As três visões



Pode parecer estranho, mas sempre que as coisas finalmente começam a dar certo, alguma coisa tem que acontecer para que tudo volte a dar errado. Rita fora proibida de entrar em Hogwarts; com isso, Gustavo ficava sem trabalho. E, sem fotos publicadas, ele não recebia pagamento.


O fim de semana chegou e todos os alunos do terceiro ano e acima tiveram permissão de visitar o povoado de Hogsmeade. Era o dia marcado para Penny aparecer por lá também; sentindo uma sensação angustiante de frio na barriga, Gustavo foi ao Três Vassouras e ficou esperando pela sua chegada, conforme ela sugerira. Estava se sentindo nervoso como nunca estivera antes; comprou cerveja amanteigada e ficou batucando freneticamente os pés, observando o movimento dos estudantes que começavam a lotar o bar – exatamente o que ele precisava: uma plateia para assistir ao seu desempenho na arte da conquista. O que ele não esperava era ganhar a companhia de Rita Skeeter, que mal chegou e já o chamou para sair para conversarem em um lugar mais tranquilo.


Contrariado e sem alternativas, Gustavo teve que acompanhar Rita na saída do bar, enquanto ela falava em voz baixa sobre uma estratégia que havia bolado para conseguir a câmera de volta – o que o colocava numa situação realmente delicada; se dissesse a Rita que não seguiria o seu plano, ela certamente tentaria prejudicá-lo de qualquer maneira; seria bem capaz dela bisbilhotar a sua vida até descobrir o seu maior segredo e arruinaria tudo o que ele havia conquistado até ali.


Assim sendo, quando Penny chegou ao Três Vassouras, não encontrou Gustavo no bar. Esperou durante algum tempo e, quando pensou em se levantar para procurá-lo pelo povoado, foi surpreendida pela voz de seu irmão, que acabara de entrar e ficou bastante animado em vê-la.


- Penny, que bom encontrar você aqui! – Exclamou o garoto, sentando-se no lugar que ela havia reservado para Gustavo. – Eu sabia que você não ia resistir em vir falar comigo!


- Está certo Ben, você venceu – rendeu-se ela. – Não consigo ficar brava com você.


- Que bom que você veio, estou mesmo precisando da sua ajuda – prosseguiu ele. – É que eu descobri que vai haver um tal de Baile de Inverno na noite de Natal e agora eu tenho que convidar uma garota.


- Convide a Alicia! – Sugeriu Penny.


- Fala como se fosse uma coisa fácil – disse Ben com amargura. – Eu não consigo falar com ela; as palavras não saem, eu fico parecendo uma besta sem saber o que dizer! Sem contar que ela está sempre cercada de amigas; até ao banheiro elas vão todas juntas...


Penny teve que se segurar para não rir.


- Está bem – ela disse. – Eu ajudo você com ela se você me ajudar com uma coisinha...


- Legal, e o que é?


Endireitando-se na cadeira, a garota limpou a garganta, tomou fôlego e perguntou:


- Você, por algum acaso, sabe onde está a... Rita Skeeter?


- Sim, eu a vi subindo a ladeira em direção ao Cabeça de Javali com aquele fotógrafo dela.


- É justamente aí que eu quero chegar. O fotógrafo dela é o Gustavo...


- Não brinca; tipo assim, “o” Gustavo?


- Ele mesmo, o meu amigo – respondeu Penny. – Eu precisava muito falar com ele, então será que você poderia chamá-lo para vir até aqui?


- Está legal – disse Ben, levantando-se. – Eu vou.


- Só que você precisa tomar cuidado para que a Rita não perceba que eu estou aqui, senão ela vai querer vir falar comigo e não vai dar certo...


O garoto concordou em ir, embora os seus encontros com Rita estivessem ficando cada vez mais perigosos e exigindo que ele cada vez mais utilizasse sua capacidade de inventar histórias mirabolantes; ele ainda estava com a consciência pesada por conta do que fizera na primeira vez que conversou com a repórter.


Na ocasião, o próprio pai pedira para que o garoto distraísse a jornalista para que ele pudesse entrar no acampamento na Copa Mundial de Quadribol sem que fosse atormentado por ela. Ben, porém, como não tinha nada de importante para falar com Rita, aproximara-se dela e não conseguira pensar em nada no que dizer, exceto:


- Com licença? Rita Skeeter, repórter do Profeta Diário? É uma honra conhecê-la; sou Ben Clearwater, o meu pai me falou muito bem da senhorita.


A palavra “senhorita” havia soado a Rita como um verdadeiro e genuíno elogio. Com muito esforço, tentara demonstrar que estava perfeitamente acostumada com este tipo de tratamento.


- E o seu pai quem é? – Questionara ela. – Por acaso ele mandou você aqui para me dar algum recado?


- O meu pai é David Clearwater, o presidente do Gringotes – informara o garoto. – E sim, ele gostaria que a senhorita soubesse que ele apreciou muito a matéria em que o citou; o destaque que você deu a ele foi simplesmente... – e parou, cuidando para encontrar a palavra certa – surpreendente...


