Calmaria



-Fleur? – Chamei.

-Na cozinha! – Disse ela. Às vezes eu ficava impressionado com a evolução rápida de seu inglês. Tudo bem que ela fora forçada a conviver com nós, ingleses, mas não muda o fato de que ela aprendia rápido.

Fui até a cozinha, onde encontrei Fleur junto à pia dando ordens objetivas para travessas, panelas e talheres com sua varinha.

-Oh, Bill! Você não consegue matarr um simples coelhe sem espirrar metade de seu sangue? – Perguntou ela, torcendo o nariz. Foi a primeira vez que me olhei desde que fui à caça. Minha roupa estava rasgada no braço esquerdo e estava repleto de sangue.

-Nossa. Quem me vê diria que eu lutei com um leão. Mas de qualquer forma, você sabe o quanto eu me desagrado em usar maldições imperdoáveis, mesmo em animais. Então caçar envolve um pouco de perseguição, feitiços de corte – que não são o meu forte – e um bocado de sangue desnecessário. – Foi essa a minha explicação. Mas Fleur sabia tão bem quanto eu sobre meu notável mais novo gosto por carnificina. Não era algo que eu pudesse controlar na verdade, mas eu gostava do cheiro do sangue. Mas de qualquer forma, antes um coelho do que o habitante mais próximo da vila St. Claire.

-A soluçon mais plausível seria comprar carrne, como qualquer pessoa normal faria.

-Ah claro. Fleur, você tem que entender que o nosso dinheiro está relativamente escasso. – Disse, suspirando. – Não podemos nos dar o luxo de comprar coisas banais.

-Ah, coisas banais como comida? – Replicou ela, sorrindo.

-Você entendeu! Coisas que não conseguimos obter por nós próprios. A nossa mobília incompleta, por exemplo. O resto conseguimos na floresta e na nossa horta.

-Da prróxima vez eu é quem vou caçarr.

-Posso ser o homem da casa uma vez na vida? – Perguntei, sorrindo.

-Poderria se cumprisse seu papel direito. – Replicou, séria.

Puxei ela mais para perto e a beijei. – Você está me sujando de sangue, William. – Mas mesmo dizendo isso ela não ofereceu resistência alguma.

-Tergeo. – sussurrei, apontando a varinha para as roupas sujas dela. – E onde está a minha pequena conta brilhante?

-Se você fala de Victoire – e é óbvio que você fala dela, - ela está na sala.

-De quem mais eu estaria falando? – Disse, largando o cadáver do coelho que ainda carregava nos ombros sem me dar conta, e fui até à sala.

Lá estava ela. Um sorriso estampou-se em meu rosto involuntariamente ao ver aquele pequeno ser humano sorrindo para mim. Ela era uma garota grandinha para a sua idade – meio ano – e na sua cabeça, os tufos esbranquiçados deram espaço para uma cabeleira loira e espessa. Seus olhos eram verdes, como os meus, mas por sorte era tão bela quanto Fleur. Mesmo que ela dissesse o quão era parecida comigo.

Victoire estava no chão, brincando com cubinhos de pelúcia. Os brinquedos trouxas eram infelizmente mais baratos que os decentes, mas ela se entretinha, de qualquer forma.

Quando eu me aproximei ela praticamente saltou para meu pescoço. Era incrível o quanto parecíamos feitos um para o outro, tanto ou mais que Eu e Fleur. Girei ela nos meus braços algumas vezes para arrancar uma risada vacilante e infantil, irresistível.

-Você-está-sujando-a-minha-filha-Bill! Se ela pegarr gosto por cheirro de sangue, a culpa vai serr purament sua. - Disse ela, assassina.

Larguei Victoire – delicadamente – no mesmo instante. Fleur pôs a mão na boca discretamente, e me olhou em tom de desculpas.

-Bill, eu não quis... Eu me exprressei errado! – Disse ela, doce como só ela conseguiria ser.

-Eu sei, mon amour. – Disse, forçando um sorriso. Ela notou que não fora verdadeiro, mas sorriu e voltou para a cozinha. – Vou tomar um banho. – Disse, aumentando o tom de voz.

Fui até o andar de cima, mais exatamente para o banheiro. Magicamente enchi a banheira com água, e a aqueci. Desprendi meu rabo-de-cavalo, e tirei minha roupa. Entrei na água receoso, e submergi totalmente, ou na medida do possível, já que a banheira era a metade da minha altura e não abrangia nada dos meus joelhos pra baixo.

Deitado naquela banheira eu consegui me acalmar, mas consegui pensar com mais clareza e alguns dos meus temores voltavam.

Desde que o lobisomem Fenrir Greyback me atacara há um, dois anos em Hogwarts, adotei alguns hábitos estranhos.

Não era um lobisomem, de certeza. Mas outras certezas eram que sob pressão emocional eu me tornara muito mais agressivo, e que eu ganhara um gosto especial por carne mal passada. E na lua cheia o crescimento de pêlos no meu corpo acelerava, ainda que Fleur dissesse que era puro delírio meu.

