E Se...



Severus Snape não era bom em expressar o que sentia. Sabia usar as palavras com maestria, mas para alfinetar, ironizar, ferir; porém nunca para expressar qualquer coisa boa que raramente lhe assaltasse a mente ou o coração. E isso jamais mudaria. Ponto. Havia sido maravilhoso, então, descobrir, naquela noite, que podia "dizer" a ela tudo o que lhe ia por dentro... apenas acariciando-a ternamente, aninhando-a nos braços, beijando-a e deixando os dedos correrem pelos cabelos. Tonks correspondia, suspirando satisfeita. Era incrivelmente mais fácil assim. Aquela havia sido outra noite mal-dormida; mas hoje era sábado e não havia motivo para pressa. Foi por isso que, contrariando seus hábitos, Snape deixou-se ficar preguiçosamente na cama aquela manhã, braços e pernas entrelaçados nos dela, sentindo-se ser acariciado pelas mãos dela e pelos raios do sol que já ia alto no céu. De olhos fechados, relaxado como em poucas vezes se lembrava de ter estado, ele se dava conta de como em muitos anos seu futuro finalmente não parecia tão sombrio. A guerra estava terminada e ele pudera deixar de lado o perigoso papel de espião. Os poucos Comensais que não haviam morrido estavam encarcerados em Azkaban. Não devia mais nada para ninguém e em pouco mais de dois anos estaria livre para fazer o que quisesse, onde quisesse.

E pela primeira vez que ele podia se lembrar também, o eterno mal-humor não acordara com ele de manhã. Também... era impossível não sorrir enquanto Tonks tentava fazer-lhe cócegas, com uma mecha dos cabelos ridiculamente longos.

_ Oooh, não acredito! _ ela disse, de súbito. Snape abriu um olho. Tonks estava com os seus arregalados e tapava a boca com as mãos. _ Não acredito! _ ela repetiu.

_ O que foi agora, Tonks? _ ele perguntou, a voz abafada contra o travesseiro.

_ Realizei o sonho de metade das suas alunas! Bem, só espero não ter que andar preocupada com uma louca surgindo de trás de cada esquina a partir de agora... _ ela disse consigo mesma, e deu uma risadinha.

Ele franziu a testa e ordenou secamente:

_ Explique-se.

_ Ah, vai dizer que nunca recebeu uma indireta? Não? Oh. Tipo, metade das garotas que passam pelas masmorras a cada ano saem de lá completamente caidinhas pelo professor misterioso e caladão _ ela concluiu, os olhos cintilando.

_ O quê?!

_ É, oras. Bom, pelo menos, era assim na minha época; duvido que tenha mudado... hm, não, definitivamente, não. Você não perdeu nada do charme com o passar do tempo, pelo contrário... Ainda não acredito que *nunca* te passaram uma cantada!

_ Tonks... _ ele suspirou num tom de exasperação; e revirou os olhos. Claro que nunca havia recebido cantada alguma. Quer dizer, pensando bem agora, tinha havido uma ou outra vez em que ele captara uma imagem projetada muito fortemente, mas... *sempre* encarara aquilo como uma espécie de "armação" no estilo dos malditos Black e Potter. Bom, de qualquer forma, fosse o que fosse, ele não se via, de forma alguma, se *envolvendo* com alunas.

_ Bem, claro que a outra metade sempre saía de lá aterrorizada _ Tonks continuou.

Snape se apoiou sobre um cotovelo e, estendendo um dedo, pescou uma mecha dos fios vermelhos que agora cobriam as costas dela, que estava deitada de barriga.

_ E você, fez parte de qual metade? _ ele perguntou num tom falsamente casual, erguendo a sobrancelha.

_ Huh, da segunda.

_ Nenhuma paixonite adolescente, então?

_ Oh, não, definitivamente, não. Nossa, ainda me lembro da primeira aula de poções... você parecia tão alto; e *tão* ameaçador... devo ter derretido meu primeiro caldeirão nos cinco primeiros minutos de aula _ ela fez uma careta.

_ Bom saber que causo realmente o efeito desejado... _ e então, sua expressão se abrandou e ele pareceu um pouco frustrado _ Não me lembro de você no começo. Apenas quando a Metamorfamagia se manifestou e então, tínhamos a nova sensação da escola _ ele concluiu, levemente sarcástico.

