Burn, Baby, Burn



19 de Março de 2000.


Tudo errado. Seus planos estavam indo todos por água abaixo. E a culpa era toda do maldito Weasley.

Quando Snape pensava no retorno de Tonks a Hogwarts, sempre se via dando um tempo a ela. Para que as coisas entre eles esfriassem e ele conseguisse pensar em uma forma de fazê-la aceitar suas desculpas. Admitia sem problemas que, a princípio, ela se mostrasse hostil; coisa que, de fato, vinha acontecendo (Tonks o ignorava por completo, à exceção de alguns olhares terríveis); durante este período, ele permaneceria quieto em seu canto, esperando, até que a maré mudasse.

"Tempo" seria a palavra-chave.

Seria. Porque ele não havia contado com um fator externo. Um fator externo ruivo, para ser mais exato. Como pudera não prever aquilo? Severus supunha que Tonks, uma vez superada a fase de negação e tendo retornado à sua antiga personalidade, não sairia se agarrando por aí com qualquer um. Respeitaria um período de luto... e seria aí que Snape entraria em cena, demonstrando o quanto era lógico que ela o aceitasse; os fatos conspiravam a favor e ela havia até mesmo o beijado, por vontade própria. Mas se enganara terrivelmente; e agora uma intensa chama de ciúme e inveja ardia dentro dele. Suas feições se endureciam e ele desviava os olhos quando os via juntos, conversando durante as refeições (Tonks havia pedido à Prof. Sprout que trocassem de lugar; assim, não precisava se sentar ao lado de Snape); sentando-se sempre lado a lado na sala dos professores, juntando-se aos outros dois Weasleys, a Potter e a Granger após as aulas e, a afronta maior: saindo para caminhar pelos jardins durante o pôr-do-sol. Neste momento ele fechava os punhos de ódio. Ódio do Weasley, dele mesmo, da situação geral e até mesmo da teimosia dela. Passear com Tonks pelos jardins era um privilégio *dele*; e, além disso, havia o agravante de que, nessas ocasiões, o casalzinho insuportável desaparecia de seu campo de visão. Snape ainda possuía um resto de bom senso, logo, estava fora de cogitação sair e espioná-los. Então só lhe restava imaginar cenas não muito agradáveis. Para coroar tudo, ele havia resolvido desenterrar memórias da época em que Tonks e Weasley haviam sido seus alunos. Mesma casa, mesmo ano... e sempre grudados, exatamente como agora. Na época, ele fazia questão de não prestar atenção alguma a Grifinórios; portanto, ignorava se havia existido algo mais. Mas a simples suposição era combustível da melhor qualidade para seu ciúme e quase o deixava fora de si.

Cometer outro assassinato não lhe parecia uma boa idéia. O que, então, ele faria?

Snape fitou a própria imagem refletida no espelho, dedos finos e pálidos abotoando a camisa negra e bem-passada até em cima. Era a imagem perfeita do absurdo. A incredulidade estava estampada de forma indisfarçável em sua face: ele estava se aprontando para ir falar com ela. Claro, seria apenas um primeiro passo, uma tentativa de reconciliação. Mas seu estômago não parava de dar estranhas voltas; e era ainda mais difícil respirar com a gola alta e muito justa das vestes que ele agora colocava.

_ Pare de agir como um idiota _ murmurou para o espelho; e desviou os olhos em seguida. Porque era difícil evitar: além de estar envergando suas melhores roupas e as botas estarem reluzindo, ele ainda havia... oh, humilhação suprema: havia lavado os cabelos. Mas havia mais: tinha utilizado um certo preparado que impediria a oleosidade de retornar nas próximas horas. Ele não o fazia sempre porque era muito trabalhoso ter que ficar reaplicando a poção duas ou três vezes por dia; mas hoje não era um dia qualquer. Por alguns instantes ele pensou se não valeria a pena encompridar os fios em alguns centímetros, como ela gostava; mas acabou desistindo. Queria despertar o mínimo possível de atenção e não desejava ouvir perguntas. E assim foi: qualquer pessoa que cruzou seu caminho aquela tarde e se atreveu a olhar para ele recebeu em troca um olhar fuzilante. Os corredores e escadarias pareciam ter se alongado em muitas milhas. Snape estava se liquefazendo por dentro e os passos pareciam cada vez mais lentos.

