PAUSA PARA UMA PEQUENA CONFUSÃ



No instante em que Harry finalmente se convencia que era melhor ouvir Caius Black porque afinal não havia outro jeito de conseguir algo daquele sujeito convencido, que achava que sua história era a coisa mais importante da face da Terra; algo muito estranho aconteceu: Uma garota apareceu ao lado dele, com um estojo que parecia conter um violino. Na verdade, ela já estava ali há um bom tempo, chamando por Caius, mas este estava tão entretido contando sua história, que a garota já estava se cansando de tanto chamá-lo. Ele olhou para ela, sorriu e levantou-se sem aviso, deixando Harry surdo pela segunda vez ao quebrar novamente o feitiço de isolamento, mas, agora preparado, Harry levantou-se e disse:
‒ Você não vai a lugar nenhum sem mim, Caius Black! Você prometeu colaborar!
‒ Blablabla... aurores são assim tão chatos? E pensar que meu padrinho foi um e queria que eu fosse também... Harry, relaxe, eu vou colaborar, mas antes, eu tenho alguns compromissos agendados, entende? Coisas importantíssimas e inadiáveis...
‒ Como o que?
‒ Como ajudar Virginie! ‒ ele apontou para a moça, que deu um aceno animadinho para Harry. ‒ Ela é minha amiga há muitos anos...
Algo na frase não combinava. A moça não parecia uma vampira, mas também não tinha cara de quem era amiga "há muitos anos" de ninguém, porque não aparentava mais que 17 ou 18 anos. Harry franziu o rosto e ela sorriu, estendendo a mão.
‒ Virginie Vermont ‒ ela disse e finalmente Harry pode olhá-la melhor. Como ele notara, parecia muito jovem, mas com uma peculiaridade: tinha uma mecha branca na frente dos cabelos negros que caíam muito lisos até a altura dos ombros. Ela era bonita, tinha os olhos amendoados negros e a pele branca, mas não tão branca como a de um vampiro. Os dois dentes da frente o lembravam um pouco Hermione antes do quarto ano, mas não atrapalhavam o conjunto. E além de tudo ela era muito simpática.
‒ Eu sei que estou fazendo papel de chato ‒ disse Harry enquanto andavam no meio das pessoas ‒ mas... é que Caius me prometeu informações e até agora...
‒ Caius faz o que quer ‒ ela disse sorrindo ‒ sei disso há pelo menos uns vinte anos... você é o cara que está atrás do assassino dos vampiros bonzinhos?
Harry parou. Então agora o motivo de sua vinda à cidade já era público? Que perfeito, hein? Era fácil entender porque Sirius odiava tanto vampiros, em menos de duas horas de convivência com um já queria apertar-lhe o pescoço ou cravar-lhe no peito uma estaca de prata. Estava tão irritado que não entendia porque a garota estava carregando um violino. Foi muito estranho quando chegaram ao outro lado do salão e ele notou que uma pequena orquestra estava se juntando, no meio do barulho da boate. Era no mínimo estranho.
‒ Caius, o que diabos você arrumou? ‒ ele perguntou, já perdendo a paciência.
‒ Na verdade, isso é um concurso.
‒ Concurso?
‒ Sim, de dança. Virginie organizou, mas ninguém quis participar de um concurso de tangos, então eu me inscrevi...  e algumas garotas que eu conheço se inscreveram também, por causa disso... Virginie merece...
‒ Você está me dizendo que vai participar de um concurso de TANGO?
‒ Qual o problema?
‒ Isso não faz o menor sentido. Um vampiro que participa de concurso de tangos porque uma mortal pediu?
‒ Quem disse que Virginie é mortal? Agora... por favor, segure isso ‒ ele deu seu sobretudo para Harry e sob ele usava um impecável smoking.
‒ Onde você consegue essas roupas?