_ Não que eu quisesse ser _ Tonks arqueou as sobrancelhas _ Bom, pra falar a verdade, eu era muito mais a palhaça da escola do que a sensação... Sabe? Aquela que podia ser quem as pessoas quisessem, só pra divertir. A que dizia coisas engraçadas e não passava cinco minutos sem fazer uma trapalhada _ ela então enrolou uma mecha dos cabelos no dedo e estudou-a muito atentamente, franzindo a testa _ Aquela que ninguém nunca levou muito a sério ou nunca se preocupou realmente em saber como se sentia por trás da fama de palhaça.

Imediatamente, ele envolveu a mão dela na sua e passou um braço pelos ombros dela.

_ Era realmente assim? _ ele sussurrou por entre um beijo no canto dos lábios; ao que ela correspondeu suspirando de prazer; e depois, fez um muxoxo.

_ Era, mas... eu sou quase sempre assim mesmo, não é? Não levo tão a sério... claro que às vezes enchia um pouco; e você sabe como os adolescentes são dramáticos _ ela revirou os olhos _ Mas hoje... bem, deixa pra lá _ ela concluiu, erguendo-se de um pulo.

Snape assistiu-a caminhando até o banheiro, os cabelos cor de morango cobrindo-lhe as costas e se ondeando com os passos das pernas finas e muito brancas que despontavam por baixo da cabeleira. Ele se deixou cair sobre os lençóis, suspirando ridiculamente. Aquela última confissão havia sido uma novidade: ninguém se preocupar com a forma como ela realmente se sentia; e o fato de ter sido alvo de risadas não desejadas. Aquilo havia mexido terrivelmente com ele , feito-o traçar um paralelo com seus próprios anos de estudante em Hogwarts. De repente, ele se viu desejando ter sabido daquilo antes, para proteger a pequena Tonks de comentários maldosos. Snape estendeu os braços, espreguiçando-se. Se bem que não adiantaria muita coisa, na época... ele franziu a testa e interrompeu os pensamentos quando os dedos, que haviam entrado sem querer por baixo do travesseiro dela, roçaram em algo. Num impulso ele ergueu o travesseiro... e deu de cara com Remus Lupin sorrindo e acenando para ele de uma fotografia. Perturbado, ele virou-a rápido para baixo, apenas para ver Tonks e Lupin se beijando em outra foto. E, por baixo de tudo, um pequeno maço de pergaminhos nos quais ele leu, ao passar os olhos rapidamente, palavras como "amor", "intenso", "impossível sem você", "eternamente seu", "Remus Lupin".

O que, em nome de Slytheryn, era aquilo? Snape congelou e sentiu o ar lhe faltando; e de repente não estava mais em sintonia alguma com o dia ensolarado lá fora. Algo parecia terrivelmente errado naquela descoberta. Era como se ele e Tonks houvessem passado a noite inteira se amando sobre os restos mortais de Lupin. Era mórbido. Severus colocou tudo de volta no lugar e deitou-se, o braço tapando os olhos, como se quisesse apagar aquela visão. Mas havia mais. Ele se sentia... traído. Oh, ele podia compreender perfeitamente Tonks dormindo com lembranças "dele" debaixo do travesseiro enquanto estivesse... bem, sozinha. Mas agora... o quê, exatamente, aquilo significaria? Snape não bastava? Ela ainda preferiria Lupin? Ou estava com ele fisicamente... mas se imaginando com o antigo namorado? Nenhuma das hipóteses lhe parecia exatamente agradável. Algo ácido escorreu dentro dele e Snape cerrou os punhos. Tentando a duras penas se controlar; ele continuou de olhos fechados; mesmo quando ouviu o som da porta se abrindo e sentiu a cama afundando sob o peso dela.

_ Já passou da hora de acorda-ar _ Tonks cantarolou, tentando tirar os braços dele da frente do rosto _ Snape! _ ela o repreendeu, quando não conseguiu. E então, deve ter notado os lábios dele muito contraídos, pois desistiu de lutar e perguntou num tom de inconfundível preocupação _ Aconteceu alguma coisa?

Ele inspirou e expirou profundamente várias vezes, virou-se de costas para ela e então, perguntou friamente:

_ O que é isso debaixo do seu travesseiro?

Ele ouviu-a erguendo o travesseiro e o som de papel em suas mãos.

_ Oh.

_ Pensei que havíamos combinado... nada de segredos entre nós _ ele disse por entre os dentes cerrados.

_ Nada de segredos? Será que não foi você quem esqueceu de contar alguma coisa? _ ela perguntou, começando a se alterar.

_ Me diga, Tonks, por quê?

