Mudanças



Capítulo 1 - Mudanças


Harry Potter sentou-se sobre a cama e apertou a testa. A gargalhada fria e maligna de Lorde Voldemort ainda ecoava em seus ouvidos e o brilho da Maldição da Morte ainda o cegava. A cicatriz ardia como em ferro e a cabeça latejava.


Ele ficou em silêncio, ofegante, sua mão sobre a testa. Aos poucos a dor na cicatriz começou a diminuir até cessar completamente. Com isto, ele se levantou e sentou-se na cadeira à janela. Abriu o vidro e sentiu a brisa fresca da madrugada.


Harry estendeu a mão e pegou os óculos, colocando-os em seguida. A cabeça ainda latejava e isto o irritava ainda mais. Ele fitou o céu estrelado para, então fechar os olhos e refletir sobre o que acabara de ver.


Era uma reunião e já havia começado quando ele passou a ver, ouvir e sentir o que Voldemort via, ouvia e sentia. Ouviu boa parte dos planos do Lorde e de seus comensais, principalmente os sobre Hogwarts e aliados. Sentiu, então, surpresa por ele próprio e prazer por Voldemort, pois o assunto passou a ser ele: Harry Potter.


Quando Voldemort chamou por Bellatriz, sentiu imensa alegria por humilhar Rodolpho. Ao dirigir-se à bruxa, um sentimento diferente o tomou. Era uma necessidade quase insana de fazê-la ceder a ele de uma maneira única. Sentiu prazer quando ela estremeceu apenas pelo som de sua voz. Quando ela deu certeza de que seria útil à necessidade do Lorde, sentiu um contentamento explosivo, pois atacaria e acabaria com ele, Harry Potter.


Aquele sentimento dúbio quase fez com que Harry despertasse. Ficar contente pela sua própria morte era demais. Porém, Snape manteve-o ali, dentro daquele sonho.


Sentiu a dúvida de Voldemort, a desconfiança sobre o comensal mais fiel. Entretanto, a desconfiança desapareceu quando o interesse surgiu. Um aliado que acharia Potter em qualquer lugar. Um caçador.


Ira. Foi o que sentiu pelos comensais. Aqueles malditos palhaços que não se calam quando o Lorde precisa de total silêncio. Confusão. Foi o que floresceu em sua mente com o pedido de Snape.


“Por que não atacar o Potter imediatamente?!” – pensou Voldemort.


A pergunta foi feita e Snape iniciou sua bela resposta. Apesar de bela, nada ali era falso ou planejado. Havia um incrível ar de espontaneidade em torno das palavras do comensal. Ouviu tudo com atenção, estudando minuciosamente cada palavra e argumento. O último deste foi o que lhe ganhou.


“Nenhum erro. Perfeito e insuperável!” – as palavras de Snape ecoaram com força.


- Que seja. – anunciou o Lorde.


Quando Snape disse que precisava apenas de Draco Malfoy para sua busca, sentiu descontentamento, pois o Lorde planejara por horas a fio os castigos que o garoto receberia por ter fracassado em Hogwarts.


O temor de Narcisa e de Draco foram como um estopim. Sentiu necessidade de torturar a ambos ali, perante todos. Snape, contudo, argumentou sabiamente. Contra aquele argumento não havia debate. Porém, uma dúvida formou-se em sua mente, uma curiosidade que beirava a suspeita de traição.


- Então, por que deseja levá-lo consigo? – perguntou o Lorde.


Novamente a resposta de Snape fora como uma bomba que cai sobre uma casa, esmagadora e satisfatória. Aplaudiu-o e consentiu que levasse o garoto. Fitou, então, seus comensais.


Mendor, o espião, e Bellatriz não pareciam contentes. Um desejo de fazer o espião sofrer e de provar, mais uma vez, à bruxa que a decisão dele é inabalável apoderaram-se dele.


Ficou satisfeito, entretanto, apenas com a humilhação do espião. A prova contra Bellatriz foi mais bem sucedida do que imaginara. Ao vê-la tremer e gemer com sua voz sibilando seu carinhoso apelido, sentiu uma selvageria pulsante fluir com seu sangue. Manteve-se, porém, impassível.


Deu a reunião por encerrado e confidenciou à Snape que seguisse consigo. Fleches de planos e ideias passavam pela sua mente. O prazer dos comensais pareceu intervir sobre o Lorde. Ao matar o patético trouxa, o prazer que o homicídio gerava fez explodir de sua garganta sua risada mais fria e cruel.


Foi rindo que Harry despertara. Rindo como Voldemort, de prazer por ter matado um ser inferior.


Com um suspiro, o moreno abriu os olhos e fitou as estrelas. A irritação que sentia converteu-se em ódio em rápidos segundos.


Aqueles sonhos e reuniões eram frequentes. Desde o retorno à casa dos Dursley, cerca de duas semanas antes do esperado, aqueles sonhos e visões de Voldemort roubavam-lhe as noites de sono. Isto lhe causou sérias mudanças.


Estava mais magro, ainda mais do que o usual. Profundas olheiras circulavam seus olhos e lhe davam a aparência nada agradável de um zumbi. A pele potencialmente mais pálida contribuía para sua nova aparência. No entanto, a mudança mais drástica foi em seus olhos, em suas íris. O verde-esmeralda, outrora vivo e brilhante, agora era frio e sombrio, escurecido pelo ódio que inundava cada célula de seu corpo.


Dia após dia, vivendo com os Dursley, a realidade cruel caiu sobre ele. Durante as noites que não sonhava com Voldemort, ele revivia o terror do dia em que Alvo Dumbledore fora assassinado.


A porta para as ameias se escancarou mais uma vez e surgiu Snape, de varinha em mão, seus olhos negros apreendendo a cena, de Dumbledore apoiado na parede aos quatro Comensais da Morte, incluindo o lobisomem enfurecido e Malfoy.


- Temos um problema, Snape – disse o corpulento Amico, cujos olhos e varinha estavam igualmente fixos em Dumbledore –, o menino não parece capaz...


Mas outra voz chamara Snape pelo nome, baixinho:


- Severo...


O som assustou Harry mais que qualquer coisa naquela noite. Pela primeira vez, Dumbledore estava suplicando.


Snape não respondeu, adiantou-se e tirou Malfoy do caminho com um empurrão. Os três Comensais da Morte recuaram calados. Até o lobisomem pareceu se encolher.


Snape fitou Dumbledore por um momento, e havia repugnância e ódio gravados nas linhas duras do seu rosto.


- Severo... por favor...


Snape ergueu a varinha e apontou diretamente para Dumbledore.


- AVADA KEDAVRA!


Harry tremeu de ódio e trincou os dentes. Após um mês do assassinato, durante este curto tempo, ele havia mudado mais em pensamentos, sentimentos e ações, comparando-os ao seu estado físico.


Cada vez que revia o assassinato, o mesmo ódio e desejo de vingança, que sentira contra Snape naquela noite, tomava-o com uma força cada vez mais crescente. Por vezes conseguia criar em sua mente a morte de Snape, uma morte vinda apenas depois de uma súplica, como fizera Dumbledore.


