Tiger! Tiger! Burning Bright!

Tiger! Tiger! Burning Bright!



CAPÍTULO QUATORZE

TIGER! TIGER! BURNING BRIGHT

O quarto estava num total breu, exceto por duas tochas que brilhavam gentilmente na parede oposta à cama. As chamas se estendiam ao alto, iluminando o quarto até o teto, mas deixando a metade de baixo no escuro.

Andi notou que, por detrás das sombras, a porta estava aberta.

Ela conseguia ouvir um zumbido. Um zumbido baixo e profundo, como o de uma abelha presa no vidro. Apenas depois de um tempo ela percebeu que aquele barulho vinha de seu cérebro.

Gemeu e colou a mão na cabeça.

Conseguia se lembrar de ter sido atacada por um inseto. E, depois, de um assustador carnaval de cores e memórias que ela não conseguia tirar da cabeça – ficava se repetindo em sua mente, sem nunca fazer sentido.

Algo se movimentou na sala. Uma pessoa apareceu no vão da porta. Andi mexeu a cabeça numa tentativa de ver melhor quem era, e o movimento alertou ao sujeito de que ela estava acordada.

Ele se aproximou da cama.

- Oi – surpresa, ela sussurrou. Um sussurro tão doce que quase soou como a voz de uma mulher cumprimentando o seu amante na primeira manhã em que acordaram juntos.

- Srta. Carver.

Snape se aproximou da cama e acendeu a vela que estava na mesinha de cabeceira. Pegou um copo e o estendeu a ela.

Andi tentou se sentar e aceitou o copo.

- É uma poção?

- É água.

Ela tomou um gole. A água era fria e limpa. Era muito limpa para ela… ela não devia a estar bebendo…

Lentamente, Andi parou de tomar a água, mas não tirou os seus lábios de dentro do copo. Com o nariz afundado nele, ela fungou e começou a chorar.

Snape gentilmente tirou o copo das suas mãos.

- Segundo estágio: depressão. Receio que se sentirá mal pelas próximas horas, Srta. Carver. Eu poderia lhe dar uma poção para dormir, mas isso meramente adiaria o inevitável. O sono natural é um remédio muito mais eficaz.

Grossas lágrimas escorriam pelo rosto de Andi enquanto todos os acontecimentos que já tinham a magoado pareciam voltar à sua mente, reabrindo todas as feridas.

Lembrou de, aos três anos, se perguntar como ela poderia ter sido tão malvada para a sua mamãe ter ido embora?… Lembrou do dia em que Boy George, o seu coelho de estimação, morreu… Lembrou do dia em que a sua avó morreu… Todas aquelas lembranças voltavam e a consumiam, até que Andi pôs o rosto entre as mãos e soluçou.

Nesse meio tempo, Snape fora à sala adjacente. Ao voltar, trazia consigo uma bacia e uma toalha. Ele cuidadosamente mergulhou a toalha na bacia e a torceu. Estendeu o tecido para Andi.

- Aqui. É um ungüento. Vai ajudar a lhe acalmar. Segure-o na sua testa.

Andi olhou para o tecido e o pegou lentamente... mas até mesmo aquele simples gesto a fazia debulhar-se em lágrimas.

- Eu sou um completo desperdício de espaço, não sou? Eu não causei nada além de problemas desde que cheguei aqui. Mas não vim para cá de propósito, eu juro!... Mesmo quando eu chegar em casa, vou ter que tocar naquele maldito concerto e eu não vou conseguir, eu sei que não, porque o meu jeito de tocar é uma droga... Tudo o que eu faço é uma droga... Eu não consigo sequer colher flores sem entrar em problemas... OH!

Andi de repente lembrou do que fizera às
margens do lago na noite anterior e a vergonha a fez chorar ainda mais.

- É por isso que o Jeff me deixou... eu não o culpo... Se eu não consigo nem manter um gato, imagine um namorado... E eu me perco o tempo inteiro, então por que alguém iria querer ficar comigo...? E eu nunca serei tão elegante como a Katherine Hepburn, porque eu não consigo nem colocar um batom sem parecer ter geléia espalhada na boca... E o meu cabelo em pontas duplas...

Snape segurou a mão que Andi segurava a toalha e forçou-a de volta à sua testa. Ela descansou a sua cabeça no travesseiro, sentindo-se completamente exausta e desolada.

- Eu me sinto tão cansada... – ela disse, levando a toalha para longe da sua testa. – Você não faz idéia do quando isso é debilitante, ter pontas duplas...

