Barraca de Batatas



Capítulo Dois
Barraca de Batatas

Um abraço! Um abraço fora tudo que Sofia sempre sonhara a vida inteira! Por que o pai nunca a notara antes? Por que nunca fizera sequer um esforço para aceitá-la? Rogério Wolfe era um médico muito famoso, na área de cirurgia plástica. Possuía sua própria clínica e uma enorme mansão, pela qual Sofia passara muitas vezes na porta, mas jamais se atreveu a tocar a campainha. Quer dizer, a esperar que a atendessem, porque muitas vezes apertara aquela campainha e corria como que fugida da polícia. Rogério era casado e tinha três filhos mais velhos que Sofia. Ela era uma bastarda, fruto de uma traição imprudente.
Sofia conhecia os irmãos de vista, já os vira sair de casa nas muitas vezes que rondara a mansão do pai. Eram belos, tinham ar esnobe e vestiam-se bem. Duas garotas e um rapaz. Por diversas vezes Sofia questionara-se se eles eram mais filhos dele que ela... O pai parecia tratá-los com tanto carinho!
A garota somente se encontrara com o pai por duas vezes na vida. Uma aos dez, anos quando realizou um teste de paternidade bancado por ele, e outra aos doze, quando o encontrou por acaso numa rua movimentada e os dois apenas se cumprimentaram.
Estava se sentindo estranhamente ansiosa, deveria contar a novidade a mãe logo de cara? Ou deveria ir escondida? Dúvidas e mais dúvidas. Estava apenas a mãe em casa naquele momento. D. Dora já se preparava para ir trabalhar.
-Onde você tava? _Perguntou a mãe, que não havia visto a filha sair.
-Ah, tava só dando uma volta...
-Você vai comigo vender batatas hoje.
-Ah, não, mãe... Eu tenho que estudar e...
-Vai sim, eu não vou carregar as sacolas sozinha. _Respondeu D. Dora, indicando duas sacolas cheias de batatas.

O caminho do prédio de Sofia até a praça não era tão longo, mas como as sacolas estavam muito pesadas, quando a garota chegou à praça, seus dedos estavam muito doloridos. O local estava lotado, pessoas iam e vinham de todos os lados e para todos os lados. A garota ainda pensava no que o pai lhe propusera. Colocá-la em uma escola privada, era algo realmente interessante. Sofia não tinha a menor idéia de onde iria estudar agora que havia terminado as fases ginasiais. Com certeza teria de enfrentar quilômetros de filas para conseguir fazer a inscrição na rede pública, e logo teria de esperar cerca de um mês para que chegasse uma carta a sua casa avisando-lhe o local em que ela iria estudar. Na maioria das vezes as cartas a mandavam para as piores escolas. Algumas pessoas que passavam por ela pareciam olhar através dela e não percebê-la, e isso sempre a incomodava. Não estava bem vestida e possivelmente estava descabelada, mas ainda era um ser humano.

E se fosse para a mesma escola que o garoto em que vinha pensado todo este tempo? Era difícil, mas não deixava de ser uma possibilidade. Às vezes o destino pregava peças em Sofia, por que não estaria lhe dando uma surpresinha agora?
-Ai. –Exclamou ao cortar o indicador com faca que descascava as batatas.
-No que está pensando? _Perguntou a mãe, curiosa. –O caminho todo você está estranha...
-Ah, mãe, a senhora não quer mesmo saber o que eu estava pensando, quer? –Perguntou, enrolando o corte do dedo com a barra da camiseta que vestia.
-É melhor ir pra casa, coloca alguma coisa no dedo. –Disse ela, observando a garota com um olhar ranzinza. –Gente que pensa demais não serve pra viver, não, menina, fica louco.
-Tudo bem, eu já vou... Ah, o papai ligou. _Confidenciou de uma vez.
-Ligou? _Perguntou, observando a garota, interessada. -Já depositou o dinheiro? A gente precisa pagar o aluguel... Quanto ele colocou na conta?
-Já depositou sim, quinhentos.
A garota percebeu que a expressão da mãe se desanuviara, ela devia estar satisfeita com a quantia.
-Bom, quando eu terminar aqui, vou lá sacar. _Disse ela, desdobrando-se para grelhar as batatas sem sentir o óleo quente lhe queimar a mão.
-Tá...
-E então, o que foi? Quer alguma coisa? Você sabe que o dinheiro está todo comprometido e eu não sei nem se vai dar pra pagar as contas e...
Por que D. Dora sempre levava tudo para um âmbito financeiro? Sofia não estava preocupada com isso agora, ela iria ver o pai no dia seguinte! E o seu coração imaturo estava cheio de confusões e dúvidas. Queria contar para alguém, queria dizer a mãe. Queria contar a ela que finalmente realizaria seu sonho, mas ela simplesmente não era alguém com quem se podia conversar. Era uma mulher dura, fechada, superficial. Era estranho que todo o sofrimento que a mãe passara na vida não a fizera ser uma pessoa melhor. Diziam que sofrer fazia com que as pessoas amadurecessem, mas Sofia encarava a mãe como alguém vazio e cheio de dúvidas. A garota deu meia volta e dirigiu-se para ir embora, sem se despedir.
-Mas se você quiser uma roupinha... Talvez dê pra comprar. _Disse D. Dora hesitante, com o olhar preocupado.
Mais uma das soluções simplistas de D. Dora! A garota estava farta disso. Para as pessoas não bastava apenas bondade ou vontade, era preciso muito mais quer isso para ser alguém. A mãe de Sofia era uma mulher cheia de boas intenções, mas de boas intenções, como dizia o velho avô da garota, o inferno estava cheio.
-Não, mãe, não quero nada, faça o que a senhora tem que fazer. –Respondeu a garota rispidamente.


