Les Yeux Ouvertes



Excelentíssimos Sr. e Sra.



É com grande satisfação que a Confederação Internacional dos Bruxos vem por meio deste convidar Vossa Senhoria para o seu Quintocentésimo Vigésimo Oitavo Baile Anual de Confraternização e Apoio à Causas Relevantes e Significativas para as Comunidades Bruxas do Mundo, a ser realizado no Castelo de Chenonceau, Vale do Loire, França. Sua presença será inestimável para abrilhantar a festa e coroar mais esta noite de celebração da paz em nosso mundo.

Cordialmente
Kalidasa Juvêncio Ivaldir Holofernes
Presidente da Confederação Internacional dos Bruxos.


Traje à Rigor.
As aparatações serão feitas no bosque em torno do castelo. Marque a hora de sua chegada com a Comissão Organizadora à cargo da Sra. Pumpkin.
Não será permitida a presença de menores de idade.


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Capítulo 5



Les Yeux Ouvertes



A Toca pode ser o melhor lugar do mundo para se estar, mas certamente não é um lugar solitário. Harry não se lembrava de nenhuma vez em que estivera ali e se sentira sozinho. De início, quando ele vinha passar os verões com os Weasley, se surpreendia com o fato de que todos na casa pareciam fazer questão da presença dele. Depois, se acostumara. Mas era um acostumar diferente daquele em que a gente tem uma coisa há tanto tempo que já não lhe dá valor. Harry se acostumara foi a ver a Toca como o seu lugar favorito no mundo, juntamente com Hogwarts.

Mas, ainda assim, tem vezes que um pouco de solidão é muito bem vindo. O pensamento lhe ocorreu enquanto admirava a tarde de sexta-feira se alongar amarela e quente sobre os terrenos ressequidos que cercavam a propriedade dos Weasley. Nem bem tinha se comprazido com a quietude de seu esconderijo e ouviu um estalo alto, que lembrava um chicote, estourando bem atrás de onde estava sentado. Afundou a cabeça entre os braços, que estavam apoiados sobre os joelhos, e soltou uma imprecação em voz baixa. Na verdade, esse era o grande problema de se estar na Toca. A palavra solidão e o lugar simplesmente não combinavam.

Explorava a propriedade dos Weasley desde que tinha doze anos e já a conhecia o suficiente para saber que havia poucos espaços em que se podia ficar sozinho. Ficara muito feliz quando, após aceitar o convite dos pais de Rony, descobrira um lugar só para ele. Aliás, o telhado da Toca tinha funcionado perfeitamente bem como esconderijo. Até agora.

A pessoa atrás dele deu uma escorregadela e logo retomou o equilíbrio.

– Harry? – A voz de Hermione soou incerta as suas costas.

O garoto não se virou, nem respondeu.

– Você não poderia ter achado um lugar mais fácil de chegar? – Reclamou a menina ofegante e escorregando outra vez, antes de sentar pesadamente ao lado dele.

– Da próxima vez, vou procurar um lugar ainda mais difícil. E vou levar a minha capa junto. Pode ter certeza!

Hermione soltou um muxoxo.

– Quando foi que você ficou tão rabugento, hein?

O rapaz se limitou a resmungar baixinho. Não estava com a menor disposição para conversar e achava que pelo menos Hermione respeitaria isso. A jovem deu um longo suspiro.

– Bem, o que posso informar é que não vai ser fácil achar tal lugar. Aliás, acho que provavelmente é onde o Rony está.

Ela o olhou esperando alguma reação, mas Harry fingiu estar mais interessado nas cigarras que cantavam até arrebentar num sicômoro plantado um pouco além da casa. Como ele não disse nada, Hermione prosseguiu.

– Então... vocês dois brigaram – não era uma pergunta.

Harry jogou longe um capim trazido pelo vento, com o qual brincava.

– Foi o Rony quem começou!

– É, eu imagino que sim.

A calma de Hermione o irritou.

– O Rony está passando dos limites!

– Grande novidade – retrucou a garota. – Afinal, por que foi que vocês discutiram dessa vez?

De novo, Harry não quis responder. Manteve os olhos fixos no horizonte como se ela não estivesse falando com ele. A verdade é que, por uma estranha razão, Harry não queria contar para Mione o motivo da briga. Não queria nem ver os olhos dela quando soubesse. Mesmo se sentindo injustiçado, ele não queria ver que, no fundo, a amiga concordava com Rony.

– Harry – novamente o tom condescendente como se ele fosse uma criança birrenta.

– Se você não achou o Rony, como sabe que a gente brigou?

– Gina – respondeu Hermione num tom óbvio. – Ela ouviu vocês dois berrando um com o outro.

Uma onda irreprimível de vergonha deixou Harry com o rosto em chamas e ele afundou a cabeça entre as mãos, soltando, dessa vez, um palavrão bem audível.

– Vai me contar por que vocês dois brigaram ou não? – Ela insistiu, ignorando o que ele tinha dito.

– Gina não ouviu e te contou?

– A Gina não ficou “ouvindo” a briga de vocês, Harry. Ela certamente tem mais o que fazer. Disse apenas que quando vocês dois começaram a berrar, ela ficou prestando atenção caso algum de vocês saísse virado pelo avesso do quarto do Rony.

Harry não conseguiu evitar um sorrisinho que sumiu assim que encontrou o olhar de Hermione. Ela não ia desistir e ele acabou capitulando.

– Convidei uma garota para ir comigo à festa.

– Ah! – Não havia surpresa nenhuma na voz dela. – Alguém que eu conheça?

– Bridget Mansfield. – Harry não conseguiu ocultar um certo tom de desafio ao responder.

– Hum... Lufa-lufa, um ano na nossa frente, meio atrapalhada. – Hermione ainda dividia as pessoas em suas casas. Não era um rótulo, apenas, como Harry já adivinhara, uma forma de organizá-las na imensa biblioteca que devia ser a sua cabeça. – Não combina muito com você. Sempre achei que corvinais e grifinórias fossem mais o seu tipo.

– É difícil definir o tipo de alguém que só teve duas namoradas – resmungou o rapaz. – Além do mais, é só um par para um baile e não um encontro... er... Você sabe... romântico.

– Sei.

– O que foi?

– A menina sabe que essa é a sua intenção?

