Capítulo VII



Alan Bishop chegou pouco depois das sete e foi imediatamente conduzido à grande sala de estar. Hermione estava tensa durante os cumprimentos, assim como Harry, que tentou dissimular seu nervosismo servindo um drinque para o amigo. Estava sorrindo, mas seus olhos tinham aquela mesma sombra que possuíam antes do casamento com Hermione.

- Acho melhor irmos direto ao assunto. — era Harry quem falava. — Quais são as minhas chances?

Alan rodou o gelo dentro do copo e tomou um longo gole antes de falar.

- Depois de uma pequena operação e muita terapia, há uma forte possibilidade de que você possa voltar a operar antes do fim do ano.

- Só uma possibilidade? — O olhar de Harry era duro e ríspido.

- Eu disse que há uma forte possibilidade — Alan enfatizou, enquanto pegava o grande envelope amarelo que trouxera consigo e tirava as radiografias. — Dê uma olhada e julgue você mesmo.

Harry tomou os raios-X e foi até um grande abajur no canto da sala, a fim de examiná-los. Alan seguiu-o e os dois puseram-se a discutir as radiografias, usando termos médicos que não faziam o menor sentido para Hermione. Ela continuou sentada no sofá, pensando que de fato a noticia a tinha desapontado um pouco. Esperava algo mais efetivo. Entretanto, curas instantâneas e milagres só acontecem nos livros.

- Quando você pode me operar? — Harry perguntou assim que voltaram a sentar-se.

- Farei o necessário para que seja admitido no hospital amanhã à tarde. Então, poderei fazer a operação depois de amanhã, na quarta-feira, bem cedinho.

- Ótimo. — Harry foi até o bar no canto da sala, de onde voltou com uma boa dose de uísque.

- Um brinde à sua saúde! — Alan falou para Harry, sorrindo da mesma forma amigável que Hermione notara de manhã.

Ela agora sentia-se mais calma e tranquila, e sua confiança voltou rapidamente. Talvez porque Alan tivesse tratado tudo de forma tão natural. O fato era que estava muito mais serena quando ele foi embora, pouco tempo depois.

- O que você acha? — Harry perguntou-lhe, quando voltavam para a sala.

- Acho que você tem um período bastante difícil pela frente, mas que saberá superá-lo.

- Sua confiança é tão sólida quanto uma rocha.

- Bem, nem sempre é assim — Hermione sorriu — tenho certeza de que ainda tem um grande futuro como cirurgião.

- Hermione... Fará alguma diferença para você se a operação e a terapia falharem?

- Não fará diferença alguma — ela revelou, surpreendida pela pergunta, porém lembrando-se imediatamente de como Cho o tinha abandonado logo depois do acidente. - Não vai falhar Harry — ela insistiu, abraçando-o com força. — E mesmo que isto aconteça, não fará diferença nenhuma para o que nós dois possuímos, juntos.

Ela puxou-o para perto de si e beijou-o suavemente nos lábios. Ele, porém, não correspondeu à carícia. Hermione teve a súbita sensação de que eslava ausente naquele momento, tinha ido a algum lugar onde ela não podia alcançá-lo. Soltou-o e afastou-se, sentindo um peso no peito.

- Acho que vou me deitar — disse, indo para a escada. Olhou ainda uma vez na direção do marido, mas ele estava mergulhado nos próprios pensamentos, e não fez menção de acompanhá-la.

Hermione fingiu estar dormindo quando Harry afinal veio juntar-se a ela, na cama. Porém, não resistiu quando ele tocou-lhe o ombro e virou-se, recebendo seu abraço quente e viril. Desejaria não ser tão fraca a ponto de se render tão facilmente, mas quando Harry beijou os pequenos bicos de seus seios, não se importou com mais nada, perdendo-se na magia daquelas carícias.


Harry foi para o hospital na tarde do dia seguinte e Hermione passou uma noite terrível, sozinha em casa. Depois da morte de pai, ela tinha vivido sozinha por seis meses na antiga fazenda da família. Contudo, aquela era sua casa, e estava cercada de objetos familiares. Aqui, na casa de Harry, nada havia de familiar, pelo contrário, só havia recordações de Cho.

Na manhã seguinte, bem cedo, ela já estava no hospital e nada no mundo a afastaria de lá até que Harry finalmente saísse da sala de operações.