Não era somente de Snape que seu ódio se alimentava. Malfoy era outro que queria ver morto. Fora Malfoy quem consertara o Armário Sumidouro, que permitiu a entrada dos Comensais em Hogwarts. Se não fosse pelo sonserino, Snape nunca teria conseguido atingir Dumbledore. O ex-diretor era um poderoso mago e exímio duelista. Snape não tinha chances, muito menos Malfoy.


Harry não acreditava que, durante os dias que permanecera em Hogwarts para o enterro, sentira pena de Malfoy. Pena, agora, lhe era repugnante e lhe dava náuseas. Se seus inimigos nunca tiveram pena ou piedade de ninguém, por que ele devia ter deles?


Ele conteve o ímpeto de gritar aos céus e desviou o olhar das estrelas. Seus olhos guiaram-se sozinhos para a última coisa que ele queria ver. Sobre a escrivaninha havia dezenas de cartas e pedaços do Profeta Diário. Rony e Hermione mandavam-lhe cartas quase que diárias e estavam muito preocupados, pois ele não respondera mais a partir de alguns dias. Era frustrante ter que dizer as mesmas coisas todos os dias.


Os pedaços rasgados sem o menor cuidado do jornal continham pequenas ou grandes manchetes de notícias sobre Snape e Malfoy, que eram avidamente caçados por batalhões de aurores, os mais preparados.


Um acontecimento relacionado às cartas de Rony e Hermione causavam um conflito entre alivio e frustração em Harry: Gina, que não lhe escrevera nenhuma carta, nenhum bilhete, nada.


Porém, antes que a ruiva lhe tomasse total e completa atenção, um objeto reluziu à luz da rua. Ele se levantou e caminhou até a escrivaninha. Afastou algumas cartas e avistou o objeto por completo. Era um medalhão de ouro, enroscado em uma corrente. Sentiu ainda mais ódio, agora contra si mesmo.


Dumbledore havia feito tanto para obter aquele medalhão, aquela horcruxe. Contudo, era falsa. Não era o verdadeiro medalhão de Slytherin, não era um pedaço da alma de Voldemort.


Harry deu um murro na mesa, que tremeu. O impacto produziu um barulho considerável em meio ao silêncio da madrugada e acordou Edwiges, que bateu as asas e piou alto, irritada.


- Quieta! – a voz grave e rouca de Harry fez a ave se encolher ainda mais dentro da gaiola aberta sobre o guarda-roupa.


O moreno segurou o falso medalhão e deixou-o bem a vista, abaixo da luminária, que ele ligou em seguida. Ele percorreu os recortes do jornal com os olhos e deteve-se em uma que lhe causava tristeza.


A grande manchete dizia:


Hogwarts fechada!


E era seguida por outra, menor:


Alunos serão transferidos para outras escolas do continente.


A reportagem completa tomava o resto da primeira página.


Fora um choque ler a notícia pela primeira vez. Mesmo sabendo do risco que Hogwarts tinha de fechar, Harry nunca acreditou que isto, de fato, aconteceria.


Para sua sorte, ou azar, mesmo que a escola reabrisse, ele não retornaria. Já estava decidido desde o velório de Dumbledore que ele não completaria os estudos. Ele tinha uma missão a cumprir. Uma missão que o próprio Dumbledore lhe deixara com sua morte: procurar e destruir as horcruxes de Lorde Voldemort.


E havia também outra missão... Uma imposta por si mesmo, e que desejava, com todas as suas forças. Matar Severo Snape e Draco Malfoy.


Harry ergueu os olhos e fitou o calendário todo rabiscado. Pouco mais de duas semanas era o tempo que tinha para arquitetar um plano de fuga. Ele teria que se desvencilhar da Ordem da Fênix, que ele sabia estar vigiando-o. Porém, como faria isto se sequer tinha permissão para aparatar?


Duas ideias para burlar este problema haviam sido descartadas no instante que surgiram. A primeira era criar uma chave de portal, que ele tinha absoluta certeza que o Ministério identificaria e rastrearia. A segunda era sair da casa dos tios e pegar o Noitibus, que ele tinha ainda mais certeza que, na parada seguinte, abrigaria alguém da Ordem.


Com um suspiro, ele fitou os recortes do jornal sem realmente vê-los, imerso em seus pensamentos. O flash de uma foto especifica o despertou e ele encarou o atual Ministro da Magia, Rufus Scringeour. Sentiu náuseas somente de ver a imagem do homem que havia tentado comprá-lo como garoto propaganda sem lhe oferecer nada em troca.


Como se um raio transpassasse a mente dele, uma ideia surgiu claríssima. Um sorriso maroto se desenhou nos lábios dele. Aquela era a solução, o Ministro com seu desejo incontrolável de tê-lo sob seu controle.


Harry deixou uma risada sinistra e baixa escapar pela sua boca e ecoar pelo quarto. Edwiges se agitou medrosa, porém, permaneceu em silêncio. O moreno afastou as cartas dos amigos e retirou de dentro da gaveta um pedaço limpo de pergaminho. Puxou a cadeira e se sentou. Após ajustar o foco da luminária, ele pegou uma pena, molhou-a no tinteiro e começou a escrever com uma letra cautelosa e uniforme.


Revisou a carta uma única vez e ficou satisfeito com ela. Dobrou o pergaminho e o secou com um toque da varinha. Depois, ele se levantou e virou-se para Edwiges.


- Venha cá! – ordenou, mas a coruja não se moveu – Por favor, Edwiges, leve essa carta para o Ministro da Magia. – ele forçou a voz para que ficasse a mais carinhosa possível – Por favor.


A ave piou e planou até o braço estendido dele.


- Desculpe-me por ter gritado, ok? – pediu ele, acariciando as penas brancas dela.


Edwiges piou baixinho e mordiscou carinhosa a mão dele. Harry deu o pergaminho para que ela segurasse no bico e caminhou até a janela.


- Não volte até conseguir uma resposta está bem? – orientou ele, carinhoso.


A ave alçou vôo e afastou-se rapidamente. Ele acompanhou-a com o olhar até que desaparecesse de vista. Com um sorriso maroto, ele se sentou à janela e aguardou o nascer do sol.


=.=.=


Houve um baque surdo no corredor que fez Harry se sobressaltar sobre a cadeira e bater o topo da cabeça na janela. A dor o fez manter um olho fechado e a mão pressionada no local dolorido. Ele caminhou até a porta e a abriu com um rompante, olhando sério e mal-humorado para o corredor.


Duda virou o corpo curvado para encará-lo. A surpresa abandonou as feições suínas do garoto e deu lugar à arrogância. Ele endireitou o corpo e contraiu os grandes músculos dos braços.


- Pensei que estivesse morto. – ironizou Duda – Acho que os assaltos noturnos à geladeira foram obras suas. – ele riu, desdenhoso – Já imagino o que meu pai fará com você.


- Sou eu quem imagina o que farei a ele se vier me importunar. – falou Harry, frio, começando a fechar a porta.


