O Dia Seguinte




Harry acordou com a cabeça latejando e o corpo dolorido. Onde enfiara seus óculos? Tateou ao redor para descobri-los caídos poucos centímetros ao seu lado, e ao colocá-los o mundo entrou em foco outra vez.

A primeira coisa que viu foi Hermione, deitada sob seu braço – que, por sinal, estava dormente - logo ao lado. Ele suspirou e sorriu. Com todo o cuidado para não acordá-la, Harry se levantou e cambaleou para cima de uma almofada, sentando-se. Fez alguns movimentos com o braço para reativar a circulação no tecido, e então concentrou-se em observar o sono da garota atenciosamente.

Mione estava linda, do seu ponto de vista. A camisa do uniforme quase toda desabotoada, deixando a vista sua barriga e umbigo, era a única coisa que ela vestia por cima das roupas de baixo. Mesmo sentindo-se tentado a continuar admirando-a, Harry achou melhor cobri-la com sua capa para que ela não pegasse um resfriado.

Estava sentindo-se muito mais leve do que estivera desde que tudo aquilo começara, no início de Setembro. De certo modo, as coisas estavam muito mais claras, e ele agora tinha certeza absoluta do que sentia por Hermione e, portanto, sabia o que tinha que fazer. Sim, ela era a namorada do seu melhor amigo. Mas, infelizmente, a vida lhe pregara uma peça das boas, e ele não tinha outra alternativa a não ser lutar para estar com Mione. Se isso significasse ter que magoar os sentimentos do amigo, por mais que lhe doesse, Harry faria.

Arriscaria todos aqueles anos de amizade por algo que, talvez, não durasse muito. Mas era melhor do que passar o resto da vida com aquele sentimento aprisionado dentro de seu peito, machucando-o e fazendo-o sofrer. Simplesmente não podia mais lutar contra aquilo. Era forte demais para ser ignorado.

Harry poderia Ter ficado o resto da noite observando Hermione dormir, mas sabia que não podia se dar ao luxo de fazer isso. Precisavam estar nos dormitórios quando amanhecesse, ou pegaria realmente mal. E depois, ele sabia, teriam muito o que conversar. Tinha certeza de que Hermione não teria como fugir disso agora. Estava tão envolvida quanto ele, e seria muito cinismo da parte dela negar isso.

Ele ajoelhou-se ao lado da garota, e tocou gentilmente o rosto dela. Aproximou os lábios do ouvido de Hermione, e sussurrou seu nome para que ela acordasse.

- Mione... Acorda...

- Agora não – ela resmungou, virando para o outro lado. – Me deixe dormir, Rony.

Foi como se uma pedra de gelo descesse pela garganta de Harry, congelando todas as suas entranhas. Sua expressão se fechou imediatamente, e ele cutucou Hermione com alguma força. Ela abriu os olhos, sonolenta, e sentou-se.

- Harry – ela murmurou com a voz abafada, esfregando os olhos. – Que horas são?

- Não faço idéia, mas temos que ir – ele disse sem olhá-la. – Se eu fosse você me vestiria. A não ser que a idéia de passear seminua pelo castelo seja de seu agrado.

Hermione corou, e começou a vestir-se em silêncio. Harry colocou sua camisa e abotoou-a de qualquer jeito, jogando o casaco da escola por cima. Então virou-se para a garota, percebendo que ela o observava. Mione tinha uma expressão indecifrável no rosto.

- Harry – ela disse lentamente. – O que exatamente... o que foi que nós...

- Se você não se lembra, não sou eu quem vai perder tempo tentando refrescar a sua memória – ele respondeu friamente.

Os lábios de Hermione tremeram levemente, mas ela não disse nada. Eles percorreram todo o trajeto para a torre da Grifinória sem trocar uma única palavra, esgueirando-se aqui e ali para escapar dos olhos maldosos de Madame Nora. Quando chegaram ao pé da escadaria que levava à torre, Harry parou Hermione segurando-a pelo braço.

- O que foi? – ela perguntou.

- Eu não acho que você vá querer que Rony lhe veja usando isso – Harry disse, e puxou a sua capa que estava sobre os ombros de Hermione.

- Ah... eh – foi tudo que ela conseguiu dizer, e entregou rapidamente a capa ao garoto.

- Agora, você vai na frente – Harry disse secamente. – A Mulher Gorda não pode nos ver chegando juntos, ela é muito fofoqueira.

