Capítulo Único





 


Fireproof


Torneios Tribruxos, após décadas ausentes dos calendários de grandes Escolas de Magia e Bruxaria, haveriam de ser realizados outra vez. O palco para aquele espetáculo era Hogwarts – e não poderia haver palco mais oportuno.

À parte do integrante da instituição sede, os demais protagonistas, e seus espectadores, vieram de longe. Da França apresentou-se Beauxbatons, enquanto a Escola de Durmstrang, após o desaparecimento repentino de seu representante e ex-Comensal da Morte, Igor Karkaroff, cancelou a participação no torneio, e da região mais setentrional da Finlândia desembarcou a Escola de Revontulet para substituí-los.

O Cálice de Fogo estava aceso. Sua chama que oscilava entre tons de verde e púrpura tremeluzia ligeiramente sob olhares especuladores e intrigados. O desejo de se provar também se mantinha ardente no coração dos campeões de cada Escola que haviam depositado seus nomes ali. Como se o objeto tivesse a capacidade de agir racionalmente, elegeu não somente os mais audaciosos, como também os que sentiriam naquele Torneio mudanças radicais em suas vidas.

Destinos traçados, corações testados e escolhas feitas para os homens naquele espaço, Harry Potter e Symathon Ramon, e para a única dama entre eles, Fleur Delacour.

Os terrenos mais afastados do Castelo abrigariam o primeiro teste para os competidores.

“Com medo, Potter?” – disse-lhe Draco Malfoy quando via o garoto atravessar o corredor improvisado que levaria à extensa arena montada.

“Não mesmo.” – uma mentira, ainda que parcial. Afinal, sempre se teme aquilo que não se compreende; mesmo para um Gryffindor que sabia, ainda que ligeiramente, o que precisaria fazer para seguir à diante no Torneio: voar. Não em uma vassoura, mas em outro sustentáculo que conhecia bem, as costas de um Hipogrifo.


Havia descoberto o que precisaria enfrentar quando Rubeus Hagrid o levou, secretamente e sob a Capa da Invisibilidade, até o espaço em que estavam sendo separadas as criaturas, mas sentia que algo mais os aguardava. E estava certo.

Tratava-se de uma competição aérea de Hipogrifos a serem comandados pelos campeões, ainda que sob protestos vigorosos de Cornelius Fudge após o vexatório episódio que levaria à fuga de Buckbeak e Sirius Black no ano anterior. Não apenas isso, entretanto. Obstáculos foram cuidadosamente espalhados pelo caminho por parte dos Professores de Hogwarts para dificultar a missão dos estudantes.

“Após longa discussão entre a comissão do Ministério da Magia, chegamos à seguinte conclusão de ordem de partida:” – um dos organizadores enunciou-se aos três jovens, logo após atravessar aos tropeços a entrada da tenda dos campeões – “A senhorita Delacour começa.” – Harry suspirou; mas não apenas interiormente, o que atraiu brevemente a atenção para o Menino-Que-Sobreviveu dos demais competidores e do homem corpulento do Ministério, que logo deu continuidade à sua fala – “O senhor Symathon Ramon será o segundo, seguido pelo senhor Potter.”

Fleur, que através da líder de sua Escola, Madame Maxime, conhecia o teor da atividade a ser realizada, exibia visivelmente seu receio. Não possuía a menor ideia de como obter a confiança do Hipogrifo, muito menos como fazer para manter-se em cima de um.

Quando o representante do Ministério deixou a tenda, Fleur mordeu o lábio inferior e se manteve cabisbaixa por alguns segundos, permitindo que fios dourados cobrissem parcialmente sua face.

Ela não gostava de ser taxada de garotinha frágil e impotente. E, por Deus, não era frágil!

Quando seu nome foi anunciado sonoramente para os presentes, ela fez exatamente como lhe havia sido dito por Maxime.

“Curve-se, nume leve mesurra. Quando o ate fer retrribuíde, poderrá tocá-le.” – lembrou-se da fala da mulher, de típico sotaque francês.


De longe, aprontava-se o representante de Revontulet. Symathon, apesar de acanhado e sério por natureza, ganhara o apoio de uma boa parcela da torcida feminina local por conta de sua beleza exótica. Era alto e possuía uma expressão amena, e cativante por que não dizer. O rapaz aparentava confiança, mas coragem nunca foi a sua maior qualidade. Possuía apoio suficiente para elevá-lo e era um aluno gabaritado. Além disso, assim como o jovem Potter, jogava Quadribol, mas ainda havia espaço para o receio em sua mente.