Harry deu de ombros, mas depois pareceu incerto.

– Você acha que ela está imaginando que a gente vai...?

– Ah, com certeza. Você é Harry Potter. Não conheço nenhuma garota que indo a um baile com você e não pense em tirar uma casquinha. – A expressão obviamente apavorada de Harry fez Hermione rir. – Pensei que você já tivesse registrado isso na sua cabeça.

– Se eu achasse que todas as garotas eram assim, teria convidado a Romilda Vane!

– Ela continua perseguindo você?

Harry fez uma careta em resposta e Hermione riu mais.

– Pare de rir! Eu pensei que fosse minha amiga.

– E eu sou – ela confirmou tentando se controlar – mas admita que é muito engraçado ver ser aberta a temporada de caça ao grande Harry Potter.

– Não vejo graça nenhuma. É tão difícil colocarem na cabeça que não quero me envolver com ning... Que eu não tenho cabeça para...

Jogou mais um capim longe. O pior de tudo era realmente não poder admitir qual era a base de todo o problema. Ou quem. Não que ele achasse que alguém inteligente como Hermione não soubesse exatamente o porquê dele querer ficar sozinho. Harry fez menção de que ia falar alguma coisa, mas acabou engolindo o que ia dizer. Baixou a cabeça para tentar impedir que Hermione percebesse. Milagrosamente, ela resolveu deslocar o assunto.

– Você podia ter convidado a Luna. Ela já fez outras vezes esse papel.

– É... a Luna é legal.

– E por que você não a convidou? – Harry sentiu o rosto arder, mas desta vez não foi rápido o suficiente em olhar para o outro lado e Hermione não deixou escapar. – Você a convidou? Por que ela recusou?

– Como sabe que ela recusou?

– Você disse que ia com a tal Bridget – falou Mione colocando as mãos na cintura.

– Ela disse para eu... – resto da frase foi dito tão baixo que Hermione certamente não entendeu.

– Harry, fala isso em língua de gente!

– Ela disse que eu devia convidar a Gina. – O rapaz se mexeu desconfortável. – Disse que era o mais lógico.

– Ah!

Os dois ficaram em silêncio pelo que pareceu a Harry um longo tempo. Como Hermione não deu mostras de que voltaria a falar, ele acabou desabafando.

– É só que você tem a dizer? A Luna me dispensou e o Rony ficou furioso.

– É, eu imagino que tenha ficado. Gina disse que ouviu ele gritar que você tinha a mania de estragar tudo.

Harry ficou sem graça. Até porque, em parte concordava com Rony, embora soubesse que não teria agido diferente se as coisas se repetissem.

– Ela ouviu isso, é? Ouviu algo mais?

– Não sei – disse Hermione desinteressada. – Mas se Gina ouviu o Rony dizer que queria que você a convidasse, ela não me disse nada.

– Como você sabe que o Rony disse isso?

– Digamos que eu sei como a cabeça do Rony funciona – Ela esperou um pouco, mas Harry percebeu que a amiga ignorava propositalmente o sorriso malandro que ele lhe dava. – E também sei quando não funciona. O que é o caso agora – arrematou.

– Então você não vai me dizer que esperava que eu convidasse a Gina? – Perguntou incrédulo.

– Oh, claro que não. A Gina vai com o namorado dela, o Luc. Não adiantaria nada você convidá-la agora.

Harry tentou entender a expressão satisfeita com que Hermione apreciou o impacto da última frase nele. Virou o rosto para o prado e falou rápido.

– Foi o que eu tentei dizer ao Rony. Mas ele simplesmente não quis ouvir.

– Típico.

Novamente o sorriso malandro com o tom dela.

– Pode parar de sorrir, Harry.

– Por que você e o Rony não resol...

– Por que você não admite logo que ainda gosta da Gina? – Atalhou ela sem piedade.

– Nós já combinamos que...

– Ninguém combinou nada. Você decidiu.

– Mione, eu não quero falar sobre...

– Eu sei que você não quer falar. Então, enquanto não quiser falar sobre isso, não me venha falar sobre o Rony e eu, ok?

Os dois ainda ficaram um tempo em cima da casa. Em silêncio. Até que Hermione levantou e disse que ia atrás do Rony para ver se ele voltava a se comportar como um adulto. Harry entendeu que essa era a deixa para que ele também se mostrasse maduro e voltasse para dentro de casa.

Rony só apareceu pouco antes do jantar, puxado por Hermione e ainda emburrado. Na verdade, ele ficou ainda mais mal humorado quando Gina o recebeu com um: “Bateu a fome, é?” Rony não disse onde esteve e Hermione também não falou o que fez para achá-lo. De qualquer forma, Harry ainda estava suficientemente aborrecido para não fazer pergunta alguma a nenhum dos dois. A Sra. Weasley tentou por diversas vezes salvar o jantar narrando casos engraçados dos vizinhos, dos quais Harry e Hermione riam por educação, ou provocando o Sr. Weasley para contar coisas ocorridas no Ministério. Como os assuntos dele acabavam voltando a malfadada festa e cada palavra fazia Rony rosnar e assumir a cor de um tomate maduro, ela acabou desistindo.

Quem não capitulou tão fácil foi Gina. Ficou todo o tempo provocando Rony e só parou de arreliá-lo com o sumiço, que ela chamava de chilique, quando ele perguntou, em alto e bom som, onde Harry estivera durante toda a tarde. Por um instante, Harry achou que ela iria provocá-lo também, como costumava fazer antes. Mas havia o velho acordo. Aquele que eles nunca tinham feito, mas que dizia claramente que era melhor não fazer esse tipo de coisa e Gina optou por ficar quieta. Tão logo o jantar acabou, ela se recolheu dizendo que iria escrever cartas para suas amigas da época da escola. Não demorou muito para que eles a seguissem. Harry e Rony foram para seus quartos sem olharem um na cara do outro e Hermione, que naquela noite dormiria na Toca, disse um boa noite frio e sumiu pela porta do quarto de Gina.



