capitulo unico



Jorge despertou no meio da noite com o choro de uma criança. Soluços lânguidos ecoavam pelo silêncio absoluto. Fred II deveria ter acordado, só poderia ser aquilo. Jorge achou melhor ver o que estava havendo com o filho. Afinal, poderia ser que estivesse doente.


Com muito cuidado, saiu da cama. Não queria acordar sua esposa, Angelina, que parecia repousar de modo tranqüilo e absoluto. Cobriu a mulher e com muito cuidado, beijou-lhe a têmpora, sorrindo gentilmente para ela. Acariciou-lhe os densos cabelos e decidiu deixá-la em paz. Angel merecia um pouco de sossego.


Saiu do quarto nas pontas dos pés, fechando a porta atrás de si. Com passos rápidos, alcançou o outro lado do amplo corredor, encontrando-se dentro do cômodo de Fred. Deparou-se com o garoto enrolado por completo em seu edredom com a estampa de Alvo Dumbledore. Os olhinhos do menino estavam arregalados por demais, como se quisessem saltar das orbitas. Ele tremia visivelmente, parecendo um fantasma de tão pálido que se achava. Olhava ao redor como se algo pudesse saltar da escuridão.


– Filho? – Jorge chamou ao filho, fazendo-o olhar para ele.


O pequeno menino pareceu por fim, notar que seu pai estava junto dele, pois relaxou visivelmente, dando um sorriso pequeno e sonolento. Ele se liberou do edredom de Dumbledore e esfregou os olhos. Os cabelos estavam desgrenhados e se colavam em sua testa.


Jorge achou que Fred II parecia demasiado pequeno em meio aquela cama grande e cheia de objetos de bruxo. Ele não devia medir mais do que 1m30cm. Era um menino franzino e de pernas e braços compridos. Era como se uma brisa pudesse quebrá-lo em pedaçinhos.


Dirigiu-se á cama, sentando-se na beirada da mesma, próximo aos pés de Fred. Colocou as mãos de modo gentil sobre os joelhos do menino, dando-lhe pequenos tapinhas.


– O que aconteceu? – Jorge Weasley perguntou com a voz baixa, tentando dar um jeito nos fios rebeldes de seu pequeno, que se desvencilhava das mãos do pai.


– Eu tive um pesadelo. – A voz do menininho saiu baixa e um tanto trêmula.


Jorge o olhou com receio. Não gostava de quando Fred II tinha pesadelos. Eles deixavam seu filho agitado.


–E com o que sonhou?


O olhar de Fred II foi profundo, mirando aos olhos do próprio pai. As mãos apertaram uma almofada próxima em formato de coruja. As juntas dos dedos dele ficaram brancas nas pontas. Ele mordeu a bochecha por dentro, como se resistisse em falar. Mas por fim, decidiu dizer a verdade :


– Sonhei que você tinha morrido em uma batalha. Que a vovó Molly, o vovô Arthur e meus tios estavam em volta de você. E ah, tinha um homem muito parecido com você chorando por sua morte.


Jorge Weasley sentiu que o Mundo parou de girar. Tudo pareceu algo distante e insignificante. Petrificou-se por dentro. A memória foi desencadeada, fazendo-o perder o chão. Seu coração doeu de modo violento, como se mãos fortes de aço o apertassem com fúria. Lágrimas ameaçaram sua visão.


Tentou disfarçar o que sentia. Não queria deixar seu filho preocupado, mas foi em vão. Fred II era um menino muito esperto, apesar de ter apenas seis anos. Ele viu algo passar pelas expressões faciais de seu pai.


Arrastou-se até o colo de Jorge, aninhando-se no mesmo. Sua bochecha sardenta colando-se no peito do pai, que o envolveu em um abraço de urso, deixando que o corpinho do garoto ficasse envolto por completo em seus braços.


Jorge espiou ao filho. Ele se assemelhava em muito tanto com ele como com seu irmão gêmeo morto. Desde os cabelos de cor de fogo até os olhos amendoados em tom de chocolate. E também na personalidade.


Fred II era capaz de fazer todo mundo sorrir. Tinha um jeito encantador e nunca ficava parado. Vivia aprontando e deixando Angelina maluca. Gostava de pregar peças nas pessoas.


