13 almas



- Temos que voltar para Hogwarts. É o único jeito.

Lúthien fez uma pausa e tomou um longo gole de sua caneca de chocolate, seguido de uma careta involuntária. Estava quente demais. Hermes balançou a cabeça, claramente irritado, enquanto observava a televisão do Café transmitir o noticiário de fim de tarde. Mia estava com os cotovelos apoiados no balcão e balançava o pé nervosamente, enquanto Daniel, debruçado, estava quase adormecido e branco como um papel.

Estavam exaustos, era óbvio, e não tinham lugar para passar a noite. A conclusão de Lúthien era tão animadora quanto impossível, já que não sabiam sequer onde Hogwarts ficava exatamente. Sem os Testrálios e, principalmente, sem Harry Potter, era difícil voltar. Foi então que uma notícia em especial chamou a atenção dos garotos, na voz de um famoso repórter da televisão londrina.

- Estranhos acontecimentos estão movimentando Somerset, mais precisamente a pequena cidade de Glastonbury, famosa por conta das conhecidas lendas arturianas. Após a realização de um ritual de magia celta, que acontece todos os anos para comemorar o solstício de primavera, várias mulheres estão desaparecendo. Outras relataram ter visto na Glastonbury Tor, única colina da região de planícies, um castelo gigantesco, que logo depois desaparecia entre as brumas. Algumas afirmam que a antiga ilha de Avalon deve ficar novamente visível, alertando o fim dos tempos para aqueles que não acreditam na antiga religião pagã. A polícia investiga os desaparecimentos, mas não tem nenhuma pista do que pôde ter acontecido. E agora, a previsão do tempo...

Os quatro amigos se entreolharam, atônitos. O que estaria acontecendo? Será que o excesso de feitiços de proteção teria feito Hogwarts se tornar visível para aquele grupo de mulheres em especial, que ainda exaltavam e praticavam os primórdios da magia? Mesmo que não tivessem poderes, poderiam enxergar a Escola? De uma coisa, porém, estavam certos: já sabiam a localização de Hogwarts, o que ainda representava um problema, já que a cidade de Glastonbury não ficava tão próxima de Londres.

Mia pegou as poucas moedas de dinheiro trouxa que ainda possuía para pagar o garçom de cara fechada do Café. Saíram logo em seguida para encontrar o ar gelado do lado de fora. Nem parecia mais primavera. Enrolaram-se melhor nas capas e se sentaram numa praça próxima, permanecendo em silêncio enquanto cada um pensava no que fazer a seguir. Hermes, por fim, levantou-se de um salto.

- Não dá mais para ficar parado aqui esperando que o Voldemort apareça de cuecas e resolva nos matar com um simples abrir e fechar dos lábios! Vamos voltar para a Rua da Fiação e ver se Snape está de novo em casa. Ao menos saberemos se os malditos planos dele deram resultado.

Todos se sentiram aquecidos pela idéia de ter um lugar para dormir, exceto Mia, que estava preocupada com a questão financeira do grupo. Pensou que deveria ter trazido mais de suas economias naquela manhã, quando decidiram partir do Castelo para visitar o túmulo da irmã de Hermes. Mas era preciso admitir que, apesar de saber dos perigos que poderiam enfrentar, Mia acreditara que tudo daria certo e que, de uma forma ou de outra, voltariam para Hogwarts naquele mesmo dia. A mentira sobre o censo da Floresta Proibida parecia ter ficado para trás há muito, e Mia imaginava que, provavelmente, seus pais já deveriam estar preocupados com o fato de que ainda não haviam retornado para o jantar.

Alcançaram a rua da Fiação quando a lua já aparecia no céu. A sensação de abandono era muito mais visível que pela manhã, como na memória de Wyrda e Snape, só que assustadoramente real. O rio ainda exalava um cheiro forte de esgoto e as capas que usavam não eram mais capazes de conter o gelado vento noturno. Quando chegaram em frente ao portão da casa de Snape, as luzes estavam apagadas. Um gato miou no fim da rua e Mia se arrepiou da cabeça aos pés. O vento fez o portão ranger assustadoramente.

Mesmo com o aspecto de abandono, Hermes avançou primeiro, empurrando o portão e parando diante da porta ainda semi-aberta, exatamente como estava pela manhã. Foi quando ouviu um estrondo atrás de si e virou de um salto, esticando as mãos, pronto para o ataque. Porém, o que viu o assustou mais do que qualquer rua escura: Daniel estava caído no chão, inconsciente.

- Ele está forçando demais! – reclamou Lúthien, a primeira a se abaixar e tomar o pulso do rapaz, enquanto tirava da mochila um amontoado de folhas secas e encostava no nariz dele.

- O que você está dando para ele cheirar, sua maluca? – perguntou Hermes, agachando-se ao lado do amigo caído, com Mia em seu encalço.

- É erva seca de ditamno – respondeu a loirinha com simplicidade.

