"Harry e Hermione"



Em meio ao barulho de conversas e apitos de trem, o grupo caminhava a passos largos por King’s Cross. A baderna que reinava, típica da estação, e a sensação de urgência - típica de um embarque no trem para Hogwarts – pairava sobre o grupo. Harry observou as pessoas ao seu redor. Receio e insegurança corroendo-lhe por dentro.


Desde a primeira vez que embarcou o expresso para Hogwarts, o retorno à escola era motivo de excitação, ansiedade. Agora, com tudo que acontecera, Harry não podia deixar de sentir uma inquietude com a idéia de retornar à escola. As coisas seriam diferentes, nesse último ano, as coisas seriam diferentes, pois todos sabiam.


Quem ele era, o que ele havia feito.


Harry Potter – O Garoto que Sobreviveu.


A primeira vez que vira a manchete no Profeta, Harry, em meio à apatia vinda do choque e da surpresa não fez  menção alguma ao título. Entretanto, irritação logo tomou o lugar,  e essa provavelmente tenha sido a razão pela qual Rony, Sirius e os gêmeos se refrearam em fazer qualquer gozação perante à atenção que a mídia estava dando aos mínimos detalhes da sua vida.


Hermione meramente ergueu as sobrancelhas e retrucou veementemente o quão ridículo ela achava aquele circo.


“Honestamente! Eles deveriam estar atrás dos Comensais que estão soltos por aí. Quem liga para essas coisas?”


E Harry, apesar de concordar sinceramente, não podia deixar de ponderar se ela ligava.


E como sempre – ultimamente – ao que parecia as coisas iriam apenas piorar.


Apesar do desconforto de ter revistas e jornais questionando sua cor favorita ou seu tipo ideal de garota, A dimensão real da guinada que sua vida havia dado veio apenas com a visita ao Beco Diagonal feita na semana anterior.


Com o intuito de comprar materiais para o ano letivo. Harry, Rony, Hermione Giny seguiram acompanhados por Sra. Weasley, Sirius, Remus e Tonks.


Trinta minutos depois eles retornaram, sem livros ou materiais. Sra. Weasley abstendo-se de comentários, Rony e Sirius ambos jurando ter visto uma senhora com uma faixa desmaiar. E Harry, com a certeza de que passara os seus trinta minutos mais embaraçosos até o momento.


Com direito à primeira página.


Todos o conheciam. Em todo lugar falavam seu nome. Harry gostaria mais que tudo de se esconder por um bom tempo. Durante aquele verão, pelo menos ele podia recusar-se a deixar a Toca, onde ele sabia que não seria abordado, apontado ou encarado por ninguém. Em Hogwarts, entretanto, a sensação que ele tinha era que não haveria um minuto sequer de tranqüilidade.


Pelo menos ele não estaria sozinho. Ele teria Rony, e Hermione.


Hermione...


Agora aí eram outros quinhentos, totalmente.


O modo com o qual a garota passara de colega à amiga, a algo um pouco além e vagamente definido à... Alguém de quem ele sabia precisar. Profundamente.


Era assustador. Ver-se tão dependente em tão pouco tempo. Harry imaginava o que aconteceria com ele dali a alguns meses. Ela o afetava. De verdade.


E essa nuance, essa mudança na dinâmica dos dois não passou despercebida.


Mais de uma vez, Harry apanhara Rony observando-o com um olhar analítico – nada característico. Ele esperara que o amigo se aproximasse com, talvez um discurso sobre as intenções de Harry. Mas ele não o fez.


Talvez pela estranheza da situação. Rony conhecia Harry a tempo suficiente para saber que ele não era o tipo de pessoa que se abre facilmente. Em verdade, desde que os dois se conheceram, Harry jamais comentara nada intimo ou pessoal. E apesar de ter passado por uma série de garotas, Harry sempre fora muito resguardado com seus sentimentos.


Não que eles não fossem melhores amigos. Pois o eram, como irmãos. Talvez fosse uma coisa de homem.


Ou talvez fosse algo sobre Harry e Hermione.


No momento, ele se encontrava mais inclinado à segunda opção...


Um apito de trem soou na estação e Harry adiantou o passo ao ver que havia afastado consideravelmente do grupo. Reunindo-se em torno da plataforma, um a um, o grupo tratou de atravessa a parede de tijolos o mais discretamente possível. Harry observou a dinâmica a alguns passos de distância.