Jorge imaginava como seu irmão gêmeo reagiria quando visse Fred II pela primeira vez. Achava que o irmão se espantaria por tamanha semelhança e iria querer ensinar tudo sobre as “gemilidades Weasley”. Imaginou o gêmeo levando o pequeno garotinho á loja que possuíam e ensinando como usar cada objeto que lá havia. Com certeza, iria mimar Fred II.


E ele chorou ao imaginar as possibilidades sendo concretizadas. Lágrimas frescas pingaram por suas bochechas, caindo por seu queixo em uma torrente. Fred nunca poderia segurar o sobrinho, nem fazê-lo rir e nem protegê-lo da fúria de Molly e dos sermões de Angelina. Nunca!


Fred II olhou para o pai e ergueu os dedinhos , tocando as faces molhadas de Jorge que cobriu as mãos do garoto com as suas.


– O que aconteceu papai ? Por que o senhor está chorando ?


Já estava mais do que na hora de Fred II saber de toda a verdade. Durante seis anos, a família Weasley preferiu não contar ao garoto sobre Fred, mas era necessário. Jorge retirou o filho gentilmente de seu colo, colocando-o sentado na cama de frente para ele. Segurou seus ombrinhos miúdos e o encarou profundamente nos olhos.


– Eu quero te contar uma história, meu filho. E quero que me ouça com atenção, tudo bem?


O garoto concordou com a cabeça. Jorge suspirou e iniciou a fala :


– O seu nome é muito especial, meu filho. E sabe por quê?


Fred II fez que não com a cabeça. Jorge então prosseguiu :


– Ele pertencia á meu irmão-gêmeo. Seu sexto tio.


– Sexto tio?! – Fred II parecia espantado, admirado e muito confuso. – Achei que tivesse só quatro.


– Bem, você tem o Percy, o Gui, o Carlinhos, o Rony e o tio Harry também. Mas existe um que você não conhece. Que é o meu irmão gêmeo. – Explicou Jorge.


– Por que o tio Fred nunca veio me ver? – O garoto soou decepcionado, como se o tio não ligasse para ele.


– Porque ele foi embora meu filho. Foi embora há muito tempo.


Fred II pareceu encaixar as peças de modo perfeito. Ele entendeu o que seu pai quis dizer e se sentiu triste por Jorge.


– Como ele foi embora?


– Em uma batalha muito difícil. Ele morreu de forma heróica, defendendo á seus amigos e á nossa família.


– Uau!


Fred II imaginou um homem igual á seu pai, lutando de forma brava contra bruxos e bruxas cruéis para que todos fossem salvos. Pensou em Fred com uma varinha em mãos, expressão de um herói.


– E como ele era papai ?


– Igual á nós dois. Adorava aprontar, mas tinha um bom coração. Não gostava de machucar e maltratar ninguém, porém, pregava peças em todo mundo. Não tinha uma pessoa que não ria perto dele. Meu irmão alegrava á todos com suas brincadeiras.


– A vovó ficava muito brava com vocês ?


Jorge não conseguiu deixar de rir. O filho sorriu também, ecoando as risadas do pai.


– Sua avó ficava louca com nós. Vivia nos dando broncas e sermões. Mas ela nos amava muito Fred. Amava demais.


– E você gostava muito dele?


– Eu o amo ainda. Amo muito.


– Sente falta do tio Fred?


– Todos os dias da minha vida. Á cada segundo, á cada hora e á cada batida de meu coração.


Fred II se inclinou e abraçou ao pai. Sabia que não podia fazer nada, mas queria vê-lo sorrindo de novo.


– Te amo papai.


– Também te amo, meu filho!


Jorge colocou seu filho para dormir, enrolando-o no edredom. Deitou-se ao lado do garoto, encolhendo-se todo e colou o filho junto de si, confortando-o para que pudesse adormecer mais uma vez. Apagou o abajur e acabou pegando no sono ali mesmo, olhando para a parede.


Jorge escutou alguém o chamando depois de algum tempo. Era uma voz familiar, que trazia-o de volta á realidade. Abriu o olho bem vagarosamente, sonolento, deparando-se com uma claridade aguçada e branca.


