Time has come today



Engraçado como o tempo tende a pregar peças em nós...

Acelerando num impulso, tão rápido que te pega de surpresa. E antes que note, o momento, aquele momento que você gostaria que durasse para sempre, passa. E não volta mais... Ou então, zombeteiro, move-se vagarosamente, quase parando, geralmente, quando você deseja justamente o oposto...

Harry observou enquanto tons azulados começavam a tomar conta das paredes do quarto. Estava anoitecendo...

Novamente, o tempo brincava com ele. A tarde parecia ter caminhado em fração de segundos. Não era suficiente... Talvez, ficasse o tempo que fosse, ali, nunca seria o suficiente...

Harry sabia que estava adiando o momento em que teria que ir. A decisão já havia sido tomada... E havia partido dele... Compreendia agora. Tudo, a profecia... O oráculo... E de alguma forma, que não sabia precisar... Não estava assustado, ou indignado. Tudo fazia completo sentido. Não estava fazendo o que era certo simplesmente... Aquilo era certo, simplesmente porque ele o faria...

Ela moveu-se lentamente recostando a cabeça no seu ombro. Ainda dormia... Passara a tarde toda ao seu lado, acordado... Esperando tomar coragem para se afastar, observando-a... Uma sensação de familiaridade com a cena tomou conta dele... Entretanto, ali havia uma diferença... Agora, toda a insegurança que sentia havia se acabado dentro dele, e em seu lugar ficara apenas resignação... E dessa vez... Não acordaria a amiga, não por medo, mas... Por saber, que ela merecia ir muito mais além do que ele iria. O seu caminho acabava ali.



Hermione fechou os olhos, abrindo-os lentamente em seguida.

O chão gelado e duro tocava a sua pele, seu rosto, seu corpo inertes junto ao piso. Fitava um ponto, as pálpebras abertas, olhava, mas não via nada. Sua mão esquerda tremeu levemente sobre uma corrente fina e dourada... Dias pareciam separá-la do momento em que se encontrava numa cama quente e aconchegante. Um contraste tão grande com aquele piso... Tão distante do agora...

Estava acabado. Tudo... Acabado. O tempo lhe havia pregado uma peça. E não havia nada que ela pudesse fazer. Foi tão de repente... Ele estava ali, podia senti-lo, seu corpo junto ao dela... Não havia notado sua partida, até que era tarde demais.

Lembrava do súbito conhecimento assim que despertou. Como que num salto, ela sabia. Sabia que era tarde demais... Sabia tão dura e cruelmente que nem ao menos se moveu. Como se um fio de esperança a segurasse ali. Como se houvesse uma chance, de que tudo voltaria ao normal... Como se aquela dor aguda, aquela falta de ar, não passasse de um engano, uma confusão...

Ele entraria pela porta, com um sorriso no rosto, e uma promessa, de que tudo ficaria bem... Porque eles estavam juntos... Estavam finalmente juntos... Mas ele não veio.

E não havia sorriso... Ou promessa... Não houve mais nada, exceto borrões. E então, nada além dela, ali, no chão.



Giny fitou o teto inclinado e empoeirado do sótão. Não sabia precisar a quanto tempo estava ali. Ou mesmo quanto tempo decorrera desde que Lupin e Sirius haviam voltado com a notícia... Eles o haviam achado... Os dois.

Piscando, Giny afastou duas grossas lágrimas que escorreram rapidamente pela sua têmpora. Ela sentou-se na cama, sua visão escureceu-se por um breve segundo, até que se firmou no colchão novamente. Não comia nada já a um bom tempo... Pra falar a verdade, duvidava seriamente que qualquer um na Toca houvesse pensado em algo como comida durante as últimas horas... Levantando-se meio que inconsciente do movimento, saiu pelo corredor em busca do irmão:

- Ela saiu? – perguntou. Houve um momento de silêncio, até que o irmão, encostado na janela do fim do corredor murmurou sem tirar os olhos da paisagem do lado de fora:

- Não. – Giny manteve-se no lugar. Pode notar o leve tremido mal disfarçado na voz do irmão... Não sabia o que dizer para consola-lo, quando ela própria não encontrava consolo em lugar algum... Sabia que ais que qualquer outra coisa o irmão culpava-se por não poder ter feito absolutamente nada para evitar o... – um amargor subiu-lhe na garganta - O que havia acontecido...

- Você tem que falar com ela. – recomeçou. Seus olhos foram até porta do banheiro, e de volta para o irmão, que nem ao menos a olhava. Não compreendia muito bem o porquê dessa súbita necessidade de ajuda-la, mas talvez... Talvez assim ela não se sentisse tão inútil quanto ele, afinal, no momento, ela decididamente o era... Como se a tarefa de retirar a garota do banheiro fosse mais importante do que realmente era, acrescentou com firmeza. – Ela está no banheiro desde ontem. Rony, você tem qu...