****



Finalmente chegou o dia da bem-dita festa. Harry ficou um bom tempo apreciando o sol brincar no teto do seu quarto pelas minúsculas frestas da janela antes de levantar. O que ele não daria para dormir pesadamente e acordar apenas no dia seguinte quando tudo já tivesse passado? Antes que se desse conta, estava revisando todos os feitiços que conhecia como se houvesse neles uma solução. Não adiantou. Tudo o que conseguiu foi tornar a pedra que tomava conta do seu estômago mais dura. Ora, afinal do que ele estava reclamando? Estava vivo, não estava? Estava seguindo com a sua vida, exatamente como devia ser. Então, por que tudo parecia ser tão difícil?

Era só uma festa. Uma festa boba e idiota. Ele já tinha ido a outras exatamente como aquela e era mais jovem e mais inseguro. Então, não precisava agir como se estivesse indo para o inferno. Harry conhecia o inferno. Morara lá até os onze anos e depois voltara como visitante para ver Cedrico, Sirius e Dumbledore serem assassinados na sua frente. E isso fora apenas o começo.

Esfregou os olhos com violência como se isso pudesse afastar as imagens que vira na guerra e que estavam gravadas à fogo na sua retina. Não, não ia voltar a pensar nisso. O inferno tinha acabado e tudo o que ele precisava fazer era levantar daquela cama e no fim do dia ir a uma festa com uma garota. Uma garota bonita que, segundo Hermione, estava louca para ficar com ele sem que, provavelmente, ele precisasse nem se esforçar. Podia ouvir os gêmeos rindo dele e o chamando de maricas se soubessem do dramalhão que ele estava fazendo.

Ele não queria um futuro? Um futuro sem Voldemort? Ótimo! Estava diante dele e estava lhe sorrindo com todos os dentes perfeitamente alinhados e brancos de Bridget Mansfield. Que mal havia em agarrá-lo? Ele era um adulto, certo? Sabia superar seus próprios erros e aproveitar as suas oportunidades e era o que ele ia fazer.

Jogou as pernas para fora da cama cheio de vigor, pegou sua toalha e seguiu para o banheiro, cheio de resolução. Saiu para o corredor e andou com tanta disposição até o banheiro que nem percebeu quando a porta deste abriu e um pequeno furacão ornado por uma juba ruiva saiu de lá.

– ‘Dia, Harry.

– ‘Dia, Gina. Onde é o incêndio?

– Engraçadinho. Eu tenho hora na Madame Malkin e no Chester e estou super atrasada.

– Chester?

– Chester Hampshire. – Harry arqueou a sobrancelha. – O cabeleireiro. Ah, deixa pra lá!

O garoto quase riu. No momento Gina parecia mesmo precisar de um cabeleireiro, com o rosto inchado e os cabelos semi-presos em um rabo-de-cavalo quase totalmente desfeito e com alguns fios que pareciam ter recebido uma descarga elétrica.

– Mas você deitou cedo, ontem.

– Fiquei até tarde escrevendo cartas – ela respondeu rapidamente. – Ai Harry, eu não posso ficar conversando com você agora – gemeu com urgência e o afastou do caminho num gesto rápido.

Harry ficou acompanhando-a com os olhos enquanto ela desaparecia pela porta do quarto. Parecia ainda menor com o pijama imenso que estava usando e que Harry achou que devia ter sido de um dos meninos Weasley em alguma época remota. Provavelmente de Gui, que era o irmão que ela idolatrava. A barra da calça ficava tão comprida que era possível ver apenas as pontinhas dos pés descalços deslizando rápidas pelo chão de madeira. Ele não percebeu que tinha ficado congelado no lugar em que estava, nem mesmo quando o vulto ainda mais escabelado de Hermione saiu do quarto e se enfiou no banheiro, tomando a sua vez.

Alguém limpou a garganta umas duas vezes antes que Harry voltasse a erguer os olhos do lugar onde vira os pés de Gina desaparecerem. Rony o observava da escada que dava para o terceiro andar e não havia dúvidas sobre o que ele vira ou estava pensando. Harry teve de engolir o palavrão que veio imediatamente a sua cabeça.

– O que é? – Perguntou com maus modos.

– Eu já disse e vou repetir: você é patético.

Por um segundo Harry até pensou em dizer que Rony estava vendo coisas e imaginando bobagens, mas não foi isso que saiu da sua boca.

– Se eu sou patético, você é o que?

– Eu pelo menos, sei que estou no jogo, cara. Não fico fugindo dele.

– Mesmo? – Harry jogou todo o sarcasmo que podia. – Afinal, com quem mesmo que você vai à festa?

Rony cruzou os braços, mas não pareceu se abalar.

– Surpresa.

– É? E a Mione?

– Com o Neville.

– Que seguro! E eu é que sou patético?

O amigo confirmou com a cabeça e um sorriso irritante que fez Harry bufar e erguer o dedo na cara dele.

– Escute aqui, Rony...

– Escute você, Harry. Eu não sei quantas vezes o cara de cobra bateu nessa sua cabeça dura para te deixar lesado desse jeito. Mas eu não vou deixar você estragar a vida da minha irmã e a sua por causa disso.

Ia recomeçar. Eles iam discutir outra vez. Rony voltaria a dizer as mesmas coisas enquanto Harry tentaria convencê-lo que era justamente na felicidade de Gina que ele estava pensando e que por isso era melhor deixar as coisas exatamente como estavam. Mas ele estava cansado.

– Desiste, Rony.

– Nunca.

– Você ainda vai se arrepender disso, sabia?

– Veremos!

Furioso, Harry simplesmente deu às costas ao amigo e voltou para o próprio quarto. Só sairia de lá depois que ouvisse que Mione tinha liberado o banheiro.

Rony apenas sentou calmamente no pé da escada. Continuava convicto de que estava certo apesar de tudo o que Harry dizia. Tinha certeza. Ele, Rony Weasley, ia provar. Era como um jogo de xadrez com peças muito teimosas. Mas ele raramente perdia um jogo e não estava nem um pouco disposto a perder este.




O castelo de Chenonceau tem varias características bem incomuns. Primeiro, ele foi construído e quase sempre governado por mulheres. Depois, fica localizado em cima do rio Cher, no vale do Loire. Bem claro, ele não fica às margens do rio, mas exatamente sobre ele. Sua história é, na verdade, um pouco diferente da que é conhecida pelos trouxas. Quando foi construído, o castelo não apenas sobre o rio, ele flutuava devido a um feitiço permanente criado pela sua idealizadora, uma bruxa poderosa que gostava de castelos e homens bonitos. Mas, devido uma série de dívidas contraídas pelo seu quarto marido – um jovem belo e apreciador de jogos de cartas – o castelo acabou passando às mãos de um rei trouxa, que conhecia e circulava pelos meios bruxos. Por fim, Chenonceau acabou sendo dado de presente por este rei à sua amante.