- Quem você pensa que é, hein vara de pescar?! – a palma gorda com cinco salsichas rosadas de Duda espalmou-se na madeira da porta, impedindo-a de se fechar.


- Achei que animais irracionais tivessem instinto de sobrevivência. – Harry fuzilou o primo com o olhar – Você deve ser a exceção.


 - Está ameaçando meu pai? – Duda fechou a mão direita em punho e segurou Harry pela camiseta com a esquerda, o rosto vermelho e lívido.


- Me solte. – grunhiu Harry, a voz baixa e rouca dando a ordem pausadamente.


- Se não o que? – debochou o outro – Vai chamar o defunto daquele velhote maluco vir me acordar de noite?!


Pouco depois, Duda estava no chão, gemendo, com as mãos firmes em seus genitais. Harry estava mais branco que a neve e tão frio quanto à mesma, as mãos serradas em punhos e os olhos ainda mais escurecidos e sombrios. Ele desferiu um forte soco, acertando a boca de Duda e arrancando-lhe sangue. Depois, segurou o primo pelos cabelos e o ergueu o suficiente para encará-lo nos olhos.


- Minha escola foi fechada e eles não vão me prender. Se você contar a verdade aos seus pais ou se me aborrecer novamente, farei com que sofra mais do que seu cérebro inútil pode imaginar ou projetar em um pesadelo patético. – ele deu um puxão nos cabelos do outro – Entendeu?!


Duda assentiu rápido e mudo. Harry soltou-o e entrou no quarto, batendo a porta no rosto apavorado do primo. O moreno pôde ouvi-lo gemer e choramingar enquanto se levantava e corria para seu quarto.


Harry caminhou até a cama e se sentou, massageando a mão direita. Encarou a janela, confuso, pois havia conseguido dormir sem nenhum sonho ou visão indesejada. Era certo que suas costas e pescoço doíam, contudo, sua mente estava menos cansada que o de costume.


A dor latejante da batida na cabeça foi diminuindo, tal como seu mau-humor, que cedeu lugar à ansiedade. Pelo relógio do criado-mudo faltavam poucos minutos para uma hora da tarde. Edwiges voltaria logo. Ele queria fitar o céu e o horizonte por toda à tarde, à espera da coruja. No entanto, foi impedido pelo estômago, que clamou por comida. O sonho que tivera durante a madrugada e a carta que Edwiges levara haviam feito esquecer-se de pegar algo para comer.


Harry levantou-se e despiu o pijama, vestindo uma calça jeans velha e uma camiseta de mangas compridas. Enfiou o tênis de qualquer jeito nos pés e negligenciou os cadarços. Depois, deu uma olhada crítica no céu claro, pegou a varinha, que jazia sobre o criado-mudo, e guardou-a sob a manga da camiseta, mantendo-a presa com uma faixa de tecido.


Decidira, fazia alguns dias, que seguiria o conselho de Olho-Tonto. A varinha no bolso de trás da calça dava mais trabalho para sacar, sem levar em conta o risco que ele corria com ela ali. Com um sorriso divertido, ele saiu do quarto e desceu as escadas.


Na cozinha, ele fitou a mesa e a pia, sujas pelo almoço. Valter e Petúnia estavam do outro lado do aposento. O homem terminava de ajeitar a gravata e a mulher segurava, sorridente, a maleta do marido.


Harry ignorou-os e caminhou silencioso até o armário. Sua presença foi denunciada pelo prato, que batera levemente em outro. Ele não precisou conferir, apenas confiou na sensação de ser queimado por outros olhos.


- O que pensa estar fazendo, Potter? – perguntou Valter, o rosto gordo vermelho.


O moreno se sentou à mesa antes de responder.


- Estou almoçando. – respondeu, por fim, enquanto se servia.


- Garoto atrevido. – murmurou Valter, o rosto lívido, avançando um passo.


- Valter, querido, você está atrasado! – exclamou Petúnia ao soar do relógio, marcando pontualmente uma da tarde.


- Você não ficará impune, moleque. – prometeu Valter antes de sair.


Petúnia encarou Harry, que comia lento e silencioso. Quando ela abriu a boca, ele falou seco:


- Não vou limpar nada.


- Pois vai sim! – retrucou Petúnia, cruzando os braços – Você mora de favor nessa casa, deve colaborar ou...


- Ou o que?! – ele a olhou pela primeira vez em semanas, a voz rouca e os olhos ainda mais escurecidos – Vai me mandar embora? – perguntou, debochado.


- Educação comigo, moleque! – ela ergueu o dedo, ameaçadora.


- Educação eu tenho com quem merece. O que não te inclui trouxa. – ralhou ele, frio e mortal, sacando a varinha e depositando-a sobre a mesa.


Petúnia ficou pálida e retrocedeu alguns passos, as mãos sobre o busto, o olhar apavorado. Harry sorriu, arrogante, e voltou a comer. Ela ficou imóvel enquanto ele comia.


Minutos depois, ele se levantou, pegou a varinha e saiu, sem dirigir à mulher um olhar sequer. Ele voltou ao seu quarto e trancou a porta. O pio de uma coruja o sobressaltou.


- Edwiges! – exclamou ele, sorrindo.


A ave branca voou até o braço recém-estendido dele, esticando o bico para que ele pegasse o envelope que ali estava.


- Obrigado. – agradeceu ele, pegando o envelope e acariciando-a.


Edwiges bicou-o levemente no dedo e bateu as asas, voando para o topo do guarda-roupa.


Harry caminhou até a cama, enquanto rasgava o envelope e desdobrava o pedaço de pergaminho. Ele respirou profundamente e começou a ler.


“Caro Sr. Potter,


Foi com imensa surpresa e felicidade que recebi sua carta esta manhã. Regozijo-me pelo senhor ter refletido sobre nossos encontros passados e concedo minhas mais sinceras desculpas. Vossa ajuda, meu jovem, é muito bem-vinda.


Sobre os tópicos que o senhor levantou, é com prazer que mandarei até sua residência, ao pôr-do-sol, um avaliador para avaliá-lo. O mesmo examiná-lo-á e libertá-lo-á da fiscalização ministerial.


Aguardo-o dia 24 do presente mês, às 8hs da manhã, no átrio ministerial para que, juntos, participemos de uma coletiva de imprensa, onde exporemos a toda comunidade bruxa nossa recente parceria.


Votos de felicidade e bem estar,


Rufus Scringeour


Ministro da Magia”


Harry releu a carta várias vezes antes de explodir em uma gargalhada fria e sombria. Edwiges encolheu-se, assustada, e manteve-se quieta.


- Ministro idiota! – exclamou o moreno antes de se entregar à outra gargalhada.


O pio assustado de Edwiges fez a gargalhada morrer e o moreno ficar sério. Ele olhou pela janela e se levantou, pegando vestes limpas e dirigindo-se ao banheiro para tomar um banho.


=.=.=


A campainha tocou, assim que o sol desapareceu no horizonte.


- Eu atendo! – gritou Duda, que descia as escadas.


Ele abriu a porta e viu um homem de meia idade, que sorria educado.