Giny, pare. – falou ele apesar de ainda fitar os jardins lá fora. Sua voz não parecia irritada, apenas... Conhecia o irmão suficientemente bem para saber que ele próprio refreava a necessidade de chorar, devido à sua presença ali. – Deixe... Ela precisa disso... Nós precisamos... – e então, afastando-se da janela, caminhou até seu quarto e fechou-se.



Um clique quase inaudível quebrou o silêncio do local. Tonks entrou no banheiro fechando a porta atrás de si. Seus olhos percorreram o local até pousarem em Hermione. Que observou por um momento.

A garota estava deitada, as pernas meio dobradas, meio jogadas no chão frio. O rosto entre coberto por alguns cachos úmidos e traços de cortes finos e secos nos braços. A mão esquerda, na altura dos olhos, segurava algo fracamente junto ao chão... Ela não se moveu, nem ao menos piscou.

A perda por si só já era dolorosa. E a casa toda passara os últimos dois dias num estado completo de torpor. Uma tragédia se sucedera e ninguém conseguia trazer o assunto à tona, tamanho era o choque. Mas de alguma forma, mais que o fato em si, era vê-la sofrer daquele jeito... O luto dela tornava o deles ainda mais real e avassalador...

Caminhando até Hermione ela deitou-se à sua frente. A menina nem ao menos pareceu notar sua presença, parecia estar em algum tipo de transe, como Molly lhe dissera. Tanto ela quanto Giny tentaram arrancar alguma atitude por parte dela, qualquer atitude... Mas nenhuma conseguiu resposta... E apesar dos olhos absurdamente inchados e vermelhos fitarem os dela, mostravam se completamente vazios...

- Nós estamos preocupados com você. – murmurou. Hermione não respondeu. – Já fazem dois dias... Você tem que se alimentar, limpar... Você n... – tentou, mas se interrompeu ao sentir uma mudança no olhar dela:

- Você sabia... Levaram o corpo dele. – murmurou Hermione, os olhos ainda vidrados nos dela. Tonks não respondeu. O tom da garota era duro e amargurado. – O corpo... E eu nunca mais vou vê-lo... O que você faria... Como você se sentiria; se Lupin morresse... E você nunca mais fosse vê-lo?

A força e veracidade das palavras a tomaram, tanto e de tal forma que ela própria não conseguiu refrear-se em imaginar, como estaria se fosse ela no lugar de Hermione. Então ela compreendeu... Era inútil argumentar... Não havia o que dissesse que pudesse consola-la. Ela não se mostrou irritada, ou nada parecido. Estava apenas... Desolada. Por saber, assim como Tonks agora entendia, que não havia nada nem ninguém que pudesse ajudar...

Fechando a porta lentamente atrás de si, fitou Remus, que a esperava no corredor. Um momento de silêncio se seguiu, onde ela observou o estado dele. Era completamente deplorável. Irreconhecível. A feição completamente modificada, os olhos vermelhos e o rosto cansado, e ainda sim... Era possível notar uma sombra de preocupação em seus olhos quando perguntou:

- Como ela está? – Tonks ponderou, acabando por não responder. Não era preciso.

Uma necessidade de chorar copiosamente tomou conta dela... Como se os acontecimentos das últimas horas a houvesse tornado sensível a sentenças como aquelas. Mesmo vindas de uma garota de dezessete anos de idade... Lupin pareceu notar seu eminente desabafo:

- O que houve...? – perguntou levantando o rosto da mulher que abaixou-o procurando esconder as lágrimas. Tonks forçou um sorriso, mas conseguiu expressar apenas um pequeno esgar:

- Nada... É só, eu... Nada, não é nada... – tateou de modo nada convincente.

- O que ela disse...? – mas a mulher não respondeu, apenas aproximou-se e recostou-se em seu peito em silêncio. Sem nada dizer, apenas afagou seus cabelos por um momento.

- Porque eu sinto como se tivéssemos parte nisso? – murmurou sob soluços. Lupin não respondeu. Pois ele próprio sentia o mesmo...

Não tinha coragem de encarar Hermione, ou Rony depois de tudo aquilo... Talvez, talvez, se eles não houvessem dado ouvidos a Dumbledore... Talvez as coisas fossem diferentes agora... Talvez houvesse mesmo uma outra saída, que não aquela... Mas agora, já era tarde demais.



Ela não estava contando... Horas, dias talvez...? Não sabia, não importava... Sentia-se deslocada no tempo. Como se movesse num compasso diferente dos outros... Tudo foi tão rápido, tão depressa... O tempo acelerou e tudo passou...

Eles se conheceram... Tornaram-se amigos... Melhores amigos, todos eles. Coisas simples, antes tão sem importância, agora pareciam cruciais... Felizes, certo? Eles não sabiam, mas o eram... Agora ela sabia... E de que adiantava? Ela se apaixonou, sim... Eles se beijaram... E se tocaram... Tanto, e tão pouco... Num piscar de olhos. O tempo correu...

E então, ele se foi.