Dizem que esta era não apenas uma mulher inteligente, mas também muito bonita – existem quadros dela para garantir isso. E, é claro, era bruxa. A pedido do seu amado, ela fixou o castelo numa das partes mais encantadoras do rio, colocando-o sobre uma ponte. Protegidos por bosques foram construídos amplos jardins, bem simétricos, como os franceses gostam. No outro lado do rio, ou no que seriam os fundos do castelo, os bosques foram mantidos intocados e dizem que serviram de cenário para mais de um encontro amoroso entre os amantes. Talvez por isso, o castelo conserve uma notável atmosfera romântica que nem as brigas entre bruxos e trouxas por sua posse conseguiram apagar.

Após a revolução francesa, o governo dos trouxas finalmente parou de brigar e concordou em dividir o poder sobre o prédio. Embora a separação entre os povos já estivesse em vigor, nenhum dos lados considerava a possibilidade de perder o acesso ao magnífico castelo.

Assim, hoje ele é visitado por trouxas e bruxos vindos do mundo inteiro. O dia dos bruxos para visitar o castelo é segunda-feira, dia em que tradicionalmente os museus trouxas fecham. Isso foi convencionado pelo Acordo Internacional de 1871, sobre o Uso de Prédios Históricos Relevantes para Bruxos e Trouxas. É claro que não é pouco tempo. Não com um imenso vira-tempo, localizado em Greenwhich, que tem como função alongar quase interminavelmente as segundas-feiras. Infelizmente, isso reflete no mundo todo e os trouxas vivem reclamando disso, mesmo que nem sonhem o porquê. O governo francês tentou impedir que os bruxos fizessem isso depois do incidente de 1968, quando teve uma segunda-feira que durou quase 50 horas, mas os bruxos garantiram que ou era isso, ou iriam querer mais dias para visitarem lugares como Chenonceau.

De resto, os dias de visitas nem são tão diferentes assim se for considerado apenas o público. As máquinas dos turistas japoneses são tão esquisitas quanto as dos bruxos. Já em termos de roupas, os trouxas vindos das Américas ou da África são bem menos sisudos que os europeus e, provavelmente, veriam os bruxos de chapéu pontudo como uma das trupes artísticas que circulam pelo vale dando shows.

Hermione passou o dia inteiro de sábado contando tudo que sabia sobre o castelo. Ao chegar próximo à hora de ir buscar Bridget, Harry tinha certeza que poderia servir de guia turístico para quem quisesse conhecer o bendito castelo durante a festa. Talvez isso o ajudasse a fugir dos políticos. Ou, quem sabe, impressionar Bridget: “Harry Potter não é só o cara que derrotou Voldemort, ele também é culto”. Ainda assim, por mais fascinante que fosse, ele teve de fazer um grande esforço para não bocejar quando Hermione repetia pelo décima vez a história de Chenonceau para Fred e Jorge, que tinham acabado de chegar.

– Mas se o dia dos bruxos é segunda-feira – questionou Jorge enquanto a senhora Weasley lhe arrumava a gravata – por que a festa vai ser no sábado?

– A Confederação fez um acordo – explicou Hermione. – Para os trouxas, o castelo está passando por uma pequena reforma de verão que vai durar todo o fim de semana. Em compensação, o museu vai abrir para os trouxas e não para os bruxos na segunda.

– Bem – comentou a Sra. Weasley dando um tapinha no ombro de Jorge e passando a conferir a gravata de Fred que estava logo atrás – eu sempre quis que seu pai me levasse para o vale numa segunda lua-de-mel. Quem sabe o tal romantismo mágico do castelo não o anima. Não é, Artur?

– Hã, o quê? – O senhor Weasley vinha descendo as escadas com a gravata nas mãos. – Claro Molly, querida.

Ela apenas revirou os olhos e despachando Fred começou a arrumar a gravata do marido. Depois conferiu como estavam amarradas as de Rony e Harry, que ela considerou excelentes, o que deixou Hermione muito satisfeita, pois fora ela que fizera o feitiço para amarrá-las. Gui e Fleur iriam direto para a festa e Carlinhos também. Harry agradeceu mentalmente não ter de encontrar com Fleur antes da festa ou teriam mais uma preleção sobre Chenonceau.

Após conferir todos na casa e elogiar grandemente às meninas, a Sra. Weasley deu um gritinho ao olhar o relógio e tocou os rapazes para fora de casa para que fossem pegar os seus pares. Harry estava na porta quando Neville chegou para acompanhar Hermione. Rony não foi muito simpático com o amigo, mas Harry não pode censurá-lo. Logo atrás vinha Luc e ele próprio não se sentiu muito simpático em cumprimentar o francês.

Ainda era dia claro quando Harry desaparatou no bosque que ficava em frente ao castelo, com Bridget pendurada em seu braço. Ele a achou muito bonita, quando foi pegá-la em casa. Usava um vestido rosa com os ombros nus e o cabelo louro e fino tinha sido preso no alto da cabeça num coque elegante. Os olhos de um azul pálido brilhavam intensamente. A festa estava marcada para as oito e trinta da noite, mas com os longos dias de verão, o sol ainda continuava bem visível e o calor não dera ainda mostras de amenizar.

– Vinte e quarenta e três, dois de Bath – falou em voz alta um bruxo sisudo e de aparência cansada. Harry achava, desde a Copa Mundial, que todos os funcionários que trabalhavam no Departamento de Controle de Transportes Mágicos pelo mundo afora tinham aquela aparência. O homem, no entanto, mudou imediatamente de expressão ao colocar os olhos em Harry.

– Sr. Potter?! Mas isso é excelente. Hei, Rémy! Olhe! É Harry Potter! Ele veio!