Ter alguém para conversar, ter alguém para dividir, era tudo o que Sofia precisava naquele momento. A menina não tinha amigos de sua idade, além do neto do dono do ferro-velho perto de sua casa, seu nome era Matias. E ela o conhecia a quase sete anos.
-Oi, seu Marcel, o Matias tá aí? –Questionou a garota, hesitante para o senhor.
-Ah, está sim, está lavando o meu fusca ali... Vá lá, vai. –E apontou para uma área vazia onde estava estacionado um fusquinha branco.
Como ele sabia onde o neto estava, Sofia não fazia idéia, porque ele era cego, mas o fato era que sempre sabia. Além das latarias e peças de carros erguia-se uma casinha nos fundos, onde moravam apenas Matias e seu avô, desde que chegaram àquela cidade. Era uma casa humilde, pintada a cal, e na frente desta havia uma pequena estátua de uma santa negra, Sta. Anastácia. O que fazia Sofia sempre arrepiar-se ao ver aquela peça era o olhar de sofrimento na expressão da santa, bem como a mordaça que lhe prendia a boca.
-Oi, Sofia. –O garoto disse sorrindo, assim que a viu. –Passou de ano?
Ela fez que sim com a cabeça, e sentou-se ao lado do garoto, sobre um enorme pneu de caminhão, esquecendo-se de Anastácia que jazia sob o sol quente.
-Eu fiquei de provinha... _Disse, desapontado. Encarando a garota com os olhos anormalmente castanhos sob a luz vespertina. _Meu pai ficou muito chateado...
-Foi ver seu pai esta semana? –A menina apanhou um graveto do chão e começou a riscar o chão de cimento mole a esmo.
-Fui... O meu avô arrumou um outro advogado pra ir ver o caso dele. Foi aniversário dele ontem. Estamos rezando para que ele saia logo este ano da cadeira... Ele está todo confiante... Aposto que dessa vez ele sai.
Não era que a garota não sentisse pelos problemas do amigo, mas de repente o assunto sobre o pai preso de Matias parecia se estender por séculos. O menino contou a ela centenas de detalhes sobre a última visita, parecendo muito empolgado, e às vezes desapontado com ele mesmo, quando como tivera que contar que o pai mencionara o quanto ficara chateado porque ele não havia passado de ano normalmente. Enquanto isso a garota espera impacientemente que pudesse finalmente contar ao amigo o que se passara com ela.
-Eu espero que ele saia logo... _Disse Sofia, para encerrar a conversa.
De repente Matias ficou muito sério, passando a esponja com sabão de qualquer forma pela lataria enferrujada do carro.
-Eu queria saber por que ele está lá... O Jorge, o Jorge lá da minha sala me disse uma coisa...
-O que ele te disse?_Perguntou Sofia, que já sabia do horrendo crime que o pai do garoto cometera.
-Eu não acreditei, vovô me contaria se fosse verdade... Se isso fosse verdade eu jamais queria ver ele de novo... Ele não seria mais meu pai.
-O que o Jorge te contou, eu aposto que não é verdade. Por que não pergunta pro seu pai? Ele que tem que te contar, não o Jorge.
-Ele disse que foi por roubo... Mas eu sei que roubo, não foi. Ele não passaria onze anos na prisão por causa de roubo... Eu só não sei o que ele fez. –Falou, meio tristonho.
-Ah... Matias... Se ele disse que foi roubo, foi roubo. –Insistiu ela, trêmula.
Foi difícil romper o silêncio que se instaurara ali. Matias estava muito longe, preso em sua própria lembrança, tentando resgatar alguns pensamentos perdidos, alguns modificados com o passar do tempo. Na verdade, estava reavaliando a vontade que tinha de ter o pai em casa.
-Eu falei com meu pai, hoje.
-Quê? _Questionou ele, despertando e jogando a esponja ensaboada no chão.
-Ele me ligou...
-Ele te liga todos os meses... _Disse, dando de ombros.
A menina encarou por um momento o menino, antes de responder. Ele era um pouco mais baixo que ela, de braços e pernas fortes, cabelos negros e ondulados, formando cachos. Seu sorriso era amarelado e lhe faltavam dois dentes, mas possuía por assim dizer uma beleza ordinária.
-Dessa vez ele queria que eu fosse a casa dele, amanhã. –Disse como quem faz pouco caso. –Eu que não vou...
-Faz bem. –Respondeu o garoto, jogando água no fusca, para tirar a espuma.
Fazia bem? Matias estava louco? É claro que não fazia bem! O que mais queria era conhecer o pai. Se ela contara a Matias daquele modo tão pouco especial é porque desejava que o menino exaltasse todos os bons motivos que ela tinha para ir lá, para que ela se sentisse ainda mais segura.
-Eu já vou, tenho que ir pegar os gêmeos na escola... –Disse, sentindo de repente que o garoto lhe oferecia pouca atenção.
-Tchau... –Respondeu Matias, quase automaticamente, ainda preso a si mesmo.