Ainda não se sabe como a francesa Fleur Delacour completou o percurso sem um arranhão sequer, mas, verdade seja dita, muito tempo foi perdido por ela no caminho, especialmente quando precisava capturar sua chave alada; chave esta que abriria uma das três arcas posicionadas perto da arquibancada, cada uma com uma pista diferente para a segunda prova.

Parafraseando o Imperador Júlio César: a sorte, definitivamente, estava lançada.

Symathon, racional como era, já havia traçado mentalmente um plano que o faria capturar uma das duas chaves restantes, e consequentemente estar à frente de Delacour.

Aproximou-se a passos largos do Hipogrifo, talvez não permanecendo suficientemente perto. Impassível. Por dentro enervou-se, contudo, quando percebeu que a criatura demorara a replicar à sua reverência.

“Por que ele não se mexe?!” – pensava, inquieto. Foi quando, para sua surpresa, o Hipogrifo curvou-se a cavalgou lentamente até ele.

Passou a mão na lateral do corpo penoso e, de confiança renovada, escalou até posicionar-se em suas costas.

Da tenda Harry observava atentamente. Sabia como comportar-se diante do Hipogrifo, mas era o mais novo dentre os competidores. Sequer seu nome havia sido posto no Cálice de Fogo.

Não desejava a glória eterna, sequer desejava estar ali.


Mas não desistiria. Não ali. Não àquela altura do campeonato.

Já em “terra firme”, a francesa cobriu a boca com as mãos e o Gryffindor exibiu na face uma categórica expressão de dor quando viram chamas lançadas por um pequeno dragão, posicionado estrategicamente no meio do caminho, tocarem o braço do jovem finlandês, que, com muito esforço, conseguiu capturar uma das duas chaves aladas que pairavam sobre sua cabeça.

Seu plano estava frustrado!

Era o que o escandinavo pensava.

Apesar da queimadura, ainda conseguiu tempo inferior ao de Fleur Delacour, visto que era suficientemente seguro de si quando o assunto é voar.

Harry Potter foi o terceiro. Apoiar-se nas costas do Hipogrifo não foi uma missão complicada, mas os obstáculos definitivamente quase o derrubaram. Os dois participantes anteriores, como eram bruxos mais experientes, tinham um leque maior de feitiços na manga para facilitar seu trabalho.

O Gryffindor, mais do que capturar uma das chaves e abrir a arca restante, desejava sair dali vivo, o que já seria um grande feito para alguém que havia caído ali de paraquedas. E conseguiu.

O resultado foi anunciado a altos brados por Barty Crouch, representante maior do Ministério na Escola.

Symathon havia sido o mais rápido e, nem quando soube que ficara em primeiro lugar, transformou sua expressão; o máximo que esboçou foi um sorriso torto, de canto, que não durou mais do que um segundo.

Haviam contornado o maior obstáculo. Mais do que domar dragões e precisar capturar chaves aladas, eles conseguiram domar a si próprios para sagrarem-se vencedores. E nenhum desafio poderia ser maior do que esse.

Não sabiam o que lhes esperaria dali em diante. E isso fica para o próximo episódio, que talvez nunca seja revelado. Aliás, para quê mãos amadoras como as minhas revelarem algo que pode ficar a cargo de mentes férteis como as dos que estão a ler esta história?


 


Notas:
- Deus do Céu, socorro. Que bom que consegui finalizar. Às duras penas, já que aproveitei pouco do original e, graças à minha loirice, precisei reescrever tudo, mas consegui.
- Obrigada aos amigos lindos que vieram aqui me prestigiar e me apoiar, torcendo para que eu terminasse em tempo hábil. Então, essa história é para vocês (ainda que não chegue nem perto do nível de uma que vocês merecem) e para o Ton, que teve toda a paciência comigo <3
- Fireproof, do inglês, 'Prova de Fogo'.
- Revontulet, terceira Escola listada por mim para o Torneio, é em finlandês o nome do efeito de luzes conhecido por nós como Aurora Boreal, que na região mais setentrional (e fria) da Finlândia ocorre com maior frequência. É, eu amo a Finlândia, doisbeijos.



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