Um Começo Inusitado




Capítulo 7




Um Começo Inusitado






Dumbledore se levantou da mesa assim que a professora fechou a porta. Ele tentou esboçar um sorriso alegre para descontrair os presentes, mas tudo estava estranho demais. Logo começou o burburinho e os alunos ficaram alvoroçados. Então, para evitar que aquilo virasse uma balburdia, ele pediu silêncio e começou seu discurso de abertura do ano letivo:

– Sejam bem vindos! Hoje mais um ano em Hogwarts se inicia e espero que com ele, esperanças renovadas num futuro melhor, sem tantas surpresas e imprevistos... Parece-me que hoje, ao invés de um aluno fugir do chapéu, foi o chapéu que fugiu do aluno! –a platéia riu. Tudo parecia novamente sob controle. –E foi uma bela fuga por sinal... É isso que eu chamo de uma inesperada saída estratégica! Mas a menina não ficará sem casa... Assim que o chapéu voltar do seu vôo noturno, ela será selecionada. E desta vez vou me certificar de que o chapéu não saia correndo por ai... –os alunos já estavam descontraídos, então Dumbledore voltou ao seu tom costumeiro. –É muito bom ver todos vocês aqui reunidos novamente. –ele fez uma pausa, olhou a sua volta com olhar saudosista e continuou. –E antes do banquete começar, vale lembrar a todos os velhos alunos e instruir os novos de que a Floresta Proibida possui este nome porque... Bem, porque é proibida! –ele riu e a platéia o acompanhou. –É proibida a todos aqueles que não desejam uma morte dolorosa... E sem mais delongas, já que esta noite já fora demasiado longa... Podem começar o banquete!

As mesas, que antes só possuíam pratos vazios, agora estavam cheias de travessas de frango, costeletas de porco, pudim de fígado, purê de batata, jarras de suco de abóbora e tantas outras gostosuras tão apreciadas pelos bruxos. Todos estavam tão famintos, que não perceberam quando Dumbledore, que parecia estar muito cansado, disse algo aos demais professores e saiu pela porta dos fundos. Os Stanford, que estavam sentados na mesa da Grifinória, pareciam preocupados mas ficaram lá, entre amigos, desfrutando do tão esperado banquete de abertura.





*****



A professora disse algo aos fantasmas assim que fechou a porta que dava para o Salão Principal, e a jovenzinha fez um esforço tremendo para ouvir o que diziam. Tão logo eles saíram pelas paredes, McGonagall voltou a andar depressa. Robin agora era levada pela mestra por aqueles imensos corredores escuros e vazios, escadas de pedra, passagens um tanto quanto secretas para ela, estava tão perdida que nem percebeu que estava aos prantos. Não acreditava no que havia acontecido: agora era uma menina sem casa. “Se eu não for escolhida para casa alguma, não vou poder estudar em Hogwarts! ...Será que eles vão me mandar de volta pra casa?” ela começou a considerar inúmeras possibilidades, uma pior que a outra, até que finalmente a professora parou diante de uma porta. “Onde ela está me levando?” pensou antes de adentrar o local. Estava escuro, então a professora ergueu sua varinha: umas faíscas vermelhas saíram da ponta e percorreram a sala, acendendo algumas velas e uma lareira aos fundos. Ela enxugou seus olhos, talvez lá estivesse a salvo.

Robin sentiu um grande alívio quando ela lhe mostrou um assento. Não tinha que ficar lá, defronte aquelas centenas de pessoas que estavam tão pasmos quanto ela própria. Sentou-se afundando naquela poltrona confortável observando tudo ao seu redor, e por um momento seus olhos pousaram sobre a professora, que agora parecia um pouco ameaçadora atrás de sua escrivaninha. Aquele era um lugar aconchegante, a lareira crepitava e ela pode notar os poucos objetos pessoais discretos e alguns retratos espalhados pelo recinto: com certeza, aquela era a sala da Profa. McGonnagal, pois era tão impecável e contida quanto ela.

– É bem... interessante a sua sala. –Robin queria quebrar aquele silêncio.

– Como sabe que é minha? –a professora parecia no mínimo curiosa.

– Bem... Tem muito de você aqui. Quer dizer... tem o seu jeito... Você gosta da Grifinória? –ela olhava ao fundo para uma taça e uma bandeirola com o símbolo da casa.

– Sou a diretora da casa. Orgulho-me muito dela e de todos os seus integrantes. Como o chapéu disse “grif”, significa que você agora é praticamente da minha casa... então você está sob minha responsabilidade.

– Que legal... Meus irmãos também são de lá...

