Hades



- O quê?! Quer dizer que você aceitou o convite para um baile na Mansão Malfoy por mim?! - a mais velha falava nervosamente, encavalando palavras.
- Ah, não, Lacrima, claro que não! Ela disse que irá mandar o convite e eu não dei a entender que você iria... - desconcertadíssima, a mais nova tentava parecer o mais inocente possível.
- Francamente, Aurea, na Mansão Malfoy?! Deixar você ir lá já foi ousadia, mas eu nem poderia sonhar em por os pés naquele covil!
- Olha, lá até que é bem bonito...
- Aurea! Você sabe que eu me refiro ao fato de Lucius ser simplesmente um dos mais famosos Comensais da Morte!
- Mas, afinal, o que ele pode fazer de mal a você no meio de um salão cheio de gente?!
- Não é essa a questão... Eu não quero me expor...
- Pensa bem: ele já sabe que estamos aqui e pode vir a qualquer hora com o pretexto de conversar sobre o Draco, que é seu aluno... É muito mais fácil ele matar você aqui do que em um baile!
Lacrima estava perplexa.
- Bem... - com alguma dúvida - Não, Aurea, não é assim... Você não entende a extensão do problema.
- Entenderia se você falasse direito comigo! Você só me diz que temos que fugir deles, que são terríveis e tudo o mais, mas você não diz porque esse desespero! Olha quanta gente há mais perto deles que nós e não estão ligando a mínima!
- Ah... Chega! Você ainda não tem cabeça para isso e pronto! Apenas não faça nada que eu não lhe permitiria fazer... Acredite, os Comensais nos acham mais interessante do que você imagina.
Aborrecida, Aurea sai da sala de sua irmã batendo a porta e dirige-se ao salão comunal da Sonserina, em busca de Allard, que vendo-a chegar com uma inegável expressão de raiva, vai ao encontro da garota.
- O que houve?
- Ah, eu sabia que ela era paranóica, mas nem tanto!

No dia seguinte teria início o ano letivo em Hogwarts. A professora de História da Magia estivera pesadamente atarefada durante os últimos dias e agora ajudava os colegas de trabalho a firmarem os detalhes finais do planejamento anual. Os dias estavam sendo bastante cansativos e encontrara pouco tempo para descansar e se distrair - sempre que chegava a noite e se via livre, tomava um demorado banho e logo adormecia. Prometera a si mesma dedicar mais tempo ao "otium", mas mesmo na banheira não conseguia relaxar e se livrar dos pensamentos cotidianos. Além do mais, o sistema de distribuição de água não a deixaria se concentrar - estava velho e rangia como se houvesse um monstro passeando pela tubulação.
Deitou-se apreensiva. O fato de ter sido praticamente intimidada a visitar a morada de Malfoy gelava-lhe o sangue. Há muitos anos, quando Voldemort desaparecera, Malfoy fora chamado ao tribunal para se explicar sobre seus crimes como comensal. Livrara-se da prisão vendendo nomes de outros comensais pela própria liberdade. Era óbvio que jurara renegar o antigo mestre e outros teatros do gênero, mas sua vida e sua personalidade deixavam claro para ela que ele nunca abdicaria às artes das trevas e ao poder. Sabia bastante sobre Lucius Malfoy. Nobre e milionário, fora um dos principais contatos de seu pai, mesmo antes de este se juntar a Voldemort. Havia muito sobre ele nos arquivos que herdara. Não... Ele era demasiadamente ambicioso - eram poderes, conhecimento e riqueza que estavam em jogo. Por um momento ela ponderou o que faria na mesma situação e, perante a resposta de seu ego, fechou o cenho censurando-se pela divagação.
Lacrima estava certa de que seu nome figurava na lista de futuras vítimas dos Comensais da Morte e também sabia que alguns deles nunca abandonariam seus terríveis deveres. Sabia bem demais, ah, como sabia! Sentia como se uma enorme prensa esmagasse-lhe o peito a mais leve lembrança dos acontecimentos sórdidos que permeavam sua história. Parada cardíaca, disseram os legistas bruxos aos jornais trouxas, deixando-os sem mais detalhes sobre o que poderia ter desencadeado tal estado em um jovem sadio. Os jornalistas também não fizeram muita questão de saber, afinal, não seria muito inteligente comprar briga com a família Romano - nem mesmo com o que restara dela. Mesmo sendo por um caso muito peculiar como aquele o era, já que o rosto do rapaz estava inteiramente contorcido com uma chocante expressão de dor e terror. Obviamente nenhum bruxo precisou pensar muito para saber o que aquilo significava: Cruciatus.
Ele fora encontrado acorrentado às barras de ferro nos jardins dos fundos do Nigra Nox. As mãos crispadas com feridas feitas pelas próprias unhas, dentes rachados pela força das próprias mandíbulas, o corpo jazendo sobre as próprias excreções e nenhum sinal de luta, nenhum arranhão, nenhum hematoma. Lacrima permanecera em estado de choque durante horas. A ela coube encontrar o namorado morto. Demorou para perceber o que aquele ataque significava, afinal, ela e a avó supostamente não tinham nenhuma relação com Voldemort, seus pais sempre haviam sido fiéis e... Finalmente percebera o porquê de os comensais terem se voltado contra ela: de alguma maldita forma o Lorde das Trevas soubera da conversa que havia tido com a irmã mais velha, culminando na decisão desta de desligar-se do exército mortal. Era óbvio que estavam cumprindo uma ordem que fora dada há anos e encontraram a oportunidade perfeita: atacar um ente querido para atingi-la. Mas porque não a ela própria? Por acaso não teriam conseguido chegar a ela? Mas... Por que não? E estas eram perguntas que ainda agora não sabia responder...
Na época, sua primeira reação fora a de proteger a qualquer custo as poucas pessoas que lhe eram importantes. As impressões daquele dia demoraram muitos meses para começarem a desvanecer. Fora um longo e terrível caminho aquele, escuro, úmido, frio, povoado por criaturas invisíveis de tétricos ganidos e exoesqueletos de farpas agudas. De todas as maneiras tentara escapar à morada de Desespero, mas descobriu que só havia uma saída: aquela muitos passos à frente. Andou, não porque havia a esperança ou o desejo de vencer, mas porque não havia mais nada. Sua hora não chegara - e ela tivera provas suficientemente claras disto - não descansaria em paz tão cedo, não queria - nem podia - ser internada num manicômio, então simplesmente seguiu tateando, até que suas mãos deixaram de sentir as pedras úmidas e suas pernas as cãimbras.
Ainda então era difícil lembrar de tais eventos... Mais doloroso ainda era a lembrança inconformada de que ele morrera sem razão... Era trouxa. Nunca soubera absolutamente nada do mundo mágico. Não poderia dizer nada... Decerto interrogaram-no e como não fosse capaz de dar-lhes a resposta, torturaram-no. Ele, tendo um problema cardíaco, não suportou. E ela sinceramente esperava que ele não tivesse suportado muito tempo.

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