Ótimo! Pensou a garota amarguradamente, nunca mais daria atenção para os problemas do menino. Ela que sempre lhe fora tão atenciosa, agora não recebia nada do amigo. Por que ele não queria que ela encontrasse o pai dela? Inveja? Se ele soubesse o que pai dele fez, a razão pela qual estava preso... Se ele soubesse que ele e o avô tiveram de mudar-se de estado por causa deste fato, Matias nunca mais gostaria de rever o pai. Talvez fosse bom para ele saber...
O que ela estava pensando? Perguntou-se um outro lado dela. Pobre Matias, estava tão preocupado com o pai naquela prisão suja que já não tinha como se importar com mais nada. Ia mal em seus estudos e parecia tão desolado com a vida. E ela nem ao menos estava sendo capaz de perceber este momento do amigo.



-Olha, comprei uma brusa pra você. –Disse a mãe, assim que chegou da rua, atirando um pacote sobre Sofia, que já cochilava.
A blusa que D. Dora comprara era azul e trazia alguns detalhes em rosa. Sofia não se interessou muito por ela, mas fingiu agradecimento. Era aquela a hora para contar o acontecido. Os gêmeos já estavam lá, Miguel havia acabado de chegar, e o Valdir ainda estava pelas ruas.
-Mãe, o... o meu pai quer que eu vá a casa dele amanhã. –Disse tão rapidamente quanto conseguiu.
A mulher fitou por um momento a filha com interesse, como se avaliasse até que ponto ela estava tentada a ir. Miguel, que também era filho de Rogério, parou de consertar um velho rádio que possuíam em casa e também encarou a irmã.
-E você disse que não, não foi? _Questionou o rapaz, desfazendo o rabo-de-cavalo e deixando que as madeixas de cabelo castanho caíssem pelos ombros.
-Bom... Eu não podia dizer isso assim, Miguel.
-Olga, eu não acredito! – Disse, sentido. –Eu não acredito que você está disposta a esquecer todos esses anos que ele não assumiu nem a mim nem a você. Não acredito que você está disposta a esquecer todas as humilhações que já passamos e ir confraternizar com ele...
-Ele quer arrastar ela pra lá pra tomar ela de mim. Sufia, você não vai, está me entendendo? Ele quer fazer tua cabeça, minha filha. Ele sabe que com o Miguel ele não vai conseguir nada, ele sabe que tu é bobinha.
A garota apenas encarava os dois, com o coração apertado. Sentia-se incrivelmente mal por ser tão fraca, por ter aceitado ir a casa do pai sem nenhuma resistência, por ter esquecido todo o abandono dele para com ela e o irmão.
-Vou te dizer uma coisa, entre o salafrário do nosso pai e o bêbado do Valdir, eu sou muito mais o Valdir, pelo menos foi homem pra assumir os filhos que teve.
-Miguel, mas... Ele quer pagar um colégio pra mim.
-Há! Pagar colégio? Ele quer é te levar pra morar com ele. Não quer mais pagar pensão... Pro Miguel ele não paga mais, que já tá com 22, e você ele quer se livrar também. –Disse D. Dora, enquanto dava voltas pela sala de estar, irritada.
-A mamãe tá certa, Olga. Se você quiser ir, vá, mas fique com os olhos abertos. Pense bem se você vai querer ser tão fútil assim pra preferir ficar numa casa de estranhos que na sua casa, só porque somos pobres.
Sofia não tinha coragem de responder ao irmão, apenas passava as mãos sobre o rosto, nervosamente. Sabia que não devia ter contado nada a ninguém, devia ter calado e fingindo que iria a outro lugar.
-Eu vou amanhã, se não gostar, eu não vou mais. –Disse, resignada.
-Eu sei que você vai morar lá com ele se ele te pedir, Sufia, eu sei. Pensa que eu não vejo teu jeito? Você odeia isto aqui, você odeia o Valdir. Mas eu não vou deixar ele, ele é pai dos meus filhos. E ele foi quem ajudou a te sustentar, até essa idade. Teu pai só veio te dar pensão há pouco tempo, querida. Quem colocava comida no seu prato e no do seus irmãos, era o Valdir.
Sofia odiava quando a mãe lhe lembrava disso. A mãe não sabia que fora ela própria a responsável por tudo isso? Fora ela quem não lutara na vida, fora ela quem não conquistara nada para os filhos. Agora ela vinha e trocava a responsabilidade de lugar, jogava-a para cima dela? Isso a irritava profundamente.
-Eu não pedi pra nascer! –Disse, finalizando a discussão.