‒ Eu roubo! ‒ disse Caius com um sorriso, virando-lhe as costas e começando a conversar com Virginie
Se antes Harry estava confuso, agora sentia-se patético. Era algo muito terrível a sensação estúpida de estar por fora. Pior ainda que estar por fora, era ter de aturar a multidão de garotas que se aproximou de Caius. Era inacreditável que aquele sujeito tivesse um fã clube. Eram várias garotas, todas elas mortais, e pelo que ele acreditava, antigas vítimas desmemoriadas de Caius que não atinavam que ele era vampiro, afinal, nada mais eram que um grande bando de trouxas. Quando seu mau humor chegava novamente no ápice, Harry viu que Caius o olhava e tentava usar um poder que ele conhecia bem, pois fora treinado contra isso na escola de aurors: Caius tentava entrar em seus pensamentos. Então, eles travaram um pequeno diálogo em pensamento:
‒ Nem vem que não tem, Caius, você não vai usar estes truques baratos de vampiro comigo.
‒ Não é um truque barato... é difícil conversar com alguém tão refratário e dar atenção a todas estas garotas ao mesmo tempo
‒ Você é patético...
‒ E você é rabugento. Será que não pode me ajudar para que eu ajude você?
‒ Eu só quero uma informação, e você está me enrolando para dá-la!
‒ Na verdade eu pretendo dizer o que sei e ajudar a pegar esse sujeito. Meu nome também está em jogo... ‒ ele desviou os olhos da garota com quem falava e olhou direto para Harry, com um olhar sério que o lembrou Sirius na época da clandestinidade. ‒ Mas eu quero duas coisas em troca.
‒ Duas?
‒ Duas coisas pequenas... um favor para mim, outro para Virginie.
‒ Que favores?
‒ Ajude-nos, e eu te levo diretamente ao culpado...
‒ Eu vou ter que dançar? Eu danço muito mal... e nunca sequer ouvi um tango direito... ‒ isto fez Caius rir em voz alta, deixando a garota que conversava com ele perplexo.
‒ Não, você não vai ter que dançar... é algo um pouco mais complexo, mas que você já fez uma vez... enfrentar uma esfinge, para Virginie.
‒ Isto é fácil...
‒ Agora que você topou, posso dizer que a esfinge pertence a um demônio?
‒  Eu decididamente te odeio...
‒ Na verdade você gosta de mim, somos quase parentes...lembra?
‒ Se para ela eu vou enfrentar uma esfinge do demônio... o que eu vou fazer para você?
‒ Bem... além de ouvir o resto da minha história, você vai trazer seu superior até a mim.
‒ Mr Sandman?
‒ Não, não quero papo com esse azedo... o outro, o Demolidor. Eu preciso falar  com ele quando tudo isto acabar.
‒ Só isso?
‒ Apenas isso... te garanto que você não vai se arrepender.
‒ Ok. Eu topo. Mas se você tentar algo, eu pessoalmente tiro seu nome da lista de vampiros não hostis! E ponho todos os Van Helsing em seu encalço.
‒ Hehehe, na verdade, alguns deles ainda estão no meu encalço... não se preocupe... agora com licença, meu par finalmente chegou.
Harry viu as pessoas abrindo caminho para uma mulher que vinha entrando como que deslizando pelo salão. Ele não a viu antes que ela chegasse até Caius, e levou um susto, porque se tratava na verdade de uma veela... mas era uma das raríssimas veelas negras.
As veelas negras não eram negras, no termo mais restrito da palavra, mas sim tinham a pele morena e olhos e cabelos muito negros, eram oriundas do egito e muito raras, um congresso deliberara que elas realmente tinham parentesco com as veelas nórdicas, mas em algum obscuro ponto do passado, as duas raças haviam separado-se para sempre, de forma que veelas negras jamais se davam bem com veelas nórdicas e vice versa. Harry desviou os olhos do enfeitiçante olhar dela, ao qual Caius era obviamente imune.  Então, Caius se aproximou novamente dele e disse, apresentando a Veela:
‒ Esta é Tay... ela é...
‒ Eu sei o que ela é, Caius.
‒ Boa noite, senhor Potter ‒ ela disse suavemente em uma voz rouca ‒ espero que o senhor nos aprecie esta noite...
‒ Eu vou apreciar ‒ ele disse, mas completou em pensamento : principalmente quando este espetáculo bizarro tiver fim...