Andi já começava cair no sono, quando sentiu o colchão afundar ao seu lado, como se ele tivesse se sentado na ponta da cama, e então um tecido gelado sendo gentilmente passado em seu rosto.

XxXxXxX

O quarto ainda estava escuro quando Andi acordou novamente, mas ela já se sentia muito melhor – ainda estava uma merda, mas muito melhor. Seus músculos ainda estavam muito tensos e reclamaram quando ela se forçou a sentar.

Olhou para o que estava vestindo. Parecia ser algum tipo de camisola vitoriana, muito larga na frente, com mangas longas e presas aos seus pulsos. O conjunto parecia, pelo que Andi podia sentir, muito volumoso.

Seus olhos varreram o quarto.

Aquele não era o seu quarto.

Apesar dos móveis parecerem idênticos, eles estavam dispostos de uma maneira diferente. E, mesmo no escuro, Andi podia perceber que as cortinas da cama e as cobertas eram diferentes.

A porta do quarto continuava aberta. Curiosa, ela afastou as cobertas e escorregou da cama, caminhando pelo quarto silenciosamente – a barra da camisola arrastando pelo chão.

Espiou.

Andi imediatamente soube onde estava, mas não se permitia acreditar: Aquela mesa no centro da sala... A luz do fogo na lareira refletindo na madeira escura...

- Srta. Carver?

Andi se assustou, prendendo a respiração por um tempo. A figura obscura se levantava do sofá, que estivera escondido por trás da mesa.

- O qu... Como... Hein? – Andi tinha tantas perguntas a fazer que acabou não conseguindo fazer nenhuma.

Snape sussurrou discretamente, e as tochas nas paredes gradualmente tornaram-se mais brilhantes, até que a sala estava confortavelmente iluminada.

Andi adentrou mais a sala e viu um lençol, agora jogado aos pés do sofá. Ela o olhou, atônita.

- V… Você dormiu no… eu estive dormindo na sua… Eu…

- Se eu não lhe conhecesse tão bem, Srta. Carver, concluiria que a sua falta de eloqüência se deve a um resquício de veneno ainda circulando em seu sangue.

Ele passou por ela, curvando-se perto da lareira. Começou a atiçar o fogo.

As chamas iluminavam Snape, dando-lhe pela primeira vez um aspecto saudável. Os cabelos negros escondiam o seu rosto enquanto ele se movia para colocar um pouco de lenha na lareira, mas Andi ainda conseguia ver as chamas dançarem nos olhos dele.

Ele não era exatamente o homem mais bonito que ela já vira. E de maneira alguma a sua personalidade compensava a aparência... mas havia algo na maneira em que ele alimentava o fogo... na maneira em que o cobertor caía ao chão; na maneira em que a porta do quarto tinha sido deixava aberta de forma que, presumivelmente, ele poderia observá-la a uma distancia respeitável; na maneira...

(ela engoliu)

... havia algo na maneira em que o tecido da calça dele se esticava bem no meio das suas pernas enquanto ele curvava-se à lareira, que mexia com ela por dentro.

- Você nunca viu um fogo ser atiçado antes, Srta. Carver? – ele perguntou irritadamente, sem olhá-la.

Andi caminhou até a mesa, puxou uma cadeira e se sentou.

- Eu me sinto uma merda. Meu visual não deve estar diferente.

- Colocação encantadora. – Ele se levantou, espanando as suas mãos para livrar-se da poeira. – Mas, considerando que eu já lhe vi com vomito escapando do nariz e da boca, posso lhe dizer que o seu visual melhorou bastante.

- Que horas são?

- Quase quatro.

- Da madrugada? Oh, Deus, eu estive desacordada por horas. O que diabos me aconteceu?

- Você foi picada por uma mosca-tigre.

Ela deu uma risada abafada.

- Não seja bobo, uma vespa não pode fazer isso com alguém... – ela viu o rosto dele e congelou.

Eu acabei de chamar o Professor Snape de ‘bobo’?!?

- Uma mosca-tigre está longe de ser uma vespa comum, Srta. Carver.

- Desculpe-me. Minha avó sempre chamava vespas de mosca-tigre. A picada sempre causa esse efeito?

- Invariavelmente. A mosca-tigre se alimenta de fungos que crescem em grandes plantações. É uma forma pura de ácido lisérgico que se encontra no veneno da sua picada, transformando-a num alucinógeno.

- Opa! – Andi se levantou, fazendo a cadeira arrastar-se no chão. – O que você quer dizer com alucinógeno...? Ácido lisérgico...? Você... você está falando de LSD? Eu tomei ácido?