- Ah, claro! – disse Hermes em seguida. – O cara está azul, verde, cor de basilisco quando foge o dia inteiro e você só resolve dar essa droga de folha de dita sei lá o quê agora? Brilhante!

- Ela é muito forte, Hermes. Poderia fazê-lo desmaiar de uma forma ou de outra – disse Lúthien, simplesmente dando de ombros.

- Queria saber onde você aprendeu tudo isso sobre aparatação e estrunchamento e...

Sem que qualquer um deles notasse, dois olhos cinzas espreitavam o grupo pela fresta da porta. Em seguida, cada um deles sentiu um forte impulso, como se um gancho tivesse sido posicionado no umbigo. Mia imaginou que era assim que um peixe se sentia ao ser pescado. Segundos depois, estavam sentados no sofá puído de Snape, e Daniel abria os olhos sem entender direito o que acontecia, mexendo os dedos dormentes e massageando o braço atingido pelo estrunchamento daquela manhã.

- Até que vocês não são tão estúpidos quanto eu pensava – disse Snape, saindo das sombras acompanhado do senhor Malfoy, a varinha em punho e um sorrisinho irônico nos lábios. – Pelo menos voltaram para cá sem que eu precisasse mencionar claramente, ou mesmo escrever num pedaço de pergaminho que deveriam fazê-lo.

- Nós descobrimos sobre a varinha. Ela... – adiantou-se Lúthien, mas foi interrompida por Mia, com um toque nada discreto no ombro. Ainda não confiava totalmente em Snape, e muito menos no senhor Malfoy, que havia abandonado a família e permanecido ao lado das forças das trevas. Cogumelos venenosos não mudam sua essência, seu pai dizia isso e ela acreditava nele.

- Quero saber sobre o plano – disse ela, claramente, e os demais permaneceram em silêncio.

- Talvez eu deva pedir a ilustre presença daqueles que ajudaram a traçá-lo, se não for muito incômodo – disse o ex-professor de Poções, fazendo uma mesura exagerada e claramente irônica e apontando para a porta da cozinha escura. - Talvez vocês queiram parar de fazer suspense e vir até aqui ver suas crias.

Um leve ruflar de cabelos vermelhos entrou na sala, iluminando o rosto de Hermes, que se jogou nos braços da mãe. Ela, por sua vez, teve exatamente a mesma atitude de Mia ao vê-lo pela primeira vez: socou cada parte visível de seu corpo. Hermes não se importava, pois sorria com todos os dentes enquanto caretas involuntárias se formavam em seu rosto a cada batida de tia Gina.

- Como você se atreve a fazer uma coisa dessas com a sua mãe, menino?

Mia poderia jurar que o rosto do senhor Malfoy se contorceu numa espécie de sorriso amoroso ao ver novamente sua família unida, mas esta sensação se desfez no exato momento em que Harry Potter saiu da cozinha, seguindo os passos de tia Gina. Parecia ter envelhecido dez anos em um dia. Não falou nada, apenas seguiu até o lugar onde Daniel estava sentado e tomou-lhe a mão em silêncio, observando Draco. A sala permaneceu quieta até que o loiro resolveu falar:

- Você me deve sua vida, Potter. Duas vezes.

- Não esquecerei disso, Malfoy – respondeu Harry, sem vacilar. – Mas acho que estamos quites, já que salvei sua vida mais de duas vezes enquanto estávamos em Hogwarts.

- Acho comovente todas estas lembranças – interrompeu Snape com um aceno de cabeça -, mas acho que podemos nos sentar como cavalheiros e discutir os próximos passos. Afinal, a noite de lua cheia se aproxima e, se perdermos a oportunidade, então lidaremos com um mal ainda maior que o de Voldemort.

- Não entendo, Snape – disse Harry, sentando-se no braço do sofá onde Daniel estava. – Eu sempre jurei que você estava do lado das trevas, principalmente depois da morte de Dumbledore. O que o fez ajudar Gina e Draco a me libertar? O que o faz agora, depois de tanto tempo ao lado de Voldemort, nos ajudar a destruí-lo? Você não era um Comensal da Morte?

- Meus motivos não lhe dizem respeito, Potter. Sou fiel apenas a mim mesmo e aos meus princípios, mas não devo explicá-los a você.

Mia notou que, ao falar, Snape encarava Harry no fundo dos olhos, como se lesse sua mente. Harry fazia esforço para fechá-la, mas ela sabia que o homem não era bom em Oclumência. Por que Snape tentava ler a mente de Harry? Podiam mesmo confiar nele? E por que ela era a única que desconfiava? Pelo menos via desta forma, já que nenhum de seus amigos havia sequer questionado as ordens de Snape até então. Na verdade, observando-os bem, pareciam tão cansados e confusos que era como se o bruxo mais velho e cheio de propostas fosse a definitiva solução de seus problemas, tudo aquilo que esperavam.

Porém, não foi ele quem falou, e sim tia Gina.

