Por trás da máscara




Protagonista: Severus Snape
Tempo: Durante a Pedra Filosofal
Spoiler: 6° livro




O sol se punha no horizonte. Outro dia estava prestes a terminar. Ali, no terreno de Hogwarts, ele sentia-se vazio. Outra vez estava ali, ao lado de Dumbledore, onde tinha permanecido desde a época da primeira grande guerra. Ela se fora, e ele continuara ali, para sua própria segurança. Tinha chegado ao castelo no dia anterior, e já se sentia exausto dele, daquelas paredes, daquele velho...

Snape perdeu-se em lembranças prazerosas da época em que servia o grande Lorde das Trevas. Aquele tempo se fora. E ele permanecera ali, apodrecendo no disfarce que seu mestre lhe propusera.

"É tudo para sua própria segurança", dizia para si mesmo. Mas estar ali do lado daqueles aluninhos ranhentos sangues-ruins, e daquele velho...

Velho maldito insuportável, adorador de trouxas e sangues-ruins. Contudo fora a sua única esperança, e sua única forma de escapatória. Só em pensar no que teria acontecido quando Karkaroff abriu a boca no seu julgamento... ele estaria perdido se não fosse pela onipresente proteção de Dumbledore, cuja palavra foi incontestável quando ele foi julgado.

Ele ainda se lembrava da fúria de Crouch, na sua ansiedade em jogá-lo em Azkaban, e do seu ódio, até mesmo por Dumbledore, ao ver a imponente voz do mago defendê-lo de qualquer acusação, e como Wizengamot escutava e condizia com qualquer palavra que ele falava, lembrava-se de quando todos os membros da Corte Suprema dos Bruxos ergueram suas mãos absolvendo-o, e do rosto revoltado de Crouch ao ver que não poderia jogá-lo em Azkaban para apodrecer ao lado dos dementadores e dos outros comensais.

Velho imbecil... se ele soubesse de tudo, de tanta coisa que passava pela sua cabeça. Perguntava-se como era possível alguém ser tão burro a ponto de acreditar nele. Mesmo sabendo que não tinha feito por menos, que sua performance como ator era digna de um prêmio, ele não podia deixar de sentir ódio de Dumbledore por ser tão ingênuo, por ser tão burro, por acreditar nas pessoas e na sua redenção, em oferecer uma segundo chance. Isso o revoltava, como era possível? Nenhuma outra pessoa seria tão tola!

Se ele estivesse em uma posição de tudo ou nada, ele adoraria aplicar um Avada Kedavra bem no meio do peito daquele velho imbecil.

E ele sentia náuseas ao lembrar que no dia seguinte aquela multidão de sanguezinhos-ruins chegaria para ter aula com ele. A idéia de ele como professor, transmitindo conhecimento, era tão patética que ele sentia vontade de rir em desespero de uma situação tão deplorável quanto essa.

Ele entrou no castelo, seus corredores ainda estavam vazios, e novamente seus pensamentos correram para o que o atormentara nesse último ano. Ele finalmente conheceria Harry Potter, o menino que sobreviveu. O garoto que tinha sido sua desgraça, a desgraça de tantos outros parceiros como Lucius Malfoy e os Lestrange. Ele o odiava profundamente sem nem ao menos o ter visto. Antes de qualquer coisa por ser quem é, filho daquele maldito, que ele próprio tivera o prazer de ajudar a mandar para o inferno, junto com sua esposinha sangue-ruim. Infelizmente na ocasião ocorreu o que ocorreu. Tudo por causa daquele moleque.

Quantos comensais deviam achar que ele estava realmente ao lado de Dumbledore e que encaminhara o Lorde das Trevas para a perdição? Como se ele fosse capaz! Quantas vezes ele havia provado que era completamente submisso ao Lorde! Que era o seu servo mais fiel! Ele se postara ao lado do grande inimigo para transferir informações ao mestre, e como aqueles bastardos poderiam achar que ele seria capaz de enganar O Lorde das Trevas?