Robin sentiu seu coração se acalmar ao ouvir aquilo. Não precisaria mais se preocupar, não tinha que voltar pra casa, pois era praticamente da Grifinória. Robin ia continuar o diálogo, mas foi interrompida por cinco fantasmas prateados que adentraram a sala sem anunciar. Se bem que fantasmas não batem à porta, mas poderiam ao menos avisar que estavam entrando, talvez assim Robin não tivesse ficado tão assustada.

Ela sentiu um arrepio lhe correr a espinha, seu corpo formigar e gelar quando uma mulher a atravessou e veio a se postar logo a sua frente. Tinha também um padre meio gordo e com cabelos cacheados e alourados; um senhor com ares de cavaleiro e postura muito distinta; e um homem esguio, usando gola de rufos, toda suja do que parecia ser sangue prateado, de ar muito austero que estava segurando outro fantasma pelo braço. Este último era muito agitado e assustador, apesar de ficar muito engraçado e espalhafatoso com suas vestes de cores berrantes. Este último tentava se desvencilhar das mãos firmes do outro.

– Já acharam o chapéu? –McGonagall perguntou rispidamente.

– Sim. Está no seu devido lugar. –disse a única dama fantasmagórica.

– Mas não graças ao pirraça e ao Frei Gorducho... –disse o homem carrancudo apertando ainda mais o braço do fantasma.

– Perdoem-me... –disse o homem roliço. –Tentei voar o mais rápido que pude, mas o Pirraça.... é o Pirraça!

– Contudo, o Barão Sangrento deu um jeito nele e naquela velha coruja enxerida... –disse o outro fantasma com um tom divertido. –Dumbledore disse que logo vocês serão recebidas. Devemos voltar ao banquete?

– Claro! E instruam os monitores a avisarem aos novatos para tomarem cuidados com as escadas. Obrigada. Podem se retirar agora. –Minerva fez uma leve aceno com a cabeça.

Os fantasmas fizeram uma reverência antes de sair, foi quando Robin viu a cabeça do fantasma mais agradável despencar para um lado, e ele a ajeita-la como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Mas vendo a expressão da menina, ele murmurou um “Desculpe-me...” antes de sumir pelas paredes da sala.

– Não se preocupe com os fantasmas... Eles são inofensivos. A não ser Pirraça...–disse a professora, tentando acalmar a aluna. –Está com fome?

– Sim... –Robin pousou a mão sobre seu estômago e sentiu ele roncar ferozmente. –Estou faminta...

McGonagall sorriu para a menina, pegou sua varinha e apontou para sua escrivaninha, onde apareceu uma bandeja cheia de sanduíches, bolos de chocolate com chantily e um jarro de suco. A professora esperou a jovem aluna se servir para também começar a degustar aquele pequeno banquete. Assim que elas terminaram de comer a sobremesa, McGonagall fez tudo desaparecer com um rápido movimento. Robin estava começando a gostar deste negócio de magia. A professora olhou para um relógio de madeira muito antigo que enfeitava sua mesa, então se voltou para a menina:

– Bem, acho que já é hora de terminar o que começamos há pouco... –vendo que a jovem não entendia do que se tratava, ela continuou. –Dumbledore me pediu que a levasse para sua sala assim que o chapéu fosse recuperado e você estivesse bem alimentada e mais calma...

– Ah... sim. Bem, já era hora! Mal posso esperar para entrar na Grifinória e poder comemorar com meus irmãos! Quero só ver a cara da mamãe quando souber!!! –Robin sorriu.

– Bem, então vamos!

A professora se levantou da cadeira, e a jovem aluna seguiu os seus passos até a porta. McGonagall apagou tudo, fechou a porta e juntas, elas seguiram por mais alguns corredores e escadas até pararem em frente a duas estátuas em forma de gárgulas. “Delícias Gasosas” disse Minerva, para uma delas, e assim começaram a se mexer dando acesso a uma pequena passagem. Atrás, uma estátua em forma de águia começou a girar em torno de si, e Robin pode observar uma escada de pedra saindo magicamente do chão enquanto a águia se elevava até o topo daquela torre. e as duas subiram até um pequeno átrio, que possuía apenas uma grande porta dupla de carvalho. A professora fez menção de abri-la, mas se conteve quando ouviu vozes alteradas que vinham de trás daquelas portas.

– É melhor esperarmos aqui... –disse ela um pouco apreensiva.

Robin concordou com um aceno de cabeça, porém sua curiosidade fez com que se aproximasse um pouco mais da porta para ouvir melhor, apesar de isso não ser necessário, pois dava para escutar muito bem do lado de fora. Uma voz feminina desconhecida e exaltada discutia com Dumbledore, que logo a interrompeu:

– Acalme-se Iolanda!

– Acalmar-me? Tenho sido muito tolerante com os seus erros, Dumbledore!

– Mas não precisava ter feito aquilo! Você foi muito inoportuna e irresponsável!