‒ Harry, observe meu competidor mais direto ‒ disse Caius, apontando um outro vampiro, que só então Harry notou.
O vampiro era uma espécie de caricatura dantesca de Caius. Também tinha cabelos negros e olhos azuis, um rosto branco fino e comprido e olheiras, além de orelhas meio pontudas. Seu cabelo estava colado à cabeça e o mais estranho era seu figurino, um terno negro, com uma capa da mesma cor, com verso vermelho.
‒ O que é aquilo, Caius? ‒ Harry lembrou-se de um filme de terror que vira (escondido pelo vão da porta) quando tinha 9 ou 10 anos, que fizera Duda fazer xixi na cama de tanto medo, mas que Harry achara muito bocó. Era um filme sobre Drácula.
‒ Aquilo é Valentino... meu mais feroz opositor... ele me odeia, eu não tenho a mínima dúvida... mas é estranho porque ele faz várias coisas que eu faço, dizem que me imita... eu libertei meus escravos, ele faz o mesmo... eu me tornei um vampiro pacato, ele fez o mesmo... a única coisa que ele não muda desde 1923, pelo que eu sei, é esse figurino de Bela Lugosi* meio fora de moda, mas isso para ele é ser original, o que posso fazer? Quando soube que eu estaria no concurso, fez questão de participar, acho que ele quer me superar em algo.
‒ Ele arrumou uma Veela nórdica como par ‒ disse Tay, ficando ligeiramente diferente ‒ Harry lembrou-se da história que veelas negras tornam-se abutres se muito furiosas. Harry não queria ver uma briga daquelas duas criaturas e disse:
‒ Aposto que você dança melhor que ela, Tay...
‒ Danço, uma veela negra faz qualquer coisa melhor que uma veela nórdica!
‒ Espero que este concurso comece logo ‒ disse Caius, revirando os olhos.
Virginie entrou num foco de luz, agora resplandecente num vestido negro de veludo, segurando seu violino. Depois de um breve discurso sobre como a dança fazia bem ao espírito humano (o que Harry achou infinita graça, pois quatro competidores eram tudo, menos humanos) , ela explicou que todos os casais dançariam juntos, e depois teriam um solo de um minuto cada, antes que os juízes decidissem os dois casais finalistas, que dançarian juntos a final. Então ela finalizou com um "é hora do show!" e começou a tocar.
Virginie se transformou quando seu violino começou a encher o ar de uma música doce e melancólica, que então se tornou em um tango, quando o quarteto de cordas começou a acompanhá-la. Imediatamente os seis casais na pista começaram a evoluir, e Harry surpreendeu-se a ver que Caius dominava perfeitamente o Tango, dançando quase como um profissional, encarando a veela ora sério, ora apaixonado, às vezes até sorrindo. Valentino também sabia dançar, mas Harry viu que ele às vezes dava olhares furtivos na direção de Caius, como que para ver o que este fazia.
No momento do solo, Harry percebeu porque vampiros afinal fascinavam tanto os trouxas... Valentino, que solou primeiro, parecia cortejar a veela loura, que respondia com graça e paixão, os dois pareciam uma combinação apaixonada e irresistível entre tensão erótica e amor furtivo e cafajeste... ao terminarem Harry viu a expressão de triunfo no rosto do Vampiro ao ver-se ovacionado pela boate cheia... ele parecia ter conquistado a platéia, sem dúvida, pelos aplausos. A competição parecia ganha.
Então, Caius Black entrou na pista... ele e Tay ainda eram mais fascinantes que o casal anterior, era impossível desviar os olhos quando dançavam. Caius trazia Tay junto ao peito, então,explosivamente a fazia rodopiar até a ponta de seus dedos, quando a puxava e agarrava com expressão de apaixonado feroz, ela sorria e deslizava suavemente nos braços dele até que ele a virava de lado de forma que seus longos cabelos quase tocavam o chão. O público prendia a respiração quando ele fazia gestos que lembravam carícias para depois num movimento brusco parecer cruel e girá-la antes de deitar o corpo dela deslizando as mãos pela sua cintura. Quando acabaram, olhos nos olhos, numa pose clássica de tango, o público respondeu com um acesso histérico que superava em muito a ovação dada a Valentino, cuja expressão de triunfo evaporara-se totalmente.