_ Pare de agir como um adolescente. É só uma conversa _ ele murmurou impaciente para si mesmo. De fato: estava longe de ser um adolescente, porque estar tão inseguro? Ele sabia muito bem o que queria. Queria Tonks; e haveria de tê-la.

Ainda assim, quando finalmente chegou à porta do quarto dela, permaneceu imóvel por longos minutos. Respirando profundamente, ele se recompôs e então, bateu à porta. Séculos pareceram se arrastar até que ela gritasse um "já vou indo". Em seguida, ele ouviu o som de uma cadeira batendo com força no chão; e uma interjeição de dor. Mesmo nervoso, não pôde deixar de sorrir. E até mesmo sentiu um calorzinho novo se adicionando à grande confusão de sentimentos que borbulhava dentro dele. Como era possível ela *ainda* causar aquilo nele? Um sorriso bobo... e o coração em disparada. Ele ouviu o trinco se abrindo; e se aprumou, repassando mentalmente o que ensaiara dizer a ela. Mais alguns séculos pareceram se arrastar enquanto a porta se abria, o vão aumentava, cabelos longos e vermelho-tomate se insinuaram pela abertura... seguidos pelo rosto dela. A expressão de curiosidade deu lugar ao choque e então, ao ódio. Franzindo a testa, irritada, sem dizer uma única palavra, ela se preparou para fechar a porta. Snape, porém, se adiantou e impediu, com o pé, que a porta de fechasse por completo.

_ Tonks...

_ É Nymphadora pra você, Snape!

Ela começou a bater a porta repetidas vezes contra o pé dele; mas Snape usava botas resistentes e mal sentia as pancadas.

_ É importante, Tonks. Por favor _ ele pediu, depois de respirar fundo a fim de manter-se calmo.

_ *Nada* do que você possa ter pra me falar é importante. Cai fora. Estou falando sério _ e seu tom de voz era tão gélido e mortal que por alguns segundos Tonks fez jus à fama de seus antepassados. Mas Snape já havia lidado com uma Bella furiosa por incontáveis vezes; e não se assustava com aquilo. Continuou insistindo com o tom de voz mais calmo e sedoso que possuía.

_ Eu preciso me explicar. Por favor.

Por fim, ela pareceu ter desistido de esmagar o pé dele com a porta e se virou para dentro do quarto. Snape a seguiu.

_ Não quero que pense coisas erradas a meu respeito. Não sou um assassino... não vou ter paz de espírito enquanto não me explicar. Tonks...

_ Pois eu não quero que você tenha paz de espírito, Sev... _ a última palavra escorreu pelos lábios dela como veneno. Tonks agora trazia a varinha empunhada na mão direita _ Quero que sinta exatamente o que me fez sentir. Fora, ou eu te azaro.

_ Tonks... _ oh, Merlin, qual seria a chave para o coração daquela mulher? O que ele teria de dizer para que ela o escutasse? _ Tonks... _ ele repetiu, com a varinha dela agora fincando sua bochecha. Resolveu apelar para uma medida desesperada: abrir seu coração _ Eu... sinto sua falta.

Ela riu, sarcástica como ele nunca a vira antes.

_ Pois eu duvido que você saiba o que é sentir falta de alguém. Duvido... porque você não sabe o que é amar alguém. Ser amado... são coisas com as quais você nem ousa sonhar...

Notando que Tonks havia parado de ameaçá-lo e parecia ensaiar um princípo de diálogo, Snape decidiu continuar levando a conversa naquela direção.

_ Eu poderia... se vo...

Ela estreitou os olhos, mais furiosa do que nunca.

_ Como se atreve? Olha bem pra você... _ e ela o mediu de cima a baixo com repulsa no olhar _ Você é tudo o que eu mais abomino num homem. Falso. Mentiroso. Aproveitador. Como se atreve a pensar...

_ Tonks. Algum problema?

Oh, perfeito. Era realmente tudo o que ele precisava: ser interrompido pelo rival, o maldito Weasley.

_ Nenhum _ ela respondeu, ainda gélida; e o encarando de uma forma que ele jamais havia visto _ O Sr. Snape aqui já estava de saída.

Nesse ponto eles concordavam. Ele queria provar a ela que não era o monstro que ela pensava ser; então, não discutiria com Weasley. Apenas o ignoraria; e se retiraria para as masmorras. Ele desviou os olhos pois o maldito ruivo agora passava um braço protetor pelo ombro de Tonks, que tremia, provavelmente de raiva. Frustrado, furioso, ele girou nos calcanhares, e então...