- Harry, vamos! - chamou Rony antes de atravessar a plataforma e desaparecendo logo em seguida. Pausando com seu malão em posição deteve-se por um instante, ciente de que não estava sozinho:


- Vai ficar tudo bem. – respondeu Sirius ao ver o garoto voltar-se de repente para ele. Era visível a relutância do garoto em retornar a Hogwarts, não que alguém pudesse culpá-lo...


- Certo... – afirmou Harry fracamente, mais para si mesmo que qualquer outra coisa.


- Ok... Então. Er, escreva. Quando... Quando você chegar lá, certo? – Harry acenou afirmativamente, apesar de manter-se em silêncio.  Pondo uma das mãos sobre o ombro do afilhado, Sirius foi assaltado por uma urgência inexplicável de não deixar o garoto ir.


Não conseguia deixar de sentir como se algo estivesse prestes a acontecer... Aparentemente, sentindo o desconforto do padrinho, Harry começou, sendo logo interrompido:


- Sirius... – iniciou o rapaz.


- Você vai ficar bem. – murmurou ele deixando os olhos correrem pelo rosto do afilhado.


- Harry! – exclamou Hermione, retornando após alguns segundos, um ar quase tão receoso quanto o dele. Pausando ao deparar-se com a cena, retrucou mais suavemente, num tom de desculpa. - O trem já vai sair...


- Tudo bem, vá... – repetiu Sirius ao ver que o rapaz voltara-se para a garota e retornara o olhar para ele alguns segundos depois, inseguro.


- Vamos... – disse Hermione, afastando alguns cachos do rosto e estendendo uma das mãos e sorrindo um sorriso pequeno, numa tentativa (percebeu Sirius) de parecer confortante.


Harry segurou a mão da garota sorrindo de volta, também um sorriso pequeno, sutil – que não fosse pelo fato de que o afilhado raramente sorria ultimamente, talvez Sirius não o percebesse.


Afastando-se, surpreso com a interação, Sirius forçou um sorriso e tirou a mão do ombro do rapaz, que pareceu não notar a mudança do padrinho. Observando os dois afastarem – se não podia deixar de ponderar sobre o que havia visto.


Claro, ele havia notado a mudança no relacionamento dos dois, tanto quanto ele havia notado a mudança que se dera em Harry desde o ocorrido. Era difícil não notar. Ele não tinha certeza exata de quando havia ocorrido ou o que exatamente havia mudado, mas estava lá. De uma maneira, que ele sabia não existir com Rony (apesar dos dois serem como irmãos). E ao que parecia, o garoto não se incomodava com isso. A principio, Sirius suspeitara que talvez Rony se sentisse um tanto excluído – especialmente em se considerando o quão próximos ele e Hermione eram. E, no entanto, ele pareceu aceitar aquela mudança com uma facilidade vinda de alguém que sabia.


O que, Sirius não tinha certeza. E certamente que não era o único a quem Isso - Isso que agora eram Harry e Hermione - passara despercebido.


E apesar dele próprio não se encontrar tão a par deste aspecto da vida do afilhado como antes, sabia que o que estava acontecendo ali era algo novo. Algo pelo qual Harry nunca passara.


Sirius não estava certo do que pensar sobre isso. Era visível, em Harry o receio frente a um relacionamento diferente de qualquer outro que ele já tenha tido. Ao mesmo tempo em que se segurava ao  que a garota oferecia de uma maneira um tanto quanto intensa. Quanta incongruência.


Tão adolescente da parte dele.


Observando o afilhado partir e seguindo alguns segundos atrás, não pôde deixar de ponderar que talvez... Talvez aquele não fosse o melhor momento para se apaixonar.


<hr>


Quando havia retornado à Hogwarts, Hermione estava certa de que seria forçada a lidar com algo sobre o qual sabia não estar preparada para racionalizar. Entretanto, não esperava que isto ocorresse tão depressa. Pois todos, alunos, professores, todos não falavam de outra coisa, se não N.E.W.T.S..


Durante a primeira aula de Transfiguração McGonnagal dera um discurso à turma, lembrando a todos a importância dos testes que ocorreriam em Abril. E foi naquele momento, sentada na cadeira observando a professora, que Hermione compreendeu verdadeiramente o fato de que tudo que planejara para o seu futuro até ali fora por água abaixo alguns meses atrás.


Quem iria querer uma lupina como medibruxa, ou aurora... Ou qualquer outra coisa?