- Sim? – perguntou o garoto.


- Boa noite, senhor. Estou aqui para fazer a avaliação do Sr. Harry Tiago Potter. – falou o homem calmamente.


Duda ficou pálido.


- E... eu vou... chamá-lo. – gaguejou ele, retrocedendo alguns passos.


- Não precisa, Duda. – Harry surgiu, descendo as escadas – Já estou aqui.


Duda pulou de susto , gaguejou algo sobre um programa de TV e saiu veloz.


- Boa noite. – desejou Harry, estendendo a mão para o homem.


- Boa noite, Sr. Potter. É um prazer conhecê-lo. – o homem apertou a mão com vigor, o sorriso alargando-se – Eu sou Stefan Morgoth.


- Prazer, Sr. Morgoth. – Harry abriu caminho para o homem – Entre.


- Com licença. – pediu o Sr. Morgoth, entrando e retirando o chapéu da cabeça.


- Por aqui. – Harry o conduziu até a sala.


Duda não estava lá e a televisão jazia desligada. Com um sorriso sombrio, que passou despercebido pelo Sr. Morgoth, Harry mirou a porta que levava à cozinha.


- Sr. Potter... – chamou Stefen Morgoth – podemos começar?


- Claro. – respondeu o moreno, um sorriso natural substituindo o sombrio.


O Sr. Morgoth explicou que o teste seria diferente do tradicional, onde era necessário apenas que o avaliado aparatasse a dois metros de distância. O teste que Harry cumpriria era composto de três etapas, onde, em cada uma, ele deveria aparatar à pequena, média e à longa distância.


Na primeira etapa, Harry aparatou em seu quarto e retornou. Na segunda, ele dirigiu-se ao Caldeirão Furado, no centro de Londres, e voltou. Stefan Morgoth despejou elogios sobre elogios, um enorme sorriso de satisfação no rosto.


- Agora, Sr. Potter, gostaria que me informasse o local, mais distante que o centro de Londres, onde o senhor aparatará. – disse o homem enquanto tomava as últimas notas sobre a etapa anterior.


- Hogsmeade. – informou Harry com naturalidade, preparando-se para aparatar.


- Perdão?! – perguntou o Sr. Morgoth, espantado – Hogsmeade?!


- Sim. Algum problema? – perguntou Harry.


- É claro. – o Sr. Morgoth deu uma risadinha satírica – Meu jovem, Hogsmeade é muito longe. Alguns bruxos demoram anos para conseguir aprimorar suas aparatações até conseguirem realizar tal feito.


- Eu já fiz isto! – retrucou o moreno, irritado.


No mesmo instante ele se arrependeu de ter dito aquilo. O Ministério nunca sequer imaginara que ele realizara uma aparatação, ainda por cima acompanhado, da caverna onde Voldemort guardara sua horcruxe para Hogsmeade.


- Como?! – perguntou o homem, o olhar mais sério.


- Eu quis dizer que vou fazer isto, agora, para que o senhor avalie. – respondeu Harry, mantendo a voz controlada.


Steven Morgoth encarou Harry por algum tempo, sério, refletindo sobre aquilo.


- Aparate, então! – ordenou ele.


Harry assentiu e se concentrou o máximo que pôde. Aparatou. Quando sentiu o chão sob seus pés, abriu os olhos e sorriu, largamente. Estava no meio da rua principal do vilarejo vizinho à Hogwarts.


O Sr. Morgoth aparatou logo em seguida. Depois de analisar a situação de Harry, ordenou que retornasse.


- Estupendo! – exclamou o homem, quando aparatou ao lado de Harry, no nº 4 – Realmente incrível.


Ele fez anotações rápidas. Depois, sacou a varinha e apontou para o moreno. Murmurou algumas palavras que o outro não compreendeu e guardou a varinha.


- Agora, sua varinha. – pediu o Sr. Morgoth.


Harry retirou a varinha da manga e entregou-a ao homem.


- Muito sensato da sua parte não guardar a varinha no bolso da calça. – assinalou o homem, enquanto estudava a varinha com a dele própria – Acidentes sempre acontecem.


- Certamente que sim. – concordou Harry – “Principalmente comigo.”


Alguns minutos depois, Steven Morgoth estendeu a varinha para Harry e a descreveu completamente.


- Correto. – alegou Harry.


- Agora o senhor. – o homem ergueu a varinha novamente e murmurou outras palavras que Harry não entendeu.


Demorou mais tempo que a liberdade de aparatação. Quando Steven abaixou a varinha, deixou escapar um suspiro.


- Feitiço complicado este. – informou ele – Libertar um menor de idade não é um procedimento comum.


- Não creio que eu seja comum. Não acha, Sr. Morgoth? – questionou Harry, o tom da voz oscilando entre agressiva e divertida.


- Eu acho, meu jovem, que somos aquilo que queremos ser. – ele guardou a varinha, sua voz era calma e controlada – Se o senhor deseja ser comum, o senhor será, não importando as dificuldades ou ocasiões.


Harry sentiu um ímpeto de gargalhar friamente na cara do homem a sua frente. Entretanto, conteve-se por respeito. O Sr. Morgoth havia sido muito educado e o tratara como a um bruxo comum, sem dar nenhuma atenção sequer à cicatriz que o marcava na testa.


- Obrigado por ter vindo. – agradeceu Harry, sincero.


- Foi um prazer, Sr. Potter. – o Sr. Morgoth recolocou o chapéu e deu um sorriso.


- O senhor deseja algo para comer ou beber? – ofereceu Harry, apontando para a porta que levava à cozinha, por onde o cheiro do jantar escapava.


- Não, muito obrigado. Minha esposa me aguarda. – respondeu Steven.


- Eu o acompanho. – Harry apontou para a porta que conduzia ao corredor.


Eles caminharam até a porta de entrada.


- Boa noite, meu jovem. – desejou o Sr. Morgoth, estendendo a mão e dando um sorriso.


- Para o senhor também. – Harry apertou a mão com vigor e retribuiu o sorriso.


Steven Morgoth se afastou do nº 4, caminhando tranquilo pela calçada. Harry acompanhou-o com o olhar e, depois que ele desapareceu de vista, fechou a porta e deu um soco no ar.


- Livre! – exclamou, risonho – Finalmente. – completou, sussurrante e frio.


Ele subiu as escadas aos risos. Bateu a porta do quarto depois de entrar, dando a certeza de que não devia ser incomodado, e apontou a varinha para o vidro da janela, onde sua imagem estava refletida.


- Cuidado... você não sabe do que eu sou capaz! – ameaçou ele.


Depois de alguns segundos ele gargalhou, muito alegre e leve, embora uma pontada de frieza estava presente. Ele jogou a varinha sobre a escrivaninha e jogou-se na cama. Com um olhar ao guarda-roupa, notou que Edwiges estava fora, caçando.


Aproveitou o momento sozinho e começou a revirar o quarto em busca dos seus pertences mais úteis. Guardou-os em uma mochila surrada, fortalecida magicamente. Deixou a capa de invisibilidade sobre tudo, para o caso de necessitá-la. No bolso frontal deixou o Mapa do Maroto e o medalhão falso. Jogou a mochila debaixo da escrivaninha, para que Edwiges não a visse.