E no próximo dia ele finalmente conheceria o famoso Harry Potter. Ele fervia por dentro ao imaginar vê-lo. Às vezes imaginava que seria capaz de pular em meio à multidão e abrir a sua cabeça de fato, sem margens para cicatriz. Considerava se valia a pena ir para Azkaban por ter o prazer de fazê-lo sangrar até a morte. Ele fantasiara diversas e diversas vezes a ocasião. Ele se destacando em meio à multidão e gritando Sectusempra apontando a varinha para o seu rosto.

Filho de James Potter e o responsável pela queda do Lorde das Trevas, ele tinha todos os motivos do mundo para odiá-lo. Mas por outro lado, e se ele fosse o que alguns rumores diziam? E se ele fosse um novo grande senhor das trevas? Se nem mesmo o Lorde poderia tê-lo derrotado, e tanto que caíra perante ele? Seria ele capaz de ignorar o seu ódio pelo menino e oferecer seu brilhantismo aos planos do garoto? Seria ele a sua nova válvula de escape, com a qual ele poderia explorar todo o seu domínio das artes das trevas?

Fazia tanto tempo, mas tanto tempo que não sabia o que era pronunciar a palavra Avada Kedavra e sentir aquele raio verde retirar a vida de uma pessoa como uma rajada de vento. Isso o frustrava! Como sentia falta daqueles tempos... fingir ser um bruxo comum, quando na verdade era um verdadeiro gênio, e permanecer ali, ao lado daquele velho, não podendo explorar tudo aquilo que conquistara com anos. Toda a magia da arte das trevas suprimida em sua mente devido àquela situação!

E amanhã, o dia! Ele veria o garoto. E em sua primeira aula com os calouros poderia descobrir se ele realmente é um grande senhor das trevas! Havia sentido uma pontada de raiva quando McGonagall entregou a ele o seu horário e viu que só daria aula para Potter na sexta. Ele sabia que poderia ser precipitado, que o garoto poderia se fazer de desentendido ou nem mesmo ter percebido o poder das trevas em si e que teria que o observar por um intervalo de tempo muito maior, quem sabe talvez até o iniciar...

Mas aquela sementinha do mal no seu cérebro novamente voltava a crescer ao se lembrar de quem era o maldito moleque.

Envolto em pensamentos, ele sequer tinha percebido que já estava virando o corredor para seus aposentos.




O dia chegara! Hoje à noite chegaria o expresso de Hogwarts. Snape mal conseguira dormir direito, mas o cansaço o venceu quando já amanhecia, e agora já era quase hora do almoço. Ele se aprontou e desceu para o salão comunal para almoçar com o resto da equipe de funcionários do castelo, mas no meio do caminho encontrou Filch.

― Senhor, o Prof. Dumbledore quer falar contigo ainda antes do almoço.

Que estranho! O que Dumbledore poderia estar querendo com ele? No dia da chegada dos alunos ainda! Será que tinha alguma coisa a ver com o Potter?
Ele passou por Filch sem sequer lhe dirigir o olhar e foi ter para com o diretor.

Enquanto percorria os corredores o seu cérebro trabalhava rapidamente. Ele, porém, não podia deixar nada transparecer, muito menos a ansiedade que o corroía. Ele teria que se manter frio e inexpressivo como de costume. Dumbledore não podia suspeitar de nada. Passara tempo demais trabalhando para ganhar a sua confiança. Lembrou-se brevemente de quando chegou em frente a Dumbledore para executar o plano do Lorde das Trevas e ele reagiu friamente, pronto para atacá-lo ao menor movimento, e daquela calma constante na sua voz e no seu rosto.

As cenas passaram pelo seu cérebro como um filme velho e mal conservado, com imperfeições e trechos perdidos. Mas se lembrava claramente de si mesmo dizendo para o velho que precisava da sua ajuda, que se arrependera, que tivera que recorrer a ele porque não agüentava mais permanecer ao lado do Lorde das Trevas, mas que ele não podia simplesmente se afastar dele, que seria morto. O rosto de Dumbledore permanecera intacto em sua mente, olhando para Snape jogado a seus pés, não acreditando em uma única palavra, dizendo que sabia que ele era oclumente e que era capaz o suficiente para impedi-lo de ver a verdade em seus olhos. E aquele olhar o fixava com desprezo. A única vez em que vira Dumbledore olhando com desprezo, não por ele, mas por atitude tão horrenda e hipócrita de Voldemort em querer pôr um espião ao seu lado. E ele humilhara-se tanto, sentia tanto ódio por ter sido obrigado a ter que chegar àquele ponto, sua lealdade fora testada, e ele obteve sucesso.