Hermione concordou com um aceno de cabeça e afastou-se, ainda um pouco relutante. Harry a observou subir as escadas, escorado na parede. Ele afundou o rosto nas mãos, exausto. Como fora burro de pensar que ela realmente se importara. Como fora burro...

E eram esses os pensamentos que ecoavam na sua cabeça algum tempo depois, quando Harry estava deitado confortavelmente em sua cama de dossel. Quando adormeceu, seu sono foi assombrado por pesadelos agoniados que sempre terminavam em Hermione caindo num abismo sem fundo.

***

Havia olheiras negras e profundas sob seus olhos na manhã seguinte, e Harry ainda sentia os efeitos da bebedeira da noite anterior latejarem em sua cabeça dolorosamente. Ele foi um dos últimos a levantar, e certificou-se de que Rony já havia deixado o dormitório para sair da cama. A última coisa que desejava, no momento, era encontrar com o amigo.

Ele não comeu quase nada no café da manhã, e o máximo que seu estômago pareceu disposto a aceitar foram algumas torradas secas. Decididamente, ficar bêbado era uma grande besteira. Você faz uma porção de coisas que jamais teria coragem de fazer se estivesse sóbrio, e depois precisa suportar os tormentos de uma ressaca. Considerando que teria dois tempos de Poções logo no começo da manhã, Harry não alimentava grandes expectativas para aquele dia.

Harry fez questão de pegar uma das últimas carteiras na masmorra de Snape, garantindo que ficaria longe o bastante de Hermione – ela sempre sentava na primeira carteira. Rony não fora aceito na turma de Poções de Snape pelo resultado de seus N.O.Ms, no quinto ano, de modo que não podia assistir as aulas. Não se pode dizer que ele ficara realmente triste por causa disso, de todo modo.

Foi uma tarefa incrivelmente árdua para Harry conseguir manter alguma concentração na aula de Snape, que ficou maravilhado ao constatar que o garoto acrescentara três gotas a mais de extrato de pedra do sol em seu antídoto para veneno de basilisco. O professor obviamente ganhou o dia descontando pontos de Harry cara vez que passava pela carteira do garoto para constatar que ele fizera mais alguma coisa errada, o que acontecia de cinco em cinco minutos, de modo que quando a última aula de poções acabou, Harry estava utilizando-se de todo o seu auto controle para não estrangular Snape até a morte.

Ele saiu das masmorras carregando parte do material na mão, pois achava que se ficasse mais tempo perto de Snape ele conseguiria arranjar outra uma desculpa para descontar mais dez pontos de Harry. Estava distraído guardando suas coisas na mochila, quando deu um encontrão violento em alguém.

- Você não olha por onde anda? – perguntou Luna, aborrecida.

- Desculpe, eu estava distraído – resmungou Harry, fechando a cara para a garota. – E você não deveria andar tão rápido pelos corredores.

- Eu estou com pressa – disse Luna simplesmente.

- É mesmo, e posso saber por quê? – Harry indagou.

- Eu preciso encontrar aquela menina Rain – ela respondeu pressurosa. – O prof. Flitwick pediu que eu mostrasse a ela o caminho para as nossas aulas, mas a garota sumiu. Preciso encontrá-la, ou vamos nos atrasar para a aula de Transfiguração.

Harry ergueu a sobrancelha.

- Então essa garota já está estudando aqui?

- É, ela começou hoje – Luna disse fazendo um gesto impaciente com as mãos.

- E em que casa ela ficou? – perguntou Harry interessado.

- Bem, Corvinal, é claro – Luna bufou. – Por que você acha que eu estaria perdendo o meu tempo atrás dela?

Harry quis responder alguma coisa, mas Luna simplesmente disparou e desapareceu na curva do corredor antes que ele tivesse conseguido formular uma frase completa. O garoto sacudiu a cabeça, incrédulo. Luna certamente era o que havia de mais bizarro naquela escola. Só mesmo Gina para conseguir conviver...

Com um suspiro, Harry continuou seu caminho para a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas – a única das matérias que vinha cursando que podia dizer que realmente lhe interessava. Ele ficou conversando com Simas e Neville na porta da sala até o prof. Sabah apontar no corredor e mandá-los entrar. Harry fingiu não ver Rony e Hermione, e ignorou os acenos do amigo para que viesse se sentar com eles. Optou novamente por isolar-se no fundo da sala de aula, e sentou entre Dino e Parvati.

Harry conversou um pouco com os colegas no começo da aula, enquanto o professor fazia a chamada, mas depois que Atlas começou a dar matéria ele utilizou-se de toda a sua força de vontade e concentração para permanecer completamente atento à explicação. Sabah estava explicando o funcionamento teórico de um feitiço de ilusão.

