A bola de neve




I


O expresso de Hogwarts já começava a alcançar velocidade quando, dentro do vagão Grifinório, duas meninas e um menino da mesma casa em questão se encontravam e encaminhavam para uma cabine.
“Como foram as férias?” – começou a conversa uma menina de cabelos castanhos e rosto vivo. Sua média estatura e o corpo levemente arredondado lhe davam um ar atarracado. As feições eram bem delineadas e os olhos cor de mel inquietos pareciam dançar por todo o ambiente, apressados e inconstantes.
“Boas. Mas eu não via a hora de voltar.” – desabafou a segunda menina. Sua altura não era maior que a da primeira, mas esta parecia mais fina – tanto no corpo quanto nas feições – e, portanto, parecia mais esbelta. Seus cabelos tinham um tom castanho peculiar que beirava o vermelho e chegavam até os ombros. Parecia-se com uma fada devido à pele branca e os olhos azuis e sonhadores.
“É, Hogwarts faz falta realmente. Apesar de tudo.” – comentou o garoto de ajeitando no assento acolchoado. Seus olhos verdes tinham um brilho intenso e meio amarelado embora fossem levemente puxados e pequenos. O cabelo, liso e castanho, lhe caía pelo rosto fazendo com que ele contraísse certos tiques como balançar a cabeça para tirar as mechas do alcance de sua visão.
“Finalmente o 5° ano!” – comemorou a menina dos cabelos castanhos – “Espero me formar logo...”
“Quer se formar logo?! Sempre pensei que você adorasse Hogwarts, Joanne.” – falou a outra com um tom surpreso.
“E adoro. Como disse o Edward, “apesar de tudo”. Mas, de uns tempos pra cá, temos que admitir, as coisas não são mais tão agradáveis.”
“Você diz isso por causa das brigas e separações?”
“Claro. Quer dizer... As 4 casas já não são mais o que eram. Isso sem falar nas outras mudanças.” – concluiu, assistindo a menina do cabelo avermelhado assentir pensativa à sua frente.
“É verdade” – começou Edward – “Eu sinto falta do quadribol. Digo... do verdadeiro quadribol.”
“E desde quando você conheceu o verdadeiro quadribol?” – questionou Joanne rindo.
“Ah, eu ouvia meu avô falar muito. Até porque quase todos os meus antepassados fizeram parte do time. E eu adoro o jogo embora hoje em dia a gente jogue pouco.”
“É... Não é à toa.”
“Sim, mas é uma pena porque é um jogo de muita qualidade e foi destorcido pra fins absurdos.”
“Pois é, eu lembro dos ataques de balaços no primeiro ano.” – falou Joanne observando a paisagem que passava com velocidade - “Primeiro ano de Hogwarts e primeiro e último de quadribol.” – concluiu.
“Eu jogo até hoje, mas sei que não é o verdadeiro quadribol. Quer dizer... Aqueles mil juízes no ar cada um colado a um jogador e, bem, os campeonatos quase inexistentes... Nós temos, no máximo, três jogos por ano atualmente! E não tem a mesma expectativa de antes já que os jogos entre as casas também foram praticamente proibidos.”
“Mas teve que ser assim. Jogadores podiam ser mortos se tudo continuasse como estava.” – falou, pela primeira vez desde o início do assunto, a menina do cabelo avermelhado.
“Nós sabemos, Ellen, mas é meio ridículo jogar contra pessoas da sua própria casa. Por mais que sejam, tecnicamente, times diferentes.” – retorquiu Joanne.
“Eu acho que Hogwarts está fazendo mudanças de mais pra resultados de menos.” – falou Edward com uma ponta de desânimo em sua voz.
“Talvez” – respondeu Ellen – “Mas, talvez, se nenhuma mudança tivesse sido feita, milhões de sonserinos já tivessem sido mortos.”
“E alguns não fariam falta realmente.” – falou Joanne antes de receber um olhar ameaçador dos outros dois – “O que foi? Vários deles ainda conservam os mesmos ideais dos Comensais de 200 anos atrás! Odiando trouxas, sangues-ruins...”
“E é por causa de gente que pensa como você que tantos outros sonserinos e nomes sujos continuam sendo mortos injustamente! Não só eles mas outros tantos nomes nobres também já que o pós-guerra tem sido pior que a guerra em si.” – respondeu Ellen.
“O problema é que eles estão fazendo as mudanças erradas.” – começou Edward com o olhar perdido na paisagem como se nem sequer tivesse ouvido as duas falarem.
“Como assim?”
“Isso tudo só está acontecendo porque as pessoas ainda conservam ódios de 200 anos atrás. Mortes daquela época ainda servem de razão pra vingança. Não adianta colocar os sonserinos em vagões separados ou diferenciar o lugar e horário das refeições. O ódio mútuo continua. O problema está nas pessoas. E na sua insistência em condenar uns aos outros por erros não só antigos como cometidos pelos seus antepassados há décadas!”
“Não é difícil entender as razões de alguém que perdeu a família inteira nas mãos de um Comensal, por exemplo.” – respondeu Joanne.
“Mas é difícil entender que os netos e bisnetos dessa pessoa queiram se vingar matando os netos e bisnetos do Comensal que eles nem sequer conheceram.”
“O problema não é esse” – começou Ellen – “O que aconteceu na época da batalha final gerou uma bola de neve. Mortes geraram vinganças que, por sua vez, geraram mortes e chamaram mais vingança. São ódios que vem sendo alimentados e propagados há 200 anos. Difíceis de matar, eu diria.”
“Quem vocês estão achando difíceis de matar, minhas crianças?” – interrompeu uma senhora de seus 60 anos, bem gordinha e bochechuda. Seus olhinhos pequenos e azulados pareciam duas bolas de gude, se destacando diante das maçãs do rosto sempre vermelhas. O sorriso parecia pequeno e desproporcional, mas dava um ar meigo à sua face arredondada.
“Sra. Hauer! Quanto tempo!” – comentou Ellen com um sorriso no rosto.
“Quantas vezes eu vou ter que pedir pra que me chame de Ariana, Srta. Bones? Quer que eu me sinta mais velha e acabada do que já estou, pequena?”
Os três riram. Ariana Hauer, embora tivesse começado em sua função há relativamente pouco tempo, já havia conquistado a simpatia de todos com seu jeito meio materno e extremamente cativante. Desde o 2° ano deles em Hogwarts, a mulher havia assumido o vagão Grifinório visto que a situação caótica entre os estudantes obrigara o diretor a separar as casas também no trem. Assim, cada um dos vagões passou a ter uma inspetora para organizar os alunos, vender-lhes doces, lembrá-los de colocar as vestes e, o mais importante, evitar brigas.
“E como estão as coisas esse ano, Ariana?” – perguntou Joanne.
“Bem, bem, minha querida. Por enquanto, nada de brigas ou eventos inusitados, graças a Merlim! E vocês, animados para o 5° ano?”
“É, bem...” – começou Edward – “Não sabemos mais o que esperar de Hogwarts, creio eu.”
“Ah, minhas crianças, temos um novo ministro agora. Não vamos perder a esperança.”
“Eu concordo” – falou Ellen com um sorriso – “Muitas mudanças vão acontecer esse ano. Eu tenho certeza.”