Ao chegar à gárgula do escritório do diretor ele esvaziou os pensamentos. Precisava manter-se calmo, manter-se frio. Mas agora era tão difícil! Seu cérebro estava à mil! E aquela ansiedade que se removia entre as suas entranhas como um verme parasita...

Ele bateu na porta do escritório do diretor, e ouviu-o dizer para que entrasse. Quando abriu a porta viu o diretor sentado em sua mesa, com a penseira em sua frente. Ele bloqueou seus pensamentos como uma grande muralha intransponível de concreto. Fê-lo já com naturalidade, passara tanto tempo perto do diretor bloqueando seus verdadeiros ideais que isso já se tornara automático.

― Mandou me chamar, professor?

― Sim, Snape. Queria falar contigo.

― E do que se trata?

― Ah, gostaria de trocar idéias com você.

Ah, não! Ele ia começar novamente a querer debater assuntos. Já tinha feito isso tantas vezes, e ele sempre tendo que arranjar uma saída para alguma pergunta embaraçosa. Aquele velho maldito conhecia o seu potencial (bem, talvez não todo) e, portanto, estranharia uma resposta do tipo "não me lembro" ou "não faço idéia". Esperava uma opinião sólida de Snape.

― Tocar em algum ponto em específico?

O diretor sorriu, percebendo que Snape adivinhara um dos seus propósitos.

― Sim, sim. No meio de nossa conversa gostaria de tocar num ponto embaraçoso.

― E suponho que seja...

― Supõe corretamente. Harry Potter.

Manteve-se inexpressivo.

― Se o professor não se importar poderia começar por este mesmo assunto...

― Não me importo ― respondeu Dumbledore. E Snape percebeu que o diretor achava que ele estava ansioso por saber sobre o filho de James Potter. Ainda mais supondo que foi aquele que tanto odiou, que delatou para a morte, e que mais tarde ajudou a prolongar a vida. Porém somente achava, já que não conseguia perceber os seus sentimentos por Legilimência. Sua mente estava de fato vazia para o diretor. ― Não tente parecer indiferente para mim, Snape. Você deixa a sua mente inflexivelmente sólida, mas eu o conheço o suficiente para saber que está ansioso para saber o que tenho a lhe dizer ― disse ele olhando-o astutamente por cima dos seus oclinhos de meia-lua.

Aquilo já era o cúmulo! Sentiu vontade até mesmo de rir, mas conseguiu suprimi-la dentro de si. Quem esse velho pensava que era? Ele realmente supunha que o conhecia suficientemente bem para saber o que passava pela sua cabeça mesmo ele a fechando? Se ele soubesse o que realmente passava pela sua cabeça...

― Só espero que sua mente esteja inflexível como está por pura tensão. E não por que esteja escondendo-me alguma coisa.

― De forma alguma, professor.

― Até porque você mostrou-se para mim mais do que mostrou a qualquer um.

― Sim, diretor. Mais um motivo para o senhor acreditar que não escondo nada. O senhor viu em minha mente tudo o que sou, tudo pelo que eu passei, e como eu sou!

― Já lhe disse para não se considerar fraco. Tantos outros já se deixaram seduzir pelas artes das trevas, elas de fato são muito sedutoras, você foi apenas mais um que caiu em sua rede de ilusões.

"Velho maldito dos infernos! Quem ele acha que é? O que acha que sabe? Sua arrogância em achar que é o mago mais poderoso do mundo é tamanha! Quando sequer tem idéia de todas formas e mistérios das artes negras!" ― pensou Snape.

― Mas então, o que quer falar para mim sobre Harry Potter?

― É difícil permanecer indiferente quando se trata de Harry Potter, Severus. Falarei inclusive com os outros professores amanhã de manhã antes das aulas na sala dos professores para serem o mais discretos possível. Eu o mantive longe de toda essa publicidade para que crescesse um garoto primoroso, e de acordo com Hagrid obtive sucesso!