- Quem pode me dizer o que uma pessoa que está sob o efeito dessa mágica vê? – perguntou ele, passando os olhos pela classe. Como sempre, o braço de Hermione foi o primeiro a se erguer. Atlas concedeu a palavra a garota com um aceno de cabeça.

- O feitiço de ilusão cria uma cadeia de imagens e sons que confundem com facilidade os sentidos de qualquer pessoa despreparada. Dependendo do bruxo, os efeitos podem variar entre a aparente distorção do local físico onde ele se encontra e a aparição de objetos, animais e até pessoas que na realidade não se encontram ali.

Harry ficou rabiscando em seu livro enquanto a ouvia falar. Atlas aplaudiu a explicação de Hermione, e concedeu a Grifinória dez pontos. O resto da aula transcorreu normalmente, com o professor fazendo algumas anotações no quadro negro. Ao fim do tempo de Defesa Contra as Artes das Trevas, ele recomendou a todos que tivesse bem claro a teoria na cabeça, para que na próxima aula pudessem começar a parte prática da coisa.

Harry viu Hermione se levantar e correr para falar qualquer coisa com o professor. Ele meteu seu material na mochila o mais depressa possível, mas antes que tivesse chance de sair da sala, Rony veio ao seu encontro. E, de todo modo, Harry não poderia evitá-lo para sempre.

- Oi, Harry – ele saudou. – Por que você não sentou com a gente?

- Eu não vi vocês – Harry mentiu, jogando a mochila sobre os ombros.

- Ah... entendo – Rony disse lentamente. – Caramba, você está com uma cara péssima!

- Obrigado, Rony, agora eu me sinto melhor – Harry disse mal humorado.

Rony deu uma risadinha.

- Ei, cara, onde é que você andou ontem a noite? Eu cheguei super tarde da detenção, e você nem estava no dormitório!

- Ora – ele começou, mas naquele momento ouviu-se um estampido e Harry e Rony se viraram para constatar que todo o material de Hermione havia caído no chão.

Aparentemente, alguma coisa corroera o fundo da mochila da garota. Rony correu para ajudá-la, e Harry limitou-se a observar. Atlas também aproximou-se para juntar as coisas.

- Eu sabia que não devia Ter deixado aquele frasco de poção dentro da mochila, eu sabia! – Hermione exclamava, inconformada.

- É, foi bobeira – disse Rony. – Virou tudo...

- O estrago não foi dos piores, pelo que eu posso ver – disse Atlas com um sorriso amigável, estendendo a mão para apanhar um livro particularmente grosso. – Seu material escolar não foi atingido, mas acho que você vai ter que arranjar uma mochila nova.

Hermione sacudiu a cabeça, inconformada.

- Acho que sim – murmurou, mas o professor não estava mais prestando atenção.

Ele estava parado, olhando para a capa do livro que apanhara e – Harry viu – segurava o aletômetro na outra mão. Atlas parecia completamente surpreso e maravilhado.

- Isso é seu? – ele perguntou para Hermione.

- Bem... – Hermione mordeu o lábio inferior nervosamente.

- É meu, na verdade – Harry adiantou-se.

Atlas ergueu os olhos para ele, fitando-o. Harry o encarou de volta, com uma sobrancelha erguida.

- Você sabe como funciona? – ele perguntou, olhando fixamente para Harry.

- Sei.

- Você... você consegue ler? – Atlas disse sem conseguir disfarçar a ansiedade.

- Não consigo – Harry respondeu simplesmente, e teria achado ótimo se a conversa tivesse acabado por aí. Mas Rony, como sempre alienado, acabou falando mais do que o rapaz consideraria apropriado.

- Mas a Mione consegue – ele falou alegremente. – Ela anda o tempo inteiro com esse troço, às vezes eu fico até com ciúmes... Esse treco é o amante dela, com toda a certeza – e riu da própria piada. Mas Atlas agora olhava para Hermione de maneira esquisita, que Harry arriscaria chamar de admiração.

- Você consegue ler o aletômetro?

- Só um pouquinho – Hermione disse rapidamente.

- Ah, Mione, não seja modesta – riu Rony. – Ela é bem boa nisso, na verdade. Acho que ela poderia perguntar qualquer coisa.

- É mesmo? – indagou Atlas, parecendo perdido em seus próprios pensamentos.

- Rony está exagerando... Professor?

Atlas voltou-se outra vez para Hermione, e sorriu. Entregou o aletômetro para ela.