O homem chamado Rémy saudou Harry de longe e acabou se atrapalhando com seu grupo de aparatação. Aparentemente o vestido de noite de uma bruxa que acabara de chegar não viera inteiro e ela começou a berrar. O funcionário a sua frente, porém, não pareceu se atentar para a gritaria. Aproximou-se para apertar a mão de Harry e, claro, correu os olhos para verificar a cicatriz em forma de raio na testa do rapaz.

– Nossa! É Harry Potter mesmo!

– É, sou – disse um pouco constrangido ao homem, que tinha um forte cheiro de cigarro e um carregado sotaque francês, e parecia genuinamente encantado em conhecê-lo. Harry tinha certeza de que provavelmente morreria sem se acostumar com aquele tipo de reação.

– Todos estavam apostando se o senhor viria desta vez ou não, mas eu disse que nem Harry Pottter resistiria a conhecer Chenonceau.

– É. – Harry se sentiu muito desajeitado enquanto o homem o esquadrinhava esperando, certamente, uma resposta mais inteligente. – Eu soube que é magnífico.

O francês pareceu muito satisfeito e sorriu.

– Obviamente – falou com orgulho. – É uma das preciosidades da Arquitetura francesa. E... – ele se curvou e baixou a voz de um jeito cúmplice, como se esperasse que somente Harry o ouvisse – as garotas acham o lugar muito romântico também. – Insinuou cheio de sugestão, olhando Bridget de cima à baixo e piscando o olho.

Harry começou a sonhar imediatamente com um imenso buraco onde ele pudesse se jogar. Não tinha dúvidas de que a garota havia ouvido o comentário. Ela ficou com as bochechas vermelhas, mas não pareceu aborrecida. Muito pelo contrário, o sorriso pareceu ampliar, o que deixou o funcionário francês bem satisfeito.

Tentando não parecer indelicado, Harry conseguiu finalmente seguir para o castelo. A sombra fechada do bosque estava iluminada por inúmeras fadas decorativas, prateadas e douradas, que apontavam o caminho para a entrada principal.

– Acho que estamos um pouco atrasados – ele comentou para puxar assunto.

– Não, acho que não. Tenho certeza de que nosso horário de aparatação foi marcado para ser um dos últimos.

– Por quê?

– Bem, você é o convidado de honra, não é? Todos querem ver quando você chegar.

Ela apertou amistosamente o seu braço como se estivesse lhe revelando algo maravilhoso. Harry sentiu novamente o estomago afundar e uma vontade enorme de sair correndo dali. Os dois finalmente chegaram aos portões que, normalmente, eram ladeados por duas esfinges de pedra. Mas, para a festa, os organizadores tinham permitido que elas voltassem à sua forma natural. Por um segundo, Harry imaginou se não teriam de descobrir um enigma para entrar, mas as esfinges se limitaram a exigir que eles mostrassem os convites.

– Uau! – Exclamou Bridget, mas ela imediatamente conteve o entusiasmo. Harry notou que ela parecia preocupada em não parecer deslumbrada, mas ele certamente não a culparia. A vista dos jardins de Chenonceau com o sol do fim da tarde era realmente de tirar o fôlego. Os jardins simétricos já estavam iluminados e seriam um outro espetáculo quando a noite caísse. À frente, se erguia o castelo com suas paredes brancas e suas torres e torrinhas encimadas por telhados azuis. Sob ele, o rio Cher, num verde cristalino, passava calmamente.

Várias cabeças viraram enquanto os dois seguiam pelo jardim. Muitos apontavam e havia os que cumprimentavam Harry de longe, como se fossem velhos amigos. Mais além, havia um palco armado de onde vinha uma música suave que parecia se irradiar por todo o lugar. Sobre o palco estava um grupo de cordas que tocava sem músicos. Não demorou muito para que eles avistassem os Weasley parados próximos à antiga torre de vigilância. O Sr. e a Sra. Weasley acenaram. Estavam acompanhados de Gui e Fleur, Carlinhos, Fred e Jorge. Cada um com um par que Harry nunca tinha visto.

– Bela festa, não? – Comentou o Sr. Weasley sorrindo bem humorado. – Os franceses adoram essas coisas grandiosas, mas pelo menos não temos dúvidas de que o jantar vai ser excelente.

Harry concordou e logo depois apresentou Bridget e apertou as mãos das acompanhantes dos amigos. As jovens pareceram muito empolgadas em conhecê-lo, mas a essa altura ele já estava achando difícil alguém superar Bridget nesse quesito. Mesmo tentando controlar o que dizia, a menina parecia inchar a cada vez que alguém a reconhecia ou perguntava quem era a moça que estava com Harry Potter. A empolgação já havia lhe rendido uns tropeções dos quais ela rapidamente se recuperou.

Hermione e Neville vieram do outro lado do jardim que ela tinha exigido conhecer inteiro antes que o sol se pusesse. A Sra. Weasley informou, sem que Harry perguntasse, que Gina tinha entrado no castelo para ser apresentada à família de Luc e que agora só faltava o Rony chegar.

– Não falta mais – disse ele chegando por trás de Harry acompanhado por uma jovem negra literalmente de parar o trânsito. – Espero que a gente não tenha perdido nada.

Rony causou exatamente o impacto que queria com a sua chegada, afinal, seu par era Angelina Johnson, um das meninas mais disputadas de sua época em Hogwarts. O queixo de Harry tinha caído, mas Rony gostou mesmo foi de perceber o choque de Hermione e Fred. A amiga, depois de alguns segundos, cumprimentou calorosamente Angelina, mas Rony a conhecia o suficiente para perceber que aquilo era encenação. Fred, no entanto, parecia prestes a pular no seu pescoço e fazê-lo em pedacinhos ali mesmo. Jorge até tinha colocado a mão no ombro do irmão como se o segurasse.

Tinha sido uma sorte encontrar Angelina, por acaso, dias antes da festa. Ela e Fred haviam terminado, há alguns meses, o namoro iniciado durante a guerra. Ao que parece, a zanga dela com o ex-namorado já tinha passado o suficiente para que ela quisesse provocá-lo e um par “arrasa quarteirão” era tudo o que o Rony precisava, especialmente depois de Hermione ter recusado vir ao baile com ele. Sim, Rony a tinha convidado. Usou argumentos diversos. Que ele lhe devia um convite para um baile, que iriam apenas como amigos e conspiradores para tentarem aproximar Harry e Gina, que ele até já sabia dançar. Mas Hermione agradeceu e disse que era melhor que eles fossem com outras pessoas para não criar expectativas erradas na família dele. Assim, Rony achava que o seu acordo com Angelina talvez fizesse Hermione se arrepender.

