela se soltou do braço de Scorpius e se virou para encará-lo – Será que você não consegue perceber que estou sendo sincera quando digo que te amo e que minha vida é sua?

- Não é isso! – Scorpius disse, um pouco mais alto do que pretendia – Eu só... Rose, as coisas são complicadas agora! Se coloque em meu lugar um minuto. Se tivesse me visto com outra pessoa, o que pensaria?

- Eu já vi você com outra, Scorpius, e caso não se lembre, escolhi acreditar na sua palavra.

Houve um minuto de silêncio, no qual os dois se encararam. Scorpius sabia perfeitamente do que Rose falara. Lembrou-se nitidamente da cena que ocorrera quando tinham 14 anos, e Sophie o beijou, fazendo com que Rose acreditasse que eles tivessem um caso. Lembrou-se também de seu pedido de desculpas, e de quando ela acreditou em suas palavras.

- As coisas são diferentes agora... – Scorpius disse finalmente.

- Diferentes por quê?

- Porque não posso ter certeza...

- Certo, então talvez isso, ajude você a clarear suas ideias! – Rose disse, e para surpresa de Scorpius, o puxou pela manga da jaqueta, trazendo-o para perto de si e o beijou.

Mas esse não era um beijo qualquer. Rose não se preocupava só em sentir os lábios de Scorpius junto aos seus. Não. Definitivamente ela queria mostrar a ele tudo que sentia. Suas mãos logo foram parar na nuca de Scorpius e seus dedos de entrelaçaram em seus cabelos, os segurando com força, impedindo que ele saísse daí. Impedindo que ele fugisse daquele beijo.

Scorpius, mesmo sendo pego de surpresa, estava longe de querer se afastar e encerrar aquele beijo. Com a mesma urgência que sentia os lábios de Rose procurar os seus, procurava os dela. Movido pela saudade e pelo desejo, ele a empurrou contra uma das árvores – sem deixar de beijá-la um segundo – e aproximou mais ainda seu corpo ao de Rose. Alguns flocos de neve caíram dos galhos mais baixos, com o impacto dos dois na árvore, mas nenhum deles pareceu notar.

O que mais parecia impressionar os dois, é que mesmo depois de tanto tempo, ainda sabiam perfeitamente o ponto fraco de cada um. Scorpius ainda se lembrava de como Rose se sentia quando beijava seu pescoço, e Rose sabia muito bem como ele ficava quando arranhava sua nuca. A única coisa que parecia incomodá-los ali era o excesso de roupas. Queriam se tocar, sentir um ao outro, nem que fosse uma última vez antes da decisão de Scorpius de acreditar em Rose ou deixá-la partir para sempre, fosse tomada.

As mãos de Scorpius finalmente encontraram uma brecha em meio a todas aquelas roupas, e finalmente ele pôde tocar a pele quente e macia da cintura da ruiva. Scorpius se sentia completo quando estava com Rose. Só enquanto a beijava conseguia perceber o quanto seu corpo sentia falta do dela, o quanto seu coração gritava por ela...

Rose sentiu um choque passar por seu corpo quando a mão fria de Scorpius tocou sua cintura, mas não se importou com isso, pelo contrário, gostou da sensação que aquele simples toque lhe proporcionara. Se ela pudesse, gritaria aos quatro ventos o quanto queria que aquele momento fosse eterno, para que não tivesse que voltar e encarar a realidade.

Os dois só se separaram, porque durante o beijo acabaram se empolgando um pouco mais do que deviam e caíram juntos no chão enevoado. Scorpius caiu de costas na neve e Rose por cima dele. Por um segundo eles se encararam, até que finalmente caíram na gargalhada. Definitivamente, essa coisa de se beijar e querer andar a procura de um lugar mais “confortável” não era boa. Não quando se estava em uma colina cheia de galhos e árvores espalhadas.

- Você se machucou? – Scorpius perguntou ainda rindo, enquanto se sentava no chão.

- Não, e você? – Rose também se sentou e passou a mão pelos cabelos, na tentativa de arrumá-los.

- Vou sobreviver! – ele brincou.