– Não me venha falar de responsabilidade, Alvo! Todos esses anos eu me mantive calada, escondida... Mas pra mim chega! Eu vi no que você queria torná-la! Tinha que fazer algo!!! –ela se exaltou.

– Por que não veio falar comigo? Eu poderia ter tomado conta disso depois... –o diretor falava no tom brando de sempre.

– Já me basta o senhor não ter cuidado das coisas no passado...

– Eu não poderia ter previsto o que aconteceu naquela noite...

– Se ao menos você tivesse me deixado... sair das sombras, ter me pronunciado... mas nem isso! –ouviu se um barulho de coisas caindo no chão.

– Fiz o que era melhor para todos! –ele exclamou.

– Fez o melhor? O senhor simplesmente nada fez! Eu até entendo que tudo isso fora necessário... mas manda-la para a Grifinória?!? Isso já é demais!!! Robin vai para Lufa-lufa, como é de direito! E tenho dito!

– Não sou eu que defino isso, é o Chapéu Seletor! Nada tenho a ver com as suas decisões. –ele parecia um tanto quanto alterado.

– Diga-me que não ficou nem um pouco satisfeito com a decisão daquele chapéu velho e caduco!?!

– Velho sim, caduco nunca! –uma voz arrastada exclamou, e logo Robin a reconheceu como sendo do chapéu.

– Você não vê, Iolanda? Está no sangue! Ela pertence à Grifinória! – ele respondeu, aumentando o tom da voz.

– Lufa-lufa também está no seu sangue! Ela é uma garotinha meiga, doce, leal e receptiva! Eu ordeno que ela vá para a Lufa-lufa, e ponto final! –ouvia-se mais uma vez o barulho de algo batendo em uma superfície dura.

– Você não pode decidir isso! –ele tentou recobrar o tom calmo. –Só o que posso fazer é dar ao chapéu mais algum tempo para tomar uma decisão definitiva!

– Eu aceito... – após um minuto de silêncio, aquela voz feminina finalmente respondeu mais brandamente.

– Mas você não poderá fazer nada se o resultado lhe desagradar novamente!

– Não vai... eu garanto! –e a voz cessou.

As duas puderam ouvir um estalido e depois a sala ficou em total silêncio. McGonagall parecia tão atônita quanto à menina, até tentou disfarçar, mas tudo o que pode fazer foi recomeçar um diálogo com a jovem.

– Bem, acho que a reunião de nosso diretor acabou... podemos entrar.

– Isso foi uma reunião? –Robin ficou preocupada.

– Hum... foi um tanto quanto conturbada, mas acredito que acabou bem... Mas não creio que seja do nosso interesse! –ela falou séria, tentando por um fim àquela conversa.

– Mas eu creio que estavam falando de mim... –Robin ironizou.

– Era só uma mãe exaltada com algo, provavelmente... –ela viu que Robin ia recomeçar o assunto, então interrompeu dizendo. –Vamos entrar! Já perdemos muito tempo! –e ela bateu à porta.

– Entre... –disse uma voz cansada.

As duas adentraram a grande sala, que era muito bonita, clara e cheia de quadros de pessoas nas paredes. Robin teve a impressão de que eles se moviam agitados e estavam olhando curiosos para ela. Ela também pode observar um poleiro onde duas aves repousavam: a primeira era majestosa, com penas vermelhas como o fogo e tinha um belo porte, foi quando ela se lembrou de ter visto um exemplar destes no livro sobre criaturas mágicas. “Sim, é uma fênix! Só pode ser!” ela pensou quando se aproximou mais do poleiro.

A segunda ave era uma coruja cinza, que ela reconheceu como sendo a que fugiu com o chapéu. Robin fez uma careta para esta, que pareceu não gostar e correspondeu girando a cabeça de modo estranho, como se fizesse uma careta de volta. McGonagall pigarreou e elas seguiram pelo cômodo adentro, até se postaram à frente de uma escrivaninha que possuía muitos objetos desconhecidos e interessantes para Robin. O diretor olhou para as duas, e com sua varinha fez surgir duas confortáveis cadeiras para elas se sentarem. Recobrando o ar sereno de sempre, começou:

– Bem, vejo que a senhorita está melhor! –ele sorriu. –Acho que podemos continuar de onde paramos...

– E de onde paramos? –ela fez de conta que não entendeu aonde o professor queria chegar.

– Da seleção! Não quer saber em que casa está?

– Eu já sei... Estou na Grifinória...

– Receio que não... –ele viu a menina desmanchar o sorriso. –Devido aos acontecimentos dessa noite, creio que o chapéu não teve tempo suficiente para decidir com precisão em qual casa você deveria ficar.

– Tem a ver com a conversa que o senhor teve agora há pouco?

– A senhorita ouviu? –ele levantou uma sobrancelha.

