~capítulo dois~



Capítulo Dois
Ou
I’m Still Painting Flowers For You


Eu continuava a respirar precariamente, como se estivesse prestes a me afogar e tivesse de reservar oxigênio em meus pulmões. Não era tão ruim. Eu vinha fazia aquilo há quase um ano. Era desagradável, claro, mas me habituei muito rapidamente. Sem Marlene ao meu lado, nada mais fazia sentido. Eu não me proporcionava nenhum tipo de felicidade, uma vez que minha mente me garantia que meus tempos alegres estavam com a minha menina.


Naquela tarde fria, eu e ela estávamos sentados no banco de madeira azul na frente da casinha de sua mãe. Bebericávamos xícaras de chocolate quente. Marlene usava um vestido vermelho de lã com maguinhas, botas e uma boina roxa. Sua mãe, minutos antes, tinha ido ali para nos entregar um cobertor, para que não pegássemos uma gripe.


Eu continuava meio calado, mas Marlene, como sempre, falava e mais falava. Estava explicando que estava muito feliz por estar de volta ao hospital público e que sentia falta de seus costumeiros pacientes. Eu bem imaginava que ela estava sentindo falta das coisas de antes. Ela era muito apegada a o que fazia e àquelas crianças. Eu mesmo adorava ir até sua ala e ficar ouvindo as histórias dos pequenos.


- Você acha que semana que vem tudo bem? Se não quiser me ajudar, vou entender – Marlene me dizia.


Eu estava tão distraído quanto ela estava empolgada.


Sorri triste.


- Desculpe-me, estava longe. O que dizia? – falei.


Percebi que ela não desmoronou sua expressão. Permaneceu sustentando aquele olhar penetrante e cristalino.


- Meu apartamento. Quero que você vá comigo fechar alguma proposta – ela me disse, paciente. Puxou uma mecha de seu cabelo e a colocou atrás da orelha. Assoprando o líquido quente dentro da xícara, tomou um golinho e picou lentamente para mim. Ela continuava na expectativa.


Abri a boca, surpreso. Eu estava muito distraído desde a sua chegada.


- Claro – tranqüilizei- a com um sorriso fraco.


- Beleza! – ela exclamou contente – Pode ser a partir da semana que vem? Tenho que conter algumas coisas no hospital antes de me ausentar por algumas manhãs de lá.


- Sem problemas – assegurei.


Eu iria para sempre esperá-la; onde quer que ela estivesse. Então, aguardar mais cinco dias até tê-la para mim por algumas manhãs era bastante suportável.


Ficamos ali no pequeno jardim por mais algumas horas conversando sobre o ano que tinha passado. Ela, eu pressentia, não estava disposta a arriscar seu orgulho relembrando o que já tínhamos passado juntos. Nós éramos, de fato, amigos. Apenas amigos. Daqueles que passam muito tempo sem se ver e depois da distância têm que reatar laços cautelosamente.


- Vai voltar amanhã? Você pode me acompanhar até o hospital – ela sugeriu, quando eu me despedi de sua mãe e agradeci pelo chocolate quente.


- Claro que volto – prometi, sem fôlego.


O que eu queria mesmo era beijá-la, exatamente como tinha feito no mês anterior. Mas eu tinha certeza de que ela não aprovaria. Aquele dia, claro, acho que tinha sido uma exceção. Ela estava sonolenta quando eu a peguei desprevenida. O que podia ter feito realmente? E ainda que eu tivesse detectado paixão naqueles lábios, talvez eu tivesse julgado a situação erroneamente. Talvez o que sentira naqueles lábios macios tinha sido saudade. Aliás, saudade era um sentimento que eu compreendia muito bem. Ao menos uma vez na vida eu sentia uma coisa que me doía na pele.


A saudade de tê-la em meus braços e de vê-la dormindo todas as noites me corroia por dentro. Eu queria reconquistá-la e levá-la para meu apartamento para fazermos amor e sermos novamente felizes juntos. No entanto eu não tinha forças nem para sorrir fingidamente, quanto menos para abusar de sua hospitalidade.


Eu comecei a freqüentar muito a casa da mãe da Lene; não para aprender a cozinhar tortinhas orgânicas, mas para, logicamente, ver o sorriso mágico plantado nos lábios de Marlene todas as vezes que me atendia à porta. Eu estava começando a ficar cético. Achava que estava maluco. Não fazia nenhum sentido Marlene ficar sorrindo daquele jeito fofo e alegre sempre que me via. Talvez eu estivesse imaginando coisas.


Ela já tinha se desprendido de mim há tempos. E nada, eu achava, seria capaz de nos juntar mais uma vez.


Muitas vezes a Sra. Mckinnon soltava algumas indiretas quanto a mim para a filha. Dizia que eu era do tipo que pretendia se casar e fazer uma mulher feliz de verdade. Marlene só se permitia rir e dizia: “Eu sei”. E por mais que eu tivesse consciência de que ela sabia, algo me dizia que ela não se lembrava daquilo. Porque ela já tinha convivido muito comigo para saber que eu a faria muito feliz se nos casássemos.