Toda a procura dos objetos e a organização da mochila tomaram algumas horas. Ele não se sentia cansado ou sonolento, pelo contrario, a euforia da liberdade ministerial o mantinha completamente desperto. O relógio marcava dez horas quando ele decidiu curtir a liberdade que adquirira. Trancou a porta do quarto com um aceno da varinha, para que Valter Dursley não tentasse confiscar algo importante como castigo pelo tratamento leviano que ele tivera depois do almoço.


Harry desceu as escadas e caminhou até a cozinha. Os Dursley estavam na sala, a TV com o volume alto denunciou-os. O moreno aproveitou que ninguém o notara e pegou um pacote de biscoitos de dentro do armário. Voltou ao corredor e saiu pela porta da frente. Assim que atravessou a porta, a sensação de ser observado assolou sobre ele e raiva retumbou em seu peito.


“Vão caçar o Snape! Parem de ficar me espionando... que merda!”


Ele sentiu vontade de gritar aquele pensamento, não importando a reação dos trouxas ou de quem o observava.


Ao atravessar a rua, abriu o pacote e começou a comer.


“Certo... e agora?”


Ele caminhou algumas quadras, pensativo. A sensação de ser observado somou-se à sensação de ser seguido. Aquilo o irritou a ponto de fazê-lo parar, olhar em volta, a procura de trouxas, e, como não avistou nenhum ser vivo, aparatar.


A alguns metros de distância, a figura perplexa de Nimphadora Tonks se materializou.


- C... co... como?! – gaguejou ela.


Ela balançou a cabeça, superando a surpresa.


- Moody precisa saber. – murmurou e aparatou.


=.=.=


Harry se sentou sobre o telhado de uma casa, cujo fundo fazia limite com um dos parques de Londres. Ele continuou comendo os biscoitos, fitando as árvores escuras do parque a sua frente e refletindo, traçando planos.


Quando os biscoitos acabaram, ele agitou a varinha e outro pacote foi convocado do armário na cozinha dos Dursleys. Ele abriu-o e continuou comendo.


“Snape, Malfoy e horcruxes.” – pensou Harry – “Três objetivos… nenhuma pista sobre nenhum deles. Bom... pelo menos até eu sonhar novamente e, se der sorte, pegar Voldemort pensando ou falando sobre a tal busca que assassino vai fazer.”


Ele refletiu sobre o que acabara de pensar. Era a primeira vez que analisara as visões de Voldemort com um objetivo.


“Até que não é de todo ruim.” – concluiu, sorrindo – “Informações de graça.” – ele pensou por alguns instantes antes de completar – “Só devo tomar cuidado. Ele pode usar isto para me prejudicar... como fez com Sirius.”


O biscoito que estava na mão dele foi reduzido a migalhas, o ódio agindo no moreno sem que ele sequer notasse.


Um grito ressonou na noite, despertando-o do estado de fúria. Ele ergueu o olhar para o parque. Um feixe de luz, que instantes antes não existia, iluminava uma árvore no centro do parque.


“Mas que diabos...”


Outro grito explodiu daquele lugar.


Harry se pôs de pé e executou o Feitiço de Desilusão sobre si mesmo, aparatando em seguida. Somente por precaução, ele se escondeu na sombra de uma árvore. O feixe de luz partia de algum ponto às costas dele, além da árvore. Tudo estava incrivelmente silencioso.


O moreno saiu de trás da árvore e se assustou. Jogado no chão estava o corpo de um homem, um mendigo, sangrando muito por um ferimento entre o pescoço e o ombro. Uma lanterna estava jogada ao seu lado, a boca virada para cima e iluminando a árvore próxima. Não havia sinal de mais ninguém.


Harry se aproximou do homem caído.


“Morto.” – concluiu ao perceber que o peito do homem não se movia com uma possível respiração.


Ele olhou em volta, atento.


“Animal ou humano, seja lá o que fez isto, ainda está por aqui.” – ele segurou a varinha com mais força.


Sua atenção voltou para o homem morto. Com surpresa, viu uma varinha caída do lado da mão esquerda do homem.


“Um bruxo?” – questionou ele, confuso – “Mas como? Um bruxo não seria vencido tão facilmente.”


Uma risada baixa soou alguns metros atrás de Harry, que se virou e ergueu a varinha.


Uma belíssima mulher estava ali, branca como a neve, os olhos e cabelos castanhos escuros, frios, e a boca vermelha como o sangue que escorria do corpo do morto próximo.


Harry sentia os olhos da mulher fixos nos seus próprios.


“Estou desiludido. Ela não pode me ver completamente. E não está tão claro... ela não tem como me ver direito!” – pensou Harry, desesperado.


- Huhuhum... – murmurou a mulher, lambendo os lábios, a voz suave e fria – Hoje é meu dia de sorte.


Antes que Harry pudesse reagir, ou sequer pensar nisto, a mulher avançou sobre ele com uma velocidade inumana. Em um milésimo de segundo, a mulher segurou Harry pela nuca com a mão direita e pelo ombro com a esquerda, afastou a cabeça do ombro e deixou o pescoço a mostra. Em outro milésimo de segundo, dentes pontiagudos surgiram na boca da mulher e seus olhos tornaram-se vermelhos. No mesmo milésimo, os dentes perfuraram a pele de Harry, que berrou de dor, e a mulher começou a sugar o sangue que escapava pela ferida.


Harry sentiu suas forças e sua vida começarem a se esvair, sugadas junto com seu sangue. Uma dor fora de todos os padrões, infinitamente mais forte que a Maldição Cruciatus do próprio Voldemort, começou a espalhar pelo seu corpo, a partir do ponto onde a mulher o mordia.


A varinha caiu das mãos do moreno e tudo ficou escuro.


=.=.=


Harry despertou, ofegante. Ele abriu os olhos e fitou o teto.


“Foi um sonho?” – perguntou-se, curioso.


Porém, assim que se sentou, ele percebeu que não estava no seu quarto, na casa dos Dursley. Estava sobre um colchão, jogado sobre o chão de madeira de uma sala arruinada. O papel de parede estava arrancado em várias partes, a madeira estava arranhada e quebrada, suja de sangue antigo. Algumas partes do assoalho e do piso possuíam grandes buracos, a madeira arrancada e quebrada estava espalhada pelo aposento.


Harry ficou pálido e começou a tremer.


“Não foi um sonho.”


Ele pousou a mão sobre o pescoço e gemeu de dor imediatamente. A ferida ainda estava aberta. Ele olhou a mão. Ela estava suja de sangue, mas não estava úmida, o que o levou a ter certeza de que o sangue estava coagulado.


Ele olhou pelo aposento novamente. Sentiu o coração bater mais rápido e o corpo tremer mais. Ele estava completamente tomado pelo medo, um medo que nunca sentira antes, nem mesmo quando os Dementadores o atacaram.


“Tenho que sair daqui.”


