Sobre as Aparências



Não havia o que fazer. Hermione acordou cedo, e viu-se dormindo num banco na biblioteca. Era domingo. A manhã estava ensolarada, embora ainda fossem seis horas da manhã.
Ainda usava o vestido da festa, os cabelos estavam amarrotados e a maquiagem estava toda borrada. Ela se levantou e se dirigiu para o salão comunal da grifinória. A Mulher Gorda dormia, mas Hermione não teve nenhum receio de acordá-la e dizer a senha que ela tanto queria na noite anterior.
A Mulher Gorda, resmungando um pouco, abriu a passagem e Hermione viu-se em seu salão comunal. Permitiu-se um sorriso cansado. Precisava de um banho e de um bom sono.
Correu para o banheiro das meninas e trancou-se lá. Já tinha convocado suas roupas e seus chinelos com um Accio, e abriu o chuveiro. Deixou a água quente cair sobre seu corpo, enquanto pensava.

Numa casa velha e abandonada, perto do Ministério, havia alguns quartos. Dentre eles, o quarto de Snape. O quarto do traidor. Ele não dormira. As palavras de Hermione ecoavam em sua mente. Todo o ódio com que ela quisera agredi-lo, e o habitual cinismo com que ele tratava tudo e todos. Ele se levantou e foi tomar um banho. Em breve seu mestre o chamaria e ele teria que começar tudo de novo.
Talvez, se matasse o resto dos aurores naquele dia mesmo, quem sabe não teria uma pequena folga, em que pudesse se afastar de tudo e de todos. Estava cansado. Tomar o poder à força exigia um certo trabalho.
Ele foi tomar seu banho.

Dumbledore entrou na sala de Poções e abriu o armário. Olhou para a mesma foto que fizera Snape perder a noção do tempo na noite anterior. Era uma foto de quando Hermione estava ainda no 3º ano, era uma criança, mas era uma linda foto. Ela sorria alegre e apaixonadamente, com um ar encantador.
Ah, Severo, você não precisava fazer tudo isso, pensou o diretor tristemente. Poderia simplesmente ficar aqui, conosco, e nos ajudar desse seu modo de ser que poucos suportam. Ela o suportaria. Ela o admiraria. Ela o amaria. Se você não fosse tão obstinado. Se não fosse tão egoísta. Tão frio. E tão sozinho.
O velho diretor suspirou e olhou para a gaveta. Aquela gaveta que ele nunca tentara abrir. Snape manifestara uma atenção especial a ela. O que poderia ter?
Dumbledore tentou abri-la à força, mas isso era algo que ele não tinha. Então, tentou alguns feitiços, todos falhos. Sentou-se na cadeira de professor e suspirou. Pense.
Mas uma imagem se passou por sua cabeça de repente, e ele teve uma idéia. Recitou um feitiço tão bobo, tão simples. Alorromora. Com este feitiço ela abriu sua primeira porta em Hogwarts.
A gaveta abriu-se simplesmente. Com certa curiosidade, Dumbledore estendeu a mão para pegar o pergaminho. Era um pouco velho, amarelado. Pergaminhos eram mesmo sensíveis, estragavam bem rápido.
Um trabalho de Hermione. Uma redação sobre lobisomens. Havia uma observação no canto, com uma letra que Dumbledore sabia ser de Snape. Ele a leu.
Hermione Granger gosta de se exibir. Alguns pontos a menos por isso. Essas definições são mecânicas, artificiais. Mas perfeitas...
A narrativa parava bruscamente ali; a letra ficara mais frouxa. As reticências haviam sido postas depois, com certeza. Dumbledore virou o pergaminho.
Seus olhos brilharam. Como isso está aqui? Será que já estava antes de ontem à noite?
Ele enrolou o pergaminho e ia fechar a gaveta, mas viu algo. Era pequeno, desajeitado. Um velho envelope amarelado. Ainda mais curioso, Dumbledore abriu o envelope e pegou o papel. A carta era do começo do ano e tinha destino certo. Assim que pousou os olhos e viu a quem a carta se dirigia, os olhos do velho diretor cintilaram.
Muito estranho. Eu realmente me enganei...