"Duvido muito! O muleque deve ser insuportável como o seu pai. Se o Potter já transbordava arrogância porque jogava quadribol imagine só o seu filho, que tem motivos para ser notado. Deve ser ainda pior que o pai!".

― Não se preocupe, Dumbledore. Eu não pretendo tratá-lo com o mínimo de privilégio que seja!

― Ah, não acho que vá realmente. Não vindo de você, Snape. Alertarei os outros professores em relação a isso, mesmo achando que McGonagall sequer precisará ouvir meu discurso com relação ao garoto. Agora você eu quero alertar não para não o privilegiar, e sim para não o prejudicar.

Por um segundo suas entranhas congelaram. Por um momento achou que Dumbledore pôde ler seus pensamentos, e involuntariamente os fechou ainda mais. Mas então compreendeu aonde ele queria chegar.

― Sua inimizade com James Potter era notável, e tenho razões para crer que a com o filho dele será igual.

Snape permaneceu calado. Negar aquilo já seria exagero. Hipócrita demais para o diretor acreditar.

― Só peço para não o prejudicar. Tente considerá-lo apenas mais um aluno e não o filho de James.

― Sim, diretor.

Por mais que confirmasse com palavras, a última coisa que tinha em mente era poupá-lo.

O diretor levantou-se e começou a circular pela sala.

― Meus planos em relação a Harry estão indo como devido ― Snape escutava-o com muita atenção, havia certas lacunas que nem mesmo ele sabia, quem sabe Dumbledore poderia revelá-las acidentalmente, mas dentro de si sabia que essa possibilidade era impossível. ― Hoje ele vem para Hogwarts, como previsto. Eu consegui mantê-lo a salvo na casa de seus tios, e finalmente ele vem para perto de mim.

Snape não sabia se foi impressão sua ou ele sentiu na voz de Dumbledore um certo ar fraterno. Ah claro! Potter foi o menino que sobreviveu e derrotou o seu grande inimigo, ele devia cair de amores por ele, deveria considerá-lo quase um neto.

― Onde estará ainda mais a salvo ― continuou ele completando o pensamento.

"Velho arrogante!".

― Mas imagino que você esteja muito interessado em conhecer o garoto.

― E por que estaria?

― Porque por muitos anos você serviu a Voldemort, e o menino foi a causa da sua queda. Qualquer pessoa estaria interessada. Aliás, todos estão interessados nele. E pessoas como nós dois que tivemos um contato maior com Voldemort temos ainda mais motivos para estarmos.

"Que vontade de matá-lo! Sempre pronunciando o nome sagrado do Lorde das Trevas para mostrar que não o temia, do que, por sinal, duvidava".

― E o que o senhor acha, professor? Do garoto. Digo em relação a ter causado a queda de Você-Sabe-Quem.

― Muitos mistérios circundam o ocorrido. Creio que muito dificilmente conseguiremos um dia alcançar uma conclusão.

"Ele está me escondendo os fatos. Ele nunca foi capaz de me dizer o que realmente acha que causou a queda do Lorde das Trevas. Assim como nunca foi capaz de confiar-lhe o cargo de Defesa Contra as Artes das Trevas".

― O que importa é que não sabemos o que ocorreu, e, portanto, não sabemos quais poderes Harry possui.

Snape congelou na cadeira.

― Refere-se aos ditos poderes que dizem que ele possui, que seriam capazes de derrotar até mesmo Você-Sabe-Quem?

― Não, não creio que tenha sido por causa de tais poderes que Voldemort tenha caído.

"Mas no que crê você não me diz, velho desgraçado!".

― Mas o ocorrido pode ter marcado Harry com muito mais do que aquela cicatriz, você deve compreender aonde quero chegar, certo?

― Creio que sim! Aquela cicatriz é a marca de um poder muito forte, e com certeza deixou marcas além das físicas.

― Claro que entre essas marcas estão diversas características psicológicas. Por sorte Hagrid me alertou que ele não aparenta ter traumas por ter sido abandonado com os tios, sem os pais. É um garoto muito dócil. Mas entre essas marcas creio que se incluam poderes.

― Poderes em específico?