Harry se levantou e sentiu as pernas fracas demais. Não pôde evitar cair sobre o colchão e deu um suspiro de frustração. Ele olhou para os lados e viu uma tábua de madeira jogada do lado do colchão. Esticou-se e a segurou. Forçou as pernas para ficar de pé e usou a madeira como apoio. Conseguiu dar um passo à frente, mas parou por dois motivos. Primeiro porque a madeira rangeu e trincou. Segundo porque uma voz suave e fria soou:


- É melhor ficar deitado.


Harry ficou paralisado, fitando a mulher branca como a neve que entrava na sala lentamente.


- Hum... – a mulher parou, gemendo de prazer – Muito insensato de sua parte manter seu coração acelerado. Posso ouvir seu sangue pulsando em suas veias.


Harry engoliu em seco e respirou fundo, mantendo a respiração lenta e obrigando seu coração a diminuir a velocidade.


- Bom. – assinalou a mulher, sorrindo – Controlado.


Ela caminhou lentamente na direção do garoto, que tentou recuar. A madeira rachou ao meio e Harry caiu sobre o colchão com um baque surdo.


- Acalme-se, Potter. – ordenou a mulher – Se eu te quisesse morto, você já o estaria.


- Quem é você? – perguntou Harry, a voz estridente de medo – O que é você?


- Você já sabe a resposta para esta pergunta. – respondeu a mulher, parando na frente do garoto.


- Va... vampira. – gaguejou Harry, tremendo mais.


- Coração. – informou a mulher, dando as costas ao garoto e caminhando até a janela mais próxima.


Harry respirou fundo algumas vezes com intervalos regulares e com os olhos acompanhou a vampira desviar os raios do sol que entravam pela janela.


Ela era muito bonita. Os cabelos castanhos eram lisos e caiam como seda pelas suas costas. O rosto possuía um leve formato quadrado de contornos suaves. O corpo era bem torneado, expondo-se sutilmente pelos shorts jeans surrados, pelas botas militares negras e pela camisa também negras. Se ele não soubesse que ela era uma vampira, arriscaria que a idade dela beirava os trinta anos.


Brilhando sob a luminosidade do dia, Harry avistou uma corrente prata contornando várias vezes o pulso esquerdo da mulher. Ele viu de relance um pequeno pingente, que desapareceu antes que ele pudesse distinguir seu formato.


- Fique calmo, Potter. – ordenou a vampira mais uma vez, sua atenção aparentemente voltara para fora da janela – Eu não irei te atacar. Contando que você mantenha seu sangue tranquilo nas veias.


- Como sabe meu nome? – perguntou Harry, tentando manter o coração calmo.


- Eu bebi parte do seu sangue. – respondeu a vampira, indiferente – Partes das suas memórias me foram transmitidas.


Eles ficaram em silêncio por algum tempo. Harry sentiu o corpo tremer mais e o medo se aflorar. Tentou manter o coração calmo. Aquele silêncio estava sufocando-o.


- Por que não me matou? – perguntou Harry, desesperado para preencher o vazio.


A vampira deu uma risada fria, que fez o garoto tremer ainda mais.


- Porque você tem potencial, Potter. – respondeu a vampira, sério – Você me lembra eu mesma, cinquenta anos atrás.


- Vai me transformar?


- Não. Pelo menos, por enquanto. – completou ela com um sorriso malicioso.


“Por enquanto?!” – repetiu em pensamento, um assustado Harry.


- Isso quer dizer que sou seu prisioneiro. – assimilou ele.


- Não. – a vampira balançou a cabeça.


Harry arqueou uma sobrancelha. Seu corpo, aos poucos, acalmou-se, até parar de tremer completamente.


- Potencial, você disse. – assinalou Harry, depois de alguns minutos de silêncio.


- Sim. – concordou a vampira, virando o rosto para fitá-lo – Seus sentimentos ocultados durante toda a sua existência estão exigindo liberdade. Ódio, ira, vingança. Você se cansou, não é? – perguntou, a voz macia e sua expressão beirando a compaixão.


Harry apenas assentiu com a cabeça.


- Eu sei o que você quer fazer. – disse a vampira, dando um sorriso indecifrável – Porém, tenho certeza absoluta que não conseguirá.


- Por quê?! – perguntou Harry, irritado.


Antes que o moreno pudesse pensar, a vampira estava à sua frente, abaixada, o rosto perigosamente perto e mascarado por uma ira descomunal. Os olhos vermelhos novamente.


- Você é fraco, Potter. – ela cuspiu as palavras com repugnância - E não tem controle sobre seu medo e suas fraquezas. – ela o segurou pelo ferimento no pescoço com violência.


Harry tentou conter o grito de dor, porém, fracassou. Os olhos da vampira brilharam pelo sofrimento dele.


- Você morreria facilmente. – finalizou ela, levando a mão aos lábios e lambendo lentamente o pouco vestígio de sangue que possuía, os olhos fechados.


Harry ficou paralisado, vendo-a limpar a própria mão. Quando ela capturou a última partícula de sangue, um gemido de prazer ressonou da sua garganta. Seus olhos abriram-se em seguida, castanhos escuros e frios. Ela fitou Harry, inexpressível.


- Eu gostaria de lhe ajudar. – disse ela, a voz aveludada e gentil.


Harry a encarou, perdido. A mudança brusca de humor da vampira o fizera perder a linha de raciocínio e não compreender o que ela dissera.


- Potter... – chamou ela, risonha, estralando os dedos na frente dos olhos dele.


O garoto piscou e “despertou”. Ele a encarou como se ela fosse uma louca. A vampira riu, uma risada aveludada e fria, e se levantou.


- Ajudar? – perguntou Harry – Por quê?!


- Já lhe disse o motivo. – respondeu ela com um sorriso, afastando-se.


- Porque eu te lembro você mesma? – perguntou Harry.


Ela apenas assentiu com a cabeça.


- Isso é ilógico e você sabe disto, não sabe? – questionou o garoto, tentando compreender a situação.


- Não há necessidade de lógica para os vampiros, apenas o desejo. – respondeu a vampira, contornando o feixe de luz que entrava pela janela e parando ao lado da mesma para olhar através dela.


- Desejo? – perguntou Harry.


- Você é como eu já fui. – a vampira olhou para ele, a voz mais fria e a face não tão serena – Agora você é fraco, mas está motivado. Quer vingança e poder acima de tudo. Eu posso lhe ajudar. Eu desejo isto. – ela parecia estar prestes a pular nele e feri-lo novamente.


- Por quê? – Harry obrigou-se a manter o tom calmo e cordial, temendo que a vampira seguisse a mesma linha de sentimentos.


Ela deu um sorriso suave, apreciando a atitude dele e abandonando qualquer sinal de que atacaria.


- Nunca vi um humano como você em toda a minha existência. Eu sempre busquei alguém como eu, alguém que pudesse caminhar ao meu lado em minhas jornadas. – ela fez uma pausa e ficou extremamente séria, virando o rosto para a janela.