Cerrou as pálpebras, assustado e tornou á abri-las, acostumando-se com a luz. Seu corpo estava deitado sobre uma grama macia e totalmente branca. Uma árvore frondosa esticava-se acima dele, também sem cor.


Pássaros cantavam em algum lugar. Jorge se ergueu lentamente, tentando descobrir onde estava. Olhou ao redor, deparando-se com um vasto campo. Não reconhecia aquele local. Engoliu em seco, caminhando para o Norte para ver se achava algo.


Andou, andou, andou e não saiu do lugar. Tudo era tão igual. Vez ou outra, uma ave colorida rasgava o céu, passando perto da cabeça de Jorge.


Ele começou a ficar plenamente desesperado, temendo nunca mais sair de lá. Na sexta tentativa de achar algo, acabou por desistir. Seus pés doíam imensamente. Sua garganta estava seca.


Encostou-se á arvore e se sentou. Colocou a cabeça entre as pernas e tentou controlar o coração descompassado. A respiração saía de modo estrondoso. O suor empoçando sua testa.


Ficou ali por vários minutos, até escutar barulho de passos. Alarmado, olhou para a direção do som, ficando boquiaberto. Não podia acreditar naquilo. Deveria ser uma miragem.


Fred Weasley, seu irmão gêmeo vinha em sua direção. Estava novo ainda, os cabelos bagunçados e usava as mesmas vestes de quando morrera, destacando-se na paisagem monótona. Andava tranquilamente, com um sorriso jovial.


Jorge se ergueu em um solavanco e saiu correndo para Fred. Cada passo parecia mais rápido, atrapalhou-se, escorregando. Suas pernas estavam bambas como gelatinas. Abriu os braços.


E então, ele estava abraçando seu irmão. Os dois pareciam se unir em um só. Fred tinha o mesmo cheiro, mas estava menor do que Jorge agora.


– Ah, Fred. Fred, Fred, Fred! – Jorge Weasley não chorava. Estava muito feliz para poder fazê-lo. Só queria aproveitar o momento que tinha com Fred. - Você está aqui. Você está aqui! Não consigo acreditar. Ah, meu irmão!


– Você está me esmagando. – Fred brincou.


Jorge afrouxou o abraço e se afastou para olhar melhor para o irmão. Ainda não podia crer naquilo. Era bom demais para ser verdade.


– Eu estou tão feliz Fred. Tão feliz em te ver. Você não faz ideia.


– Eu também irmão. E agora, eu estou mais bonito que você. Veja, não tenho rugas.


Os dois riram. Era incrível como algumas coisas não mudavam. Os olhos de Jorge faiscavam de felicidade.


– E aí, como andam as coisas? – Fred perguntou.


– Bem, obrigado. Eu me casei com a Angelina e tivemos um filho, o Fred II. Ele apronta muito, mamãe vive dando bronca nele. Mas um dia, eu a peguei rindo quando Fred II fazia gestos obscenos para um gnomo dos jardim D‘Toca.


– É eu sei. Eu o vejo de vez em quando. Ele se parece muito com a gente, é incrível.


– Como consegue vê-lo ?


– Tenho permissão para ir ao plano dos vivos. Gosto de ver mamãe e aos outros ainda. Sabe ? É para matar as saudades.


– Gostaria que ficasse lá comigo.


Fred deu um sorriso torto, um tanto triste.


– Também gostaria. Mas sabe ? Ainda estou com você. Em suas memórias, em suas risadas , no seu filho e aqui. – Ele cutucou o peito de Jorge, bem no coração.


– Prometo não te esquecer.


– É bom mesmo, ou vou te assombrar.


– Eu te amo Fred.


– Eu sempre soube disso.


– Você é um exibido mesmo.


– Também te amo Jorge.


Eles riram de novo e se abraçaram. Jorge fechou os olhos e deixou que a sensação de conforto o seguisse. Tudo estava bem. Tudo estava perfeitamente bem.


Jorge nunca se sentiu tão feliz na vida. Sabia que assim que acordasse, poderia seguir em frente, que Fred estaria lá, mesmo que de modo indireto, mas estaria. E só aquilo lhe bastava.

Compartilhe!

anúncio

Comentários (1)

Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.