― Não sei, talvez. Mas houve um vínculo muito forte entre Harry e Voldemort na ocasião em que este foi derrotado. A cicatriz está aí para provar isso. Esse vínculo poder-se-ia estender para outros campos. Como certas virtudes e poderes.

― Compreendo.

― Observarei Harry durante todo esse período em que permanecer em Hogwarts. De olho no que pode vir a acontecer com ele, e quais virtudes ele poderá apresentar.

Snape permaneceu quieto. Então Dumbledore acreditava que Harry tinha alguma forma de poder. Nem que não viesse dele próprio, mas do próprio Lorde das Trevas. Ele sim permaneceria de olho em Potter!

― Era só isso que tinha a tratar comigo, diretor?

― Basicamente sim. O resto podemos conversar enquanto almoçamos. Queria falar contigo sobre a grade de Poções.

"Ai, eu não acredito que ele vai novamente falar sobre a minha matéria. Eu odeio quando ele começa com essa palhaçada."

Eles seguiram juntos pelo corredor em direção ao Salão Principal. Mas somente parte do pensamento de Snape prestava atenção às palavras do diretor. Intimamente ele pensava na conversa com o diretor. Agora, ao ver a opinião de Dumbledore, sentia-se ainda mais inseguro em relação a Potter. Será que ele realmente tinha poderes além do comum? Algo dentro dele dizia que estaria disposto a unir-se nem que fosse a ele para poder desfrutar novamente das artes das trevas...




Se fosse uma pessoa qualquer Snape estaria remexendo-se em seu lugar, mas sendo ele como era permanecia sentado à mesa do Salão Principal, imóvel, observando os mesmos alunos insuportáveis entrarem por aquela porta. Ele sentia um breve afeto somente pelos alunos de sua casa e fazia questão de favorecê-los. Não tinha o mínimo escrúpulo e tinha completo conhecimento disso. Fazia o que fazia porque queria, suas atitudes não eram nada acidentais. Slytherin era uma casa que ao menos pregava ideais de segregação dignos de ser admirada, os mesmos ideais que o Lorde das Trevas seguia...

Sentiu de repente uma pontada no peito, sabia que por mais que odiasse mestiços ele estava sendo hipócrita, quando ele próprio era um. E quantas vezes ele amaldiçoou o seu destino por essa tragédia manchar sua história. Mas enfim... detalhes. Não se era tão relevante quando se tratava dele. Todo o seu talento e lealdade à causa do Lorde das Trevas compensavam esse "deslize" de sua origem.

Finalmente todos os alunos mais velhos tinham chegado e as portas do Salão Principal foram fechadas. Em breve McGonagall estaria recebendo os alunos do primeiro ano no saguão de entrada. E, de fato, não demorou muito e McGonagall entrou salão adentro para posicionar o Chapéu Seletor em seu devido local. Voltou, depois disso, ao saguão. Estava indo chamar os alunos!

Eles entraram seguindo McGonagall. Snape, por ora, não procurou Harry entre os alunos. Tinha a impressão de que os ágeis olhos de Dumbledore poderiam resolver fixá-lo para saber se os seus procuravam Harry tão avidamente quanto os dele próprio. Os olhos de Snape varreram os alunos superficialmente, e por mais que não tivesse a intenção de fixar Harry não havia como deixar de distingui-lo. O moleque era idêntico ao pai insuportável.

Continuou a fingir que a cerimônia tinha pouca importância. Nunca demonstrara lá muito interesse pelas cerimônias de abertura dos anos letivos, não seria nesse ano que ele deveria mostrar algum. A única coisa que lhe interessava era quem ia para a Slytherin. Se eles estariam à altura.

A cerimônia seguiu-se na mesma monotonia de sempre. Os alunos foram um a um sendo escolhidos para suas respectivas casas, até quando o Chapéu Seletor chamou: Harry Potter!

Snape não pode deixar de apurar seus olhos e ouvidos. Agora Dumbledore deveria estar tão compenetrado que não deveria estar se preocupando com o seu interesse por Potter.

Será que ele realmente tinha algo a mais? Algo além de outro bruxo qualquer?