Harry viu uma sombra passar pelo rosto dela, ocultando a beleza e deixando exposto apenas magoa e ira. Viu, também, a mão direita dela roçar pela corrente prata.


- E eu achei você. – completou ela, voltando-se para ele com o mesmo sorriso de segundos antes, a mão direita distante da corrente – Quero você ao meu lado, Potter. Que seja apenas como aliado, se você assim o desejar. – ela deu uma risadinha e cruzou os braços, acentuando suas curvas – O desejo, Potter, é a única coisa que eu sigo, não me importa a lógica ou qualquer ilusão que seja criada para explicá-lo.


Harry refletiu sobre o que ela falara e desviou o olhar dela, fugindo dos olhos castanhos que pareciam estar convidando-o ao ardor.


Ele pensou por alguns segundos, depois voltou o olhar para ela. Ele se assustou, seus olhos arregalaram-se de espanto, pois ela não estava mais ali.


- Enquanto pensa sobre minha proposta. – disse a vampira, entrando na sala.


Ela trazia nos braços uma cesta de supermercado cheia de alimentos e com algumas bebidas. Harry assimilou que ela havia saído, com sua velocidade inumana, enquanto ele desviara o olhar. A vampira abaixou-se e depositou a cesta ao lado de Harry.


- Qual é a sua proposta, exatamente? – perguntou Harry, calmo, analisando o conteúdo da cesta com um olhar.


- Parta comigo para o leste. Eu lhe ensinarei tudo o que sei e te farei tão forte quanto desejares. Eu colocarei no seu caminho sua vingança cumprida e todos os seus objetivos realizados. – respondeu ela, o rosto próximo do dele, a voz sedutora e o olhar luxurioso, convidativo – Eu cumprirei todos os teus desejos. Todos.


- Preciso pensar. – murmurou Harry, sentindo dificuldades em formular aquela frase.


A vampira era tão bela e sedutora. Ele teve certeza de que ela empregara boa parte de seu poder convidativo naquele instante.


- Como deseja. – finalizou ela, a voz baixa.


Quando ela afastou o rosto, Harry inclinou-se para frente, não querendo que a distância entre eles aumentasse. Ele percebeu isto no mesmo instante e regrediu, alarmado consigo mesmo. Ele desviou o olhar da vampira e se concentrou na cesta ao seu lado. Assim, ele não viu o sorriso de satisfação que brotou nos olhos da vampira.


Segundos depois, ele ergueu o olhar e ela já não estava mais ali.


=.=.=


Harry ficou sozinho durante todo o dia. Depois de comer algumas coisas a força voltou às suas pernas e ele conseguiu se manter de pé, mas não saiu da sala. Ele caminhou em círculos, pensando sobre a proposta da vampira. Quando sentia fome, ele comia em silêncio e voltava a andar.


O céu estava adquirindo um tom alaranjado quando Harry teve a sensação de olhos o sondando. Ele se virou e viu a vampira parada perto da porta, escondida da luz que iluminava praticamente toda a sala.


- Então? – perguntou ela, o tom de voz era neutro.


Harry respirou fundo, o ar de ódio e rebeldia do dia anterior havia retornado. Ele não tinha mais medo algum da vampira ali presente.


- Eu pensei muito. – disse ele, sério – Você deve me conhecer bem, porque recebeu parte das minhas memórias, então provavelmente sabe que eu tenho duvidas quanto aos riscos.


- Claro. – assentiu ela com um leve sorriso – Eu não irei te atacar, nunca. Eu tenho pleno controle dos meus instintos.


- Então, por que disse que não me atacaria a não ser que meu coração estivesse contido? – perguntou Harry, calmo.


Ela deu uma risada baixa, percebendo o beco sem saída onde ele tentara colocá-la.


- Para causar medo, Potter. – respondeu ela – Eu me regozijo tanto com o medo quanto com o sangue humano em meus lábios. São prazeres diferentes, é claro, mas ambos igualmente... desejáveis. – dando uma entonação especial à última palavra.


Harry ponderou por alguns minutos o que ela respondeu.


- Ao pôr do sol, partirei. – informou a vampira, séria – Desejo que parta comigo, mas não te obrigarei. O desejo mútuo de estarmos juntos nos concederia uma forte ligação, que não dispensarei. Decida-se, Potter.


- Para onde você vai? – perguntou Harry.


- Tenho alguns assuntos para resolver na Rússia. – respondeu ela, indiferente.


- Rússia?! – ele se assustou.


- É raro quando venho tão para o oeste e muito mais quando venho especificamente para a Inglaterra. – explicou a vampira – Daqui um tempo, quando você estiver mais forte, nós voltaremos para que você cumpra sua vingança.


Harry assentiu, involuntariamente. A vampira deu um sorriso largo e feliz.


- Você vem? – perguntou ela, para confirmar.


O garoto olhou-a, inexpressivo, por algum tempo. Então, um sorriso sutil surgiu nos lábios dele e seus olhos brilharam malignos.


- Eu vou. – respondeu ele.


A vampira deu uma risada, contente e fria.


- Com uma condição. – acrescentou Harry.


Ela parou de rir e ficou tensa, olhando-o com seriedade. Se ela tivesse olhado para ele daquela maneira logo de manhã, ele teria regredido alguns passos, certo de que seria atacado. Entretanto, Harry apenas sorriu desafiador e cruzou os braços.


- O que? – perguntou ela, a voz baixa e perigosa.


- Você me conhece muito bem, imagino. – começou ele, um sorriso afetado surgindo nos lábios – Sabe a informação que eu quero.


Eles se encararam em silêncio, o ambiente tenso.


- Isso é pateticamente humano e você sabe disto. – sibilou a vampira.


Harry assentiu com um aceno seco da cabeça.


- Eis o humano que você deseja ao seu lado. – informou ele, desafiador.


Depois de alguns minutos se encarando em silêncio, ambos sorriram largamente e relaxaram. A luminosidade diminuiu consideravelmente e a vampira entrou na sala e caminhou até Harry. Ele não se afastou quando ela parou muito próxima e inclinou o rosto para seu ombro.


- Muito esperto, garoto. Sabia que eu não podia entrar para te ferir por causa da luz. – sussurrou ela no ouvido dele, a voz aveludada, fazendo-o arrepiar-me – Acha mesmo que pode ganhar de mim assim?


- Isto é um jogo? – perguntou ele.


Ela riu baixinho, sem se afastar.


- Não, Potter. – a voz dela foi mais bruta do que ele esperava, mas ela não atacou – Esta é a nossa existência, onde todos os dias é uma batalha de vida ou morte. Você ganhou, então vive.


- O que acontecerá quando eu perder?


Ela riu novamente, embora fosse diferente. A risada anterior havia sido divertida e prazerosa, esta, entretanto, era fria e ameaçadora.


- Terei de procurar outro companheiro. – respondeu ela.


- Você não fará isto. – garantiu ele, a voz firme perante a clara ameaça de morte.


- Como pode ter tanta certeza? – questionou ela, ainda sem se afastar.


- Por que eu vou ganhar. Sempre. – respondeu ele.


