#prólogo



Prólogo
Ou She (Not) Lives In A Fairy Tale (Anymore)


Ninguém tinha lhe dito que ser princesa era fácil. Ninguém lhe perguntou se aceitava o cargo. Ninguém nunca sequer se dera ao trabalho de se importar por seus interesses e perspectivas. Assim que a garotinha abriu os olhos, seus pais já tinham seu destino traçado. E dele, jamais a aquela ruivinha tão inofensiva poderia escapar. Estava fadada a conviver com a idéia de que seria criada de modo diferente das outras meninas do reino e que, independentemente dos fatos, morreria sustentando quilômetros de relva jamais exploradas por seus belos olhos verdes.


Quando criança achava que tudo não passava de uma brincadeira; os vestidinhos engomados, os cachinhos perfeitamente modelados em seu cabelo vivo, os sapatinhos sempre limpos. A princesinha corria pelos grandiosos jardins do castelo como uma menina comum até que a Rainha, Vossa Alteza Real, Aimee, notou que sua filha precisava se domesticar para compreender seu destino. Aos sete anos, após um banquete, o Rei e a Rainha lhe contaram a história de uma pequena garotinha que logo seria aclamada por princesa, e que teria de assumir responsabilidades de gente grande. Lily, na época, não entendia o que era ser “gente grande”. Apenas mergulhou nas vozes dos pais, avidamente curiosa.


- Querida, você é a princesinha da história. Você é a história que todas as meninas do povoado aguardam escutar – Benjamin, o Rei, lhe contou, juntando as mãozinhas da filha.


- Eu gosto de ser princesa – Lily contou ingênua.


Seus pais, sempre bem arrumados, se entreolharam.


Lily Evans, aos sete anos, já era uma princesa. Não sabia o que deveria fazer para agir como tal, mas faria o possível para estar à altura do que o Rei e a Rainha a julgavam ser. Necessitava apenas de alguns anos de prática.


* * *


Lily corria. Seus sapatos bambeavam com seus passos incertos e desesperados. A escadaria parecia ter se prolongado.


- Ah! Princesa! – gritou um dos serviçais – A senhorita está aí!


- Por favor, Bud, diga-me o que está acontecendo! – a menina arquejou; uma de suas mãos se apoiava no corrimão de pedra e a outra tinha se encontrado com os lábios.


- Precisamos tirá-la daqui – o loiro falou, ajudando-a descer os últimos lances de degraus – É uma emergência.


- Que tipo de emergência, você sabe me dizer? – ela implorou, encarando o rosto aflito do jovem rapaz.


- O Rei precisa vê-la – sem pensar que não deveria ter feito aquilo, pegou os dedos da princesa e começou a guiá-la prementemente pelos corredores largos e frios - Disse-me para levá-la ao encontro dele nas masmorras – virou o rosto para a menina; parecia lívida – Ele lhe explicará, senhorita – Lily nada disse, apenas permaneceu andando apressadamente – Sabes que sou um mero serviçal e não que tenho pleno acesso aos assuntos reais.


Os barulhos ensurdecedores não cessavam. Era um BUM atrás do outro.


As criadas também corriam. Tammys chorava e pedia por clemência. A princesa fez menção de parar para consolar a jovem, mas Bud não desacelerou.


- Onde está Poppy? E minha mãe? Onde estão todas? – Lily exigiu saber.


A cada passo, o ambiente se escurecia ainda mais. A maioria das tochas que vivia bruxuleando por todos os cômodos não mais irradiava luz. Os olhos de Lily doíam por estar forçando a visão, mas de nada adiantava. A umidade se impregnava em seus cabelos e em sua respiração, que ficou pesada, dificultando, assim, o ar frio do fim de tarde se infiltrar em seus bronquíolos.


- Lá embaixo, princesa – Bud respondeu-lhe rapidamente, como se o ato de falar pudesse atrapalhá-lo em sua missão – Todos que a senhorita estima está em segurança, não se preocupe.


- Marlene? Ela está lá também, não está? – Lily sentiu seu estômago gelar. E se Marlene estivesse perdida nos jardins?


- Absolutamente – o jovem resmungou.


Tinham finalmente encontrado, a esmo, a quase interminável escada que desembocava nas masmorras daquele lado do castelo. A princesa e o criado sentiam se arrepiar ali; o frio, como sempre, não estava amenizando o terror.


- Você ficará lá, não ficará, Bud? – a voz da menina saiu tingida de medo – Não voltará aos corredores, voltará?


- Não pareço ser uma dama de companhia, pareço? – o garoto riu amargo; a jovem negou – Assim, o meu dever não está junto a ti. Teu pai confiou em mim para levá-la para a segurança, não para ajudá-la a se vestir – pausou - Com todo o respeito, claro – logo acrescentou.


- Mas Bud...