Ele pôs o chapéu na cabeça tremendo, que se demorou bastante em seu lugar até anunciar: Gryffindor!

Igual ao pai! Realmente deveria ter aquele gênio arrogante e o que Dumbledore chamaria de "senso de justiça" e todo aquele monte de besteira que vinha da ideologia dessa casa. Dificilmente terá algum poder a mais, não tem aparentemente, e vindo da Gryffindor a chance diminui consideravelmente.

Após os avisos de Dumbledore, o banquete começou. Esse era o momento pelo qual ele esperava para observar melhor o garoto.

A imagem do garoto era perturbadora. Era uma cópia daquele que tanto odiara. Exceto os olhos. Os olhos eram da sangue-ruim.

Até que Quirrel puxou conversa com ele, do que, logo se percebeu, arrependeu-se profundamente.

― A-a-agradável a-a-a noite de-de-de hoje, não? ― disse ele com uma voz trêmula.

― Agradável? Tem certeza, Quirrel? Você não parece estar aproveitando-a tanto assim, parece tão tenso? Será que você não estaria escondendo alguma coisa? ― Desde que conhecera o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, a matéria que ele queria ensinar, diga-se de passagem, ele nutrira um certo desafeto pelo bruxo. Primeiro porque estava no lugar onde ele deveria estar; segundo porque era um imbecil e, claramente, ele era mais capacitado; e terceiro porque ele ficava patético com aquele turbante ridículo na cabeça e todo aquele tremelique e aquela gagueira, esse certo trauma que teve desde que viajou para as florestas de não sei onde.

E desde que voltara a Hogwarts, nos poucos momentos em que o encontrou, ele percebeu que ele estava diferente do que era no fim do ano passado quando teve que assumir o lugar do Prof. Hammond, que teve que se retirar pouco antes do término do ano letivo. Snape percebera em seu olhar que ele havia mudado, algo que não pertencia à sua essência estava ali. E pelo seu próprio comportamento, ele tinha a impressão de que o professor estava planejando algo, e ele tinha a intenção de saber o que era. E um pouco de pressão seria suficiente. Quirrel era um homem fraco, e não demoraria muito para lhe abrir os seus planos.

Seus olhos percorreram aquele turbante ridículo, e caíram sobre Harry Potter. Dessa vez era ele que o olhava. Cruzando os olhares Snape logo percebeu que, definitivamente, ele odiava o garoto. E ele levou a mão à testa, como se sentisse uma dor, em sua cicatriz.

― Mas não passa de um aproveitadorzinho mesmo... vai se utilizar de sua cicatriz para fazer um drama do gênero "eu sou a vítima de uma tragédia"! Típica atitude do pai...

― O que foi? ― perguntou Quirrel.

― Nada, Quirrel!

O professor fixou-o enviesadamente.

― O que, Quirrel? Quem está escondendo algo aqui é você!

O professor começou a tremer novamente.

― Eu? Es-es-escondendo-do algo?

― Não se finja, Quirrel! Eu sei muito bem que você está escodendo algum intuito, e eu vou descobrir o que é!

― Não sei do-do-do q-q-que você está fa-falando ― disse ele olhando para o prato.

― Por que você não olha nos meus olhos enquanto fala, Quirrel?

― Porque não devo! ― disparou ele sem querer, para só então se tocar que havia dito algo a mais do que devia. Começou então a tremer compulsivamente.

― Não deve? Por que não?

Mas ele virou-se para o outro lado e começou a conversar com a Profa. Sprout.

O que era aquilo, afinal? Será que Quirrel sabia que ele era legilimente? Poucos tinham conhecimento disso. Mas como poderia, será que alguém havia contado a ele? Mas... quem?




Snape esperava nas masmorras a entrada dos alunos do primeiro ano. Finalmente era chegada a hora!

Pouco a pouco foram entrando e lá estava ele. O Potter miniatura.

Esperou os alunos se acomodarem e pegou um pergaminho para fazer a chamada. Ele estava interessado mesmo era no nome de Potter. E quando o alcançou, pausou pensando no que poderia falar, mas resolveu ser discreto:

― Ah, sim. Harry Potter. Nossa nova... celebridade.