No segundo seguinte ele estava pressionado contra a parede, o braço da vampira pressionando seu pescoço, erguendo-o alguns centímetros do chão. A expressão da vampira era assassina, o rosto muito próximo do de Harry, os olhos vermelhos fixos nos verdes.


Harry a fitou, surpreso com o ataque, o coração acelerando. Não esperava que ela mantivesse aquela artimanha para deixá-lo com medo. Ele não tinha mais um medo real dela, mas a pressão em sua garganta fez acender uma chama daquele sentimento.


- Sempre... é uma promessa? – certificou-se a vampira, sussurrando.


- É uma promessa. – afirmou ele, mantendo o tom da voz o mais forte que conseguia.


A vampira ergueu a mão e arranhou a bochecha dele. Harry enrijeceu os músculos, em choque, a chama de medo crescendo e o coração batendo mais rápido. Pouco depois um fio de sangue brotou e ela beijou o ferimento com carinho, limpando o liquido.


- Promessa aceita. – ela deu um sorriso e o soltou devagar.


Quando Harry se firmou sobre suas pernas, ele forçou-as para que não tremessem e respirou fundo para acalmar o coração. A vampira se virou e começou a se afastar. Ele esticou a mão e a segurou pelo pulso.


- A minha condição. – lembrou ele, a voz mais rouca do que pretendia.


A vampira virou-se para ele, os olhos castanhos desafiadores e um sorriso sarcástico.


- Prazer em conhecê-lo, Harry Tiago Potter, meu nome é Andrea Dejanira.


 


 


 


 


 


N/A: Boa noite pessoal!


Primeiro capitulo com 20 páginas e muitas novidades.


Como eu disse, teremos muitas mortes na fic. XD Tá certo que a morte deste capítulo não conta, mas no próximo ou no seguinte teremos uma tríplice morte que vai chacoalhar vocês. *cara de malvada*


 


Algumas ressalvas sobre o capitulo:


1º - Foi apresentado a vocês um Novo Harry Potter, que não se importa mais com as regras ou com o certo e errado, apenas com seu desejo de vingança e poder.


Explicação: Porque isto? Admito que estava cansada de ver o Harry sempre certinho (tal como em HL). Ele é humano como qualquer outro e sente as tentações da nossa existência. Quem seria bonzinho depois de tanta desgraça em sua vida?!


2º - Também tivemos outra visão sobre o Prólogo: a visão de Lorde Voldemort e, consequentemente, do Harry.


Explicação: Era necessário apontar a visão de Voldemort, pois algumas singularidades em seu jeito de agir e pensar serão importantes para alguns fatos que ocorrerão em um futuro distante na fic. Alguns pequenos detalhes serão como o estopim no futuro.


3º - O mais importante (no meu ponto de vista) foi o surgimento de uma personagem nova: Andrea Dejanira.


Explicação: Para mim, foi o fato mais importante do capitulo, pois Andrea será uma personagem de extrema importância para a fic como um todo e para a trajetória do Harry especialmente. Ela será um ponto de ligação (tal como Snape e Draco) entre os dois “núcleos” da fic. Isto será explicado decentemente em dois ou três capítulos (não vou acabar com o mistério agora).


 


Respostas aos comentários:


Gi Magno – Agora eu irei cobrar, ok? Leitora fanática é?! Vou exigir presença constante. =)


Remulu Black – Ansioso é? Eu é que estou para te ver de volta. Segunda atualização, viu? Se não aparecer eu vou mandar a Andrea atrás de você e vai ser parecido com o cara do bosque, não como o Harry. XD


Marcelo Silva – A fic promete e eu prometo por cima. Meus planos para a fic era escrevê-la à mão até a metade (acredite, era muita coisa), então eu começaria a digitar e a postar aos poucos, enquanto continuava a escrever à mão. Porém, eu não escrevia como devia então mandei o plano pro inferno e decidi fazer como normalmente se faz, escreve, manda pra beta e posta. =) Acho que vai dar certo. Agradeço por ter se candidatado ao cargo de beta, mas o Sirius já tinha pedido antes e ele me convenceu da suas qualidades. Aguardo seus comentários sobre o Prólogo e sobre este capitulo.


Asdras Engeven – Com a graça de Merlim esta fic não será como o HL (apesar de muita gente falar que o HL é uma boa fic, eu vejo cada erro grotesco que, se vocês vissem, não a leriam mais). Estou me esforçando ao máximo para fazer da PR a minha obra-prima. Sobre as mortes, realmente tomarei cuidado com elas. Haverá contextos para todas as mortes, o que deixará a fic mais complexa. Assassinato em massa? Adorei o termo? *cara de psicopata*


Eric Akira – Matar os leitores de ansiedade? Ah, só um pouquinho! XD Já fiz o primeiro post e nada de você... ¬¬ Aparece! Eu adoro a tua presença no HL e amarei você aqui também.


Ayla Tereza – Arrepiada?! Pode ir se acostumando minha cara, essa fic será de deixar os cabelos de pé. =) Aguardo seu comentário sobre estas 20 páginas... =)


Rosana Franco – Espero seus comentários tal como sempre recebi no HL. =) Capitulo postado, só falta seu comentário. XD


 


Claudiomir José Canan – Como sempre, sua simples presença me deixa emocionada. =) Será um prazer ter você aqui Claus. Espero que, com as novidades que estão por vir, nós possamos aproveitar mais das “fugas” do Gabriel... =) Eu vou ter minha própria personagem... creio que o Gabriel vai gostar dela, só não sei de quantas maneiras ainda! =]


 


Sirius Padfoot Black – Meu amado beta, sobrinho, Syx e Guto! Hauahuahau Tantos nomes, hein?! Agradeço a betagem, ficou espetacular. Hey! Mesmo sendo beta você não foge do dever de comentar, mesmo que seja através do MSN. =)


 


Últimas palavras: Ok, isso ficou muito “morte à espreita”. XD


Sobre o próximo capitulo, não vou dar nenhuma estimativa de quando postarei, pois não comecei a escrevê-lo, sequer pensei sobre ele.


Eu estou dando mais atenção aos últimos capítulos, que falta editar, do HL. Depois disto, vou postá-los de uma vez e darei HL por encerrado.


Sobre a continuação dele (para os curiosos) eu estou rascunhando o primeiro capitulo. Eu já tenho na minha cabeça tudo o que eu quero que aconteça no capitulo, o difícil é colocar tudo para o papel de uma maneira decente.


Minha próxima atualização será na Revenge Angel. O capitulo já está pronto, estou apenas esperando a beta fazer vestibular para enviar a ela. Para os apressados, eu não quero postar o capitulo sem a beta, pelo menos, ler. Há algumas ideias apontadas no capitulo que, talvez, devam ser alteradas ou excluídas.


 


Certo, falei de mais.


 


Até a próxima atualização pessoal.


20 páginas de capitulo merece alguns punhados de comentários grandes, não?!


Até!


 


N/B: Quem seria bonzinho depois de tanta desgraça em sua vida?!


            Resposta: Dalai Lama.


XD


 


N/A': Dalai Lama não vale. =P

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