Os dois se encararam novamente e desataram a rir descontroladamente. Ambos sabiam que aquele momento de descontração passaria muito rápido, comparado ao de desconforto e tensão que estava por vir. Queriam prolongar ao máximo aquela sensação de alívio e diversão que os cercava.

Pouco a pouco as risadas foram perdendo a força, até que por fim, o silêncio se instaurou novamente. Rose sabia que aquele era o momento. Que agora ela precisava falar tudo que queria e então partir, deixando a decisão nas mãos de Scorpius.

A ruiva se aproximou, sentando bem em frente a Scorpius e delicadamente segurou seu rosto entre as mãos. Precisava obrigá-lo a lhe encarar. Ele precisava ver a sinceridade nos olhos dela, nem que essa fosse a última conversa que teriam.

- Você segurava um álbum de fotos na mão e estava parado a poucos metros de mim, acompanhado por Vincent, enquanto olhava seus pais pela janela. Ficou ali até o trem dar o apito final e começar a andar. Depois você saiu da janela, e se virou na direção em que Alvo e eu estávamos. Seu cabelo não estava mais perfeitamente arrumado, mas bagunçado pelo vento, e você tinha uma expressão que misturava ansiedade e medo. Tinha 11 anos e essa foi a primeira vez que olhei você. – Rose começou a discursar em voz baixa. Parte dela sabia que talvez Scorpius não estivesse entendendo onde ela queria chegar, mas logo as coisas ficariam fáceis de serem percebidas.

“Nós estávamos em nossa primeira aula de Poções e Slughorn começou a dizer vários nomes de poções e nos perguntar se já tínhamos lido sobre ou ouvido falar. Quando ele perguntou sobre a ‘Veritaserum’ e quem na sala poderia dizer do que se tratava, você e eu levantamos as mãos. Não nego que senti certa raiva de você, afinal de contas, detestava ter um concorrente e meu pai havia sido claro quanto a não deixar você me passar nos exames. Mas naquele momento, foi a primeira vez que notei você.”

Scorpius ouvia tudo em silêncio. Não fez menção de interromper a menina nenhuma vez. Talvez porque estivesse chocado com todas aquelas palavras nunca ditas antes por ela ou simplesmente porque gostava de ouvir o som de sua voz.

- O fato de ter te notado não contribuiu para minhas tentativas de ignorar sua presença. Tínhamos quase sempre as mesmas aulas, você se sentava próximo a minha mesa e conversava com seus amigos sobre coisas que eu detestava como Quadribol ou novos modelos de vassoura. – ela fez uma pausa e respirou fundo – Tudo se tornou mais difícil, quando eu finalmente passei a enxergar você. Acho que vai se lembrar do dia em que caminhávamos pelo corredor da escola, distraídos, até que finalmente nos esbarramos. Quando me levantei do chão e olhei pra você, fiquei sem fala. Eu ainda era muito nova e inexperiente para entender que aquele frio na barriga que senti ao encarar seus olhos nada tinha a ver com a queda ou a raiva que senti por ter me derrubado.

- Rose... – Scorpius começou a falar, mas a ruiva o interrompeu, pousando o dedo indicador sobre seus lábios.

- Foi só então, que no 4º ano, deitada na minha cama, pensando em tudo que me fazia “detestar” você, que percebi que na verdade eu te amava. É claro que não esperava alguma coisa em troca. Você era muito popular pra sua idade, e eu era a CDF que respondia todas as perguntas. As chances de que você olhasse pra mim e me notasse também eram quase nulas, entretanto elas se tornaram reais. Se pudesse saber como me senti quando disse que também me amava... Quero dizer, depois da nossa conversa, parte de mim tinha esperanças de que dissesse que me amava, mas a outra parte estava preparada pra rejeição. – Rose fechou os olhos e respirou fundo mais uma vez. Precisava ser forte e sabia que se começasse a chorar não iria ter forças pra continuar.