Enquanto essa realidade abatia sobre ela, Hermione tentou não pensar sobre o fato de que aquele teste seria inútil para ela, por mais certa que ela estivesse quanto ao fato de que teria scores perfeitos...


Sabia que poderia conversar com Rony ou Harry sobre o fato de que ultimamente se sentia completamente sem rumo. Mas de certa forma, suspeitava que nenhum dos dois entenderia.


Ela até apanhara os dois em uma conversa animada sobre como seria o treinamento na Academia de Aurores... Ela inventara uma desculpa ao perceber o assunto que os dois estavam conversando, sabendo que certamente tentariam arrancar dela o que se decidira por fazer em termos de carreira.


O que nenhum dos dois sabia era que esta era a última das coisas que Hermione gostaria de pensa agora... Pois pensar no futuro só tornava o fato de que ela muito provavelmente não possuiria um, muito mais doloroso.


Razão pela qual, mesmo estando com os livros espalhados na mesa ao seu redor, não conseguia sequer voltar-se para qualquer um deles. Ao invés disso, fitava a parede do quarto em silêncio.


Harry puxou a capa mais para próximo de si antes de estender uma das mãos e bater de leve na porta à sua frente. Olhando em volta, cuidou para não acordar nenhum retrato no corredor. Sabia que se fosse pego, colocaria, não só a si próprio em problemas como também Hermione.


Um minuto se seguiu antes que um clique de leve fosse ouvido e a porta se abrisse. Uma nesga alaranjada invadiu o corredor e enrolada em um roupão vermelho, Hermione espiou no corredor. Olhando ambos os lados, franziu a testa ao não ver nada. Estava prestes a retornar quando Harry sussurrou:


- Hei. – puxando o capuz, Harry se fez visível, ao que Hermione simplesmente abriu os olhos fitando-o surpresa.


 - Harry! O qu...? Como voc...?! – abrindo completamente a porta Hermione observou enquanto a cabeça e depois o resto do corpo do rapaz aparecia na sua frente. Piscando algumas vezes, pausou reformulando uma resposta ao cumprimento do garoto. – Hei.


Sabia por que o garoto estava ali, na verdade, embora esperasse que ele fosse procurá-la mais cedo, sabia que uma hora ele viria. Rony era um bom amigo, só não tão bom com as palavras, ou sentimentos...


Harry apoiou a capa em um braço e involuntariamente deixou os olhos correrem pela menina. Ela usava um roupão vermelho com o emblema da Grifinória sobre uma calça folgada e uma camiseta.


Seus olhos estavam um pouco vermelhos, ela tinha olheiras e estava de cabelos soltos e assanhados. Apesar de ela parecia cansada (o primeiro dia de lua cheia estava próximo), Harry não pode deixar de pensar que ela estava adorável...


- Eu... Eu sei que está tarde... Mas eu imaginei, bom, você disse que...


- É. Claro... – concordou Hermione prontamente. De uma maneira ou de outra... Conversar com o garoto afastaria seus próprios problemas da cabeça. Isso e o fato de que estava genuinamente preocupada com o rapaz. – Entre...


 - Agente podia dar uma volta... – ao ver a expressão da garota à menção de andar pelo castelo àquela hora ele acrescentou – Eu trouxe a capa e o meu mapa... Nós não vamos ser pegos.


- Harry...


-Vamos... – acrescentou ele com um sorriso. E aproximando- se ele entrou no quarto tentando parecer convincente o suficiente.


Hermione fitou-o por um instante. Ele próprio também estava de pijamas, só que ao invés de por um roupão por cima da roupa optara por um casaco e tênis. Estava claro que ele se preparara para um passeio pelo castelo.


- Eu suponho que deva calçar um tênis então? – retrucou Hermione, caminhando até a cama e tentando não pensar no quão facilmente havia cedido.


- Você estava estudando...? – questionou Harry e não pode deixar de sorrir ao observar o arranjo da mesa ao lado, tipicamente Hermione. Ao que esta simplesmente sorriu, abstendo-se de responder.


- Ok, vamos...


Apesar de Harry estar disposto a não ficar no dormitório, ao que parecia, ele não sabia exatamente para onde gostaria de ir. Hermione preferiu não sugerir nada, considerando que a idéia ter sido dele em primeiro lugar, supôs que ele teria algo preparado em mente. O ar frio e úmido de Novembro não era de todo agradável – um dos motivos pelo qual se recusara a caminhar pelos corredores àquela hora – ali, em baixo da capa, era na realidade bem agradável. Talvez aquela capa tivesse algum feitiço.