- Sinto muito, minha jovem – ele suspirou, odiando o cheio de carnificina que ali no recinto pairava – Nossos destinos não chegam nem mesmo a serem semelhantes.


A princesa, que nunca deixara de socorrer algum necessitado, sentiu sua garganta se comprimir ainda mais.


A vida ali não era nem um pouco justa.


Afundando seu sapato recém-adquirido cuidadosamente nas pedras largas e irregulares de cada degrau, a impotente princesa via-se no fundo do poço. Não sabia se suportaria mais aquilo. Seu pequeno corpo fatigado lutava para permanecer operante, quando seu coração lhe dizia para largar tudo.


Após doze anos falsificando sorrisos radiantes, assentindo para sua mãe sempre que esta lhe corrigia na compostura, interessando-se pelos assuntos abordados por seu pai nos jantares, a princesinha não queria mais ser ansiada. Mesmo depois de tanto tempo – um pouco mais de uma década -, não sabia o que o povoado aguardava dela. E menos sabia se estava aprendendo a ser uma princesa digna para assumir, um dia, todo aquele glorioso e vasto reino.


Desejava poder ser apenas a garota Lily Evans; nada de princesa ou Mademoiselle. De sua janela, ao horizonte, deslumbrava a silhueta do povoado. Percebia as fumaças poeirentas e quase negras emergirem das pequeninas chaminés das casas de pedra das famílias e tinha inveja. Nunca tinha se gabado por ser da realeza: tal fato a diminuía, se possível. Ressentia-se com as meninas de vestidos esfarrapados e sujos, que corriam livremente pelos vales atrás de pequenos roedores ou apenas da Árvore Que Tudo Mostra. Aquelas meninas-quase-mulheres não sabiam quão sortudas eram. A pequena princesa trocaria de lugar com qualquer uma delas num piscar de olhos, caso pudesse.


Sempre acompanhada e vigiada, nunca tivera oportunidade para se distanciar demais dos olhos de Bud ou de algum serviçal sucumbido por sua segurança. Assim, nunca tinha ido visitar a Árvore que Tudo Mostra. Marlene e Dorcas (as únicas amigas que sabia que podia depositar sua confiança) contavam que a Árvore era ressabiada por muitas vezes, mas, muito honesta e nobre, nunca deixava de encher o peito dos quem a procurava com esperança. Lily tinha prometido a si mesma que encontraria Artemis, a Mãe da Terra, e que ficaria aliviada se esta lhe concedesse um pouco de sua perseverança e coragem.


- Papai! – ela gritou, assim que avistou uma tocha milagrosamente acesa crepitando ao fundo do amplo esconderijo gelado, úmido e fétido – O que está acontecendo? Por que estão nos atacando?


Ao apertar ainda mais suas pálpebras e esperar suas pupilas se dilatarem ao se acostumarem com a pouca luz quente proveniente do fogo junto à parede, notou a maioria dos empregados encostados uns aos outros, quase ganindo de medo. Sua mãe mantinha Poppy entre os braços, que lamuriava por entre os cabelos volumosos da tia. Seu coração se desacelerou um tanto quando sentiu uma mão fria e urgente agarrar seu pulso. Virou o rosto: a dama de companhia, tal como todos ali, carregava terror e pânico em seu semblante úmido e brilhante. Seus olhos, mesmo o local estando quase em plena penumbra, estavam em choque e muito arregalados, Lily não deixou despercebido.


- Princesa, os homens querem a ti – a garota lhe sussurrou.


Tomada por uma nova onda de tormento, Lily segurou a mão da amiga, que tremia. Fez um sinal para que a criada nada mais proferisse, pois precisava de explicações, e tornou a olhar para o Rei.


- Papai... – a princesa buscou sustentação nas pontas dos pés, antes de caminhar até ele – Por que tudo isso?


- São os Gaala! – sua mãe lhe respondeu, escondendo sua respiração acelerada – Eles estão atrás da Pedra.


- O quê? – a garota sentiu uma pontada na cabeça. Aquilo fazia algum sentido? – Que pedra, mamãe?


- Aimee! – o Rei olhou feio para sua esposa – Você me prometeu que não tocaria neste assunto até a Lily assumir a coroa!


- Por Artemis, alguém poderia me dizer a o que se referem? – a princesa bufou, chateada.


A Rainha se contraiu, sentindo-se culpada. Acolheu o corpo da sobrinha com mais intensa vontade, como se a criança pudesse lhe servir de escudo.


- Não é a hora, Lily – seu pai se apressou a dizer – Você precisa sair daqui.


- Quem são os Gaala? – ela quis saber.


- Quero que me ouças atentamente, entendeu? – o tom da voz de Benjamin estava assombrado e apressado. A filha se limitou a lançar olhares furtivos a sua mãe, implorando silenciosamente para que a mesma lhe contasse sobre a Pedra.


- Sim, Senhor – a jovem ecoou, sentindo perder toda a coragem.