- A operação foi um sucesso! — Alan Bishop apressou-se a informá-la, mais tarde. — Agora, tudo depende de como os tendões da mão de Harry vão reagir à terapia.

- Você acha que...

- Eu não acho nada — Alan interrompeu-a. — Tudo que faço é manter os dedos cruzados e sugiro que faça o mesmo.

Quando afinal lhe permitiram ver Harry, ele ainda estava sob o efeito da anestesia. Como dormia, a irmã superior sugeriu que Hermione fosse para casa e voltasse à tarde.

Ela odiava deixá-lo sozinho, mas acabou aceitando o fato de que nada poderia fazer para ajudá-lo naquele momento. Voltou para casa, dirigindo o possante Jaguar de Harry. A espera era intolerável, principalmente naquele lugar que nunca conseguiria considerar como sua casa. Era a casa de Cho! Era ela quem tinha escolhido os móveis, os quadros e tudo mais; “Oh, Deus, por que tinha que ficar pensando nestas coisas justo naquele momento?”

Almoçou no terraço, pois não queria comer sozinha na enorme mesa da sala de jantar. Quando afinal chegou a hora de ir para o hospital, ela partiu, dirigindo numa velocidade que não costumava atingir. A certa altura ouviu a sirene de um carro da polícia que vinha atrás dela. Reduziu a marcha rapidamente, porém a viatura só ultrapassou-a, sem maiores problemas. Hermione riu de si mesma e andando mais devagar, completou o caminho até o hospital.

- Como está se sentindo? — ela indagou a Harry, dez minutos depois.

- Sinto-me como se alguém tivesse dado uma martelada em minha mão — ele respondeu com bom humor, mas com uma indisfarçável expressão de dor.

- Não é melhor eu chamar a enfermeira?

- Não, não é necessário. Acabei de tomar um analgésico e a dor deve passar logo.

- Por favor, volte logo para casa — ela pediu, tomando as suas a mão sã de Harry

- Não pensei que você já estivesse com saudades de mim! — ele zombou.

- A casa fica muito vazia quando você não está e aqueles espelhos acabam enervando a gente...

- Você é muito mais confortadora que qualquer analgésico — Harry sorriu. — Acho que devo arranjar um jeito para você ficar por aqui.

Hermione não disse nada, mas pensou que preferia mil vezes passar a noite sentada ali, ao lado de Harry, do que voltar para aquela casa onde tudo lhe sugeria a presença de Cho.

O horário de visitas acabou depressa, e Hermione não teve opção se não levantar-se e se preparar para sair. Ela debruçou-se sobre Harry para beijá-lo na face, porém ele virou-se inesperadamente, e suas bocas se encontraram. O longo beijo que Harry lhe deu começou, como era de hábito, a despertar o desejo dentro de Hermione e ela afastou-se rapidamente, um quarto de hospital não era o melhor lugar para aquilo.

- Eu o verei de noite — Hermione disse, evitando o olhar brincalhão de Harry.

- Acho que não.

- Ora, por que não?

- Porque eu prefiro que você não viaje à noite, sozinha. — Ela ia protestar, mas Harry foi mais rápido. — Não me faça ficar preocupado com você neste momento, por favor.

Era claro que tinha razão, por menos que ela gostasse da idéia de passar mais uma noite sozinha naquela casa, tendo que esperar até a tarde do dia seguinte para vê-lo de novo. Vamos, Hermione, você já não é mais criança, ela tentou se confortar.

- Até amanhã, então — disse, tentando disfarçar sua apreensão e forçando um sorriso.

Quando fechou a porta, quase chocou-se com um homem alto e de cabelos ruivos que vinha pelo corredor. Ela percebeu que era olhada de alto a baixo, mas era um olhar mais apreciativo que insolente.

- Este é o quarto do dr. Harry Potter, não é? — ele perguntou, com certa hesitação.

- Sim, é este mesmo.

- Eu sou Rony Weasley — se apresentou entendendo a mão esquerda para ela.

- Hermione Granger — ela respondeu apertando a mão dele, e o estranho a observou com redobrada atenção.

- Você é parente dele... ou algo assim?

- Sou a esposa dele.

- Esposa?! — Ele estava atônito. — Peço que me perdoe por parecer assim surpreso, mas é que não podia imaginar que Harry tinha casado durante sua estada em Pietersburg.

- Está perdoado. — Hermione sorriu, decidindo que gostava daquele estranho.