McGonagall a advertiu com um olhar de reprovação muito semelhante ao de sua avó Lucinda, fazendo Robin corar mediante a gafe cometida.

–Bem, acho que seria impossível não ter ouvido. –ele respondeu com um sorriso, como se já esperasse por isso.

– Não tive a intenção... –ela ficou um pouco constrangida.

– Sim, isto está relacionado com a conversa... –ele respondeu após alguns segundos em silêncio. –Mas creio que você deveria consultar outra pessoa para maiores detalhes. Eu só posso lhe dizer isso por enquanto.

– Então minha família era da Lufa-lufa ou da Grifinória? –Robin parecia realmente surpresa.

– Ambos... –ele respondeu após uma breve pausa. –Agora, sem mais delongas, você deve experimentar novamente o Chapéu Seletor.

McGonagall se adiantou e o pegou sobre uma prateleira numa estante ao fundo, se aproximou da jovem e o colocou sobre a sua cabeça. Novamente tudo se escureceu para Robin quando o chapéu lhe caiu até seus olhos. Ficou em silêncio por alguns instantes e depois desatou a falar.

– Hum... finalmente uma jovem intrigante... como foi que não percebi isto antes? Sim... Vejo que você possui uma mente brilhante... Muita sede de conhecimento. Será que devo coloca-la na casa de Corvinal...

– Ah... Corvinal não... –ela pensou. –Grifinória! Grifinória!

– Não? Bem... Se assim deseja... Há alguns anos que não vejo algo assim... Sua inteligência não supera a sua coragem... você é audaz, valente e guerreira...

– Sim! Sim! Então me coloque na grifinória! –ela se exaltou.

– Mas lhe falta confiança... Você confia demais nos outros e se esquece de si mesma... É uma pena... Grifinória talvez não seja o seu lugar...

Robin não pode esconder o seu descontentamento quando ouviu aquilo. “Fui muito corajosa há algumas horas atrás, porque o chapéu mudou tão rápido de opinião?” Ela pensou, então o chapéu continuou.

– Não fique assim, minha jovem... Você possui outras qualidades, como astúcia... Sim, você tem uma sede de poder, sabe o que quer e não vai descansar até sair vitoriosa... Isso é bom... Sonserina talvez seja o seu lugar!

– Não! –Robin exclamou. –Sonserina não...

– Acalme-se, pequenina... Talvez Sonserina possa lhe oferecer o que procura... Você seria muito bem aceita naquela casa, possui todas as qualidades que eles almejam ... Não? Se tiver tanta certeza assim, só me resta uma escolha... Lufa-lufa! –ela ouviu o chapéu anunciar aos presentes.

– Por quê?!? –Robin perguntou indignada se agarrando ao chapéu antes que este lhe fosse arrancado da cabeça.

– Só uma grande casa como Lufa-lufa seria capaz de satisfazer uma mente tão sagaz e autêntica quanto a sua... Os magos mais competentes saíram de lá... Eles não foram os mais importantes nem os mais conhecidos, contudo, eram os melhores no que faziam. Estaria cometendo o erro se a colocasse em qualquer outro lugar... Sinta-se honrada por poder fazer parte dela. Faça jus a casa a qual você pertence agora... –e o chapéu se calou por fim.

Robin entendeu o que o chapéu lhe disse, mas não aceitou, no fundo ficou até muito receosa, já que não ouvira nenhuma palavra agradável sobre a sua nova casa desde que soube que vinha para Hogwarts. Teve medo que os outros iam falar, sua mãe ia ficar muito triste e seus irmãos provavelmente iam caçoar dela por um bom tempo. “Meus irmãos...” ela murmurou. Estava um pouco decepcionada pois não ia mais ficar junto deles. Logo ela saiu da sala do diretor acompanhada da professora, que agora não era mais responsável por ela.

Minerva entendeu o silêncio da menina enquanto as duas andavam pelos corredores do castelo. A noite havia sido demasiado cansativa para a jovem aluna, já era muito tarde e no dia seguinte teria aula. Assim que chegaram a um corredor coberto de tapeçarias amarelas e pretas, Robin avistou uma outra professora parada em frente a uma parede sólida de pedra. Era um pouco gorda, estatura baixa, tinha os cabelos enrolados presos num coque mal feito e usava um vestido marrom que a deixava ainda mais engraçada. Ao se aproximar, Robin observou que o seu chapéu e suas botas estavam muito sujos de terra. Parecia uma caricatura.

– Olá, menina! Você deve ser Robin! –disse a senhora com voz amistosa quando a jovem se aproximou.

– S-sim... Sou eu... e a senhora?

– Profa. Hera Sprout. –anunciou McGonagall, com o tom habitual. –Ela é responsável por você agora... É diretora da Lufa-lufa.

– Muito prazer! –a professora estendeu a mão para apertar a da nova aluna.

