Marry Christmas



Cinco sicles no David.
Aposto quinze na Nicole.
Dá-lhe, Sillas!
         Aquela partida de snap explosivo já durava há algum tempo e um pequeno aglomerado de estudantes se formara em torno da mesa de ébano aos fundos do Salão Comunal sonserino. Cedwick se aproximou ao som das apostas dos colegas.
– Quem está ganhando?
– Eu.
– Legal. – ele sorriu para Nicole, cujos olhos cintilavam triunfantes por trás dos óculos finos – Quando o jogo terminar, que tal passar para a melhor parte do dia?
– Só estávamos esperando você. – respondeu Selene, levantando-se da mesa – Pronto?
– Mais que pronto!
– Também. – continuou Nicole.
– Claro! – exclamou Emília.
– Demorou! – Sillas.
– Idem. – David.
          O grupo (como fazia todo ano no natal) correu para as poltronas, ergueu as varinhas e
– Três...
– Dois...
– Um...
=
Accio presentes!
          Uma chuva de pacotes foi trazida desde o pinheiro enfeitado no canto do Salão Comunal e se arremessou contra eles, repousando espalhafatosamente no colo de cada um.
– Uma boneca?! – Gemeu Nicole, ao abrir um dos embrulhos.
– Seu avô ainda não sabe que você cresceu, né?
– Droga...
– Ah, vai, até que é bonitinha. – Selene riu.
– Toma, Mila. Fica pra sua coleção de trecos de porcelana.
– Brigada.
          Emilia sorriu, achando graça ao receber o brinquedo: tinha cabelos cor-de-ébano fortemente ondulados e olhos negros que lembravam bolinhas de gude, numa perfeita imitação da dona original; a boneca só não parecia ainda mais com Nicole pela falta dos óculos de hastes finas.
– Ô Ene, já mandou os presentes dos vermelhos? – Ced se referiu aos grifinórios – Ou vai entregar tudo no Salão?
– Já mandei. No Salão, só o do Elliot. Mas e aí, o que acharam? – Selene perguntou, ao ver que os garotos acabavam de desembrulhar os presentes que ela dera.
= Uau, caramba!
...
 
          A coruja negra piou, permanecendo empoleirada na pilha de pacotes sobre a mesa – todos eles agora vazios, abertos um a um por seus respectivos destinatários. E que trabalho fôra carregá-los desde o salão comunal até a mesa do café-da-manhã! Já haviam relido aquele texto umas cinco vezes.
Lembrancinhas para o natal ser mais dourado. Só espero ter acertado o tamanho, mas se algo não servir podem fazer ajustes na loja.
Ps pro Harry: eu achei chato dar presentes iguais a todo mundo, então tomei a liberdade de pôr um extra. Mas o vestido da Granger foi cortesia do Ced.
Abraços
Ene
– Como essa coruja nanica conseguiu carregar tudo isso... – o ruivo resmungou, com a cara enterrada no cereal do prato.
A ave fitou-o através dos grandes olhos amarelos, como se dissesse “vou bicá-lo até a morte”.
– Feitiço de levitação, provavelmente. – respondeu Hermione, com a expressão mais radiante da semana – Foi meio exagerado mandar presentes pra metade da turma, mas é bem legal da parte deles, não acha?
– ‘Meio exagerado’? Foi exibido, isso sim!
– Não reclama, Rony. Você gostou do seu.
– Quem disse?
– Se não gostou, por que está usando? – agora a pergunta foi de Harry.
Verdade, a manhã não estava tão fria, não existiria motivos para usar um agasalho se não houvesse gostado dele. E, deve-se admitir, Rony ficara muito bem vestindo aquele casaco laranja com detalhes em vermelho vivo, as letras RW que davam início a seu nome bordadas elegantemente nas costas da peça de roupa. Os demais também haviam ganhado casacos quase idênticos, variando apenas na cor e nas iniciais. O de Harry era vermelho escuro com detalhes em dourado, um HP destacando-se em letras finas atrás. O de Hermione era violeta com lilás, o de Gina rosa com amarelo, o de Lino verde claro com azul-marinho, o de Dino turquesa com branco, o Neville preto com azul-claro, o de Simas branco com vermelho, etc.
O “extra” referido no bilhete é que era diferente para cada um, uma série de embrulhos à parte que em sua maioria ainda não havia sido aberta. Hermione praticamente babava olhando o vestido de festa, sem conseguir acreditar que realmente lhe pertencia; o maior problema que enfrentara quanto ao Baile de Inverno era conseguir algo para usar, e aquela era a peça de roupa mais bonita que ela já vira.
– O seu também tem cartão, Mione?
– Tem uma dedicatória. – ela estendeu a tampa da caixa para que Harry visse o que estava escrito e leu – “Seu par tem sorte.”
– Ele te convidou pro Baile?
– Convidou, mas tive que recusar porque eu já tinha dito que sim ao...
– Que coisa, Hermione! Não querer ir com ele eu entendo, mas por que não admite que não tem um par?
– Porque eu tenho, Rony! Queira você acreditar ou não!
Ela levantou-se, irritada, e saiu levando o presente nas mãos.
Rony resmungou uma bobagem qualquer. Se não estivesse tão ocupado em invejar (muito mal) disfarçadamente as possibilidades financeiras de Cedwick e Selene, talvez até achasse interessante o livro de bolso “Poções: Práticas Por Pequenos Passos” que recebera.
– Coisa inútil... Por que tudo no título começa com ‘P’?
Ninguém respondeu. Harry estava distraído com seu pomo de ouro gigante de chocolate, comparando-lhe o tamanho com o da abóbora que havia ao lado.