Ninguém mesmo se surpreendeu quando Virginie anunciou os finalistas: Valentino e Ruby (a veela nórdica) e Caius e Tay. Valentino encarou Caius e disse:
‒ Agora é entre nós dois, Black?
‒ Seu grande mal, Valentino, é essa sua obsessão por mim...  
‒ Ora, seu...
‒ Esqueça as bravatas... você sabe tanto quanto eu que é importante para Virginie que este concurso dê certo...
‒ Está bem... Virginie merece minha consideração... ‒ ele virou-se com um meneio afetado e Caius riu. Fez com a cabeça um sinal para Virginie, que começou a tocar novamente. Caius e Valentino pegaram seus pares, e começaram a evoluir pelo salão. As pessoas hipnotizadas olhavam aflitas de um para outro casal. Caius às vezes olhava furtivamente não para Valentino, mas para Ruby, a veela com quem ele dançava.
Ele sentira no ar que a hostilidade entre as duas veelas vinha aumentando, e temia o pior. Ele sabia que aquelas duas podiam realmente acabar com a chance que Virginie tinha de provar que era uma pessoa inofensiva e capaz, não uma amaldiçoada que atraía confusão. Engoliu em seco quando Tay olhou para Ruby no meio de um passo e um brilho amarelado apareceu nos olhos , fazendo por instantes lembrar olhos de ave de rapina. Ele e Valentino haviam ambos errado ao escolher as Veelas como par, mas agora era tarde. Ele rodopiou Tay de forma que ela não pudesse encarar Ruby e  notou que Valentino percebera isso, interpretando como uma forma de apreensão, e aproximando-se com Ruby pela direita.
Então, o que ele temia, repentinamente aconteceu. Ignorando a música as duas criaturas repentinamente tomaram a forma real, e uma enorme confusão se instaurou na boate quando um abutre e uma ave de rapina dourada de bico longo, ambos maiores que um homem adulto, se atracaram no meio do salão. Harry de onde estava nem pestanejou, perdendo Caius de vista por um instante, procurou debelar rapidamente a confusão estuporando as duas veelas, então, lembrando-se que provavelmente no dia seguinte aquilo estaria no jornal, lançou um imenso feitiço de confusão de realidade no ar, para atingir todos os trouxas, que esqueceram brevemente o que havia acontecido ali, então, ele voltou-se para notar que Caius desaparecera. Saiu bufando da boate assim que o ministério americano chegou, furioso com o sumiço do vampiro. Então, quando chegou do lado de fora da boate e olhou para todos os lados, supreendeu-se com a presença dele bem atrás de si. Ia dizer algo mas o vampiro falou primeiro:
‒ Bem, acho que as veelas estragaram tudo. Creio que Virginie perdeu mais uma chance...
‒ Chance de quê?
‒ De provar que pode fazer algo que não termine em desastre...
‒ E qual o problema com essa garota, hein? ‒ Harry dizia, mais perplexo que nunca.
‒ Uma maldição ‒ disse uma voz feminina bem atrás dele. Virginie Vermont aparatara bem atrás deles. ‒ é, Caius, creio que vamos mesmo precisar da ajuda de seu amigo. Mas antes, acho que ele precisa saber toda a minha história...
‒ Outra história? Vem cá, é impressão minha ou vocês são compulsivos contadores de histórias quando tenho um assassino para prender?
‒ Por favor, senhor Potter... me escute, me ajude e eu ajudo o senhor. Eu testemunhei um dos assassinatos. Mas não posso colaborar enquanto estiver na minha condição.
‒ QUE RAIO DE CONDIÇÃO É ESSA? ‒ perguntou Harry para a garota, que completou serenamente:
‒ De amaldiçoada há mais de duzentos anos...
Harry se calou. Agora queria realmente uma explicação. E calmamente, Virginie começou a contar sua história...

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