E o tempo parou. O tempo congelou, e ela não podia voltar, estava presa, ali. E ele não estava. E ela queria, precisava, queria voltar... Ficava ali, esperava, desejava que pudesse voltar. Senti-lo novamente, mesmo que por alguns segundos, apenas segundos... Mas não podia. Não podia voltar... E ninguém lhe dizia... Por quê? Por que não podia voltar...?

Como ela havia acabado ali...? Como as coisas chegaram aquele ponto?

Onde ele estava? Por que ele não estava com ela...? Não estava certo... Nada estava certo... Onde estava Harry? Como... Por que ela acabara sozinha...?

- Você não está sozinha... – com o olhar perdido, a voz fraca, tremida, ela repetiu:

- Eu estou sozinha... – ele continuou:

- Mione, você não pode ficar aqui...

- Eu posso.

- Não, não pode... Você tem que deixar pra trás...

- Não...

- Sim. – falou - Você está pronta...?

Houve um momento. Longo, absoluto, de silêncio. Até que ela respondeu:

- Estou.



Era o último dia de Outono. As mais variadas cores cobriam as copas das árvores em volta. Substituindo o verde por uma gama infinita de tons que iam do rubro intenso, ao amarelo vivo.

Recostando-se no tronco da árvore, Hermione observou os contornos do grupo alguns metros a sua frente. Podia reconhecer todos eles, apesar da distância.

O enterro havia acabado algumas horas atrás. Uma luz alaranjada do fim de tarde banhava o lugar, mas todos eles ainda estavam lá. Assim como ela, aparentemente, também mostravam dificuldades em deixar para trás...

O local estava considerável e abençoadamente privado e vazio, em se tratando de Harry Potter...

No caminho para ali, descobrira que a façanha tinha um dedo da Ordem da Fênix, talvez um último agrado... Era notável, o que algumas informações falsas podiam fazer, mesmo naqueles tempos...

Sirius escolhera o local. Uma vila, distante e da qual, Hermione nunca ouvira falar... Grodic’s Hollow. Supunha que ele tinha suas próprias razões, e ela não tiraria dele o direito de escolher onde o afilhado seria enterrado. Era um belo lugar... Uma colina, cercada por arvores frondosas... Lugar do qual, pensou Hermione com uma pontada dolorosa e bastante usual nos últimos dias, Harry adoraria...

A notícia de sua morte, se espalhara rápido, assim como o fato de que seu corpo não fora o único a ser encontrado em Hogwarts. Voldemort... Ele também havia sido encontrado. Motivo pelo qual, em algum lugar bem distante dali, haviam dezenas, talvez, centenas de pessoas esperando por um funeral que não aconteceria...

Hermione provavelmente nunca compreenderia o porquê ou mesmo como as coisas se sucederam naquele dia... Se Harry estava morto, quem cuidara de Voldemort, ou então, se Harry conseguira destruí-lo, por que ele próprio não se salvara? De alguma forma, entretanto... Algo dentro dela lhe dizia que não importando o que tivesse ocorrido, estava de acordo com os planos do amigo desde que ele decidira partir naquela noite...

Inconscientemente, ela estendeu a mão e puxou a corrente dourada de dentro da camiseta. Observando a pequena pedra lisa, cuja outra metade se encontrava a pouco mais de vinte metros dela. Ambas agora, jaziam inúteis. E mesmo assim, Hermione sabia que nunca deixaria de usá-la.

- Hei... – a garota voltou-se para o lado, fitando Rony que se aproximou, o rosto ilegível.

- Hei... – respondeu ela enquanto ele se recostava na árvore também. Um momento de silêncio transcorreu.

- Sirius disse que você vai embora... – falou ele num tom baixo. – É verdade?

- É.

- Pra valer?

- Eu não sei...

- Então, você vai voltar, certo? – era visível o descontentamento do amigo. Hermione voltou-se para ele num tom ameno:

- Eu não sei Rony... – dando um pequeno sorriso.

- Certo... – após alguns minutos, ele acrescentou esperançoso. – Você poderia ficar. – Hermione voltou-se para o amigo:

- Não... Eu... Eu não poderia... Mas eu vou escrever... – um momento de silêncio se seguiu. – Você vai me escrever certo?

- Você sabe que escrever não é o meu forte... – Hermione ergueu as sobrancelhas – Mas... Eu vou fazer o possível. – acrescentou ao ver a expressão da amiga.

- Certo então... – respondeu satisfeita.

Mais algumas horas se seguiram até que dando as costas, Hermione foi embora. E despedindo-se brevemente como se fossem ver um ao outro dali a alguns minutos, caminhou em direção ao povoado.

Era confuso como sete anos de sua vida pareciam agora muito mais do que realmente foram. Como se estendesse por uma vida inteira... O tempo lhe pregava outra peça... Era estranho e inconcebível como ainda havia tanto à sua frente, tanto que não sabia... Não sabia o que faria dali em diante... Não sabia o que havia adiante... Ou mesmo se haveria algo de fato... No meio de tudo que não sabia, ainda havia uma certeza, absoluta... De que não iria, jamais iria esquecer...

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