Severo Snape saiu andando pelas ruas. Decidiu que queria ir a Hogwarts e tirar todas aquelas porcarias de papéis velhos daquela maldita gaveta. Era mesmo domingo; não haveria alunos no castelo.
Com esse pensamento, aparatou na frente do portão de Hogwarts, mas do portão lateral da propriedade, que poucos conheciam. Era um velho portão, enferrujado, inutilizado pelo número de trepadeiras que cresciam à sua volta e o prendiam. Mesmo assim, Snape afastou as trepadeiras e abriu o portão. Não era difícil; estava capengando mesmo.
Então entrou na propriedade. Analisou o lugar a sua volta; pensando que não podia ser visto. Tudo para o inferno, não queria que soubessem. Poderiam saber depois que ele morresse, mas não entendia onde estava com a cabeça para deixar tudo aquilo ali... impressionante, suspeito. No fundo, sabia que queria que ela encontrasse. Mas por que ela procuraria?
Andou a passos largos para o castelo, lançando olhares furtivos à sua volta vez por outra.
Alcançou o castelo e teve trabalho para se esconder dos pequenos alunos que vinham correndo feito imbecis rumo à orla da floresta. Mas eles não o viram. Então ele caminhou direto para as passagens secretas que sabia bem onde dariam. Mais rápido. Não podia ser visto.
Já na masmorra, mais seguro de si, alcançou sua antiga sala. Mas, ao adentrá-la, deparou-se com Dumbledore e Hermione lendo um pergaminho antigo... Os dois o olharam surpresos com sua presença ali; Hermione, um pouco mais que embasbacada, sem saber o que dizer. Era como se tivesse sido pega fazendo algo muito errado.

Voltando um pouco
Dumbledore mandou chamar Hermione na sala de Poções imediatamente. Decidira não sair de lá com os pergaminhos. A garota, um pouco atordoada, atendera o mais depressa possível. Ao entrar na sala, ela encontrara Dumbledore sentado a uma bancada, lendo algo com muita atenção.
- Diretor? – perguntou ela, apreensiva.
- Ah, venha aqui, srta. Granger, tem algo aqui para você ler – ele disse. – Você gosta de ler, não gosta?
Hermione fez que sim com a cabeça, sem entender.
- O que é? – ela perguntou.
- Venha, venha.
Ela aproximou-se.
- Sente-se – ele disse.
Hermione obedeceu, sem entender. Dumbledore compreendera bem antes de ver, mas agora ela também compreenderia.
- Reconhece esta letra? – ele perguntou, mostrando uma redação antiga dela.
- É a minha letra, professor – ela disse, mas, ao olhar melhor o pergaminho, acrescentou: - Ei, o Snape tinha me dito que a minha redação tinha desaparecido como mágica! Não quis me mostrar por que eu tirei 9.75, disse que tinha sumido do nada!
Dumbledore deu a redação a ela. A garota olhou, procurando ainda o que ela poderia ter errado – nunca deixaria de ser Hermione Granger. Então viu a mesma observação que Dumbledore vira a princípio.
- Perfeita? – a garota perguntou, estupefata. – Ele é louco? Pra que que ele escreveu isso aqui?
Como Dumbledore não respondesse, Hermione virou a folha. Havia ali um pequeno texto. Ela olhou para o diretor, que não disse nada. A mesma caligrafia de Snape.

Por quê? Mas por quê? Ele poderia ter me pedido qualquer coisa... qualquer outra coisa... Mas tinha que me pedir isso. A morte de Dumbledore ainda entendo, era conveniente... vai demorar, mas eu posso matá-lo.
Mas não... não isso... Ele desconfia. Eu bem sei. Insisto demais que, mesmo tendo sangue trouxa, ela pode ser útil. Ridículo subterfúgio. Não admitiria nada para ele, nem para mim...
E por que estou escrevendo isso na redação dela? Talvez porque não tenha a quem dizer isso... nunca tive... Mesmo Dumbledore não me entenderia. Mal sabe ele que...
Mas que inferno, por que os pais dela? Por que tem que fazer ela me odiar acima de tudo? Eu não poderia matar qualquer outra pessoa, tinha que ser os pais dela?
Não, não vou fazer isso... Mesmo que me renda alguma desconfiança... Mesmo que...