Ou talvez fosse só porque eles estavam próximos. Muito próximos.


Os dois acabaram no salão principal que – observou Hermione – parecia menor quando não estava lotado de estudantes. Particularmente se visto da mesa dos professores (onde os dois se encontravam sentados).


- Parece menor não é? – falou Harry após alguns segundos em silêncio. Sorrindo, ao fato de que ele havia pensado a mesma coisa, Hermione retrucou:


- É, parece... – as tochas  e velas do salão estavam apagadas. Apenas o céu limpo iluminava o local, dando-lhe um tom azul escuro e prateado. – você sempre teve esse mapa e essa capa?


- Meu pai me passou quando eu entrei em Hogwarts... Herança de família. – disse ele com um sorriso.


- Isso explica bastante coisa.


- Eu suponho que sim... – assentiu Harry ainda sorrindo.


Uma pausa seguiu-se na qual Hermione decidiu dar um tempo para que ele abordasse o assunto, escolhendo fitar o céu ao invés do rapaz ao lado.


- Eu não fiz nada. – franzindo o cenho, Hermione voltou-se para ele e observou-o enquanto ele continuava. – Naquele dia, eu só... Fiquei lá, parado. Eu não...


- Harry, era Voldemort! Não tinha nada que você pudesse fazer... Não é sua responsabilidade derrotar um monstro daqueles... – argumentou Hermione. E para sua surpresa, ele riu, uma risada que ela nunca ouvira dele. Cheia de amargura e... Ironia...? – Harry... O qu...?


- Você está certa! Tão certa... – e aqui ele parou, alcançando um ar de desespero, que a deixou ainda mais preocupada. – Eu não sou nada de especial. Não deveria ser minha responsabilidade, certo? Quero dizer... Como eu vou fazer isso?


- Harry, o que você está dizendo...? – aqui ele parou e voltando-se para ela, como se só agora percebesse o que havia dito, e respondeu fracamente:


- Nada... Eu só... Eu só estou cansado. -  e baixando a cabeça, apoiou-a entre as mãos, respirando fundo.


- Rony disse que você não tem dormido bem... – uma pausa se seguiu antes que ele confirmasse:


- Não. Eu não tenho dormido bem... – disse simplesmente. Entretanto refreou-se em dizer que seus pesadelos não estavam de todo relacionados com  o que a garota estava pensando. Claro, havia aqueles nos quais ele revivia o ocorrido na noite em que seus pais morreram. Mas aqueles que mais o perturbavam envolviam profecias, cobras, e cemitérios, ossos e caldeirões. Pesadelos nos quais ele estava certo de que Voldemort estava próximo e muitíssimo vivo, procurando por ele.


Claro que não diria isso a ela.


- Eu gostaria de poder ajudar. Fazer algo... Algo que fizesse você se sentir melhor, qualquer coisa... – replicou Hermione ao ver a expressão de angústia do amigo.


Aqui, ele ergueu a cabeça e segurando-lhe uma das mãos retrucou, forçando um sorriso:


- Eu sei. Você já esta fazendo...


<hr>


- Crucio! – gritos de agonia ecoaram na sala. Um homem contorcia-se involuntariamente no chão. – Harg!! - Bellatrix suspendeu a varinha num gesto irado e permeado de impaciência. Rudolph observou a esposa em silêncio. Rabicho encontrava-se a alguns metros de distância, sentado em uma das poltronas, também observando a cena.


Conhecia sua esposa por ser uma mulher um tanto temperamental. Volátil, Bella tinha um quê de instabilidade que enquanto para alguns atestava sua insanidade, para ele a tornava ainda mais atraente.


Claro, um não excluía o outro.


Ultimamente, entretanto, a inquietude que permeava as atitudes da mulher espelhava o espírito da maioria dos Comensais. Desde o desaparecimento de Lord Voldemort, um ar de insegurança rondava todos eles. Enquanto a sociedade celebrava, aliviada o fim do Lord das Trevas, a vitória do garoto Harry Potter incutira ira e em alguns casos, receio no círculo mais próximo de Voldemort.