- Quero que corras sem olhar para trás, independentemente do que vir pelo caminho. Se desejares voltar, resista a tentação e continue seu caminho até o fim.


- Por quê? Aonde o Senhor vai? – a princesa não escondeu o medo na voz.


- Procuraremos abrigo seguro assim que puder – Aimee tentou lhe tranqüilizar.


- Não! Vocês não podem me deixar! Não podem me soltar lá fora sem rumo!


- Você terá um rumo – o grisalho falou, perdendo a pouca cor que lhe restava.


- Mas não quero deixá-los! – Lily afirmou agarrando a gola de suas vestes, como se de repente seu coração estivesse queimando.


O Rei estava decidido. Lily tinha apenas dezenove anos. Não tinha poder algum para decidir qualquer coisa. Cabia a ele e a Rainha fazer as escolhas mais corretas à Princesa. Quando se casasse e assumisse o trono, dali a quase um ano, teria o livre-arbítrio para seguir sua própria vida; mas ainda não chegara a hora.


- Vá para junto de Esther e fique lá até eu mandar alguém para buscá-la! – ele mandou.


- Mas, Benjamin, é longe demais daqui! – protestou a Rainha.


- Por isso mesmo, Aimee! – vociferou o homem corpulento – Você deseja que nossa filha esteja segura, ou não, mulher?!


- Mas... – choramingou ela com os dedos trêmulos no rosto.


- Ande, Lily! Não temos mais tempo! – seu pai a apressou, empurrando-a de volta às escadarias. Os dedos da criada se desconectaram com os seus e esta engoliu em seco.


- Mademoiselle... – Marlene arquejou.


Lily instantaneamente se jogou contra as mãos do Rei, tentando retroceder.


- Espere – ela berrou, antes que fosse de vez interceptada – Eu preciso de Marlene! Não irei sem ela!


- Ah, a dama de companhia! – o Rei exclamou furioso.


O que sua filha tinha que nunca podia pensar apenas em si, por meros minutos?


- Por favor, papai – pediu.


- Benjamin, deixe-a – Aimee concordou, alcançando os babados das vestes do marido, gentilmente – Preciso que Lily se responsabilize por Poppy igualmente.


A criança aninhada em seus braços tirou a testa de seu ombro, assustada, ao ouvir seu nome.


- Eu não quero ir! – seu chorinho se irrompeu por sua garganta.


- Encontraremo-nos daqui a alguns dias, pequena – sua tia lhe assegurou tentando não exportar seu tom hesitante. Beijou-lhe a testa e a entregou para os braços da filha – Sinto muito – falou vacilante.


- Lily... – a menininha chorou, agarrando seu pescoço com força demais, como se fosse um gato assustado.


- Shhh, Poppy, vai ficar tudo bem – a princesa sussurrou no ouvido da prima.


Ouviu-se um estrondo. A terra tremeu: berros agudos e o chocar de lâminas ecoava pelo morro.


- Andem, vão! – o Rei, desajeitadamente, fez sua filha e a criada se locomoverem do lugar.


- Papai... – Lily olhou para trás, não parando de andar forçadamente.


- Não há mais tempo, vá! – ele berrou.


O rosto contorcido de seu pai, e os olhos transbordando lágrimas de sua mãe desapareceram de vista.


Lily, pela primeira vez na vida, estava com medo de atravessar os limites do castelo e de se encontrar no mundo que nunca explorara antes.


Com Marlene bem atrás de si, as duas correndo mais do que achavam que podiam, chegaram à passagem do jardim.


E tudo o que Lily enxergou foi um caos berrante e tenebroso.


Desejou morrer ali.



:::

N/a: Yeey *--*
       Nem acredito que estou postando o prólogo agora :D Achei mesmo que fosse me segurar para postá-lo juntamente com o primeiro capítulo, mas como sei que o mesmo irá demorar um pouquinho para aparecer, não quis decepcioná-los e logo dar a vocês o que o resto da fic os aguarda :)
      Preciso falar como essa fic surgiu em minha mente. Há um tempo queria escrever algo que estivesse relacionado à era Medieval ou a tempo muito distante do que nos encontramos, então semana passada eu estava assistindo a um novo episódio da sétima temporada de House, onde o paciente da vez participava de um festival medieval e achava que era mesmo o cavaleiro que interpretava. Daí quis trabalhar em cima desse assunto. Além do mais, eu estou ficando um pouco obcecada pela lenda do Rei Arthur, fazendo-me a encarar aquele tempo com outros olhos.
         Enfim, espero que tenham gostado. Se odiaram comentem; se apreciaram comentem ;D
        #ps: o primeiro capítulo precisa de inspirações. Provavelmente o estarei finalizando no final de Dezembro, após muitos comentários para me darem forças, então me ajudem :)
         Beeijo ;*
       

         Nina H. 



30/11/2010

Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.