II



Oliver Johnson andava pelo trem com certa desatenção aos próprios passos quando, em uma questão de segundos, deparou-se com um borrão rosa já muito perto de seu rosto. Antes que pudesse desviar, sentiu a colisão e, pouco tempo depois, viu a causadora de tal encontro voltando a se ajeitar.
“Perdão, eu não...” – começou o garoto, ainda analisando com surpresa a aparência inusitada da garota. Seus cabelos tinham cachos definidos e curtos em um fortíssimo tom de magenta. Os olhos claros e profundos e as feições muito finas. Mas não sorria. – “Eu, por incrível que pareça, não te vi.” – concluiu rindo ao fazer menção ao tom berrante das madeixas cor-de-rosa.
A expressão dela não se modificou em um centímetro sequer a não ser pela sobrancewlha direita ter se levantado em um claro sinal de desprezo.
“Eu também não te vi. Embora você passe muito mais facilmente desapercebido. De qualquer forma, peço desculpas.” – falou em um tom formal que em nada combinava com sua aparência e se colocou a andar novamente.
“Ei, espera aí... Você não é do 1° ano, é? Quer dizer... Você não tem cara de primeiranista e, se fosse, não estaria nesse vagão mas eu nunca te vi por aqui e...”
“Transferência.” – falou novamente sem demonstrar emoção alguma.
“Transferência? Mas... Hogwarts não aceita transferências. Pra que ano?”
“Quinto. Foi uma exceção.”
Antes que o menino pudesse novamente formular uma pergunta, a menina já havia desaparecido. Oliver continuou seguindo enquanto seus pensamentos se dividiam em diferentes acontecimentos e questões. Por um lado, Emily e Syesha continuavam chorando no outro vagão. Ainda que o irmão tivesse ficado lá por um bom tempo em tentativas frustradas de consolo, nada havia adiantado. As gêmeas de apenas 11 anos continuavam desesperadas pela simples possibilidade de entrar pra Sonserina. Por outro lado, Oliver não podia deixar de pensar na menina misteriosa com quem havia trombado há poucos minutos. Afinal, qual era o nome dela? Transferência de onde? E, ainda mais importante, porque o diretor teria aberto uma concessão para uma regra tão severa que existia há décadas?
Entretanto, antes que chegasse a qualquer conclusão, Oliver Johnson alcançou a porta de cabine para a qual estava se encaminhando antes do pequeno incidente. Logo, o moreno já estava cumprimentando Joanne, Ellen e Edward e falando sobre as férias.
“O que houve no outro vagão, hein? Você entrou com uma cara...” – indagou Joanne.
“Não, nada. É que eu encontrei uma menina meio estranha no corredor.”
“Estranha?” – riu Edward.
“É. Meio misteriosa, séria, um cabelo rosa... E disse que veio pra Hogwarts por transferência...”
“Transferência? Eu pensei que fosse contra as regras de Hogwarts aceitar alunos de outras escolas.”
“Mas é. Ela disse que abriram uma concessão pra ela.” – explicou Oliver observando as expressões de surpresa dos outros três.
“Uau, deve ser alguém muito importante então. É estranho...” – comentou Ellen.
“Ela não disse o nome?” – perguntou Joanne com um ar decidido.
“Não. Só o que eu sei é que ela vai estar no quinto ano também.”
A expressão dos outros três mais uma vez refletiu o estranhamento causado pela informação. Joanne franziu a testa e passou a mão pelo queixo como se tentasse chegar a alguma conclusão. Ao contrário do que todos esperavam, no entanto, ela não abriu a boca pra expressar suas teorias. Mas outra pessoa o fez:
“Seja lá como for, tudo aponta pro que eu disse” – começou Ellen sorrindo – “Esse ano vai ser um ano de mudanças.”
“Resta saber se boas ou ruins.” – concluiu Edward com o olhar perdido nas árvores que passavam velozes.



Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.