O texto parava de repente. Hermione olhou para o diretor.
- Mas... Voldemort só... só voltou no fim do 4º ano... Eu... eu fiz essa redação no terceiro – disse a garota com a voz sumindo.
- Não acredito que ele tenha escrito essa confissão aí no mesmo dia em que corrigiu sua redação. Ele deve tê-la escondido de você por algum motivo. Provavelmente, porque acabou escrevendo que a redação era perfeita. Você sabe bem que o Severo jamais elogiaria desse jeito um aluno, muito menos uma grifinória amiga de Harry Potter.
Hermione ainda releu o trecho, pensativa. Mas ainda tinha mais por vir.
- Leia isto aqui agora – disse Dumbledore, entregando a ela um velho papel para cartas.
Curiosa, Hermione reconheceu a caligrafia apertada e miúda de Snape. Prendeu a respiração quando viu os destinatários.

Sr. e sra. Granger,

Queiram me desculpar a intromissão, mas creio que seria bastante aconselhável que vocês fossem para algum outro país, como a França, por exemplo.
Não sei até que ponto sua filha lhes conta o que se passa em nosso mundo, mas vocês já devem ter ouvido falar de Você-Sabe-Quem. Acreditem, qualquer coisa que ela lhes tenha dito não é metade do que ele realmente é.
Não tentarei ser agradável; serei direto. Vocês correm perigo de vida. A srta. Granger está segura; garanto que nada irá acontecer com ela. Gostaria de dizer que, no máximo no fim do ano que vem, alguns de nosso mundo vão querer se livrar de vocês. A razão exata, eu não sei.
Mesmo que não saibam quem eu sou, espero que vocês saibam que o que estou dizendo é bem plausível.
Não se perguntem em que vocês ameaçam o Lorde das Trevas; não há resposta para isso. Vocês simplesmente não o ameaçam, a não ser pelo fato de que criaram uma filha forte e determinada o bastante para servir de sustentáculo aos que são contra o Lorde das Trevas. Eles vão querer enfraquecê-la atingindo vocês.

SS

Hermione não sabia o que dizer. Não estava certa de conseguir respirar direito.
- Mas... mas... foi ele que matou meus pais... Foi ele! Esta... esta carta não foi mandada! Ele...
- Ele deve ter achado que seria bem ridículo para seus pais lerem algo como Lorde das Trevas, porque ele sabe que os trouxas pensam em nós como contos de fadas – disse Dumbledore.
- Tá, mas... – Hermione não conseguia formar um raciocínio lógico.
- Mas eu realmente estava errado – disse Dumbledore. – Depois que você falou comigo, eu voltei a pensar... quando você voltou ilesa, sem ter me chamado ao Ministério, eu sabia que alguém tinha cuidado de você. Não podia ser ninguém, a não ser alguém que estivesse realmente do nosso lado o tempo todo. Só Snape esteve do nosso lado. Era possível que ele ainda estivesse...
Hermione fez cara de dúvida.
- Mas... diretor... Ele tentou te matar e...
- Eu sou diretor de Hogwarts. Se eu morresse, teria um quadro na diretoria – interrompeu Dumbledore, os pensamentos a mil. – Um quadro como aquele que apareceu quando eu estava quase morto e que desapareceu quando dei sinal de vida. Meus poderes não são importantes, mas minhas idéias... elas ficariam. Os quadros falam, os quadros pensam, discutem. Eu ainda estaria com vocês, mesmo que morto. E se... e se Severo quisesse manter a fidelidade a Voldemort como aparência?
- Loucura... – murmurou Hermione chocada. – No Ministério...
Impaciente, Dumbledore abriu a porta do armário de ingredientes e mostrou a foto a ela.
- Severo passou quase vinte minutos olhando tão fixo para a sua foto que nem me viu entrar – disse ele. – Não me interessa o que ele fez no Ministério, ou o que ele te disse. Ele te tirou das garras do Malfoy, não foi? Ele já te disse quantas vezes tirou uma mulher das garras do Malfoy?
Hermione lembrou-se da noite anterior. Snape dissera. Nunca. Hermione ainda não entendia. Tudo soava muito estranho. Ele mesmo havia dito que só a desejava, nada além disso!
- Sei o que você está pensando – disse Dumbledore. – Mas Severo também disse que era fiel a Voldemort, disse também que era fiel a mim. Até que ponto vai a verdade? Quando começa a encenação? Até que ponto Hermione Granger é frágil e até que ponto ela é forte? Vamos, srta. Granger, não seja tão cética: Severo sempre esteve acima dos limites entre bem e mal!
A garota ainda custava a acreditar. Foi então que Dumbledore deu o golpe de misericórdia. Abriu uma caixa. Era uma velha caixa, que não estivera na sala de Snape, mas sim numa ante-sala que Dumbledore se lembrou que existia. Era uma ante-sala contígua à sala de Poções. Uma sala cheia de livros.
Hermione abriu a caixa. Eram anotações de aula de Snape. Mas nem todas eram anotações de aula.