– Jingle Bell, jingle bell, acabou o papel… – chegaram os gêmeos, cantando.
– Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal!
– O jornal tá caro, caro pra chuchu…
– Usa a toalha, e limpa o teu…
– ALLLÔOOOOU, tem crianças à mesa! – reclamou Gina.
– E por que estão vestidos assim?
– Parecem um bando de palhaços!
Cala a boca, Rony! – exclamou Fred (ou seria Jorge?) – Bastou abrir o pacote e isso se vestiu na gente! Tentamos tirar, mas não sai.
– E até que não é tão ruim, – continuou Jorge (ou talvez fosse Fred) – exceto que está um pouco apertado nas minhas partes baixas...
          Harry, enfim deixando o chocolate de lado, se segurou para não rir. Os gêmeos estavam usando um tipo de tutu de bailarina fluorescente (que brilhava e soltava estrelinhas cada vez que um deles se mexia) por cima dos pijamas listrados. Nas costas de cada tutu era possível ler, em letras cor-de-rosa berrante, os nomes “Frog Weasley” e “Jorge Weasel”
– Frog? – murmurou Gina, prendendo um risinho.
– Weasel? – Hermione, idem.
– Qual é?! – coro dos gêmeos – Deixem pra rir quando dissermos uma piada!
Vocês SÃO uma piada, Weasleys! E estão umas gracinhas!
          A exclamação veio de alguém na mesa da Sonserina, mas alunos de todas as mesas espremiam risadinhas.

          David sorriu satisfeito quando seu comentário, além de chamar mais atenção para os gêmeos, gerou risadas das demais Casas (incluindo a própria Grifinória). Sentou-se novamente, aproveitando os sucrilhos açucarados.
– Podia ter posto uma poção urticante nos tutus, né, Ene... queria ver aqueles dois dançando de tanto se coçar! 

