Para tudo há uma primeira vez

Para tudo há uma primeira vez



Parecia que nada animaria Fred durante o resto do dia, nem mesmo o fato de ouvir Mariana comentando com Alícia que não gostava mais de Patrick. Já eram quase sete horas quando Angelina e Katie saíram do dormitório feminino e Fred pôde ver que os olhos de Angelina estavam vermelhos e inchados.
- Vamos jantar? – chamou Jorge se levantando.
- Estou morrendo de fome – Alícia se levantou também.
A barulheira estava começando a diminuir na torre, à medida que os alunos saíam para o Salão Principal. Mesmo assim, Fred quase não ouviu quando Angelina, se afastando do resto da turma, o chamou.
- Fred. Fred!
Ele olhou para ela, que fez sinal com a mão para que Fred se aproximasse, e o fez, apreensivo.
Angelina olhou para os lados e se certificou de que ninguém estava ouvindo, então disse:
- Boa sorte com a Mari! – e, erguendo-se na ponta dos pés, deu um beijo na bochecha de Fred.
O garoto se sentiu petrificado por um momento, então sorriu e agradeceu à menina. Agora sim se sentia em paz, sabendo que Angelina estava bem e que lhe entendia.
Eles correram para alcançar os amigos, que já atravessavam o buraco do retrato, e juntos desceram até o Salão Principal.
- Fred, Jorge! – eles ouviram alguém chamar ao passarem pela mesa da Corvinal.
Era uma menina baixinha e muito branca, com cabelos loiros e olhos azuis – Penelope Clearwater. Aproximaram-se correndo para falar com a garota.
- Vocês venderam creme de canário para alguém da Corvinal ultimamente?
Os gêmeos se olharam rapidamente. Edu Carmichael havia comprado uns quatorze potes de creme de canário há uma semana.
- Sinto muito, Penny, garantimos à nossos clientes total sigilo sobre as negociações – falou Fred rindo por dentro.
- Ah, mesmo? – ela parecia decepcionada. – Já tive nove casos só nessa semana. Não que eu não goste da brincadeira, mas... Ah, uma aluna da Beaxbatons passou um bom tempo chorando de vergonha, acho que quem quer que esteja fazendo isso já passou dos limites!
- Brincadeiras, Penelope, brincadeiras... – disse Jorge dando tapinhas nas costas da garota. – Vamos lá, essas francesinhas precisam aprender a dar risadas também, não é mesmo?
Penelope sorriu meigamente. Não insistiu mais no assunto, então os garotos puderam ir se sentar à mesa da Grifinória.
- O que foi, Fred? – perguntou Alícia quando eles se sentaram à mesa.
- Nada – respondeu calmamente Fred, servindo-se pudim de rins – Probleminhas com nossos cremes de canário.
Lino Jordan riu.
- Não acham que a Penelope tiraria pontos do Carmichael por causa disso, acham?
- Ah, aposto que sim! Ela anda meio nervosa. Acho que o encontro com Percy em Hogsmeade foi para ele lhe contar que estava noivo do Crouch.
- Não fale assim do Percy, ele é meu amigo!
- Desculpe, Mari... – a voz de Fred de repente perdeu o tom brincalhão. – Eu não queria...
- Sabe, ele é seu irmão, você deveria respeitá-lo.
Fred abriu a boca, mas Angelina, que estava sentada ao seu lado, lhe deu um leve chute no calcanhar. Ele entendeu que era melhor não discutir com Mariana.
Passou o resto do jantar em silêncio. Uma amiga do Percy... Será que não havia ninguém melhor para ele se apaixonar? Mas a mão dela segurava o garfo de um jeito tão bonitinho...
Ué! Fred nunca pensara isso com relação à ninguém! Nem mesmo Angelina, que fora a namorada de quem mais gostara até agora. Era mesmo muito estranho.
Alícia foi a última a terminar de comer e eles a esperaram antes de subir de volta à torre da Grifinória. Fred, Jorge e Lino sentaram-se juntos em um sofá para revisar uma lista de logros que tinham de entregar, enquanto Angelina, Katie e Alícia conversavam e Mariana lia um livro.
Foi ficando tarde quando os meninos se deram conta de que quase todos os alunos já tinham ido se deitar e, exceto por eles mesmos, Mariana era a única acordada.