Rumores de uma suposta profecia percorriam no submundo. Sussurros estes, que o Ministério – felizmente – era prepotente demais para dar ouvidos. Ao invés, preferiam acreditar que “Aquele-que–não-deve–ser–nomeado” estava de fato morto. Havia aqueles, entretanto, que eram fiéis demais ao seu Mestre para creditar vitória a um garoto. Dentre estes, se encontravam os Lestrange.


As buscas pelo Lord das Trevas começaram assim que a notícia do seu desaparecimento se espalhou. Eles sabiam, assim como todos que naquela noite Lord Voldemort partira - recebendo informações de um de seus servos – em busca dos Potter. Ambos, Lily e James Potter morreram naquela mesma noite. O que muitos não sabiam e que só após alguns interrogatórios eles vieram a descobrir, era o boato que corria de boca em boca sobre aquela noite.


Centauros, lobisomens, bruxos e bruxas, vampiros e as mais estranhas criaturas do submundo... Todos comentavam à boca pequena que na realidade, naquela noite, Lord Voldemort estava em busca do garoto.


Harry Potter.


Por diversas vezes, muitos deles ponderaram sobre a obsessão do Mestre das Trevas com a família Potter. A insistência de alguém tão poderoso em aniquilar uma simples família não fazia sentido algum, mesmo quando esta fazia parte da Ordem da Fênix. Até que ouviram da suposta profecia, que – não conhecendo seus dizeres exatos, ou mesmo sua real existência – diziam se tratar do motivo pelo qual Lord Voldemort buscava incessantemente Harry Potter.


Tornava-se imperativo, portanto, saber os conteúdos da profecia para que pudessem ir ao auxílio de seu Mestre. O que os trouxera até ali.


A família Longbottom, residente de York, não se encontrava sob guarda alguma. A atmosfera de falsa segurança lançada pelo Ministério da Magia e pelo Profeta tornara o trabalho de fato mais tranqüilo. Embora dois aurores competentes, a resistência demonstrada pelos dois logo foi quebrada pelo casal Lestrange e Antonin Dolohov.


Arranca-lhes informação, entretanto, provava-se um trabalho muito mais difícil.


<hr>


 Não importando o quão frio estivesse o tempo, as estufas sempre se mantinham quentes e sufocantes. A umidade e o calor eram constantes durante as aulas de herbologia. Isto, aliado à necessidade de revirar terra e adubar plantas, tornava a disciplina das menos atraentes entre os alunos.


Enquanto Harry certamente se encaixava dentro deste grupo, ultimamente algo havia tornado as aulas de Herbologia mais agradáveis... Veja - na tentativa de manter seus uniformes mais novos longe do risco de manchar de terra – Hermione, diligentemente (e ingenuamente) sempre fazia questão de utilizar uniformes mais antigos durante as terças e quintas. Uniformes mais antigos sempre significavam uniformes mais apertados, o que em conseqüência, significava um considerável déficit de atenção da sua parte.


Academicamente falando, claro.


Particularmente agora, que ela fazia questão de se mostrar atenciosa ao ponto de ajudar Rony e ele a corrigirem o que claramente não era o jeito “correto” de adubar a planta.


Não que Harry nunca houvesse notado esse detalhe em particular antes. Ele, como a maioria dos rapazes da Grifinória e Lufa-Lufa já haviam captado esse hábito a um bom tempo. Claro que à época, Harry jamais admitiria para si mesmo ou para ninguém que ele percebera...


Mas agora, não só lhe era, de certa forma, permitido notar, como também era inevitável, visto que a companhia da garota era uma constante. Onde antes, Rony fazia questão de passar tempo suficiente com os dois amigos, separadamente, agora os três estavam sempre juntos. Nas aulas, nas refeições, nos intervalos...


Eles eram um trio.


E isso não passou despercebido. Alunos e professores, todos notaram. E enquanto os professores refreavam-se de comentar, os alunos não eram tão recatados. De fato, no que se tratava de Harry eles eram justamente o contrário.


Afinal, havia algo melhor a se falar que sobre a vida de Harry Potter?


Hermione estava no meio de uma explicação sobre como medir a quantidade certa de adubo de acordo com o porte da planta e o quão importante isto era para as propriedades da mesma. Tudo que Harry conseguia pensar era no aroma de pêssegos que emanava da garota. Ele a perguntara uma vez sobre isso, questionando se era algum tipo de perfume que ela usava. Corando violentamente ela respondeu que perfumes lhe davam dor de cabeça, mas que ambos seu xampu e loção eram de pêssego.