– Como você é mau, Ced! – riu a bruxa de trança – Não, só saber que o feitiço colante não vai deixar que eles tirem aquilo pelas próximas 24 horas já me deixou feliz.
– Mas aquela roupa não favorece as formas deles, me sinto olhando pra dois chicletes ambulantes. – comentário de Emília, rindo baixinho.
– Ah, pelo menos dá fome! – comentário de Sillas, rindo sem se importar com o volume.
– Olha quem vem aí!
– Elliot! Passa aqui, cara! Encomendaaa! – David acenou espalhafatosamente para o corvinalino, que se aproximou da mesa seriamente constrangido.
          Elliot Ricefield era moreno, mas tinha cabelos meio aloirados e olhos azuis. Estudante do quarto ano, assim como a maioria dos amigos, por algum motivo indefinível se apegara mais aos sonserinos que aos colegas da própria Casa.
– Planos de vingança de novo? – ele sorriu de canto, fitando os ruivos do outro lado do salão.
– Nunca subestime a ira de uma donzela. – riu Nicole – Né, Selene?
– Ora, eu fui até gentil. Escrevi “não abra” na tampa da caixa. – riu também.
– Ei, e o meu presente? Já to me sentindo excluído! – Elliot brincou.
– Aqui. Azul e bronze, combina com você.
Thanks. – ele sorriu, vestindo o casaco – Ene, já tem par pro baile?
Ela meneou a cabeça negativamente.
– Tá brincando, já te pediram umas três vezes! – Emília fez uma careta indignada.
– Ela vai acabar tendo que ir com o Malfoy... Ai! – Ced levou um beliscão por baixo da mesa.
– Então, vamos?
– Olha, Elliot... eu gosto de você, mas...
– Ih, já conheço esse “mas”. Que pena...
– Desculpe.
– Tudo bem. Se mudar de idéia ainda estou disponível, o seu eterno step. – ele fez um gesto de “trocar pneu” e afastou-se, indo se sentar à mesa da Corvinal.
– Às vezes eu te odeio, sabe, Ene? – Emília ‘escorreu’ na mesa, deitando a cabeça na madeira e estendendo os braços para o doce de abóbora – Quatro convites e quatro ‘nãos’... Queria um Elliot pra mim também...
– Tá bom, Mila. Mas sabe que ele não é um brinquedo, né?
– Tarde demais...
          Nicole apontou para a extremidade da mesa. Ali, era possível ver Parkinson dar um gritinho histérico e abraçar Draco praticamente pulando em cima dele. Como Selene já havia recusado todas as vezes que a chamou para o baile, o loiro apelara para sua segunda opção. E, pelo visto, a segunda opção era Pansy.
– Acho que vou vomitar. – Cedwick esticou-se na mesma posição que Emília.
– Eh, o Draco é mesmo indigesto. – Nicole pegou uma torradinha e tratou de passar-lhe uma camada de geléia mais grossa que a própria torrada – E agora, vai com quem?
          Ele levantou levemente a face, acompanhando o olhar divertido de Nicole e sondando na mesa as opções disponíveis. Mary A. Cook e seu imenso nariz de papagaio falava com uma garota do terceiro ano, loira de olhos verdes e cheia de espinhas; as gêmeas Amaryllis e Clover Shargrath conversavam aos sussurros na ponta da mesa, a maquiagem gótica e os cabelos escorridos encobrindo-lhes parcialmente o rosto e dando a ambas uma aparência de assombração; Scarlet Beet continuava distraída coçando o dedão do pé; e Rosália Snowly, com seu visual impecável e cabelo louro super brilhante, debatia com as colegas próximas sobre a importância das cutículas.
– A Mila ainda está sem...
– Nini, Nicole lindinha, graça do meu viver! – ele interrompeu-a, segurando sua mão; pela surpresa, ela parou de balançar as pernas por baixo da mesa – Vai comigo, por favor!
– Isso é porque me acha bonita ou é só desespero mesmo?
– Os dois!
– Tá bem, tá bem. – ela riu – Ene, vou pegar o Ced emprestado, ok?
– Ok. – a outra riu também.
– Legal, – David ergueu-se, dobrando os braços pelas costas e ajeitando a coluna ­– o papo tava ótimo, gente, mas já vou indo. A natureza me chama, e não dá mais pra ignorar.
          O bruxo se afastou da mesa a passos largos, apressado. Talvez por um surto alérgico (mas mais provavelmente por puro divertimento) – Flipendo – o espirro soou como um encanto murmurado enquanto passava próximo à mesa da Grifinória e um Weasley (não soube se Fred ou Jorge) teve a face empurrada para o prato de papa por uma força invisível.
Selene!
– Hum?
          Ela virou-se ao ouvir o próprio nome, abandonando a distração da mesa. Não tinha visto Harry se aproximar.
– Erh... obrigado pelo presente…
– De nada. – sorriu.
– Hã... – seria só impressão, ou ele estava realmente nervoso – se importa se eu fizer uma pergunta?
– Claro que não.
– E... Eu queria convidar uma certa garota pro baile, mas sempre que chego perto dela fico sem jeito... Será que ela aceita?
Selene arqueou uma sobrancelha.
– Só vai saber se perguntar a ela.
– Eu tenho chance?
– Por que não teria?
– Valeu!
          Com os olhos verdes iluminados por um ânimo incandescente, Harry saiu correndo ante o olhar intrigado dos outros sonserinos.
– Que que ele vai fazer?
– Convidar a Cho, provavelmente.
– Achei que ele tivesse vindo convidar você.
– O Harry? Era bem difícil, – Selene riu – somos só amigos.
– E eu sou o rei de Sabá. – Sillas ironizou, debochado – Um brinde à realeza! – e esvaziou o copo de suco num só gole.

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