Prólogo



Como é que pode você conseguir destruir algo que demorou meses pra ser construído, isso em apenas um dia?


É justamente nisso que eu não consigo parar de pensar. Poxa, eu tinha conseguido construir algo tão legal com ela, tão legal mesmo! Eu estava sentindo algo que nunca nem havia experimentado com outra pessoa, o namoro tava tão bom, só que eu tive vir e que estragar a porra toda. Como tudo na minha vida.


O pior de tudo isso é que eu sei exatamente onde eu errei. Só que o problema é que eu não sei como melhorar esse ponto. Porque, pensa comigo, antes da merda toda acontecer as coisas entre a gente estavam muito bem, muito bem mesmo, mas em algum ponto do meio do caminho eu desandei e esse ponto eu não sei dizer ao certo onde foi.


Eu acreditava em mim. Antes eu pensava que se não desse certo, não tinha dado, simples. Então eu tava levando o namoro numa leveza na qual eu nunca tinha visto e o melhor disso tudo é que isso vinha dos dois lados. As coisas simplesmente andavam, não eram premeditadas ou pensadas, simplesmente as coisas aconteciam. E por simplesmente acontecer eu fui amando de um modo que eu nunca pensei que fosse possível, eu me perdi nela de tal maneira que além deu não ter ideia de como voltar eu não tinha a mínima vontade de voltar.


E quando eu me dei conta do quanto eu tava gostando dela eu percebi a brilhante mulher que ela era, eu percebi que ela tinha tanta coisa maravilhosa, tanta coisa que eu nunca tive a oportunidade de conviver que eu me maravilhei (e com motivo, convenhamos). Ela era carinhosa e agitada, ela era meiga e direta, ela era divertida e chata, ela era implicante e linda. Ela tinha uma combinação de coisas, uma combinação de opostos, que ao mesmo tempo me deixava fascinada e intrigada, tinha uma combinação de defeitos e qualidades que me fez me apaixonar pelos dois, ela parecia uma mulher e uma criança ao mesmo tempo.


 Como isso era possível? Como é possível alguém parecer tão perfeito pelas suas próprias imperfeições?


Então eu vi que eu não tinha metade disso. Eu vi que não tinha um terço das qualidades dela e que meus defeitos sobrepujavam as minhas qualidades, eu vi que eu não era perfeita na minha imperfeição e eu vi que eu não merecia aquilo tudo. E quando eu percebi que eu não merecia isso ela disse a mesma coisa, ela disse que ela não era o necessário para mim, que eu merecia algo muito melhor.


Por um instante eu pensei em rir porque ambas tinham o mesmo pensamento, só que eu quis ser forte, eu queria ela tanto pra mim que eu pensei “se eu não sou o suficiente eu vou procurar saber o que é suficiente para ela e vou fazer acontecer, eu vou me tornar o que ela precisa”.


E foi pensando nisso que eu comecei a correr contra o tempo, comecei a correr pra me tornar algo que valesse a pena para ela, comecei a correr porque eu queria ser o melhor, ela merecia nada menos que o melhor.


Só que nessa corrida eu tropecei e caí, e quando caí os motivos pelos quais eu estava tentando me tornar melhor se misturaram e se perderam e meu pior defeito se mostrou presente. A minha pressa pra conseguir alcançar o meu objetivo me fez esquecer os meus reais motivos, me fez esquecer pelo que eu estava correndo e me fez voltar a correr pelos motivos equivocados.


Sabe o que acontece quando você corre sem saber para onde ir? Normalmente você pega o caminho errado e se afasta mais ainda do seu destino final.


E foi exatamente isso que aconteceu. Por correr, eu não tive tempo para parar e refletir, eu não tive tempo pra realmente organizar as ideias, o meu raciocínio pulava de um pensamento para o outro, me colocava em situações nas quais eu não sabia lidar, eu não sabia sair, então eu me perdia mais ainda.


Se antes eu corria para ser o melhor porque ela merecia o melhor, agora eu corria para ser o melhor para que outro não o fosse antes de mim. Enquanto antes eu lutava para me tornar uma pessoa melhor para a mulher da minha vida, agora eu lutava contra os outros, contra um fantasma que não tinha forma, que eu nem sabia se existia, eu simplesmente lutava. E isso foi o pior erro que eu pude cometer, esse foi o pior erro que os meus defeitos puderam me guiar.


Como um lutador que soca o vento uma hora cansa, eu acabei cansando da minha luta invisível. Esgotei minhas forças e quando sentei para descansar vi que não estava nem perto de onde eu queria, vi que eu não estava nem no caminho no qual eu queria estar, vi que tinha corrido em círculos e não havia dado um passo sequer à frente.


Ai veio a frustração, porque eu não estava como eu queria estar. Então a frustração se transformou em medo, medo de como eu não tinha mudado, de como eu não era a melhor o fantasma apareceria e a levaria de mim. O medo virou tristeza, tristeza por saber que o fim estava próximo (e olha o absurdo) fim este que eu estava apenas pressupondo, fim este que estava apenas em minha própria cabeça, fim este que era apenas o meu fantasma, minha própria sombra que quanto mais eu corria mais ela me perseguia.


E como fica um ser humano que tem todos esses sentimentos negativos misturados dentro de si? Como fica uma pessoa que não somente tem medo, mas pânico de algo que ela nem sabe o que é, que não tem força pra levantar porque lutou por dias e noites contra um inimigo que estava apenas em sua cabeça?


Ela fica exausta.


Eu fiquei exausta.


Meus olhos se fecharam pelo cansaço e eu não vi a beleza que ela fazia questão de me mostrar, só para mim, não para outra pessoa, não para o fantasma, não para qualquer coisa que alguém possa imagina, unicamente para mim. Por conta dos meus erros, dos meus medos, dos meus fracassos, eu não vi a maravilha que ela sempre fez questão de direcionar exatamente para mim. E quando você não vê a beleza da pessoa que ama seu mundo escurece e você pensa que tudo está acabado, você pensa que ela não te ama mais e que você perdeu.


Mais uma vez eu via um fim que nem ao menos existia.


Só que dessa vez o fim era mais palpável. Sim, palpável porque esse grande erro, no começo da corrida não afetou apenas a mim, mas também a ela, não era somente eu que estava cansada. Sem perceber eu acabei causando mal a única pessoa pelo qual eu estava tentando, com todas as minhas forças, melhorar.


E antes que você pense que a merda acaba por aqui, pois bem, ela não acaba. Porque é exatamente aqui que entra outro defeito meu. Quando eu percebi que tinha afetado não somente a mim, mas também à ela eu quis ajudar, eu quis melhorar tudo, quis fazer algo para que ela pudesse se curar. Mas eu não sabia o que fazer. E por não saber o que fazer eu me desesperei.


Foi aí que a merda se generalizou. Foi tacada no ventilador e espalhada para todo canto que você possa imaginar.

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Comentários (1)

  • MiSyroff

    Adorei o prólogo, muito bem escrito!Fiquei muito curiosa sobre quem são as personagens e você nem deu uma pista!!!Quando vai postar? 

    2013-07-11
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