O Sr. Weasley percebeu o clima e convidou todos para entrarem e aproveitarem para conhecer o castelo, enquanto os discursos não começavam. Entraram pelo amplo saguão e antes de seguirem para a grande galeria, onde seria a festa, circularam pelos aposentos decorados com móveis de época. Neville, num rasgo de sensibilidade, começou a incentivar Hermione a falar sobre o castelo e isso ajudou a que ela parecesse mais à vontade. Mas ninguém estava divertindo mais Rony do que Fred. Sabia que era provavelmente um homem morto, mas ainda assim estava valendo a pena.

Deram por encerrada a visita quando uma voz magicamente ampliada começou a convidar todos a se dirigirem para o salão, que o jantar logo seria servido. A Grande galeria, onde seria a festa, era um salão amplo e comprido que se estendia por sobre o rio e pelas janelas era possível observá-lo passando por debaixo do castelo. No chão, ladrilhos pretos e brancos davam um toque moderno à decoração. O grupo ocupou duas grandes mesas redondas e logo Gina e Luc vieram juntar-se a eles. Rony estava disposto a reverter o que ele chamava de um lance infeliz do adversário. Assim, estava apostando todas as suas fichas em tentar fazer com que Harry e Gina dançassem durante o baile. Talvez por causa de todos esses planos é que os discursos que antecederam o jantar estivessem especialmente chatos.

– Me permitam dar as boas-vindas a todos nessa noite adorável – começou o presidente da Confederação Internacional dos Bruxos, Kalidasa Holofernes, um bruxo moreno, baixo e maciço que vestia amplas vestes roxas e laranjas. – É um grande prazer podermos comemorar juntos o Quintocentésimo Vigésimo Oitavo Baile Anual de Confraternização e Apoio às Causas Relevantes e Significativas para as Comunidades Bruxas do Mundo. E com ele saudarmos este ano que passamos em paz após os inúmeros sofrimentos que nossa comunidade sofreu nos anos anteriores, especialmente os irmãos que moram na Grã-Bretanha. Tivemos, no entanto, a sorte de termos heróis que não hesitaram em se sacrificar em nome da liberdade e da justiça...

Rony virou o rosto para janela. Já ouvira aquela conversa antes. Era típica de bruxos que tinha ficado em casa ou nos seus gabinetes, seguros, enquanto esperavam que um menino de 17 anos resolvesse o problema por eles. Não criticava o fato de Harry não querer vir àquele tipo cerimônia. Elas eram ridículas mesmo. Não que Rony achasse que os outros não tinham tido perdas, mas ninguém ali tinha a menor condição de sequer chegar perto do Harry já tinha passado. Nem ele, que havia perdido um irmão, ou Mione, que perdera o pai, que estiveram com Harry quase o tempo todo se sentiam no direito de comparar-se com tudo o que ele havia passado. Chamá-lo de herói era uma forma confortável de se desculparem por não terem feito nada de útil, enquanto um maluco homicida detonava com a adolescência deles todos.

Os aplausos arrancaram Rony dos pensamentos.

– Ué? Eles não iam te dar uma medalha?

– Era uma comenda, Rony – explicou Hermione, Rony revirou os olhos. “Como se houvesse diferença”.

Harry se recostou na cadeira e sorriu daquele jeito que ele fazia quando as coisas aconteciam como ele queria.

– Eu disse para eles que não viria se eles quisessem me dar qualquer coisa do gênero. Foi a minha condição para aparecer aqui.

Os garotos Weasley adoraram. Todos ergueram os copos e brindaram a Harry, pois era exatamente o que esperavam dele. Apenas a Sra. Weasley não pareceu gostar.

– Mas Harry, querido, você merece. Foi você quem nos salvou.

– Eu mereço bem menos que o Percy, Sra. Weasley. Ou Dumbledore ou Sirius. Eles morreram para que essa gente pudesse fazer festa hoje. Eu não mereço medalha nenhuma. Eu não tive escolha para fazer o que fiz.

A Sra. Weasley encheu os olhos d’água e abraçou Harry dando-lhe um beijo estalado na bochecha.

O jantar, pelo menos, fez jus à fama dos franceses como cozinheiros. Ou, no caso, dos elfos franceses. Enquanto os discursos se alongavam, as mesas se encheram de melões vermelhos cobertos com grossas fatias do excelente presunto da região e variados canapés. Assim que os membros da Confederação terminaram o falatório, as mesas apareceram as entradas de patê de foiê, ostras e coquetéis com camarões que mais pareciam lagostas. O prato principal foi um pato ao molho de ameixas que deixou os convivas com sorrisos bobos no rosto. Na verdade, a sobremesa foi a parte mais difícil do cardápio. Rony e os irmãos consideraram uma crueldade serem obrigados a escolher uma entre as deliciosas patisseries que eram oferecidas.

Na altura em que o baile começou, o clima já estava bem mais leve nas mesas do grupo. Talvez fosse o fato de que Fred e Angelina não paravam de se olhar e de Rony não dar mostras de chegar perto de sua acompanhante. Estava mais ocupado mantendo Luc entretido para que ele não ficasse agarrando Gina e monitorando, com o canto do olho a conversa de Hermione com Neville. Bridget estava envolvida numa conversa com a Sra. Weasley e Fleur, tentando francamente agradá-las, enquanto Harry discutia Quadribol com o Sr. Weasley, Gui e Carlinhos e era volta e meia interrompido por algum figurão que queria cumprimentá-lo. Na verdade, o assédio foi menor do que Rony tinha imaginado. É provável que a recusa da comenda tenha feito os bruxos da Confederação pensarem que se pressionassem Harry demais, ele acabaria indo embora. E claro que eles não queriam isso. Como o Sr. Weasley percebera antes do jantar acabar, só o fato de Harry estar ali significava ganhos políticos extraordinários daquela gestão junto à comunidade bruxa. E ninguém queria colocar isso a perder.