- Olhe, eu preciso resolver algo com Harry e gostaria de pedir-lhe que me esperasse um pouco. — Ele notou a hesitação de Hermione e explicou — Sou um antigo amigo de Harry, melhores amigos dos tempos de Universidade.

- Está bem, eu espero.

Hermione sentou no frio banco de madeira da sala de espera, pensando no que Rony Weasley poderia querer. Quase meia hora já se havia passado e ela começava a ficar impaciente quando ouviu o barulho de passos se aproximando.

- Desculpe tê-la deixado esperando, mas é que meus negócios com Harry demoraram um pouco mais do que eu pensava. — Ele tomou Hermione pelo braço e acompanhou-a até o estacionamento, onde estava o Jaguar. — Você gostaria de jantar comigo esta noite?

Surpresa pelo convite absolutamente inesperado, ela preferiu ser irônica.

- Pensei que tinha dito que era amigo de Harry.

- Bem, eu tenho a permissão dele para levá-la para jantar.

- Verdade? Harry sugeriu isto?

- Fui eu quem lhe pedi.

- Compreendo — ela relaxou e deixou de sentir-se como um pacote entregue à guarda de alguém para que fosse mantido em segurança.

- Acho que jantar fora seria preferível a passar a noite sozinha em casa, não é?

Por acaso ou não, ele tinha atingido o ponto certo, utilizando um argumento que não poderia deixar de convencê-la.

- Tube bem, vou aceitar seu convite.

- Ótimo! — Ele abriu a porta do carro para que Hermione pudesse sentar-se. — Concorda se eu passar às sete horas para pegá-la?

- Sim, um horário perfeito — ela concordou, já dando a partida no motor.

- Até a noite então.

Quando passou pelo portão do hospital, Rony ainda estava no mesmo lugar, acenando para ela. Hermione acenou-lhe de volta e mais uma vez pensou que simpatizava com aquele homem que acabara de conhecer. Ele parecia inofensivo e, como Harry permitira que fossem jantar juntos, não havia com o que se preocupar.

Hermione se preparou sem pressa para o jantar com Rony Weasley. Con¬udo, antes das sete horas já estava pronta, O silêncio na casa era opressivo e tornava urgente o regresso de Harry. Os espelhos da sala refletiam sua imagem e Hermione sorriu para si mesma, quando se lembrou de um antigo refrão de uma história.

"Espelho, espelho meu, existe alguém mais linda do que eu?" A resposta, sem dúvida, seria Cho Chang, ela pensou, não podendo evitar que aquelas lembranças voltassem à sua cabeça. Sentiu vontade de atirar algo contra aquele espelho, mas isso não adiantaria nada. Oh, Deus, o que aconteceria se Cho voltasse?

Rony chegou pontualmente às sete horas. Ao entrar na sala encontrou uma Hermione aparentemente ansiosa à sua espera. — Estou atrasado? — perguntou, com um olhar amigável.

- Eu é que me adiantei — ela confessou, sem hesitar.

- Algo me diz que você não gosta deste lugar tanto quanto eu.

Então ele também pensava daquela maneira?... A descoberta fez com que ela se sentisse mais íntima do amigo de Harry.

- Vamos? — Hermione perguntou.

- Minha carruagem está esperando, senhora — Rony brincou, fazendo um gesto galante com o braço.

Seria uma noite agradável, Hermione pensou, mas algo dentro dela lhe avisava para ter cautela.

Não demorou muito para chegarem à cidade e Hermione surpreendeu-se pela facilidade com que a conversa fluía entre os dois. Não falavam sobre nada pessoal, mas riam bastante e se sentiam relaxados. Depois de algum tempo, ela teve a impressão de que já o conhecia há um longo tempo.

O restaurante estava repleto, mas Rony tinha reservado uma mesa. Durante a refeição, Hermione observou-o com mais atenção e concluiu que devia ter quase a mesma idade que Harry, apesar de parecer mais jovem. Ele não tinha os cabelos brancos nas têmporas, e sorria muito mais do que Harry fazia ultimamente.

Harry... era difícil desviar o pensamento dele. Será que sua mão ainda doía? Será que estava pensando nela? Será que o deixariam voltar para casa em breve?

- Há quanto tempo você conhece Harry? — Rony perguntou, quase como se adivinhasse a direção que tomavam os pensamentos de Hermione.