- Nós vamos precisar que vocês façam algo por nós, Mia e Lúthien. Algo importante e grandioso. Vocês terão todo o respaldo e proteção, vamos garantir isto. Tentei privá-las, ah, como tentei, mas não há outra forma, não consigo enxergá-la e...

- Você usa um tom de desculpas, como se não fôssemos destinar a elas uma tarefa nobre, Ginevra – interrompeu Draco, colocando-se ao lado da esposa. Ela o olhou crispando de raiva enquanto ele continuava, dirigindo-se às duas jovens. – Vocês terão a oportunidade de interromper a maior insanidade que minha tia já pensou em cometer, e olha que ela já fez coisas que surpreendem até mesmo a mim em matéria de loucuras. Definitivamente, Belatriz Lestrange é maluca.

- Ela não é tão maluca assim – falou Snape, acenando com a varinha para acender a lareira. – Afinal, as idéias de Voldemort não vão fortalecê-la apenas, mas também ao filho deles. Na verdade, é o plano perfeito.

- Você fala dele como se tivesse orgulho – desconfiava Harry mais uma vez.

- Falo dele como o bruxo inteligente e engenhoso que é – respondeu Snape, desafiador. – E acredito que é exatamente assim que devemos tratá-lo, Potter. É sempre bom saber com quem se está lidando, para não cometer erros estúpidos no meio do caminho e se deixar capturar novamente, colocando em risco a chance de salvar o que ainda resta do mundo bruxo.

- VOCÊ FALA COMO SE EU HOUVESSE TIDO ESCOLHA! – gritou Harry, descontrolado.

- PAREM!

Foi Daniel quem gritou, levantando-se do sofá de um pulo, sem sequer cambalear. Mia levantou também e se postou ao lado dele, tentando fazê-lo se sentar novamente, já que ele precisava recuperar as energias.

- Dan, por favor, tente não se esforçar.

- Estou cansado de ouvi-los se atacarem uns aos outros mutuamente como se fossem crianças – disse ele, sentando-se novamente. – Deixem as antigas desavenças para trás e tentem, por favor, dar foco ao que teremos de fazer! É algo que colocará Lúthien e Mia em risco?

O estômago de Mia virou do avesso e seu coração bateu descompassadamente. Teria ela notado um pequeno tom de preocupação na voz de Daniel? Uma lágrima solitária se formou em seu rosto sem que pudesse contê-la, e Mia abençoou a escuridão que a escondia enquanto rolava por sua bochecha. Disfarçadamente, limpou o rosto com as costas da mão e falou:

- Concordo com Daniel. O que teremos de fazer?

- Poção Polissuco – respondeu Snape. Mia continuou esperando, pois nunca havia sequer ouvido falar daquilo. Foi Hermes quem respondeu:

- Vocês querem que elas se transformem em quem?

- Como assim? – perguntou Lúthien, que parecia não entender tanto sobre a tal Polissuco quanto entendia sobre estrunchamento.

Foi tia Gina quem contou sobre os planos de Voldemort. Pacientemente ela explicou que o bruxo, acompanhado de Belatriz, pretendia fazer um ritual de transferência de almas para o pequeno bebê que ela abrigava no ventre. Para isto, estava raptando jovens moças que faziam rituais célticos em Somerset, a fim de matá-las, roubar-lhes a alma e transferir os pedaços partidos para a criança num ritual macabro de bruxaria das trevas avançada.

- Mas por que ele precisa fazer isso? – perguntou Mia.

- Por que, com as almas de 10 moças, e as horcruxes de Voldemort e Belatriz, a criança terá 13 almas, ou 13 vidas, como preferirem. Ou seja, será praticamente imortal – respondeu Harry, visivelmente enojado com a idéia.

- Voldemort quer garantir seu sucessor e a continuidade de sua ditadura – disse Snape, como se fosse a fala decorada de um filme de guerra do mundo trouxa.

- E o que essa tal de Polissuco tem a ver com isso – perguntou Lúthien, os olhos fixos no fogo da lareira.

- A poção Polissuco irá transformá-las em duas trouxas do vilarejo. E vocês serão raptadas por Voldemort para o ritual – disse Draco, como se falasse sobre o tempo.

- NÃO! – gritaram Hermes e Daniel ao mesmo tempo.

- Legal – disse Lúthien, sorrindo.

Mia apenas engoliu em seco.




N/A: Depois de um longo e tenebroso inverno, volta o cão arrependido, com suas orelhas caídas e o rabo entre as pernas e... ops... fic errada! rsrsrsrs

Oi pessoas que ainda não desistiram desta autora que vos escreve! *acena com as mãos*

Sim, eu já sei exatamente como esta Trilogia que me acompanha há quase dois anos irá terminar! E isso é bom, porque já comecei a escrever o capítulo final, que talvez se transforme em dois, mas está caminhando. Enquanto isso, aproveitem este!

E obrigada por confiarem em mim!

Beijossssss

Mia













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