Eu sabia que era pura bobagem, mas meus temores ainda existiam. E se algumas daquelas características fossem hereditárias? Fleur e todos me diziam que Ted Tonks era a prova de que meu medo era sem fundamento. Mas a criança só tinha um ano de vida! Aquilo não me provava absolutamente nada! O que me garantia que quando ela fosse mais velha ela não se transformasse em um lobo toda lua cheia? E o pequeno Teddy também podia ter tido muita sorte, o que podia não ter acontecido com minha Victoire.

Tudo bem que Victoire não se transformaria toda a lua cheia em um lobo, pois nem eu fazia isso. Mas se ela fosse uma criança estranha? Qualquer característica lupina já taxaria ela como “estranha”. Não que eu fosse amá-la menos, longe disso! Mas se eu já sofria com o preconceito por minha condição – infelizmente os bruxos de hoje em dia já reconheciam claramente garras de lobisomem, e não me davam margem para explicar de que eu não-era-um! – imagine uma garota, uma criança... Peluda!

Ri da baboseira que minha mente fértil era capaz de criar, e submergi minha cabeça. Abri os olhos, e sob o manto espesso de cabelos vermelhos que bruxuleavam sobre mim, eu pude ver a lua crescente.

E foi como se o ar explodisse, desencadeando uma série de ações. Um uivo ao longe. Eu via garras, dentes, e me debatia. Não sabia até que ponto o que eu via era real e delírio. Não conseguia sair debaixo d’água, e foi só quando Fleur me emergiu que eu notei que gritava.

-Bill?! Billie! Fale comigo!

Cuspi água, enquanto ela tocava no meu peito. Meu coração estava realmente acelerado, e meus braços e pernas tremiam.

-Mon dieu, William, você está trremendo! Saia desta água!

Obedeci-a, me jogando da banheira para o chão. Consegui ficar de pé com muita dificuldade, enquanto Fleur me atirava uma toalha, e voltava para o quarto, procurando roupas.

Uma hora depois da janta, Fleur ainda estava assustada com o ocorrido. Ela estava abraçada a mim, na frente da lareira.

-Você ouviu o uivo também, não? – Perguntei, preocupado com a minha própria sanidade.

-Ouvi sim. – Disse Fleur, fazendo pouco caso. – E não seria a primeira vez que teríamos problemas com lobos na floresta.

-Você sabe o que os bruxos da vila vão falar sobre esse uivo.

-E você não deve se importar com isso, claro!

-É claro que eu me importo, Fleur! Victoire está crescendo! Ela vai precisar de amigos, ela vai precisar conviver com gente decente!

-Ela terá toda a nossa família, seus irmôns, até o filho da Andrromeda. Sendo uma Weasley, a última coisa que eu posso esperrar prra nossa filhe é que ela seja uma pessoa solitárie.

-Será que devemos nos mudar? – Perguntei, indeciso.

-Amo o Chalé. E além do mais, serrá a mesma coisa em outrro lugar.

Bufei. Ela tinha razão. –Estou exausto, amor. Por que não vamos dormir?

-Claro. Mas prrimeiro tenho que pôrr Victoire prra dormir. – Disse, pegando nossa filha no colo. Ela deu um gritinho de diversão, mesmo que seus olhos implorassem por uma cama.

-Deixe que eu faço isso. Vá se deitando. – Disse, e quando ela me entregou Victoire, subiu as escadas. Levei nossa filha pro seu quarto que era ao lado do meu de Fleur, e coloquei-a em seu berço. Beijei sua testa, e quando virei as costas ela chamou. Balbuciou alguma coisa, um projeto de palavra, e eu girei nos calcanhares, surpreso.

Ela apontava para uma estante de livros, e eu sorri. Escolhi qualquer um e comecei a ler.

Ela me olhava curiosa, como se absorvesse cada palavra que eu falava.

-E do caldeirão irrompeu um pé peludo, e a partir dali ele seguia seu dono aonde quer que ele... Você me entende, pequena Victoire?

Ela sorriu, sonolenta e balbuciou outra coisa desconexa. Afaguei seu rosto, e me virei pra janela. A lua crescente cercava meus sentidos, e eu não pude parar de fitá-la até fechar bruscamente as cortinas do quarto de minha filha. Dando uma última olhada nela, fui me juntar à Fleur. Me despindo parcialmente, me deitei ao seu lado, e ela colou seu corpo ao meu, me abraçando. Deitou-se em meu peito, talvez involuntariamente, dado o estado de seu sono.

Ouviu-se outro uivo. Estremeci, e Fleur acariciou meu rosto, me acalmando. Meu sono não foi calmo, tampouco contínuo. Nunca sonhei tanto em uma noite só, mas eu só via uma face em cada um deles. Greyback.

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