– Muito prazer... –balbuciou timidamente a garota, apertando a mão da senhora sem grande entusiasmo.

– Obrigada, Minerva... Acho que daqui por diante, eu cuido dela! –aquela senhora sorriu brandamente.
– Sim... já vou então. –disse um pouco aérea. –Boa noite... –e ela se retirou rapidamente.

– Bem, podemos entrar agora, não? –ela piscou para a menina.

– Onde? –Robin olhou para os lados.

– Aqui... –disse ela afastando uma tapeçaria amarela e mostrando uma porta muito bem escondida. –“Morgana”. –ela disse e a porta se abriu instantâneamente.

Assim que entraram, pode-se ouvir a algazarra que os alunos faziam no Salão Comunal da Lufa-lufa. A professora avançou salão adentro, parou com as duas mãos na cintura, deu um forte assobio, chamando a atenção de todos, então disse “Hu-há!” batendo no peito e dando um puxão na orelha esquerda. Todos imediatamente pararam o que estavam fazendo e imitaram aquilo que lhe pareceu um cumprimento da casa. “Que bizarro...” ela pensou. Não estava num bom dia. Ficou pior ainda quando a professora começou a falar:

– Alunos, esta aqui é Robin Viollet Locksheart!

– ...Stanford... –ela a completou baixinho.

– Ela é mais uma integrante da nossa casa. Vamos saúda-la!!! –a professora e os alunos, fizeram mais uma vez o cumprimento. –“HU-HÁ”!!!

– Hu-há –disse ela muito envergonhada.

Tinha certeza de suas bochechas estavam mais vermelhas que um tomate, e nada poderia ter sido pior naquele momento. “Realmente, hoje não é o meu dia...” pensou cabisbaixa. Apesar dos imprevistos e inconvenientes daquela noite, não pode evitar o sorriso largo que surgiu em seus lábios quando viu sua amiga correndo para abraça-la. Era Pandora.

– Robin!!! Você está aqui!?! Tinha certeza que há esta hora estaria comemorando com seus irmãos na Grifinória!

– Estou tão surpresa quanto você... –Robin disse ainda um pouco inconformada com a notícia.

– Ah! Você perdeu a grande comemoração, as apresentações, os jogos, as brincadeiras... a iniciação!!! Ah! Não acredito!!!

– Como assim? –ela franziu a testa.

– Eles fazem coisas tão legais com a gente... tudo para que possamos nos conhecer melhor! A festa não acaba antes do raiar do Sol! É claro... se alguém agüentar... –ela riu. –Venha cá! Vou te apresentar para todos...

Robin franziu a testa e especulou quanto tempo ainda faltava para acabar aquela tortura. “Ah! Que pensamento horrível! Não deve ser tão ruim assim…” Robin balançou a cabeça e sorriu tentando desfazer a má impressão que tivera de tudo aquilo até agora. Logo Pandora estava arrastando a amiga pelo Salão, fazendo com que a menina apertasse a mão de dezenas de pessoas. Eram tantos nomes e rostos que Robin nem se lembrava da primeira pessoa que cumprimentou quando Pandora deu-lhe algum tempo para respirar e tomar uma cerveja amanteigada. Kurt Bennett, o primeiro aluno a ser anunciado para a Lufa-lufa, veio falar com ela por um momento. Ela reparou nos seus grandes olhos azuis:

– Olá... Você é Robin, a menina-sem-casa, não? –disse ele muito tímido.

– Ah... Era! Agora não sou mais... já tenho casa... –disse ela com um sorriso sarcástico nos lábios.

Robin quando não estava de bom humor, sabia como ser atrevida. O garoto sorriu meio chateado, então ela resolveu ser mais amistosa e engajou-se numa conversa divertida. “No fim, até que ele era interessante...” ela pensou quando ele ia se distanciando, perdendo-se na multidão de alunos que se divertiam no salão.

Robin percebeu como o lugar era gigantesco: nunca estivera no meio de tantas pessoas, nem nas reuniões de pais e mestres, ou nas apresentações do teatro da escola. Era pouco menor que a sua casa, cheia de mesas, grandes sofás, poltronas, espreguiçadeiras, tudo preto e amarelo, decorado no bom e velho estilo vitoriano, o dourado se misturando ao preto na decoração. Grandes janelas, que subiam até o teto deixavam a luz da lua dar graça ao ambiente, e tapeçarias amarelas e negras com o brasão da casa decoravam as geladas paredes de pedra. Duas grandes lareiras, dispostas em lados opostos do salão, dividiam a entrada da ala masculina da feminina e deixavam o ambiente mais aconchegante. E plantas, muitas plantas espalhadas perto da janela, em cima das mesas, e em alguns lugares inusitados.