Só ela sabia fazer a maldita poção de hoje. Outra vez. Só ela sabia os detalhes precisos. Outra vez. Só ela entendeu o raciocínio lógico do que eu expliquei. Outra vez. Impossível odiar uma aluna assim, mesmo me esforçando tanto com esse fim.
Ontem o Lorde das Trevas me pediu eu matasse logo Dumbledore e revelasse logo o meu verdadeiro lado. Idiota. Se ele soubesse o meu verdadeiro lado, não iria querer isso.
Mas, quanto a matar Dumbledore, realmente terei que fazer isso. Se eu não fizer, morrerei, e então a Ordem não terá mais acessos às informações sobre os planos de Voldemort.
O problema é fazê-los ouvir o que eu digo. Mesmo agora, é difícil. Só Dumbledore confia em mim. Ironias da vida; terei que matá-lo. E ela não confia em mim. Nem vai confiar.
Só escrevo isso tudo porque, no fundo, tenho esperança de que alguém ache e saiba a verdade. A quem realmente sou fiel. Mesmo quando estavam todos morrendo. Mesmo quando todos estavam perdendo. As informações dos movimentos do Lorde das Trevas era eu quem passava aos aurores, antes da queda dele, e é o que farei depois. Mas ninguém vai saber. Ninguém guarda segredos. Mentes fracas não guardam segredos.
No fundo, quero ser eu a matar Dumbledore. Que outro comensal o faria sem torturá-lo? Triste vida, essa minha... Só posso contar a verdade a um pedaço de papel...

Mais uma vez, a narrativa parava nas reticências. Provavelmente o momento em que algum aluno o interrompia, ou suas divagações terminavam. Hermione já ia dizer alguma coisa, mas naquele momento ela e Dumbledore, surpresos, viram Snape aparecer à porta da sala.