- Você possui um Dom muito precioso, Hermione – ele disse com um sorriso. – Não o desperdice, e seja cuidadosa: nem tudo é o que parece ser, e certas informações não devem chegar aos ouvidos de determinadas pessoas. E, Harry – voltou-se para o garoto. – Não deixe que saibam que você possui um objeto precioso como esse. Pode atrair a atenção de pessoas não muito bem intencionadas.

Harry fitou o professor, sério. Atlas sorriu e deu-lhe uma piscadela, então estendeu o livro para Hermione e guiou-os para fora da sala.

Enquanto caminhavam com o professor para o salão principal, onde o almoço estava servido, nenhum dos três ousou trocar qualquer palavra. Mas depois que estavam sentados à mesa da Grifinória, Harry quebrou o silêncio.

- Rony – disse lentamente, com o olhar perdido em algum ponto misterioso. – Saiba que você perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado.

- Do que você está falando? – indagou Rony, confuso, e buscou o olhar de Hermione. A garota não o apoiou. – Ok, ok. Fiquem com os seus segredinhos. Eu vou achar uma companhia menos chata e sabichona do que a de vocês.

E levantou-se com irritação, indo sentar-se no outro extremo da mesa com Cael e John.

Harry e Hermione ficaram sozinhos em companhia um do outro. Ele limitou-se a mastigar seu almoço, ignorando a presença de Hermione. Tinha certeza absoluta de que ela estava dando pulinhos agoniados de vontade de falar com ele sobre o que acontecera na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas ainda estava muito furioso e ferido para poder deixar o seu orgulho de lado e discutir o fato.

Ele acabou de almoçar rapidamente, e apressou-se em deixar o salão principal. Antes de sair, porém, lançou um olhar furtivo à mesa da Corvinal na tentativa de identificar Rain Sabah entre os alunos. Não encontrou-a, a princípio, mas então percebeu que ela estava sentada entre Luna e uma garota de cabelos cor de palha.

Harry apertou os olhos para ela, e por um momento achou que Rain percebera o seu olhar. Ele resmungou qualquer coisa e atravessou o salão a passos largos, completamente perdido em seus próprios pensamentos.

Decidiu tomar um ar fora do castelo, e sentou-se na escada de pedra da porta de entrada. Seus olhos focalizaram a cabana de Hagrid, de onde saía fumaça da chaminé. Há quanto tempo ele não passava algumas horas em companhia do amigo? Essa era uma das coisas de que ele mais sentia falta: Ter tempo. Tempo para descansar, tempo para voar sem compromisso, tempo para visitar Hagrid, tempo para fazer algo que não fosse estudar e treinar quadribol. Quantas saudades tinha dos seus primeiros anos, pensava Harry nostálgico, observando uns garotos do terceiro ano fazerem guerra de bolas de neve.

A porta atrás de Harry rangeu e ele ouviu passos, de modo que se virou para ver quem estava saindo.

Hermione.

Eles se encararam durante alguns segundos, e então a garota aproximou-se e sentou ao lado de Harry.

- Precisamos conversar – Hermione disse num tom de voz que fez Harry deduzir que ela estivera ensaiando isso a manhã inteira.

- Eu não tenho nada para falar com você – Harry respondeu simplesmente.

- Tem sim – Hermione disse com calma.

- Sabe, talvez eu tenha – Harry disse levantando-se com irritação. – Mas eu não vejo por quê perder meu tempo me preocupando com isso, afinal, você mesma está pouco ligando. E, de todo modo, eu não quero falar com você, Hermione.

Hermione também se levantou, e por um momento Harry achou que ela ia começar a discutir com ele. Mas, aparentemente, ela estava usando de todo o seu auto controle para evitar que algo do tipo acontecesse.

- Se eu não me importasse, não teria vindo atrás de você.

Harry a fitou, contrariado.

- Eu não tenho tempo para isso.

Hermione suspirou.

- Quem decide as suas prioridades é você – ela falou simplesmente. – Eu vou estar esperando hoje à noite na sala Precisa, e seria realmente ótimo se dessa vez você aparecesse.

Harry resmungou qualquer coisa ininteligível enquanto Hermione dava-lhe as costas e caminhava de volta para o castelo.

- Espera! – ele chamou. Hermione se virou. – Que horas?

- Eu tenho aula de Astronomia até a uma hora da madrugada – Hermione disse. – Estarei lá por volta de uma e meia, duas horas.

- Certo – Harry disse.

- Esteja lá.

- Eu estarei.

***

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