Ela podia sentir o sangue deixar o rosto e as mãos tremerem.

- Se esse é o termo trouxa, então sim. Mas você não o tomou, você foi picada por um inseto que o tinha. Ninguém virá lhe prender por cauda disso, Srta. Carver.

Ela sentou-se novamente, ainda nervosa.

- Bem, isso explica as árvores falantes e... oh! – O olhou de relance. Levou a mão à boca numa tentativa de suprimir um risinho que veio junto com a memória de Snape cantando Sandy.

Ele a encarou de volta com uma expressão totalmente vazia.

- Nós... – ela pigarreou, tentando controlar o riso. – Nós realmente dançamos no gramado?

- Eu posso lhe garantir que não – Snape respondeu friamente. – Quando eu me irritei com a sua gritaria incessante e sai do castelo para lhe pegar, você começou a lutar comigo.

Suas palavras trouxeram de volta uma outra memória e ela espiou a orelha direita dele.

- Eu acho que lhe dei uma tapa na orelha, me desculpe. Na verdade, – ela o olhou com sinceridade – me desculpe por todos os problemas que eu venho causando. Eu tenho sido um pé no saco, não é?

- Mais uma encantadora expressão trouxa, Srta. Carver, mas é verdade.

Seguiu-se um silêncio no qual Andi olhou as chamas dançarem na lareira.

Ela tinha uma vaga memória de tê-lo abraçado – de ter seus braços em volta dele... Sentiu-se aquecida de repente – o fogo deveria ter aumentado...

Seus olhos se moveram para o puxador de bronze ao lado da lareira e de repente percebeu o quanto estava com fome. Olhou para a bacia de madeira que tinha maçãs no dia em que chegara, mas ela estava vazia.

- Eu poderia... comer alguma coisa? Um pouco de chá e… – ela estava certa de tê-lo visto estremecer – ... torradas?

Foi trazido. Enquanto ela comia, prestou atenção nas longas mangas da camisola e percebeu que não havia feito ainda uma importante pergunta.

- Professor… ã… você… você me colocou na cama?

O seu coração parou de bater por um instante – fato que certamente passaria despercebido, não tivesse ela acompanhados os olhos de Snape que, naquele momento, miraram a região dos seus seios.

- Se você está perguntando se eu lhe despi, não. Seu corpo, dessa vez, foi preservado por magia. Eu fiz essas roupas através de um feitiço.

Eles se olharam por um momento e Andi sentiu-se aquecer novamente.

Ele se levantou abruptamente.

- Eu acho que você já está recuperada o suficiente para dormir em seu próprio quarto agora, Srta. Carver.

- Oh, Deus, sim. Desculpe-me! – Ela havia se esquecido completamente que eram quatro da manhã e ele provavelmente queria dormir.

Andi tomou o último gole de chá e se levantou. Os dois foram até a porta e ele gentilmente parou para segurar a maçaneta.

A cabeça de Snape estava abaixada, e Andi notou um hematoma bem na frente da sua orelha, onde ela tinha lhe estapeado. Sentiu-se derreter por dentro e, cedendo a um impulso, ergueu-se e deu-lhe um beijo estalado no rosto.

Ele voltou-se para ela, atônito.

Andi ainda estava de pontas de pés, seu rosto próximo ao dele. Seu olhar foi até os lábios dele, levemente entreabertos pela surpresa. Por um breve momento, Andi teve um outro forte impulso – devidamente suprimido antes de ser posto em prática.

- Obrigada – ela disse, corando, e se virou para a porta.

Snape abriu a porta lentamente.

Andi deixou o aquecido quarto dele e foi para o frio corredor. Quando chegou ao seu quarto, olhou-o de volta. Ele ainda estava parado lá, observando-a.

- Boa noite, Srta. Carver.

Ela ouviu a porta dele fechar-se pouco antes de fechar a dela própria.

XxXxXxX

Reviews, por favor!

Bjus para a minha maninha querida, a Lara, que betou mais esse capítulo... E, claro, para as maravilhosas leitoras que deixaram a sua marca: a lulu-lilits, a Shey, a Olívia, a Nathsnape, a Lua Mirage, Doesnt Go Away e Renata.

Aliás...
Olívia: “SNAPE in the sky with diamonds” FOI O MELHOR! UHAUHAAUHAUHAUAHUHA!

Ah! E o nome do capítulo é o título de um poema de William Blake, caso tenham curiosidade.

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