- Conheci Harry praticamente toda a minha vida — ela disse levantando os olhos da sobremesa e sorrindo para Rony. — Nossas fazendas, onde morávamos, eram vizinhas.

- Você não é o tipo de mulher com a qual eu imaginava que ele fosse casar — ele comentou, depois de observá-la por um instante.

- Quer dizer que não sou como Cho? — ela disse o que tinha na cabeça e, pelo desconforto de Rony, percebeu que estava certa.

- Você sabe a respeito dela?

- Cho estudou com Gina, uma amiga minha.

- Você a conhece há muito tempo, então?

- Foi na fazenda onde minha família morava que os dois se conheceram, há alguns anos atrás.

Rony tinha algo em mente, e Hermione podia sentir isso quando ele co¬meçou a falar.

- Harry é um brilhante cirurgião e um homem muito inteligente, sob todos os aspectos — falou, com um ar pensativo. — Entretanto, com relação a Cho, era tão cego quanto um morcego! Ficou totalmente obcecado e ela podia fazer o que bem quisesse com ele. Harry queria casar-se, mas Cho não é o tipo de mulher que nasceu para esposa. Prefere estar livre, sempre aberta para novas aventuras com homens que sucumbam a seu charme, como foi o caso dele.

- Mas eles chegaram a viver juntos... — Hermione espetava a espada no próprio coração.

- Não exatamente. Harry comprou aquela casa há cerca de um ano atrás e deu-a para Cho, que a arrumou e decorou. Talvez por causa disso, ela afinal concordou em casar com ele, mas então veio o acidente e a terrível notícia de que a carreira de Harry tinha chegado ao fim. Quando isso aconteceu, ela foi embora e o deixou sozinho.

Hermione sentiu uma estranha sensação no estômago. Seria medo... ou alívio?

- Você está me dizendo que eles nunca moraram juntos naquela casa?

- Cho chegou a mudar-se para lá, mas Harry ainda continuava ocupando seu apartamento em Hillbrow. — Rony sorriu, meio sem jeito. — Se os dois estavam juntos, então eram muito discretos a respeito disso.

Um grande peso tinha sido retirado das costas de Hermione. Ela sempre imaginava os dois morando juntos naquela casa e agora sabia que isto nunca chegara a acontecer.

- Fale-me sobre você, Rony — ela mudou de assunto. — Também é médico, como Harry?

- Não, minha especialidade são os esportes.

- Interessante. — Hermione debruçou-se sobre a mesa, curiosa. — Além de ser amigo de Harry, você o deixa atualizado sobre os campeonatos?

- Exatamente. — Ele sorriu e apontou a taça vazia de Hermione. — Mais vinho?

- Não, obrigada. Acho que já bebi o suficiente para esta noite.

Depois formou-se um silêncio confortante enquanto Rony apreciava o vinho de sua taça, quando olhou para Hermione parecia que algo grave havia ocorrido.

- Você ama Harry?

A pergunta era completamente inesperada, contudo Hermione não se amedrontava com as palavras.

- Eu não teria casado com ele por qualquer outra razão — ela respondeu calmamente

- E como ele se sente em relação a Cho, hoje em dia?

- Não é um assunto sobre o qual costumamos conversar.

- Ele deve tê-lo transformado num tabu, não é?

- Sim — ela replicou com certo desconforto. — Harry diz que Cho pertence ao passado e portanto não há o que conversar.

- Hermione, há algo que acho justo que você saiba. — Rony estava sério e Hermione sentiu um súbito receio. — Cho está de volta a Johannesburg. Ela chegou ontem.

Hermione sentiu o coração apertar-se, porém conseguiu manter o autocontrole.

- Harry já sabe disto?

- Se veio, a saber, não foi por meu intermédio.

- Acha que ela vai procurá-lo?

- O que você acha?

- Mas... se ela descobrir que Harry está casado e...

- Nenhuma certidão de casamento até hoje foi suficiente para manter Cho afastada de alguém que desejasse. — Ele tomou a mão de Hermione, sobre a mesa. — Você está segura com relação aos sentimentos que Harry tem por você?

Hermione desejou de todo o coração poder dizer que Harry a amava, mas não seria verdade. Talvez ele tivesse aprendido a gostar dela, mas amor era algo que provavelmente jamais existira da parte dele. Ela abaixou os olhos.

- Eu... eu não tenho certeza dos sentimentos de Harry.