Marcelin Trotty e Stephanie VanBurren, duas colegas do primeiro ano, também vieram conversar com ela à mesa de doces e bebidas. Thommas Calahan, simpático capitão da Lufa-lufa, vinha puxado por Pandora por uma das mãos até sua amiga. Robin reparou que ele tinha um olho verde e outro azul, além de ser muito alto e dotado de uma voz fenomenal.

Tom conversou animadamente sobre quadribol por mais de meia hora, até que eles foram interrompidos por Lawrence Chandler, um garoto que por mais baixinho e tímido que parecesse, era muito divertido quando se soltava, além de inteligente e muito interessado em tudo. Ele tinha olhos esverdeados e o cabelo loiro, o que lhe dava um ar ainda mais angelical. Robin poderia dar-lhe uns nove anos de idade, pela estatura e voz esganiçada. Ele demonstrou um grande interesse por quadribol, que só não era maior que o de Pandora.

Logo as duas amigas estavam percorrendo o salão atrás de outros rostos desconhecidos. E elas cumprimentaram mais meia dúzia de pessoas até pararem de frente a um grupinho de garotas do primeiro ano que pareciam muito aparvalhadas. Pandora riu e disse para Robin com ar maroto:

– Você lembra de ter ouvido falar no nome “Eros Keefe”?

– Eros… Sim! É o garoto de quem Emily falou, não?

– É esse mesmo… É mais um dos segredos da Lufa-lufa…

– Segredos? –Robin pareceu muito interessada.

– Ah! São tantos segredos… Coisas de lufanianos… Sabe? –ela viu que sua amiga parecia não entender coisa alguma. –Hum… você perdeu a iniciação, não é? Bem, é uma pena… Eros é, sem dúvida alguma, o garoto mais lindo de toda a escola… E ele só tem treze anos! –Robin ouvia tudo com atenção, então Pandora começou a falar com mais entusiasmo. –Ele é neto de uma Veela… Esse é o tal “segredo de sua beleza”!!! Todas as garotas vivem se perguntando o que ele toma para ficar tão lindo assim…

– Ah! –Robin exclamou irônica. –Mas… o que é uma Veela?

– Ai! Credo, Robin! Você não sabe de nada? –Pandora fez cara de indignação e continuou a explicação. –São seres mágicos portadores de grande beleza. Um homem que olha para uma Veela fica completamente apaixonado por ela, desde que não mostre sua verdadeira face. Elas são tão famosas no mundo do Quadribol!

– Hum… deve ser por isso que nada sei sobre o assunto! –ela riu.

– Oras! Se isso não viesse de você, tomaria como um insulto! –Pandora sorriu e retomou a conversa. –Mas então, não quer conhecê-lo?

– Hum… Pode ser… -disse ela se roendo de curiosidade.

– Mas você deve estar preparada, pois pode ser meio… chocante no começo, mas depois você se acostuma! Eu acho até que estou me acostumando… Não se preocupe, pois ele não vai tentar seduzi-la com seus “poderes especiais”!!! –disse a garota com um ar muito divertido.

“Ela só pode estar brincando!” pensou Robin enquanto sua amiga a puxava pela mão, tentando passar no meio daquela multidão de garotas extasiadas. Ela viu um garoto sentado no sofá dum jeito largado, meio chateado. Ela teve a impressão de que todo aquele assédio o aborrecia, e provavelmente estava certa, pois a cada elogio, ele revirava os olhos e expressava um sorriso amarelo, que não deixava de ser encantador.

Ele ajeitou seus cabelos lisos atrás da orelha, eram mais dourados que um vasto campo de trigo. “Por que estou fazendo esse tipo de comparação?” Robin pensou, começando a se sentir um pouco boba. Ela também notou uma leve palpitação em seu peito, então apertou seu amuleto com força, respirando fundo e se controlando novamente.

Pandora o chamou com voz vacilante, e assim que ele se aproximou, Robin pode perceber os olhos da amiga ficando tão vidrados quanto os das outras garotas. Era realmente difícil se controlar diante daqueles grandes olhos azuis, e Robin apertou sua estrela tão forte que quase machucou sua mão. Isso serviu para fazer ela recuperar a consciência. Ele olhou no fundo dos seus olhos como se procurasse algo, então esboçou um sorriso largo e encantador, se aproximou e disse:

– Alô!!! Quem é você? –disse ele com a voz mais fascinante do mundo.

– Eu… –ela recuou um pouco e disse com firmeza. –Sou Robin… e você?

– Eros Keefe ao seu dispor… -ele fez uma breve reverência.

Aquele olhar profundo e seu sorriso iluminado eram assustadores. Robin não tinha a expressão mais amistosa do mundo, no entanto, ele não conseguia segurar o riso. E ele era tão charmoso rindo quanto aborrecido. Então o garoto continuou, com ar muito alegre:

– Nossa! Estou tão feliz em conhecê-la! –ela franziu a testa mediante a afirmação. –Bem… É que a maioria das garotas fica meio “abobalhada” na minha presença… E isso é tão estranho!