Bom, isso explicava o cheiro...


Mas não explicava como ela ainda conseguia a façanha de cheirar tão bem quando os três se encontravam rodeados de adubo e terra.


- O que? – questionou ela, um rubor correndo-lhe na face, ao que aparentemente ele pensara alto demais. Do outro lado da bancada, Rony pigarreou demonstrando desconforto e desaparecendo debaixo da mesa “em busca de algo”.


Harry foi salvo de um sermão que seria longo dada a sua suposta negligência para com a explicação da amiga com a entrada de McGonnagall na estufa. Em silêncio, a mulher caminhou em direção à Prof. Sprout e murmurou-lhe algo. Acenando para o canto da bancada onde o trio se encontrava, indicou a direção na qual sem demora McGonnagall percorreu retrucando com uma voz neutra:


- Neville, por favor, venha comigo. – ao que o garoto ergueu a cabeça de sua própria lição e fitou a mulher, surpreso e levemente receoso. Harry suspeitou, mais pelo fato de que a mulher referira-se a ele pelo seu primeiro nome que por ter sido convocado pela diretora da sua Casa.


Harry, Rony e Hermione observaram enquanto o colega seguia a diretora em silêncio. Neville não apareceu nos dois períodos seguintes.


Ou nos três dias que se seguiram.


Mas os três só viriam a saber do ocorrido no quarto dia, não pelo colega, mas pelo Profeta Diário:


“CASAL DE AURORES ATACADO EM YORK”


“Frank e Alice Longbottom foram encontrados em sua residência em York na manhã da última quinta-feira desacordados. Segundo fontes, local apresentava sinais de luta intensa.


Aurores experientes, a participação do casal Longbottom na luta contra “Aquele-que-não-deve-ser-nomeado” na última guerra foi notória. Ainda de acordo com fontes, o casal apresentava claros sinais de tortura – informação que o Ministério recusa-se a negar ou confirmar. Enquanto a comunidade bruxa se choca com o ataque a esta pobre família em uma atmosfera de segurança, resta a nós perguntarmo-nos sobre os motivos por trás deste crime.


Este episódio nada mais lembra que o fato de que apesar da derrota “Daquele-que-não-deve-ser-nomeado”, ainda existem criminosos rondando a sociedade bruxa. O casal se encontra internado em estado grave em ala reservada no Hospital St. Mungus.


“Para mais detalhes sobre o caso e fotos da família Longbottom ver páginas sete a nove.”


Hermione baixou o jornal e fitou o amigo do outro lado da mesa.


- Ele falou alguma coisa para você? – Roy respirou fundo antes de responder, olhos fixos na imagem que estampava a primeira página do Profeta Diário. Uma foto do colega com ambos os pais e a avó sorriam alegremente para ele.


- Não.


Desde a notícia do ataque à família Longbottom, naquela manhã, Harry retraíra-se ainda mais, desaparecendo completamente durante todo o dia. Agora, ela e Rony se encontravam no Salão Principal e nem sinal do amigo. Durante o almoço, Rony havia tentado acalmar Hermione alegando que se algo tivesse acontecido, eles certamente já saberiam. Notícias ruins corriam rápido assim...


Hermione ignorou-o completamente.


E agora, ela mal conseguia comer de preocupação. E essa não era a primeira vez que ela ficava assim por causa de Harry. Talvez ela estivesse sendo um tanto obsessiva.


“Você está sendo obsessiva!” – Rony havia apontado a ela quando expressara esses mesmos receios ao amigo.  Que ela simplesmente não conseguia deixar de lado a sensação de que Harry estava escondendo algo, algo importante. Rony argumentara que ele sabia que Harry estava escondendo alguma coisa, masque quando ele estivesse pronto para conversar ele conversaria. Não havia motivo para ficar pressionando o garoto daquele jeito. Mas simplesmente não era da natureza de Hermione ser tão passiva.


Havia essa sensação de risco iminente no ar. Algo que ela não conseguia determinar, mas que estava certa que sentia. Como se as coisas estivessem prestes a modificarem-se completamente.


Ela podia reconhecer facilmente o medo de que alguma coisa acontecesse com Harry. E essa sensação era logo seguida de outro tipo de medo.


Medo de sentir medo. E mais importante, do que isso significaria.