Tornando ao tempo real
O silêncio permaneceu ainda algum tempo ali, mas Snape quebrou-o, recuperando rápido a postura.
- Não contava encontrá-los aqui num domingo de primavera como esse. As masmorras são um lugar frio.
- Quase tanto quanto você! – exclamou Hermione, ainda muito atordoada com a série de revelações.
- O que? Como assim? – Snape entrou na sala e viu o que eles tinham em mãos.
Suspirou ao reconhecer seus velhos desabafos, mas ficou em silêncio. Ele não ia começar a se explicar.
- Você podia ter nos dito, Severo – disse Dumbledore. – Podia ter me dito.
- Não seja ridículo – tornou Snape, ríspido. – Achariam que você estava me protegendo, então você teria problemas. Mas você não veio remexer as minhas coisas às cegas, senão teria feito isso há meses.
Dumbledore deu um sorrisinho e disse:
- Ora, Severo, desde que Hermione voltou ilesa do Ministério sem ter me chamado eu soube que você estava a nosso lado – disse o velho diretor. – No momento em que ela pisou a minha sala, totalmente segura, eu sabia que você era fiel à Ordem. Ontem à noite você deve ter notado que tivemos uma conversa um tanto ambígua.
Snape deu um sorrisinho no canto da boca.
- Quase ilesa – disse ele, cinicamente. – Mas isso não muda nada. Apague isso da mente dela, ela não pode saber. Ela não é oclumente, se ela souber agora, todos os meus esforços terão sido em vão, e não quero isso.
- Como você consegue fazer isso? – perguntou Hermione, sem saber o que mais dizer. Com lágrimas nos olhos, num misto de raiva, de admiração, de ódio ainda, de alívio, tudo junto.
- Granger, entenda que, se eu não fizer, ninguém mais fará – disse Snape, impaciente. – Ou será que algum dos seus amigos sensacionais vai aceitar ter que dizer “sim, senhor” toda vez que aquele louco resolve que quer matar alguém? Você conhece alguém que consiga ter tanta confiança do Lorde das Trevas que possa até mesmo tomar decisões sem falar com ele?
Hermione, estarrecida, murmurou:
- Eu fui injusta e...
- De modo algum, Granger – interrompeu Snape. – Não se desculpe antes de saber o que realmente aconteceu. Eu não queria matar os seus pais. Mas eu os matei. Não há engano nisso. Seu ódio é justificável. Eu poderia explicar tudo, mas não serviria para nada, já que você terá sua memória alterada.
- Eu quero saber – ela disse, já começando a chorar.
- Mas para que, se você vai esquecer? – perguntou Snape, sem entender.
- Odeio perguntas sem resposta – disse Hermione, com os dentes cerrados. – Mesmo que eu vá esquecer depois. Não importa. Quero saber.
Snape já ia retrucar, mas Dumbledore, guardando tudo de volta na caixa, disse:
- Eu vou sair daqui e você poderá explicar tudo a ela, seja lá o que for, Severo. Depois pode apagar a memória dela, se achar conveniente. Vou me livrar disso aqui; seria um prato cheio para nossos inimigos.
Snape assentiu. Sinal de obediência. Mostrou o lado em que realmente estava. Ele bem poderia estar fingindo de novo; já não sabia dizer a que lado pertencia, mas, ao olhar para ela ali, esperando pelas explicações dele, ele se lembrava claramente por que ainda lutava. Dumbledore saiu da sala. E trancou a porta.
- Eu senti tanto... tanto ódio de você... – ela murmurou; as lágrimas já eram apenas uma marca em seu rosto.
- Eu sei, eu vi – ele disse. – Mas depois não quis ver mais nada. Tenho um reino, mas eu o daria inteiro pelos pensamentos. Mas achei melhor não saber. Devo dizer que todo o seu ódio e a sua tristeza ontem à noite não me deixaram dormir. Pelo que você leu, imagino que não funcione simular indiferença, agora.
Ela fez que não com a cabeça, corando um pouco.
- Muito bem, Granger, a história é a seguinte: um belo dia, o Lorde das Trevas resolveu que queria destruir todos os amigos de Potter para enfraquecê-lo. Tremi quando ouvi isso. Eu era o único de confiança; matar você estava acima das minhas forças. Qualquer outra coisa eu poderia fazer. Mas o Lorde das Trevas disse que não queria que os amigos do Potter morressem, seria rápido demais. Ele queria torturar o Potter. Queria que ele visse os amigos sofrerem. Pelo visto, ele conseguiu. Eu passei a informação para o Ministério do modo que eu sempre fazia: mandava algum comensal para a morte, talvez desmemoriado, que por acaso tinha algumas informações ultra-secretas, a que ele nunca teria acesso. O Lorde das Trevas nunca desconfiou. Eles chegaram a tentar proteger os Weasley, mas alguns descuidos fizeram com que essa proteção não desse certo. Os detalhes não vão te interessar. Sobre os seus pais, agora.
Hermione fechou os olhos, com o rosto virado para baixo. Snape não sabia se era certo ceder ao impulso de abraçá-la e pedir desculpas por ser ele mesmo, mas resistiu e, fingindo indiferença, disse:
- O Lorde das Trevas quis matá-los. Claro. Queria que você também sofresse. Isso é normal. Mas ele queria que Malfoy e Bellatrix fossem matá-los. Não vi o Ministério se mexer para salvar seus pais. Screamgeour, aquele maldito desgraçado, era contra nascidos-trouxas. Não quis proteger seus pais. Eu não tinha mais tempo. Não havia como armar para seus pais fugirem, se não, eu teria feito. Isso não importa agora. Minhas boas intenções não são suficientes para me salvar. Você já deve ter ouvido dizer o que Bella fez com os pais de Longbottom.
Hermione fez que sim com a cabeça, começando a imaginar o que tinha por vir.
- E Bella era justamente a escolhida para matar seus pais. Ela e Malfoy o que é muito pior. Então pedi ao Lorde para que fosse eu a matá-los.
Hermione olhou-o, estupefata, mas ele prosseguiu.
- O mínimo que eu podia fazer, já que não tinha como salvá-los, era conceder a eles uma morte rápida. Bella e Malfoy já estavam apostando quem mataria mais devagar. Eles fazem isso às vezes. Bella escolheu seu pai e Malfoy escolheu sua mãe. Ficaram jogando para ver quem conseguiria torturar por mais tempo, sem que morressem. Os comensais apostaram. Quando pedi que fosse eu, o Lorde pediu explicações. Eu disse que queria receber de você todo o ódio que pudesse, porque você era irritante e estúpida. Desculpa terrível para qualquer um que soubesse como eu me sentia. Mas não tive escolha. Ele acreditou. Seus pais morreram rápido. Ah, quase me esqueci de dizer: eles te amavam. Agora, se não se importa...
Ele puxou a varinha e apontou para ela, mas a garota levantou-se e se afastou.
- Espere – ela disse séria. – Você espera que eu te perdoe porque você matou meus pais por piedade?
Snape suspirou.
- Olhe, Granger, eu não pedi perdão. Não há perdão para as coisas que fiz. Eu só expliquei o que você queria saber. Agora você já sabe. E vou apagar a sua memória agora. Obli...
- ESPERE! – ela gritou.
Snape olhou-a, esperando para ver o que ela queria dizer.
- Quer saber o que eu acho disso tudo?
- Sinceramente, não – disse Snape, mas num tom bem diferente do habitual.
Ele desviou o olhar para a janela e voltou a olhá-la.
- Veja o que estou pensando – ela disse, num tom bastante imperativo.
Snape suspirou irritado. Estava perdendo a paciência.
- Granger, não tenho tempo para...
- Veja.
Severo Snape, a contragosto, pensou no feitiço tão simples, mas surpreendeu-se ao não conseguir ver nada na mente dela. Devia estar havendo algum erro. Tentou de novo, de novo, e de novo. Mas não conseguiu.
Olhou para a menina à sua frente, que lhe sorria, mas de um modo reservado.
- Sabe, Snape, se por um lado eu o decepcionei por ter acreditado nessa trama toda, por outro você também me decepcionou. Não acha mesmo que alguém perfeccionista como Hermione Granger não daria um jeito de aprender oclumência depois de ver Harry desperdiçar uma ótima chance de aprender, acha?
Snape deu um sorriso do canto da boca.
- Você é autodidata. Havia me esquecido disso.
- Só para algumas coisas – ela disse. – Simulei o tempo todo que não sabia oclumência, para que Voldemort não visse em mim um grande perigo. E, em matéria de simular, você é bem melhor que eu.
- Então parece que só vou saber o que você achou disso tudo se você quiser me dizer – comentou ele.
- Isso – ela respondeu. E, novamente, a tristeza escondeu o orgulho de um pequeno triunfo. – Bom, espero que a minha mente não seja apagada...
- Já que você sabe oclumência, acho que não é preciso, mas, por via das dúvidas, ainda vou tentar te pegar desprevenida, para ver se você consegue mesmo ser oclumente a todo o momento.
- Faça como preferir – ela disse, sacudindo os ombros. – Tanto faz.
Snape sentou-se numa cadeira, à frente do lugar dela. A garota desviou o olhar para o outro lado, então ouviu a voz dele dizer, no mesmo tom letal de sempre:
- Desculpe pela noite no Ministério.
Ela olhou para ele e corou.
- Bom, não foi muito agradável, mas... Bom, na verdade, o fato de você ser um comensal e dar a entender que me desejava me deixava apavorada, devo dizer, mas agora que sei que é fiel à Ordem, estou um pouco mais tranqüila.
- Um pouco? – perguntou Snape calmamente.
- Bom... – ela corou e disse: - Tem as suas anotações... E, além disso, o professor Dumbledore me disse que, quando entrou na sala, te viu olhando pra minha foto muito fixamente...
Ela olhou para o outro lado, envergonhada, mas Snape disse, no mesmo tom cínico:
- Ora, Granger, não seja tonta. Se em três anos você não percebeu nada, não vai ser agora que isso vai mudar. Acalme-se. Não sou um monstro. Pelo menos, não aqui, não agora. Mas ainda quero saber o que você pensa disso tudo.
- Não vou negar que ainda não gosto da idéia de você ter matado meus pais e nem que a sua narrativa foi meio fantasiada, mas não tenho ódio de você como antes – ela disse.
- Mesmo? Narrativa fantasiada?
- Ter piedade não é bem algo que combine com você.
- Ah, pode perder as esperanças, Granger, nunca serei uma pessoa melhor – disse Snape sarcástico. – Não foi piedade deles, foi por serem seus pais. Foi um sentimento de puro egoísmo da minha parte, como sempre.
- Mas você podia ter deixado a Bella e o Malfoy fazerem qualquer coisa – retrucou Hermione. – Eu não associaria a morte deles a você.
- Associaria sim. Diria que o Lorde das Trevas só chegou ao poder porque tirei Dumbledore do caminho, e que seus pais morreram por minha culpa indiretamente. Algo como o seu amigo Potter: não tenho nada a ver com a morte do padrinho dele, mas ele me culpa. Você faria o mesmo. Escolhe-se a pessoa que lhe causa mais antipatia e se vai culpá-la. Potter não culpou Dumbledore ou ele mesmo, mas sim a mim. Você não pensou que era amiga de Potter, não pensou em dizer para seus pais saírem da Inglaterra. O Ministério não quis ajudá-los. Mas você culparia a mim, a pessoa que você mais odiava em Hogwarts. É compreensível.
- Você não era a pessoa que eu mais odiava – retrucou Hermione. – Eu não odiaria um professor. Eu não suportava o Malfoyzinho, mas você, na verdade, me era um pouco indiferente. Nas suas aulas, é claro, a minha vida era só um inferno, mas fora delas... Não sei, só no primeiro ano, quando eu achava que você queria a pedra para Voldemort...
- Pare de falar o nome dele – disse Snape sério. – E grande parte do que você disse agora eu já imaginava.
- Que pena; sou previsível – retrucou Hermione, um pouco séria demais.
Ficaram ainda um pouco em silêncio, até que ela perguntou:
- Voldemort não vai sentir sua falta?
Snape deu de ombros.
- Não. Ele não sente falta de ninguém. Se eu sumir por uns dois dias, aí ele me chama.
Snape segurou o braço onde ficava sua marca, para indicar como Voldemort o chamaria.
- Não deve ser muito agradável ter isso aí – disse Hermione, indicando o braço esquerdo dele.
- Indiferente. Quando o Lorde não me chama, não tenho problemas com ela...
- Snape, como você consegue ser tão... tão frio, tão cruel com você mesmo? – perguntou ela, em tom de desabafo.
Snape arqueou as sobrancelhas. Território perigoso. Tudo o que falasse deporia contra ele.
- Não quero falar sobre isso, Granger – retrucou Snape, sério.
- Não me importo com o que você quer – retrucou ela. – Não pode mais tirar pontos da minha casa, não venha me ameaçar. Quero saber. Como você pode ser tão indiferente ao que você pensa?
Aquela pergunta era ainda mais direta que a outra. Hermione, em geral, era mais subjetiva quando se falava em sentimentos. Mas parecia que ela sofrera uma mutação, provocada pela curiosidade.
- Você não é ninguém para me dar ordens, Granger. Não é mais a minha aluna, mas está longe de ter autoridade para me obrigar a falar sobre algo que eu não quero.
- Tá fugindo – ela disse. – De novo.
Como ela ficasse em silêncio, Snape achou melhor sair estrategicamente – à francesa, como diriam os ingleses. Ele levantou-se.
- Ei! Aonde você vai? – ela perguntou levantando-se também.
- Embora. Antes que você venha me fuzilar com mais perguntas impertinentes. Fique alegre; tentei ver seus pensamentos mais três vezes desde aquela hora e não consegui.
- Espere – ela disse. – Não quero que você saia sem eu pedir desculpas. Fui muito injusta com você. Perdoe-me.
- Não sou ninguém para perdoar ou não perdoar – disse Snape. – Eu não tenho perdão. Nenhum de meus atos tem. Mas, se é que você se preocupa com isso, não vou ter raiva de você porque consegui te enganar.
Ele abriu a porta e deu de cara com Harry. Ele olhou para Snape espantado, e depois seu olhar correu para Hermione. Ele puxou a varinha bem rápido, mas Hermione já puxara a sua e dissera Petrificus totalus. O amigo ficou imóvel; Snape olhou para Hermione e ela disse:
- Eu apago a memória dele. Vai.
Snape fez um aceno com a cabeça quase imperceptível, em sinal de agradecimento, e saiu com sua capa esvoaçando. Ela olhou para Harry, que tinha a cara mais espantada do mundo e disse:
- Por favor, Harry, me perdoe. Obliviate.
O garoto, quando se recuperou do feitiço para ficar imóvel, não se lembrava o que tinha ido fazer ali, nem o que tinha acontecido. Apenas estava imóvel na frente da antiga sala de Snape, sozinho.


Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.