Capítulo único







Rhapsody In Black


 


Para estar vivo por mais tempo do que o esperado,
Um abrigo para protegê-lo da tempestade.
O que é uma mentira senão o inverso de um trovão?
Moldando sombras, vagando pela eternidade,
Não se deixe prender lá dentro.

(Symfonia – Rhapsody In Black)


“Sempre antes da calmaria vem a tempestade, filho. Não o contrário. Quando estamos lutando por nossos sonhos, precisamos estar à espera não da tranquilidade, mas das dificuldades. Pois se estivermos atentos a elas, mais fácil será superá-las.” – era o que minha mãe dizia quando eu era apenas um garoto.


E ela estava terrivelmente certa.


O Lorde das Trevas havia sido derrotado pelo ainda bebê Harry Potter – dando a aparência de que viveríamos num amanhecer de tempestades passadas, orvalho e tranquilidade –, mas ele retornaria para contrariar absoluta maioria do mundo bruxo que tinha como certa sua morte. Voltaria, como a mais carregada e torrencial das chuvas, para transformar bons ventos em furacões, destruir lares e famílias, afogar pessoas em suas próprias lamentações e cobrir de nuvens negras suas vistas e planos.


Para destroçar os sonhos dessas mesmas pessoas que não têm ideia do que é viver sozinho, nem sabem como é ser o recém nomeado e temido Mestre de Poções de Hogwarts ou um Comensal da Morte que viria a ser espião-duplo. Tampouco experimentam o mais doloroso: ter perdido o amor de sua vida, sendo responsável indireto por sua morte.


Desconhecem o que é passar um dia desacordado, num final de semana vazio, após ingerir Firewhisky além da conta, sendo cada dose ou gole regado de lamentação, choros silenciosos e lembranças veladas.


Só o torpor da bebida para fazer-me esquecer que estou sozinho e do ódio ao meu redor. Só a bebida âmbar para conseguir me desviar, ao sugar de mim qualquer mínimo resquício de juízo e sobriedade, da visão imaginada de olhos esmeraldas e do buraco negro que me engole.


Ninguém sabe o que é ranger os dentes em raiva e ter de mentir a um mestre para agradar outro ou para salvar a própria pele. Vivem suas vidinhas fingidamente felizes e medíocres, julgam sem conhecer o que é, afinal, perder tudo. Não contemplam ou provam do que é não ter ninguém além da lembrança boa de uma pessoa especial que deve ter morrido a rejeitar-me.


Deixo a vida levar-me de acordo com seus ventos, que variam da mais leve e calma brisa aos dias mais intempestivos – ou tempestuosos. O contrário da amargura para mim não é júbilo ou satisfação, mas apenas a paz de um dia regado a álcool, em que não padeço de ofensas diárias ou calúnias pelos corredores do Castelo que se tornou minha prisão. Eu não habitava as Masmorras por acaso, afinal.


Todas as palavras aparentemente flexíveis que ouvia e ainda ouço são de pena. E eu não quero que sintam pena de mim, pois é um dos sentimentos mais desprezíveis que existem. Não quero que me amem, pois meu combustível para o amor se foi junto com Lily Evans, restando-me apenas as faíscas desse sentimento que me consome como se fosse fogaréu.


Meu amor é uma vingança que nunca será livre. Minha vida passou a ser vazia após a partida dela, mas meus sonhos não. Ao contrário do que muitos pensam, eu ainda possuía uma missão neste mundo, minha consciência sempre me alertava disso.


“Proteja o filho dos Potter.” – Dumbledore me disse.


Poucos têm experiência em matéria de agonia como eu tenho. Por trás dos olhos sérios e sem vida e da postura sempre taciturna existe um jovem-homem que padece e prova do cálice amargo do arrependimento que mata aos poucos.


Através desses termos mal-escolhidos resumo parte de uma vida. Através dessas palavras componho minha imperfeita rapsódia em tinta preta. A rapsódia de um homem também sombrio que – ainda que em meio à calmaria – não sabe o que é viver em paz, pois a guerra para ele sempre haveria de continuar. A rapsódia de um homem solitário.


Fim.


 


Notas:


- Eu simplesmente AMO essa música (Behind Blue Eyes). Não exatamente na versão do Limp Bizkit (sugerida pelo Challenge Songfics), que ainda não ouvi, mas na original, do The Who, uma das bandas mais perfeitas que há. Quando soube que ela estava listada, ainda mais com bônus, fiz questão de escrever com ela *---*


- Rhapsody In Black (sempre quis pôr esse título numa fic, eis que a oportunidade perfeita aparece) é nome de uma das músicas do Symfonia, banda que eu tanto amo. Obrigada, gênio Timo Tolkki, por me ajudar e inspirar aqui também, ainda que eu tenha achado o texto uma droga (mas isso é culpa minha, não sua <3)


- Sorry pelo Snape emo e deprê /rs


- Como devem perceber com a leitura da fanfic, a história acontece quando Snape foi convidado a ser Mestre de Poções em Hogwarts, com a recém morte de Lily, estando ali apenas à espera da missão que tinha de cumprir, que era proteger Harry Potter a partir da promessa feita com Dumbledore.


 



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