E logo percebeu, sentia um prazer inexplicável ao zombar de Potter. Era como se estivesse fazendo aquilo ao seu pai, só que sem direito de resposta. Ele agora estava num nível superior e poderia fazer o que quisesse, ou ao menos, induzir o garoto a confrontá-lo, seus conceitos sobre ele estariam muito errados se ele não tivesse o mesmo caráter arrogante do pai.

Terminando a chamada, ele olhou para a sala e começou seu habitual discurso sobre a precisão e sutileza do preparo das Poções, mantendo a voz não muito distante de um sussurro. E embora se mantivesse frio e falasse com desenvoltura, por dentro ele se corroía. Até que chegou um momento em que não conseguiu mais agüentar.

― Potter! ― disse de supetão. ― O que eu conseguiria se adicionasse raiz de asfódelo em pó em uma infusão de losna?

O olhar do garoto pareceu meio apavorado, era claro que ele não saberia, vindo de uma família de trouxas, mas Snape não considerava isso, ele pouco se importava. O fato era que era extremamente prazeroso deixá-lo em tal posição. Ele olhou para o Weasley ao seu lado (mais um!), que, claramente, era tão alienado quanto ele. Ao passo que uma menininha tola levantou o braço no ar para responder como se ele tivesse feito a pergunta à sala em vez de, especificamente, a Potter.

― Eu não sei, senhor ― respondeu Potter.

Snape desdenhou.

― Tsc, tsc... fama, claramente, não é tudo. Vamos tentar de novo. Potter, onde você procuraria se eu te pedisse para me achar um bezoar?

― Eu não sei, senhor.

― Achou que não devia abrir nenhum livro antes de vir, hein, Potter? ― Ele quando viera para Hogwarts poderia testar N.O.M.s de Feitiços se quisesse, tamanho o seu conhecimento. Mesmo assim o olhar do garoto estava fixo no dele, sem dúvida tinha a mesma petulância que o pai e não sabia seu lugar. E a mão daquela menina insuportável ainda estava levantada.

― Qual a diferença, Potter, entre Capuz-de-Monge e Espantalobo?

― Eu não sei. Acho que Hermione sabe, entretanto, por que você não pergunta a ela?

Como imaginara! A petulância, insolência e arrogância típicas do pai.

Ignorara até agora a intervenção de Granger, que a essa altura já estava em pé, mas ela já estava se tornando insuportável. Porém sua atenção estava tão voltada para Potter que meramente disse: ― Sente-se.

Dirigiu-se então para Potter: ― Para sua informação, Potter, asfódelo e losna fazem uma poção do sono tão poderosa que é conhecida como Poção do Morto-Vivo. Um bezoar é uma pedra tirada do estômago de uma cabra e te salvará da maioria dos venenos. E quanto a Capus-de-Monge e Espantalobo, eles são a mesma planta, que também são chamadas de acônito. Bem? Por que é que vocês não estão copiando?

Ele via a injustiça em esperar que estivessem copiando o que estava dizendo para Potter em específico, mas não se importava, ele era a autoridade ali, ele decidia o que era justo ou não.

― E um ponto será tirado da Gryffindor por sua impertinência, Potter.

Aquilo era, definitivamente, muito prazeroso. O olhar raivoso que o garoto lhe retribuiu proporcionava-lhe ainda mais prazer. Ele realmente tinha em mente tornar a vida do filho de James Potter em Hogwarts um inferno. Algo era claro para ele. Esse moleque não tinha o mínimo traço de poderes excepcionais. Não tinha nem o brilhantismo nem a classe do Lorde das Trevas dos quais tanto se comentava entre os comensais que estudaram com ele. De fato, um líder nato. Quanto a Potter, ele manter-se-ia de olhos abertos para qualquer manifestação anormal de poder. Mas enquanto isso ele, sem dúvida, ia aproveitar-se de sua posição para tirar proveito e fazer o espírito do seu pai retorcer-se de raiva ao ver a vingança de Snape, que lhe seria ainda mais dolorida, pois não seria nele, seria em alguém que ele prezava mais do que a si próprio.

Mas não podia perder mais tempo refletindo sobre o caso no momento, sua posição deplorável de educador o fazia ter que se voltar aos seus alunos.

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