Quando  Hermione havia sido mordida por Grayback ela sabia que certos aspectos da sua vida havia se modificado para sempre. Coisas que apesar de vagas e situadas num futuro distante, como casamento, filhos... Família... Eram algo que ela gostaria de ter e que muito provavelmente isso não seria possível.


Mas novamente, isso havia sido um pensamento tão fugaz que ela nem havia dado atenção. Àquela altura, sua principal preocupação resumia-se ao fato de que estivera à beira da morte.


Até que Harry aconteceu. Literalmente.


E as coisas mudaram. E logo esses pensamentos, antes distantes, ocupavam a sua mente por mais tempo do que deveriam, e ela se pegara agora desejando ter isso.


Com Harry.


OK, talvez não ter exatamente, mas... A possibilidade de, sabe... Um dia, ela gostaria... Quem sabe... Quero dizer, se ela pudesse escolher alguém... E foram esses pensamentos que a acordaram de vez pra realidade de que ela definitivamente não conseguiria isso. E Harry, bom, ele merecia alguém que pudesse... Sabe? Oferecer isso, tipo um futuro ou...


É... – só pensar no que isso significava era deprimente. Porque esse era o motivo pelo qual ela andava se esforçando para manter o relacionamento dos dois estritamente platônico. Ausente de sentimentos... Sabe, não-platônicos...?


Como beijos em armários, ou passeios de madrugada. Ou o fato de que se ele não entrasse por aquela porta em cinco minutos ela iria ter um ataque!


Então, talvez fosse mais fácil planejar que fazer.


Foi somente depois do jantar que Harry retornou à torre da Grifinória. Murmurando a senha para a Mulher Gorda, Harry entrou na sala comunal com a vã esperança de que estivesse vazia. E à primeira impressão, realmente estava, até que Hermione ergueu-se do sofá em um salto e exclamou claramente irritada:


- Onde você estava? – bradou a garota. E seu tom foi tão incisivo, que Rony estancou no seu movimento de levantar-se e sentou-se novamente, um pouco mais distante da amiga. Harry por outro lado, foi pego tão desprevenido que seu instinto foi logo de responder, automaticamente:


- Com Dumbledore.


- O dia todo? – rebateu Hermione pondo ambas as mãos na cintura.


- Er... Hermione... – tentou Rony.


- Bom, eu dei uma volta antes, sabe... Por aí – tateou Harry, com o ar de uma criança pega com a mão no pote de doces.


- Você podia ter avisado cara... – comentou Rony com um tom apaziguador, antes de acrescentar – Hermione estava insuportável...


- Não estava não! – ela retrucou cruzando os braços e sentando-se no sofá no seu maior esforço para parecer blasé. Não sem um corado leve no rosto.


Hermione voltou-se para a lareira ao sentir o olhar de Harry sobre ela. Caminhando até a poltrona ele sentou. Já era tarde, a lareira era a única fonte de luz no local. O reflexo alaranjado ressaltou as olheiras do garoto e ela percebeu de súbito o quão cansado ele parecia.


A vontade dela era de ir até lá e abraçá-lo, mas manteve-se firme na poltrona. Um olhar de confusão passou pelo rosto de Harry antes que se voltasse para Rony, este perguntando assim que Harry virou-se para ele:


- Por que você foi até Dumbledore?


- Eu... Eu queria saber sobre Neville... – respondeu Harry após alguns segundos de hesitação. O que não deixava de ser verdade. Ele tinha ido até o diretor para saber sobre Neville, mas também para saber sobre os particulares do ataque aos Longbottom.


Harry sabia - pois o próprio Dumbledore havia lhe dito naquela noite na Toca – que por muito pouco, a profecia não carregou o nome de Neville. Mas por alguma razão, Voldemort decidira vir atrás dele e não do colega naquela noite e desde que descobrira isso Harry ponderara se devia ou não contar tudo ao rapaz.


Quando soube do ataque ao casal, Harry imediatamente concluiu que teria algo haver com a profecia. O pensamento logo veio acompanhado com uma sensação de culpa quase que insuportável.


Ao confessar isso ao diretor, imediatamente ele ressaltou que o ataque aos Longbottom não era culpa dele. Isso apaziguou Harry, mesmo que só um pouco. Foi também nesta conversa que Dumbledore revelou-lhe que Neville não sabia da participação dos pais na Ordem da Fênix. Imediatamente Harry havia pedido que o diretor contasse, e que contasse também sobre a profecia. Embora ele próprio não quisesse contar, era justo que o garoto soubesse.