Mas eu entendia por que ela não queria se lembrar.


E não a culpava.


Eu era do tipo que errava também.


Dois dias depois, eu continuava a acompanhá-la até ao hospital. Sentia falta daquele cheiro de álcool e de pirulito. Sua salinha ainda estava exatamente como a minha mente se recordava. Pequena, abrigava uma mesa de mogno, brinquedos para seus pacientes e uma caminha, onde avaliava pulmões, narizes e mais outras tantas partes do corpo.


Sua secretária tinha mudado. Havia um quadro diferente na salinha de espera. Mas, no todo, tudo parecia intactamente no lugar.


Depois das nove da manhã, ela me convidou para visitar as crianças em reabilitação.


Passamos boa parte da tarde trancados no quatro dos enfermos brincando com eles e lhes presenteando.


Não pude conter a minha satisfação ao vê-la radiante.


Os dias que se passaram foram monótonos. Não vi Marlene nem liguei para ela para convidá-la a fazer algum programa cultural, como ela sempre adorava fazer, na época em que namorávamos.


E, pensando bem, eu não sabia muito bem se nosso namoro tinha terminado. Nenhuma vez por e-mail mencionamos algo. Nada do tipo “Então, acho que não estamos mais namorando”. Marlene nem mesmo tinha me escrito que eu podia sair com outras meninas. Mas eu bem sabia que nosso namoro não era mais igual. Havia um precipício entre nós. Não éramos frios um com o outro, mas sabíamos que não tínhamos mais aquele entrosamento. Éramos, ao invés de rudes, cordiais um com o outro. Nada que alarmasse alguém, caso pensassem que tínhamos algum tipo de relação forte. Com certeza já tínhamos construído um bom laço amoroso, porém o tempo o desfez com muita rapidez.


- Você é pontual – ela riu, assim que estacionei o carro na frente da casinha de sua mãe e bati na porta. Certamente ela já me esperava, e eu me senti satisfeito.


Estava vestindo uma blusa preta de mangas, bastante simples; saia também preta, estilo colegial, toda plissada; meia calça grossa, botas que alcançavam seus joelhos e um cachecol rosa bebê.


Ela estava mais linda do que o habitual, mas talvez esse meu julgamento só tivesse se plantado em minha mente porque fazia alguns dias que não a via.


- Pronta? – perguntei.


- Prontíssima – ela me garantiu, sorrindo animada.


Ela entrou no carro, ao meu lado e arrumou o cabelo, como se estivesse totalmente bagunçado.


Percorremos algumas quadras conversando alegremente sobre suas expectativas quanto ao novo lar.


Ela tinha reservado a primeira manhã para olhar dois imóveis. Um situado demasiado perto de sua mãe e outro quase a quinze quadras do meu apartamento. Eu queria mesmo é que seu novo lar fosse perto de mim e rezava para que ela se apaixonasse pelo segundo prédio.


Ela, assim como previ, não se entusiasmou com o primeiro apartamento. Ele era pequenino e abafado. E seu quarto não era tão maior quanto à minúscula salinha de carpete.


Por isso partimos logo e sem cerimônias para o segundo apartamento. Ela falou um tanto quanto demais, reclamando do que tínhamos visto, mas quando encostei o carro no meio fio e ela saltou do banco, não parecia estar mantendo a ar surpreso e aborrecido. Ela sempre estava na expectativa. Isso era ótimo nela.


A sala do segundo não era tão maior quanto a do primeiro, mas era relativamente mais arejada. O apartamento era constituído por três quartos e um pequeno escritoriozinho. Estava realmente bem mais de acordo com as esperanças de Lene. Eu tinha ficado feliz por vê-la, finalmente, concordar que ali estava bom demais. Não que isso me animasse muito, considerando que, se ela tinha encontrado seu lar, isso significava que eu não desfrutaria outras manhãs ao seu lado. Porém, isso não pareceu um problema tão alarmante para Marlene, porque assim que ela agradeceu ao senhor que estava responsável por lhe mostrar o imóvel, virou-se para mim e disse:


- Vamos tomar um sorvete de iogurte.


Tomar sorvete de iogurte não é necessariamente uma coisa que você faça quando sabe que o tempo está claro e frio, mas concordei mesmo assim. Eu enfrentaria o Alasca para estar ao lado de Marlene.


Já na sorveteria quase ao lado de meu prédio e dividindo um pote de sorvete de iogurte de morango com calda quente de chocolate (eu sei, combinação estranha), eu não conseguia pensar em muita coisa para conversarmos. Parecia que o tempo que estivemos separados extinguiu assunto que antes eram habituais para nós. Cachorros, amor, casamento. Tudo tinha sido dissolvido com o tempo.


- Então... o que vai fazer amanhã? – perguntei timidamente.