Jorge e Lisa, seu par, foram os primeiros da mesa a irem dançar, seguidos por Gui e Fleur, o Sr. e a Sra. Weasley, Neville e Hermione. O par de Fred começou a pressioná-lo para que fossem para a pista e ele acabou cedendo, muito contra a vontade. Em pouco tempo todos estavam na pista.

– O que foi? – Perguntou Angelina porque Rony não parava de se virar. – Hermione está dançando bem comportada com o Neville.

Ele riu.

– Não estou preocupado com a Mione. O que me preocupa é o namoradinho da minha irmã.

– Por quê? Ele me parece bem respeitoso. – Rony fez uma careta. – Ah, ok, entendi. Não se preocupe. Harry também não tira os olhos dos dois.

Rony acompanhou o olhar do amigo e sorriu.

– Me diz como alguém pode ser tão tapado?

– Deve ser a convivência. – Rony arqueou a sobrancelha. – Exatamente. Com você e aquele tonto do seu irmão.

– Hei! Eu tenho meus motivos. Nós já conversamos sobre...

– Ok, ok. Eu sei que você está respeitando o tempo da Hermione. Mas vou te dizer uma coisa, Rony. Tem vezes que o que as mulheres querem é exatamente que alguém desrespeite as vontades delas. Se quer a minha opinião? Não espere demais, ok? Ou vai perdê-la para alguém menos compreensivo. – Rony não soube exatamente o que responder e Angelina apenas sorriu. – Mas seu irmão é um trasgo cego e retardado, ok?

– O Fred? – Rony gargalhou. – Concordo plenamente. Mas vou te pedir uma coisa, se ele quiser se vingar de mim por termos vindo juntos, o impeça de usar aranhas na vingança, ok? Com o resto eu me viro.

Angelina riu e concordou, mas o sorriso logo sumiu.

– Oh, oh!

– O que foi?

Ela fez um movimento de cabeça para o lado do salão em que Gina dançava com Luc. O rapaz a estava beijando. Rony virou a cabeça imediatamente em direção a Harry. O amigo pareceu congelar por um segundo, antes de, com uma expressão bem decidida, dizer algo a Bridget e os dois saírem da pista de dança.

– Onde é que ele vai? – Perguntou Rony aflito.

– Pelo visto para o bosque atrás do castelo.

– Mas lá é...

– Exatamente – concordou Angelina. – Acho que aquela coisa que ele te disse de não ser um encontro, já era.

– Droga!

– O que vai fazer?

– Sei lá. Mas já me basta ter de lidar com o namorado da Gina. Se o Harry também tiver uma namorada, as coisas vão complicar. – Rony observou o casal sumir pela porta da grande galeria que levava ao outro lado do rio.

– Vai atrás deles, então.

– É... Boa idéia, eu...

– Leve a Hermione com você.

Rony olhou para Angelina, agradavelmente surpreso. Era muito bom ter uma parceira de jogo tão atenta.

– E você?

– Não se preocupe comigo, se você sumir, com a cara que a metidinha que está acompanhando o Fred está, eu tenho certeza de que não vou ficar sozinha muito tempo. Como eu disse antes, Rony. Minha parte ia ser fácil.

O rapaz riu.

– E a outra é que é metida, é?

– Some logo daqui, seu bobalhão, ou daqui a pouco seu amigo volta de lá com anel no dedo.

Rony deu um beijo na bochecha de Angelina e saiu apressado. Na passagem pegou a mão de Hermione e a arrastou com ele pedindo desculpas rapidamente para Neville, que ficou plantado no meio do salão.

– Rony, o quê você está fazendo? – Reclamou a garota.

– Harry foi para o bosque com aquela garota.

– E daí? – Ela estava se esforçando para acompanhá-lo com os saltos altos e o longo vestido amarelo-ouro que usava. – Não podemos fazer nada.

– Você é quem pensa. Temos que fazer alguma coisa.

– Rony! – Hermione meio tropeçou no degrau que descia para a porta dos fundos do salão. – Você enlouqueceu!

O rapaz enlaçou-a pela cintura para lhe dar mais firmeza para caminhar, mas não diminuiu o passo.

– Tudo o que a gente não precisa é do Harry namorando essa tal, Mione. Só vai dificultar as coisas. Você tem me impedido de botar aquele francês enxerido a correr, mas essa história do Harry é melhor nem deixar começar.

Hermione tentou argumentar, mas Rony estava irredutível e ela achou melhor acompanhá-lo do que deixá-lo ir sozinho e fazer uma besteira.

– Você viu o que o idiota fez no salão?

– Harry?

– Não, o Luc.

– Ele beijou a Gina.

– Ah sim, a coisa mais normal do mundo, não é? – Ironizou Rony.

– Eles estão namorando.

Rony rosnou.

– Foi por isso que o Harry veio para cá com a talzinha. Deixe-me pegar a Gina sozinha, ela vai ouvir.

– Rony, você não está sendo racional. Gina está tentando refazer a vida dela.

O rapaz estacou na entrada do bosque e se voltou para ela.

– Você tem alguma dúvida de que eles ainda se gostam?

– Olha Rony, eu tenho certeza de que o Harry ainda sente algo pela Gina sim. Mas ele acha... Acha que ela tocou a vida dela em frente e, bem, a verdade é que eu não tenho certeza de que Gina ainda goste dele mais do que como amigo.

– De onde você tirou essa idéia?

– Rony, eu tenho observado Gina e Harry atentamente nesses últimos dias. Você está certo quanto a ele, mas ela não me parece ainda gostar dele.

Com uma expressão impaciente, Rony começou a puxar Hermione para a esquerda pela estradinha que ladeava o bosque e o rio.

Lumus! – Ordenou para a varinha que imediatamente acendeu

– Você ouviu o que eu disse?

– Ouvi! Mas não concordo.

– É mesmo, gênio da interpretação sentimental? – Debochou Hermione. – E como você chegou a essa brilhante conclusão?

– Simples – respondeu inabalável sem parar de puxá-la. – No que se refere ao Harry, Gina se tornou a melhor mentirosa que eu conheço. Ela já me enganou com esse teatrinho uma vez, mas não vai enganar de novo. Aposto o que você quiser que ela está morrendo por dentro nesse instante porque o viu sair para cá com outra garota.

Hermione revirou os olhos, mas não teve coragem de retrucar. Havia lógica no que Rony dizia. Ela própria já incentivara Gina a usar a tática do “estou nem aí” em relação ao Harry. Por que ela não a usaria novamente?