- Gostaria que me prometesse algo — Rony apertou ainda mais os dedos de Hermione — Que me procurará se algum dia precisar de um amigo.

- Você é muito gentil.

Ele retirou a mão e pegou a carteira.

- Aqui está meu cartão para o caso de você querer entrar em contato comigo.

Rony a levou para casa pouco depois, acompanhando-a até o hall de entrada. Hermione agradeceu pelo jantar, mas teve a sensação de que ele não prestava atenção, enquanto tomava a mão dela e dizia.

- Você tem olhos adoráveis, Hermione, e se Harry não vê neles o que eu posso ver, então realmente merece as Cho’s que existem por aí.

- Você certamente ajuda a levantar o meu moral — Hermione disse, sorrindo.

- Estou falando sério — Rony replicou, soltando-lhe a mão.

- Boa noite, Rony, e obrigada mais uma vez pelo jantar.

- Que tal se fizéssemos o mesmo amanhã à noite?

- Acho que não. — Ela meneou a cabeça. — Obrigada pelo convite, de qualquer maneira.

O desapontamento de Rony era evidente, mas ele aceitou a decisão de Hermione e, momentos depois, ela estava sozinha, tendo como companheiros somente o medo e a incerteza.


Harry saiu do hospital no sábado, mas as sessões de exercícios terapêuticos não começaram senão uma semana depois. Hermione sempre o acompanhava, pois tinha medo de perdê-lo de vista, medo de que Cho surgisse de repente, de algum lugar. Como será que Harry reagiria? Será que sabia que ela estava na cidade? Hermione gostaria de perguntar-lhe, porém não tinha a coragem necessária.

As semanas foram passando e o inverno não tardou a chegar. O terror de que Cho aparecesse foi sendo esquecido, pois se ela estava na cidade, então tinha resolvido ficar fora do caminho deles. Hermione só podia rezar para que continuasse assim.

Em meados de julho Harry voltou a trabalhar no consultório, na cidade. A operação e a terapia tinham sido um sucesso e, para comemorar, foram jantar fora certa noite. Harry sentia-se muito bem, e Hermione também estava demasiadamente feliz pela recuperação dele e não fazia nenhum segredo disso.

- Foi sua confiança inabalável que me levou adiante — Harry confessou, com honestidade.

- Tolice. — Hermione sorriu, carinhosa. — Eu tinha certeza de que você teria forças para superar tudo isto.

- Hermione... — Ele tomou as mãos dela sobre a mesa. — Sei que não tenho sido o melhor marido que uma mulher poderia desejar.

- Bem, não vou negar que ainda pode melhorar bastante — ela disse zombeteira, para mexer com Harry.

- Gostaria de poder lhe oferecer mais.

O sorriso morreu aos poucos nos olhos de Hermione.

- Será que é tão difícil gostar um pouco de mim?

- Eu gosto muito de você, Hermione. — Ele tinha um olhar ironicamente sensual. — Será que não tenho lhe provado isto ultimamente?

Hermione desviou o olhar, sentindo que corava.

- Será que você precisa reduzir sempre tudo ao aspecto físico?

- O lado físico de nosso casamento é o que mais me interessa — Harry brincava com ela. — Afinal, quem poderia dizer que sob essa face jovem e ingênua de menina do interior se escondia uma mulher ardente e sensual?

- Pare com isso, Harry!

- O que posso fazer se é a verdade? Você sabe que não estou mentindo — Harry insistiu, beijando seus dedos com suavidade, sem se importar se alguém estava olhando. E, de fato, havia alguém olhando, mas Hermione só veio a saber disso quando já tinham terminado o jantar e tomavam o café.

De uma mesa afastada, levantou-se uma mulher de olhos puxados, alta e esguia, separando-se de seus amigos. Estava vestida de acordo com a última moda, muito elegante, e seu cabelo muito longo também tinha um corte moderno. Enquanto caminhava entre as mesas do restaurante, sua beleza despertava as atenções. Vinha por trás de Harry, na direção da mesa deles, e Hermione sentiu como se todo ar subitamente lhe abandonasse os pulmões quando reconheceu Cho Chang. Em breve, muito breve, Harry a veria, e então...

Oh, Deus... me ajude!, Hermione pediu silenciosamente, mas nada aconteceu e Cho continuou se aproximando como uma avalanche, inevitável, incontrolável e destrutiva. Já era muito tarde. Por alguma razão Harry se virou e deu com Cho. Ele ficou pálido como a coluna perto da mesa.