Essa era uma das frases que ela odiava dizer, mas estava sempre dizendo. Soava infantil, clichê, sem sentido, mas sem nenhuma melhor para dizer, acabava sempre optando por ela, logo depois corria para o seu canto cortinado(um canto da sala de estar, coberto por cortinas) e falava mais nada.

Aquela noite a garota não dormiu direito. Gotas de suor desciam-lhe pela fronte lívida e escorriam pela ponte do seu nariz. Sua camiseta estava úmida e não parecia haver ar suficiente ali para que ela pudesse respirar. Levantou devagarzinho e abriu o cortinado, todos dormiam em redes e lençóis forrados no chão, exceto pela mãe e o padrasto que possuíam um quarto apertado. A garota passou pelos três irmãos, pulando sobre os gêmeos e indo até a porta, a chave estava na fechadura. Atravessou a varanda do prédio silenciosa, observando se não havia ninguém por ali, e subiu todos os lances de escada até finalmente alcançar a sua tão querida laje.
Uma brisa leve sacudiu seus cabelos e resfriou seu corpo, a camiseta antes colada ao corpo de suor, começava a soltar-se lentamente. As estrelinhas brilhavam alto lá no céu, solitárias. Não havia muitas àquela noite, afinal, o tempo se fechara e parecia que antes que amanhecesse o dia, cairia uma longa chuva. Seus descalços sentiam o chão áspero de cimento cru enquanto ela caminhava em direção às grades.
Segurou-se com cuidado e mirou a avenida lá embaixo, as árvores do parque ambiental sacudiam-se quando o vento atravessava-lhes e as luzes dos postes lá embaixo iluminavam os automóveis que passavam por ali fazendo barulho.
Amanhã estaria na casa de seu pai, estava tão ansiosa. Como seria recebida? Não tinha a menor idéia, com certeza a madrasta deveria odiá-la, e ela não estava muito segura quanto aos meio-irmãos aceitarem-na. Mas a curiosidade que tinha em conhecer Rogério era maior que qualquer coisa, não havia o que fazer, a não ser esperar que o dia finalmente amanhecesse...


Dim-dom. A garota tocou a campainha em forma de leão da enorme mansão hesitantemente. Estava com a melhor roupa que tinha, um vestido lilás com rendas pretas e um par de sandálias compradas há muito pouco tempo. Sofia achava-se ridícula com aquele vestido, mas como as pessoas sempre a elogiavam quando estava dentro dele, acabou aceitando como um fato de que ele lhe caía bem. Por mais que negasse, tudo o que se dizia dela ainda lhe causava um grande efeito.
Em um primeiro momento, sentia-se confiante, o peito estufado, algo como um orgulho velado. Contudo, assim que pressionou aquele botão da campainha, sentiu-se instantaneamente esmorecida. O que raios ela estava pensando que era para ir com um vestido num dia de sábado à casa do pai que mal conhecia? Desfez a trança que preparara ainda àquela manhã com tanto cuidado e jogou os cabelos sobre os ombros, fazendo o possível para que eles lhe encobrissem a face. Em seguida baixou a cabeça, emudecida. E ficou assim nessa posição por alguns segundos, até que um impulso incontrolável a fez afastar-se cada vez mais da casa, e já ia se preparando para correr daquela rua quando o portão foi aberto, e uma voz rouca emanou de lá de dentro e disse:
-Ei, garota, foi você quem tocou a campainha?

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