– É compreensível... –disse ela dando mais um passo para trás.

– Não é isso... Você não sabe como é terrível estar conversando com alguém e de repente perceber que a mesma não está te ouvindo porque ficou vidrada em você… Demora um bom tempo até elas se acostumarem, sabe?

– Então por que você faz isso com elas? –Robin agora se controlava muito bem, no entanto ainda agarrava sua estrela.

– Esse é o problema… Eu não faço!!! Sempre que estou feliz, isso acontece… Então até que fique irritado ou nervoso, o efeito não passa.

– Então é por isso que estava com aquela feição aborrecida lá no sofá? –Robin era muito observadora.
– Você percebeu? –Ele sorriu.

– Meio difícil não perceber… -ela retribuiu o sorriso.

– Até que enfim alguém que me entende! –e ele sorriu mais ainda, com olhos brilhantes.

– Podemos ser grandes amigos… desde que você evite sorrir deste jeito! –disse Robin com ar assustado.

– Vou me controlar, prometo!

Os dois conversaram por um bom tempo, e ele contou que jogava no time de Quadribol da casa, fato que não a surpreendeu, pois parecia que todos tinham um estranho interesse por este desporto, e que também era filho de um grande jogador de um ilustre time irlandês, por isso sua paixão pelo famoso esporte bruxo. A essa altura, já passavam das duas horas da manhã e a cabeça de Robin começou a pesar. Eros foi buscar-lhe uma cerveja amanteigada enquanto ela tentava tirar Pandora daquele transe.

– Robin! Ai… achei que nunca ia conseguir voltar ao normal… Obrigada. Não sabe como é dolorido ficar por tanto tempo sorrindo de orelha a orelha… –disse Pandora massageando seu maxilar inferior. –É melhor irmos antes que ele volte. –a garota parecia preocupada.

Mas antes que as duas pudessem fazer algo, ele já havia voltado. E Pandora, mais uma vez, estava vidrada nele. Ele riu, entregando a bebida a Robin.

– Estou cansada… –ela esboçou um sorriso preguiçoso.

– Que pena… Então tenho que deixar você ir...

– Bem, obrigada pela bebida... e pela conversa!

– Sim, claro! Saiba que foi muito bom conhece-la! Espero nos vermos em breve… Quer dizer, pra conversar… Porque a gente se vê sempre, não é? Somos da mesma casa… -ele fez uma careta divertida.

– Ta bom! –ela riu do jeito atrapalhado dele. –Boa noite então…

– Boa noite! –e ele sorriu mais uma vez daquele jeito encantador e ao mesmo tempo espantoso.

Ele se afastou logo para que Pandora pudesse se recuperar. “Pensamento positivo…” riu Robin. Ela sabia que sua noite não poderia ter sido mais agradável, e conhecer o “famoso” Eros tinha sido particularmente interessante.

Ela seguia sua amiga com o ar leve, apesar do cansaço que sentia. No entanto, quando ela chegava na entrada da ala feminina, foi tomada por uma dor de cabeça súbita, que a fez cair de joelhos. No mesmo instante, um vento forte escancarou as janelas no grande Salão Comunal, fazendo com que todas as velas se apagassem instantaneamente. A não ser pelas lareiras, que crepitavam inquietas, tudo era escuridão no recinto.

Os monitores pediram silêncio, já que alguns alunos mais novos pareciam em pânico, outros apenas resmungavam. Algumas pessoas usaram “Lumus” para iluminar o ambiente, enquanto outras tentavam, com muito custo, fechar as altas janelas do Salão. Era tudo extremamente estranho, e Robin, ainda com sua cicatriz queimando, sentiu tudo rodar quando uma risada alta invadiu seus ouvidos.

Pandora tentou segurar sua amiga, mas esta também quase foi ao chão quando alguém passou por elas apressado. Muito preocupada, pediu a uma menina que estava por perto para ajuda-la a socorrer sua amiga. Alguns poucos minutos depois, quando todas as janelas já estavam fechadas e a luz das velas iluminava novamente o ambiente, Robin sentia-se um pouco melhor, porém muito abatida e sem aquele ar divertido. A sua volta, ninguém entendia muito bem o que havia acontecido, e aos poucos, os alunos começaram a se despedir para se recolherem aos seus aposentos. A garota que havia socorrido Robin parecia muito preocupada, então disse sem muita cerimônia:

– Posso te dar um conselho… -disse ela mordendo o lábio inferior.

– Diga… -Robin ainda não conseguia falar direito.