- Eu não acho que Neville sabia da participação dos pais na Ordem da Fênix, quero dizer... Ele diria algo se soubesse certo? – continuou Rony.


 - Dumbledore disse que ele não sabe... Eu acho que eles vão contar agora, eles têm que contar. – respondeu Harry.


- Ele disse se a Ordem já sabe o motivo do ataque? – questionou Hermione. Obviamente ela iria direto ao ponto. Uma pausa se seguiu antes que Harry respondesse:


- Não, ele não disse. – respondeu Harry, só agora percebendo que apesar do diretor ter esclarecido que o ataque não era culpa dele, não havia dito que não estava relacionado com a profecia. Talvez o seu desvio de pensamento houvesse transparecido:


- Harry...? – chamou Hermione, um ar preocupado permeando-lhe a voz. Harry voltou-se para a garota surpreso com o olhar criterioso com o qual ela o analisava.


- O que?


- Rony disse que ia dormir... – explicou ela, e em verdade o amigo já estava a meio caminho na escada para o dormitório. Era tarde demais quando Harry finalmente percebeu que os dois estavam sozinhos no local. Erguendo-se Hermione sentou-se no sofá (indo de encontro ao seu bom-senso) ao percebera expressão no rosto do rapaz.


A verdade era que a cada dia que passava Harry achava mais e mais difícil continuar escondendo a profecia de Hermione e Rony. Hermione em particular, pois enquanto Rony deixava o assunto em paz, mesmo sabendo que ele escondia algo, Hermione estava sempre atenta, a  todo e qualquer detalhe. E se até ali ela ainda não tinha tomado nenhuma abordagem direta, Harry suspeitava que Rony tivesse refreado a garota até então.


Ao que Harry era grato. Não era que ele não queria dizer, na verdade ele estava certo de que Harry e Hermione seriam as primeiras pessoas a quem contaria se fosse esse o caso. Mas ele simplesmente não estava preparado para contar, pois falar significava reconhecer o fato.


Algo que ele simplesmente não estava pronto para fazer.


E ao mesmo tempo, havia essa vontade de contar tudo, que o assaltava vez ou outra, especialmente em momentos como esse... Quando ela parecia tão aberta e... Próxima...


- Você está cansado. – não era uma pergunta, e sim uma afirmação. Harry ainda considerou revidar, dizendo que não, que ele estava bem, mas a certeza na sentença dela descartou a possibilidade quase que imediatamente. Baixando os olhos ele retirou os óculos e pressionou os olhos suspirando pesadamente.


 - É... – respondeu ele simplesmente, ainda de cabeça baixa. Sem pensar muito além do movimento, Hermione pousou uma das mãos no ombro de Harry e percorreu-a até os seus cabelos, ao que ele respirou profundamente sentindo seus batimentos acelerarem.


Hermione, só agora ciente do que havia feito, fez menção de afastar-se quebrando o contato entre os dois, sendo impedida pelo movimento rápido com o qual ele segurou a sua mão quando a afastava. E mesmo que ele não a tivesse mantido ali fisicamente, não era como se ela pudesse se afastar, certo? Quero dizer... Não com o jeito com que ele a fitava, o verde nos seus olhos tomando um tom mais escuro e...


- Hermione...


Quase que imperceptivelmente ele inclinou-se um pouco, aproximando-se dela, ainda com sua mão firme segurando-a. Muito perto... Ela tinha que se afastar ou...


 - Harry, e-eu dev... – tateou ela buscando um raciocínio qualquer – Eu... Eu tenho que ir... – completou. E fechando os olhos momentaneamente ela afastou-se se erguendo do sofá num puxão.


- O qu...?


- Quero dizer, está tarde e... – continuou a menina afastando-se em direção a saída. Harry observou-a com uma súbita urgência de não deixá-la se afastar, desejando que ela ficasse... Ele piscou algumas vezes ao notar seu pensamento, percebendo o quão exagerado era. Não era como se ele não fosse vê-la no dia seguinte.


- Er, certo. – disse simplesmente, refreando a vontade de impedi-la.


- É. Bom, eu... Er, boa noite... Harry... – disse ela sem esperar por uma resposta e desaparecendo pelo buraco do retrato.


- Boa noite... - murmurou, ainda sem conseguir conter a sensação repentina de perda.

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