A luz da varinha que Rony empunhava ia iluminando o caminho. Nas partes mais escuras, pois onde não havia sombra das árvores, uma bela lua cheia prateava o rio e suas margens. A iluminação exagerada do castelo e dos jardins também servia para deixar tudo mais claro, por isso Rony ia observando atentamente o que se escondia sob as árvores. Não demoraram muito a passar por vultos que se mexiam ali. Rony forçou a luz sobre a dupla e ouviu imediatamente um gritinho e um palavrão. Logo depois o casalzinho que se amassava ali começou a xingá-los.

– Desculpe – pediu Hermione, mas Rony nem se deu ao trabalho, perdeu o interesse assim que viu que não eram Harry e Bridget e seguiu em frente.

Surpreenderam mais alguns casais na mesma situação e Hermione já não sabia mais onde se esconder de vergonha, até que Rony estacou com os olhos fixos na beira do rio.

– O que foi?

– Estão ali em baixo – sussurrou Rony, apagando imediatamente a varinha e puxando Hermione para que se aproximassem.

– Certo. E o que vamos fazer? – Ela sussurrou de volta.

– Eu não sei. Mas se algo acontecer eu penso em alguma coisa.

– Como o quê?

– Sei lá! Jogar um balde de água fria nos dois.

– Oh, que idéia genial! Tem mais de onde saiu essa?

– Não enche.

Os dois começaram a se agachar para chegarem mais perto, mas como a lua estava muito clara não puderam sair da sombra das árvores ou seriam vistos. Da distância onde estavam, porém, não dava para ouvir o que os dois conversavam.

– Droga! Eu queria ter uma orelha extensível aqui.

– Você realmente não conhece o sentido da palavra privacidade, não é?

Ele soltou o ar, aborrecido.

– Eu não devia era ter trazido você.

– Como se eu fosse deixar você vir aqui sozinho meter os pés pelas mãos.

– Pelo menos eu não teria de aturar você reclamando o tempo todo.

Os dois continuaram discutindo aos sussurros e foram surpreendidos quando ouviram a voz de Harry um pouco mais próxima. Ele e Bridget estavam subindo da margem do rio em direção à estradinha que ladeava o bosque e vinham exatamente na direção em que Rony e Hermione estavam.

– Ah meu Deus, eles estão vindo para cá.

Hermione deu um puxão em Rony para que eles se escondessem e fugissem da luz da varinha que Harry empunhava para iluminar o chão. No entanto, Rony tropeçou e Harry e Bridget perceberam que tinha mais alguém ali. Foi muito rápido. Mas Rony não teve outra alternativa para que o amigo não os descobrisse.

Sem muito tempo para pensar, ele empurrou Hermione contra uma árvore e a beijou. Ninguém em sã consciência ficaria parado observando um casal no meio de um amasso numa situação daquelas. Harry provavelmente nem olharia a dupla por tempo suficiente para reconhecê-los. Mas se ele fez ou não, Rony não saberia dizer. Harry sumiu completamente da cabeça dele enquanto seus lábios estavam colados aos de Hermione por um tempo que ele não saberia precisar. Os dois ficaram quase como que congelados, os olhos abertos, assustados. Rony tinha certeza de que seu coração iria sair pela boca e percebeu que, os braços de Hermione, sob seus dedos, tremiam violentamente.

Ele se afastou, mas foi incapaz de soltá-la ou de deixar de olhar dentro dos olhos dela. Os cachos cuidadosamente domados emolduravam o rosto da jovem e exalavam um cheiro delicioso. Aquele mesmo cheiro que ele adorava que, depois de passarem muito tempo juntos, ainda ficasse nas roupas dele. Pensou em todas as coisas que vinha armando nos últimos tempos. Pensou no tempo que tinha prometido a si mesmo e a ela. A promessa de não forçar nada. Mas antes que pudesse tomar qualquer decisão racional sentiu que estava puxando Hermione para si novamente e a beijava longa e profundamente. Os olhos estavam bem fechados agora, mas ele sentiu que suas mãos escorregavam para a cintura da garota e que ela o enlaçava pelo pescoço. Todos os pensamentos simplesmente sumiram. No momento, tudo o que ele pensava é que estava beijando Hermione. E ela correspondia. O resto do mundo podia explodir.

“Xeque-mate!”


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N/A: Volteiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!
Vocês não imaginam a minha felicidade em terminar esse capítulo. Estou viciada em escrever, eu realmente preciso disso. E escrever este, tão longamente pensado e maturado, foi um enorme prazer.

A música deste capítulo existe em duas versões, uma em francês (achei que combinava com o cenário) e outra em inglês e as letras são um pouco diferentes, mas ambas são lindas. Em francês: Les Yeux Ouvertes, e em inglês, Dream a little Dream, a banda é o The Beautiful South. Inflezmente, dessa vez eu ainda não consegui postar a música na minha página no Multiply (www.salyowens.multiply.com). Mas prometo resolver isso o mais breve possível.

Bem, esta vai ser uma nota curtinha. Infelizmente, não poderei responder nominalmente todas as reviews maravilhosas que recebi para o último capítulo. Quem me conhece sabe o quanto lamento, pois prezo muito responder a todos que disponibilizam seu tempo para comentar o que escrevo, mas prometo fazer isso no próximo, ok? Se fosse fazer isso hj acabaria não cumprindo a minha promessa de postar o capítulo no findi e acho que vocês não prefeririam isso, não é?

Assim, saibam que agradeço de coração a todos os comentários maravilhosos, gentis e encantadores que tenho recebido, seja daqueles que já acompanham minhas fics a algum tempo, seja dos novos leitores. Obrigada a todos, mesmo.

Por fim, um último pedido. Os que deixarem comentários, que amo tanto ler, por favor, cliquem naquela caixinha que diz para enviar o comentário para o e.mail do autor. No último capítulo, a FeB passou por uma pane e perdi muitas das coisas maravilhosas que vocês escreveram. Os que vieram para o meu e.mail estão seguros, guardados, mas perdi coisas que não poderei reaver. Agradeço desde já.

Um beijo enorme, estava com saudades.
Sally

P.S.: O Retorno sai de presente de Páscoa.

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