Prólogo



Dinastia McKinnon
Prólogo.


Clarice prendeu a respiração, e abriu o livro com a mesma cautela de sempre, só que desta vez somado a essa, havia uma dose extra de ansiedade. Seus olhos grudados no papel amarelado e áspero, ela nunca imaginara que poderia se sentir tão absorvida invadindo a privacidade de alguém, ainda mais sendo este alguém uma parenta sua, uma parente que havia morrido há mais de um século...

A chuva caía pertinente lá fora, se este alguém que vos escreve fosse uma mulher romântica na flor da idade, como supostamente era para ser, estaria dizendo que o céu estava chorando, assim como a mesma.

Mas ela não é. Eu não sou.

Não existia momento mais triste que aquele para ninguém, mas eu permanecia ciente dos meus atos, calma, solícita. Como tinha que ser. Como a sociedade queria que eu fosse. Oh, eu não me rebelaria, ou faria um escândalo, ou espernearia, e não, eu não derramaria uma lágrima sequer.

“Estais sentindo-se bem, Srta. McKinnon?” Alguém quis saber.

“Oh, sim. De certo.” Eu respondi com um sorriso realmente convincente. Os anos de prática fingindo bom humor para tantos seres humanos frívolos funcionavam para alguma coisa, ainda assim, sentia-me culpada em mentir. “Sinto apenas a falta de um pouco de sol”.

Do outro lado da sala, ele permanecia atento a meu tête-à-tête com um dos gêmeos da família Prewett, não saberia dizer-te qual de ambos, amigo leitor, nunca passei tempo o suficiente pensando neles para distingui-los.

Meu olhar fixou-se mais uma vez nas enormes janelas, a chuva havia engrossado, e aquilo aumentava a minha sede por livre-arbítrio, eu queria sentir os pingos sobre o meu cabelo, libertando-me da prisão por dentro do meu corselete.

“Queira desculpar-me, Sr.” Tossi. “Sr. Prewett, sinto-me enfadada por conta do mau tempo. Espero que não se importe, mas gostaria de retirar-me para meus aposentos”.

O gêmeo Prewett não me pareceu ofendido, eu não era muito boa companhia naquele momento. Dei uma breve explicação a todos na sala, já estava subindo as escadas quando ouvi passos pouco distantes.

Não precisava de uma bola de cristal como a dos ciganos para saber quem era. Prendi a respiração e fiz o caminho oposto ao do meu dormitório, cruzei vários corredores até encontrar a porta dos fundos.

Será que finalmente teria meu desejo realizado?








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