Marlene largou a colher de plástico, engoliu o sorvete e disse:


- Não sei. Digo, tenho que trabalhar, logicamente, mas só pelo turno da tarde. Estive pensando em dar um volta em algum museu. Não sei. Faz tempo que não faço uma coisa dessas.


Ela, eu notei, não estava com um ar cansado ou irritado, como se desprezasse a minha companhia.


Muito pelo contrário, aliás. Seu tom de voz sugeria que eu devesse acompanhá-la ao seu programinha.


Sorri, sem saber o que de fato fazer.


Com certeza meu desejo era agarrar sua mão, mas não tive coragem suficiente para fazê-lo.


- Você poderia ir comigo – ela disse.


Era impressão minha ou ela ansiava a minha presença tanto quanto eu ansiava a dela?


- Claro. Eu adoraria – falei, agindo como um idiota, provavelmente.


Ela não reprimiu o sorriso largo.


- Sabe, essas coisas me lembram o começo de nosso namoro – ela disse com os olhos brilhando de saudades.


- Que coisas? – ergui as sobrancelhas.


- Você sabe, esses programas amenos, tipo, ir ao museu. Costumávamos fazer isso todos os fins de semana, lembra?


- Claro. Saíamos muito.


- É. Era bom.


Havia nostalgia fervorosa naquelas palavras.


- Poderíamos continuar a fazer essas coisas – insinuei levemente.


- Não sei se deveríamos.


- Por que não?


- Não sei em que estágio da nossa reatada relação estamos.


- Reatada relação? – eu ri.


- Convenhamos, Sirius, não somos mais os mesmo. Não temos a mesma relação de antes.


- Não. É verdade. Mas poderíamos fingir que o último ano que passou nunca existiu. Ou você já está em outra?


Marlene ficou calada por alguns segundos. Parecia acanhada.


- Não, claro que não – disse, finalmente, aliviando-me de um jeito absurdo – Mas... e se não der certo? E se estivermos insistindo em um erro que nunca irá desaparecer?


- Que erro, Marlene? O amor que sentimos um pelo outro?


- E se não for mais amor? – ela questionou.


- Você não me ama mais?


- Não é bem isso. É só que... você é tão complicado. Você ainda está magoado porque eu tive de ir para o Congo e acho que nunca irá me perdoar por isso.


- Já me esqueci disso.


- Acho que não, Six.


- Por que quer saber mais do que pode lhe oferecer?


- Por que aí é que começam os erros.


- Você acha que não retribuo o suficiente? – meu riso descrente se intensificou.


- Claro que retribui. Você é um amor comigo, mas... simplesmente acho que não é o certo.


- E o que é certo? Ignorar esse sentimento que nos entrelaça tão fortemente, ainda que você não o queira aceitá-lo mais? – indaguei.


Seus olhos fugiram dos meus. Por um momento achei que a confirmação viria.


- Não sei mais o que é certo para mim. Achei que ir para o Congo fosse bom, mas não conseguia bloquear a saudade de sentia de você. Achei que continuar a nos comunicar por e-mail fosse bom, mas isso só me fez sofrer. E achei que agir com você como se eu nunca tivesse lhe deixado fosse bom, mas como posso mentir para mim mesma, sabendo que tudo o que quero é apenas estar com você?


Meus cantos dos lábios se inclinaram para cima.


- Isso foi uma declaração de amor? – perguntei.


Ela revirou os olhos.


- Acho que sim – ela admitiu, tentando se recuperar a abrupta onda de vergonha e de impaciência que lhe tomou.


- Eu sei que fiquei magoado com você, mas isso já passou. Assim que a vi no aeroporto, meus sentimentos ruins se acabaram. Não estou ainda com raiva de você.


- Você estava com raiva de mim?


- Metade de mim estava com raiva e a outra sentia saudade.


- Ah, Sirius, me desculpe! – ela exclamou, sentida.


Sorri.


- Mas agora só sinto amor.


- Eu queria me perdoar.


- Apenas tente.


- E se eu lhe magoar novamente? – ela inquiriu.


- Enfrentaremos isso, juntos – falei decidido.


Ela sorriu, lacrimosa. Entrelaçou seus dedos finos nos meus.


- Eu o amo, e isso nunca irá se apagar – ela disse.


- Acho que eu a amo mais – provoquei.


E então, nossos lábios, tal como ímãs de geladeira, se conectaram.


Nada ali poderia me fazer parar de beijá-la. 



____

N/a: uh uh *-* acho que demorei. Mas, como disse, estou fora da cidade e não encontro muito tempo para escrever, infelizmente. Mas espero que tenham aproveitado esse capítulo. Amo vocês <3

Nina H.


11/02/2011

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Comentários (1)

  • IsaBlack

    Awwwn! *---------------* *rindoigualumabobanomeiodacasa* Eles são tao fofos, cara! Sem noção!!!!!!! *_______* ninaa! eu vou morrer de fofice aguda infecciosa! hauauahuhauh

    2011-05-11
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