Jorge e Lino se entreolharam, depois olharam para Fred.
- Eu vou me deitar – anunciou Lino forçando um bocejo.
- Também – disse Fred se levantando. – Eu ainda não achei o endereço dessa tal Joane Russell, acho que Lino anotou nesse pergaminho – e apontou para um dos muitos pergaminhos espalhados pelo tapete. – Você procura?
Fred fez que sim com a cabeça e observou os amigos sumirem pela escada caracol. Então abaixou-se e pegou o pergaminho que Jorge lhe mostrara, colocando-o em frente ao rosto.
Era agora ou nunca. Teria de se declarar para Mariana, não teria outra oportunidade. Mas tinha certeza de que ela não o aceitaria, não depois de ele ter falado mal de dois amigos que ela prezava tanto.
Achou o endereço da tal Joane. Era de Durmstrang e tinha feito um grande pedido de caramelos incha-língua.
Ia se deitar, privar-se da vergonha de ser rejeitado pela garota... “Mas você não largou Angelina para nada” disse a si mesmo mentalmente. Não, ele não havia chegado ali para desistir.
- Mariana...
A menina ergueu os olhos do livro, encarando-o curiosa.
- Me desculpe. Eu não quis ofendê-la nem nada do gênero quando falei do Percy. Devia aprender a me controlar.
Mariana fez que sim com a cabeça. Fred não sabia se ela estava dizendo que o desculpava ou que concordava que ele devia se controlar.
- A Angelina te contou que eu terminei com ela?
- Contou. E eu achei muito nobre da sua parte, se quer saber.
Agora quem estava curioso era Fred. Ela achava nobre? Com certeza Angelina não lhe dissera a verdade.
- Você sabe, - ela continuou a falar, diante o olhar intrigado de Fred –dizer que precisa se dedicar mais aos estudos.
Fred sentiu uma martelada contra seu crânio. Como Mariana pôde acreditar que ele largaria sua namorada para se dedicar mais aos estudos? Puxa vida, Angelina poderia ter inventado uma desculpa melhor.
Mas não fazia mal, Mariana havia gostado dessa.
- Er, hum... Mas na verdade eu estaria disposto a namorar uma pessoa... Porque eu estou apaixonado por ela.
- É? – embora parecesse desinteressada, Fred pôde notar que Mariana fechara seu livro.
- É. Posso te dizer quem é essa pessoa?
- Claro que pode!
- É você.
Ela estava boquiaberta, parecia não saber o que fazer.
- Então, o que me diz? Namora comigo, Mari?
- Eu... Desculpe, Fred, mas acho que você não faz meu tipo. Isso é, a gente nem se conhece! Quem sabe mais para frente? – acrescentou rapidamente, vendo a expressão desiludida no rosto do menino.
- Ah... eu entendo. Vou me deitar então.
Mariana não disse nada, embora parecesse quase tão chateada quanto ele. Fred subiu lentamente a escada caracol até o dormitório. Chegando lá, vestiu seu pijama e olhou para Lino que, ao contrário do habitual, estava deitado de lado e não roncava.
- Lino, eu sei que você está acordado – murmurou, sentando-se na própria cama.
Lino abriu um olho da cada vez e se sentou também.
- E aí, como foi? – pergunto animado.
- Uma droga – respondeu Fred olhando para o chão. – Eu não faço o tipo dela.
- Ah, cara, sinto muito... – e parecia sentir mesmo. – Esquece ela, Fred, não te merece!
- Okay, vou tentar. Boa noite.
- Boa noite.
Eles deitaram-se cada um em sua cama e Fred fechou as cortinas ao redor da sua. Sabia que não ia esquecer Mariana tão cedo.
As palavras dela ainda martelavam na sua cabeça. Lembrou-se que seu primeiro beijo havia sido no segundo ano de Hogwarts, e que desde então nunca fora rejeitado por uma garota. Mas, infelizmente, para tudo há uma primeira vez.
Mais uma vez se perguntou, por que a Mariana? Seria muito mais fácil com qualquer outra garota. Mas não, tinha que ser aquela. Ele sempre falara mal de monitoras, de gente que estudava demais e dos amigos do Percy. Parecia estar tendo que correr atrás de tudo o que ele sempre rejeitara na vida.
Lino já roncava alto quando Fred finalmente adormeceu.

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