_ Eu esqueci aqui embaixo, tudo bem? Porque na outra noite, não sei se você se lembra, a gente preferiu não dormir juntos. E eu ainda não consigo dormir muito bem sozinha. Pronto, foi isso, nada demais, não precisa ficar tendo ataquezinho de ciúmes!

_ Não é ciúme.

Ela mordeu o lábio, se controlando. Estava tudo tão perfeito e agora... aquilo! Ela havia dito a verdade a ele e estava cansada de tanto vai e volta. Queria apenas sossegar com alguém, com ele, se sentir outra vez segura com um homem.

_ Snape, por favor... não vamos começar... você sabe... não tem porque... ele está... morto _ a última palavra saiu num fiapo de voz trêmula; e rompeu a barreira de raiva e ciúme. Severus não queria vê-la chorando jamais. Num instante, ele estava do outro lado da cama, tentando abraçá-la

_ Tonks, me desculpa.

Ela se desvencilhou, pegou algumas roupas jogadas numa cadeira e, sentando-se na cama, começou a vestir-se furiosamente.

_ E quanto a segredos... isso não é segredo algum. Só não acho que seria legal ficar comentando contigo que sinto falta dele. Ou prefere que eu comente? _ ela o olhou desafiadora.

Snape não respondeu, e começou a vestir-se também, calado. Mas que diabos, tinha se descontrolado outra vez por ciúmes e quase a havia feito chorar... mas, ao mesmo tempo, a velha dúvida o assaltara novamente: se Lupin estivesse vivo...

_ E o que você acha que umas simples fotos vão causar? Me roubar de você? Me fazer te esquecer? _ ela se curvou, pegou um par de coturnos surrados debaixo da cama e os calçou.

_ Não são as fotos, Tonks, mas o que elas representam _ ele respondeu friamente. Mas como dizer mais a ela sem soar insensível? Claro que Lupin podia roubá-la dele, ainda! Talvez, até já estivesse roubando... talvez ele, Snape, jamais a houvesse realmente possuído...

_ Pois eu acho que você devia se controlar um pouco _ ela replicou secamente, abrindo a porta. Terminando de calçar as botas, ele a seguiu pelo corredor, se sentindo ao mesmo tempo com um ciúme incontrolável, sufocando pelas dúvidas e arrependido de ter arruinado um momento perfeito como estava sendo aquela manhã.

_ Tonks, me escute.

Ela parou; e se virou. Seu rosto não estava mais furioso, mas magoado. Aquilo decidiu por Snape. Alcançando-a, tomou a mão dela nas suas.

_ Perdoe-me.

_ Ah, Snape... você devia ter pensado nisso antes! _ o olhar dela era tão suplicante que ele desejou apagar aqueles últimos minutos da existência de ambos.

_ Perdoe-me.

_ Tonks! Esse... Snape está te perturbando outra vez?

Os dois se viraram, para dar de cara com Harry Potter, que se aproximava de varinha em punho; e mais Gina, Ron e Hermione, parados logo atrás. As mãos imediatamente escorregaram umas das outras; e instintivamente Snape e Tonks deram um passo para trás.

_ Não se meta, Potter.

_ Ela é minha amiga, Snape.

_ Ah, Merlin, essa agora. Vamos parar com isso! _ Tonks se interpôs entre os dois; e se virou para o garoto _ Harry, não é nada do que você está pensando. Sério _ ela insistiu, ao ver o olhar descrente dele. _ Snape não estava me perturbando, não é mesmo... _ ela se interrompeu, quando notou que Snape já não se encontrava mais ali _ Ah, droga, esquece. Não era o que pareceu, Harry, te garanto.

_ Bom, se você diz... _ ele guardou a varinha no bolso, ainda um pouco descrente _ Estamos indo treinar quadribol, tá a fim de assistir?

Ela concordou e, durante todo o caminho até o campo, permaneceu tagarelando, embora, por dentro, remoesse aqueles últimos cinco minutos na companhia de Snape naquela manhã. Parecia ainda surreal demais o momento perfeito terminar abruptamente daquela forma. Aquele ciúme dele, que lhe parecia tão adorável, agora surgia como um pouco preocupante... ela não havia feito nada demais; e Snape nem sequer lhe dera tempo de se explicar antes de tirar conclusões. Por outro lado... até aquela ceninha, tudo estava sendo tão perfeito... ela não ia deixar um ciúme sem sentido estragar aquela reação. Ela realmente *queria* ficar com Severus... e, por esse motivo, ela apenas daria a ele um tempo para se acalmar, e então...

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