– Bem, não pude deixar de notar que sua aura está obscura esta noite... Quer dizer, ela pode até ser muito brilhante, mas hoje uma sombra estranha pairou sobre você… Também, não deve ser nada fácil começar o ano letivo justo no seu período de Inferno Astral! –ela sorriu compreensiva, mas Robin fez uma careta para a menina que com certeza expressava incredulidade. –Eu se fosse você, iria direto pra cama! Eu posso ver que seus próximos dias não serão nada fáceis… -ela olhava no fundo dos seus olhos com uma preocupação verdadeira no olhar. –Se quiser algumas ervas e incensos, eu sempre trago vários comigo. Tenho camomila, erva doce, erva cidreira, uns galhinhos de arruda... Eles servem para relaxar, recuperar as forças, limpar a mente de energias negativas… Se quiser, eu posso dar-lhe algumas.

– Eu… agradeço a preocupação, mas eu estava indo agora mesmo para o meu quarto para “recuperar as minhas forças”… Se não se importa, já vou indo. Ainda não estou muito bem, entende?

– Ah! Tudo bem… Mas antes que você se vá, eu gostaria de saber só mais uma coisa... Qual o seu nome?

– Robin Stanford. E o seu?

– Beth Maruska. Hum… Stanford... Boa noite então, Senhorita Stanford!

– Boa noite e muito obrigada… –disse Robin, já sendo levada por Pandora corredor adentro.

Chegando no final do corredor, as duas pararam em frente a duas escadas que separavam dois longos corredores que seguiam em direções opostas. Elas observaram uma grande placa de madeira, bem à vossa frente, com setas que se moviam e letras douradas que diziam:





↑ Quinto ao Sétimo Anos. ↑

←Terceiro Ano. Quarto Ano. →

↓ Primeiro e Segundo Anos. ↓





Elas seguiram escada abaixo, Robin com um pouco de dificuldade em se equilibrar sobre seus joelhos para descer os degraus. Logo elas chegaram ao pavimento inferior, que era meio assustador e sombrio, somente iluminado por archotes esparsos. Ao longo da pequena circulação havia cerca de dez portas, cada qual com uma placa ao lado dizendo o nome de suas residentes.

– Vamos ver... o primeiro ano é deste lado. –disse Pandora guiando sua amiga. Ela começou a ler a primeira placa. –“Jessica Antili, Marcelin Trotty, Tracey Ellis, Stephanie VanBurren, Beatrice Talbot.” Bem, esse não é o meu aposento, nem o seu... Vamos ver aquela porta ali...

Elas seguiram até a próxima porta e a amiga leu a outra placa:

– Lee Wu Chang... Isso é nome de garoto! –brincou Pandora.

– Não fale assim Pandora... Robin também não é o nome mais feminino que conheço... –ela riu, seguida da amiga.

– Bem, vamos continuar... Robin Viollet Locksheart...

– Stanford... –completou Robin meio chateada. –Parece perseguição...

– Bem, este é o seu quarto... Vamos continuar! Amy Brooks, Mya Brooks... Acho que são as gêmeas, ao menos tem o mesmo sobrenome... E por último, Pandora Fawkner… Olha! Eu vou ficar aqui com você! Que legal...

– Ao menos algo de positivo nisso tudo... –riu Robin. A esta altura ela já se sentia bem melhor, mas ainda cansada.

– Então vamos entrando...

Os corredores poderiam ser sombrios, mas aquele aposento era muito aconchegante. As cortinas e colchas de veludo amarelo davam vida aquele lugar, e um quadro de girassóis enfeitava a lareira, cujo fogo crepitava com vontade. Havia alguns móveis, com cômodas e guarda-roupas, duas poltronas aconchegantes em frente à lareira e uma mesinha de cabeceira para cada cama. Elas perceberam uma pessoa já deitada e tentaram fazer silêncio ao entrar. Robin escolheu uma cama ao lado da janela e abriu o seu cortinado. Ela avistou sua mala ao lado da lareira e a gaiola de seu bichinho, que parecia dormir profundamente. A garota se esparramou sobre seu leito que era o dobro de sua cama na fazenda. Robin rapidamente organizou algumas coisas mais urgentes e vestiu o seu pijama azul de flanela.

Pandora, enquanto isso, ia tirando uma coisa de cada vez de sua caixa. Ela parecia nem se lembrar do que havia colocado lá dentro: tirou um guarda-chuva, duas malas de mão, um vaso de margaridas que estava incrivelmente intacto, dois travesseiros, vários pares de sapato, um camelo de pelúcia, e tantas outras coisas inúteis que Robin nem acreditava no que via.

Pandora falava sem parar num tom baixo, e a essa altura a amiga tinha certeza de que não estava entendendo uma só palavra. Ela estava tão cansada que adormeceu em sua cama confortável e quentinha enquanto observava silenciosamente o ritual da amiga.






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