_ Snape _ ela chamou.

_ O quê? _ ele se virou, esperançoso.

_ Esquece *tudo* o que aconteceu entre a gente. Foi um erro. Eu achava que te conhecia e que existia uma pessoa boa por trás dessa aparência insensível. Infelizmente, me enganei. Não me procura mais, você não existe mais pra mim.

Ele se virou para a saída outra vez, murmurou algo parecido com um "certo" e saiu de cena, tentando ainda parecer dono de si, o que era bem o oposto do que acontecia. Tonks ainda tremia. Ela nunca pensou que pudesse sentir tanta raiva de alguém. Pensou que, se usasse um Avada Kedavra naquele momento, Snape iria para o inferno sem escalas em tempo recorde. Ela havia se aberto com ele, mostrado seus melhores sentimentos, mostrado compaixão... e o tempo todo ele a enganara, a usara... ela se sentia ainda pior com toda aquela carga de emoções negativas, mas não havia nada no mundo que a fizesse perdoar o que Snape fizera: colocar um fim definitivo na melhor coisa que já acontecera em sua vida, por puro egoísmo.

_ Idiota. Cretino. Covarde.

_ Tonks, se acalma _ Carlinhos se virou e apertou as duas mãos dela, carinhoso; e então conjurou um cálice cheio de água _ Bebe isso.

Ela passou a mão pelo rosto e então, aceitou a água. Bebeu tudo em goles longos; e forçou-se a se acalmar.

_ Obrigada. Eu... preciso voltar ao trabalho _ ela apontou com a mão trêmula uma pilha enorme de deveres de casa, que precisavam ser entregues corrigidos para McGonagall ainda naquela tarde.

_ Tem certeza de que vai ficar bem?

Ela o encarou muito séria e então, um pequeno sorriso lhe brotou dos lábios.

_ Sim, vou. Obrigada outra vez _ e, se curvando para a frente, deu-lhe um demorado beijo na face. Com a recomendação de o chamar se precisasse, Carlinhos saiu, fechando a porta atrás de si. Tonks colocou a cadeira de pé e se obrigou a se concentrar na correção dos pergaminhos. Mas era difícil: ela precisava ler pelo menos três vezes cada um, com a mente divagando louca como estava. Por fim, muitas horas mais tarde, depois de ter conseguido entortar a ponta da caneta de pena de águia pelo menos umas cinco vezes, o trabalho estava concluído.

Mas Tonks ainda continuava furiosa. Que audácia. Que cara-de-pau! Esperava ter colocado um fim naquilo tudo. Maldito. Irritada, ela derrubou a cadeira outra vez ao se levantar e esmagou o dedão na porta. Soprando o machucado, o maço de deveres debaixo do braço, ela se encaminhou até a sala da diretora. Por pouco não encontraria mais McGonagall lá; a diretora estava de saída para uma importante reunião no Ministério.

_ Deixe os pergaminhos em cima da mesa, Nymphadora, sim? _ disse Minerva; e em seguida, fechando os olhos, virou o rosto para o lado.

_ Ai, não...

_ Ah, meu Merlin.

Minerva encarou do alto a bruxa ajoelhada no chão, tentando juntar cinco ou seis pilhas de deveres que haviam desabado de cima da mesa, e apenas suspirou pesadamente.

_ Bem, eu realmente preciso ir. Coloque tudo em ordem e feche a porta quando sair.

_ Fecho, claro. *Me desculpa*, diretora... eu...

E Minerva saiu, meneando a cabeça. Curvada sobre as dúzias de pergaminhos espalhados sobre o tapete, Tonks começou a praguejar baixinho. Que dia estava sendo aquele... acordara atrasada. Depois, ficara até mais tarde na sala passando um sermão e perdera a hora do almoço. Depois, o auge: a visita de Snape.

_ Covarde, covarde, covarde.

_ Algum problema, Nymphadora?

Assustada, ela se endireitou. Podia jurar que estava sozinha na sala; então...?

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3, 2, 1... ;D

Gentem! Desculpa pela demora em atualizar; essa semana foi um aperto só. Vou tentar não demorar no próximo capítulo. Se eu fosse vocês não o perderia por nada nesse mundo ;D nem o próximo, nem o próximo do próximo!

Façam como a Morgana, a Hannah, Thai, Lady Gray, Vinola e Vanessa: sejam legais e comentem ;D

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