- Querido! — Cho disse, sedutora, sentando-se na cadeira ao lado de Harry e colocando dominadoramente a mão sobre o braço dele. — Estive observando você por mais de uma hora, mas só agora pude me desculpar e deixar as pessoas com as quais estou jantando. Parece muito bem, Harry e acredito que já tenha se recuperado completamente.

- Pode agradecer a Hermione por isso — Harry falou, uma expressão séria no rosto.

- Hermione? — Os olhos castanhos de Cho afinal pousaram sobre ela e a reconheceram. — Sim, é claro. Eu estava tentando me lembrar onde já a tinha visto. Você é Hermione Granger, melhor amiga de Gina, não é? Está de visita aqui em Johannesburg?

- Hermione é minha esposa — Harry interveio rapidamente, antes que ela pudesse responder.

- Sua esposa? — Cho sorriu com uma incredulidade malvada. — Querido, deve estar brincando... Não poderia ter casado com alguém tão... tão mais jovem. É quase uma indecência!

Hermione ia dizer alguma coisa, porém, ainda uma vez, Harry preferiu falar primeiro.

- Como quer que veja isto, Cho, o fato é que estamos casados há três meses.

- Bem, felicidades, então. — Cho sorriu de modo cruel, seus olhos jogando veneno na direção de Hermione antes de virarem-se novamente para Harry. — Bem, eu me comunicarei com você. Temos tantas coisas para conversar, não é querido? Faz tanto tempo que não nos vemos...

Cho deixou-os e voltou para sua mesa. Hermione não conseguia se esquecer das palavras de Rony: "Nenhuma certidão de casamento, até hoje, foi suficiente para mantê-la afastada de alguém que a interessasse". E Cho estava interessada em Harry. Para ela, não fazia a menor diferença o fato de que o tinha abandonado quando mais Harry precisava dela. Já o tivera uma vez e estava confiante quanto à possibilidade de tê-lo novamente.

Harry transpirava um pouco na testa e sua mão tremia, segurando a taça de vinho. Ele parecia estar necessitando de algo que somente Cho poderia lhe dar. Hermione observou-o em silêncio, enquanto ele fazia um óbvio esforço para se controlar. Nunca antes tinha se sentido tão impotente e amedrontada. O vinho tinha se tornado ácido, a celebração, uma farsa.

- Vamos embora — Hermione disse ríspida, e Harry concordou sem reclamar.

Tentaram conversar no caminho de volta para casa, mas em vão. Para Hermione, era como se Harry fosse um estranho. Havia uma barreira entre os dois e essa barreira era Cho.

Harry serviu-se de uma dose de uísque assim que chegaram e já ia servir-se da segunda quando Hermione disse boa noite e subiu para o quarto. Porém, sabia que era impossível dormir com Harry lá embaixo, bebendo.

Já passava muito da meia-noite quando ele afinal entrou no quarto. Tirou a roupa no escuro, praguejando quando batia em algo. Hermione fingiu estar dormindo, apesar de ter consciência de cada movimento de Harry.

Quando tudo ficou quieto, ela esperou pelo peso familiar na cama a seu lado, mas nada aconteceu. Virou-se e avistou Harry na janela, olhando o jardim iluminado pelo luar. No que estaria pensando? Oh Deus, não era possível que ainda gostasse de Cho depois de tudo que tinha acontecido. Ou será que podia? Era esta a terrível questão. Hermione passou a mão sobre o rosto, frio, e levantou-se em silêncio.

- Harry? — Ela tocou o braço dele levemente e sentiu os músculos tensos. — Já é tão tarde. Você não vem se deitar?

Por um momento, ele pareceu não escutá-la, mas depois virou-se para ver o rosto de Hermione, iluminado pela luz da lua. Seus cabelos estavam despenteados e ela não tinha idéia de como parecia jovem e frágil, com sua camisola branca e leve e o coração batendo como louco dentro do peito. Te amo, te amo! As palavras queriam explodir das profundezas de sua alma e Harry finalmente pareceu despertar para a profundidade daquela emoção.

Foram para a cama sem dizer nada. Hermione sentiu-se inquieta quando seus corpos se tocaram, naquela noite, ao fazerem amor. Harry estava dominado por um estranho desespero e ela ficou acordada até o raiar do dia, cheia de desolação e sentindo que algo começava a estraçalhar dentro dela.



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