“Desde aquele dia, a única razão para que eu me sinta viva é você. Saber que você estaria por perto quando eu precisasse, saber que veria seu sorriso e ouviria sua voz... Saber que apesar de algumas brigas, nós ficaríamos bem... Saber que eu tinha você e que qualquer coisa de ruim que viesse acontecer não me afetaria porque você estaria ao meu lado... Desde que nós chegamos ao fim eu tenho tentado me manter de pé, me apegando a tudo que poderia ser e não ao que realmente é. Quero dizer, por algum motivo minha consciência e meu coração se recusam a acreditar que você nunca mais estará comigo daqui pra frente. Talvez eles estejam certos ou só tenham se apegado isso, com medo de que eu acorde e enfrente de vez a realidade.”

Rose acariciou lentamente o rosto de Scorpius. Suas mãos passaram por cada contorno de sua face. Parecia ter intenção de memorizá-lo, temendo ser a última vez que ficassem tão próximos.

- Mas eu não quero acordar e enfrentar a realidade! – Rose não conseguiu mais se manter firme e sua voz transpareceu toda dor que vinha guardando durante os últimos meses – Eu não quero aceitar o fato de que acabou. De que não existe mais “você e eu”... Não quero enfrentar uma realidade em que só exista eu e que você tenha ficado pra trás.

- Eu... – Rose o interrompeu novamente e o encarou determinada.

- Scorpius, você já me viu olhar para outra pessoa, da mesma forma que te olho? – ela perguntou de repente.

- Não! – Scorpius respondeu sincero. Sua voz era praticamente um sussurro.

- Já me viu sofrer e me humilhar tanto, a ponto de engolir meu orgulho, por alguém que não seja você?

- Não.

- Acha realmente que me coração pertence a alguém que não seja você? – Rose perguntou, e quando viu que Scorpius fez menção de responder, o silenciou colando seus lábios aos dele. – Não me responde agora ok?! Só pensa nisso e depois das férias... Bom, prometo aceitar qualquer decisão que tomar, mesmo que seja não acreditar em mim.

Dizendo isso, Rose se levantou e saiu em passos rápidos dali, prometendo a si mesma que aquela era a última vez que tentaria.








~~







N/A: Vocês realmente precisam parar com as ameaças de morte! Já coloquei uns 15 bisbilhoscópios espalhados pela casa, e durmo agarrada com minha varinha u.ú Sinceramente, vcs andam exagerando. Não sou tão má quanto dizem... Pelo menos acho que não! HAUAHAUAHUA

Fala sério, mereço um crédito com vcs por ter feito Alice e Alvo finalmente voltarem; Rose e Scorpius... Bom, isso vcs verão em breve; quanto a Vincent, vcs viram perfeitamente que o nosso amável e engraçado amigo, não está tão amável e engraçado assim (ok, essa frase foi bem esquisita)... Enfim, acho que essas são as considerações principais do capítulo, embora eu tenha certeza que vcs tinham percebido antes mesmo que eu citasse HAUAHUAHAUAHAU

Sobre o próximo, finalmente teremos o casamento da Vic \o/ O Teddy vai desencalhar, aleluia irmãos HAUAHAUHAUAHAU

Cecília Potter, Brenda Black-Cullen, Larissa, Gica (twin), Marina Antunes (providenciarei novos lençóis para vc chorar, não se preocupe!), Juliee Malfoy, Pacoalina, Mandy Fletcher, Pah Black, Fernanda Hatae, Letícia Santiago e Jacgil (ia mesmo te perguntar o paradeiro da Viviane! Tava sentindo falta dela por aqui.), muito obrigada por comentarem.

Antes de ir, preciso esclarecer uma coisinha. Como a Larissa observou, na apresentação de personagens, vcs devem estranhar os novos rostos. Mas na parte da Grifinória, todos eles já foram citados em algum momento na fic. Rapidamente, nem tiveram uma fala decente, mas já apareceram. Agora na Sonserina, como puderam notar, há uma nova personagem. Melissa Cartingan... Quem será ela? Façam suas apostas, mas creio que não vai ser tão difícil acertar.

Agora sim, eu vou embora!

COMENTEM E NÃO ME MATEM... ainda.

Amooooooooo vcs.

XoXo,

Mily.



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