- Quer dizer que ele gostou da matéria?


- Muito. Ele é um grande admirador do seu trabalho.


- E onde ele está agora? Por que não veio me dizer isso pessoalmente?


- Ele... bom, é meio tímido, eu estou fazendo um favor para ele. Ele vai ficar muito satisfeito quando eu contar que conversei com a Senhorita Skeeter.


- Pode me chamar de Rita – respondera ela cortesmente. – Mas responda Ben: o seu pai está viúvo há tanto tempo; quem era aquela moça que estava com ele no dia em que conversamos?


O garoto fizera um pequeno esforço para vasculhar em sua mente e concluíra:


- Deve ser a minha irmã, a Penélope...


- E ela sempre está de mau humor daquele jeito?


- Não, claro que não; a minha irmã é a pessoa mais calorosa, educada e gente fina que eu conheço! Ela só estava daquele jeito por que... bom, ela não passou no teste admissional para o Gringotes, é isso. Ela tirou Excelente em todas as matérias, mas os duendes, eles, eles armaram para cima dela; foi isso o que aconteceu. Ficaram com medo de ela um dia vir a ser a sucessora do meu pai e assim garantir a administração dos bruxos no Gringotes. Pena que nada disso pode ser provado; sabe como são os duendes, são muito melindrosos...


- Mas que interessante – Rita analisara com atenção cada palavra proferida pelo garoto. – Por acaso temos uma vaga de recepcionista em aberto no Profeta Diário, a última se demitiu há pouco tempo, mas devo dizer que ela não era muito competente. Se a sua irmã quiser, posso falar com o editor para ela vir trabalhar conosco...


O garoto fora pego de surpresa; jamais pensara que alguém fosse oferecer um favor tão grande depois de ele ter lhe contado uma penca de mentiras deslavadas. E agora Rita devia pensar que o seu pai estivesse realmente interessado nela, enquanto Penny estava ali, aproveitando a folga em seu novo emprego para falar com um colega de trabalho. Por precaução, a garota resolveu ir junto com o irmão em direção ao Cabeça de Javali, e ficou esperando encostada à parede do lado de fora da estalagem, olhando para que ele não fizesse nenhuma besteira.


Sentados a uma mesa do bar, Rita não parava de tagarelar enquanto Gustavo olhava aflito da porta para o relógio, estudando uma maneira de se livrar da repórter. De repente, Ben se aproximou deles e os cumprimentou:


- Olá Rita, olá Bozo...


A coisa que Gustavo mais odiava na atualidade era quando Rita o chamava assim, mas, partindo de Ben, uma pessoa com quem esperava fazer amizade, esse nome lhe soou muito pior. Para completar, o garoto passou a conversar com Rita, ignorando Gustavo como se ele estivesse escondido sob uma Capa da Invisibilidade:


- Espero que você não esteja mais zangada comigo...


- Ora Ben, mas eu não estou zangada! – Rita disse, sorrindo carinhosamente. – Venha, sente-se; é sempre um prazer ver você!


- Olha que coincidência Rita, porque eu vim até aqui só para dizer a mesma coisa! – O garoto começou a empurrar Gustavo com os quadris da cadeira onde ele estava sentado, sem sequer olhar para ele.


- Eu jamais ficaria zangada com você Ben; você sabe que é como um filho para mim!


- Eu fico realmente emocionado. Gustavo será que você podia chegar um pouco mais para lá? – Ben começou a apontar com a cabeça a direção da porta.


Gustavo percebeu que havia alguma coisa estranha ao ouvi-lo dizer o seu nome corretamente desta vez. Ao olhar para a porta, percebeu que Penny estava ali o aguardando. Ele se levantou, agradeceu ao garoto discretamente dando-lhe tapinhas nas costas e foi caminhando ao encontro dela.


- Vamos sair daqui logo; não quero que a Rita me veja – disse Penny rapidamente.


Ela caminhou depressa até entrar no Três Vassouras; Gustavo a seguiu. Eles se sentaram a uma mesa próxima ao balcão.


- Desculpe pelo Ben – disse Penny. – Eu pedi para ele chamar você e ele quase sentou no seu colo...


- Acho que sou eu quem lhe devo desculpas por não estar aqui antes, mas você sabe como a Rita é...


- Sem problemas – respondeu Penny com um sorriso. – Então Gustavo – ela tomou fôlego –, tem uma coisa que eu realmente precisava falar para você. É que eu andei pensando e – ela deu um suspiro profundo. – Puxa como é difícil falar! Bom, eu acho que a gente devia ser só amigos...


Sentindo uma pancada, Gustavo abaixou os olhos e assentiu com a cabeça.


- Está bem. Você está certa, eu concordo...


- Eu não quero magoar você – disse Penny, emocionada. – Mas é que tem o meu pai; quando ele não concorda com alguma coisa não adianta insistir, e eu sei que ele não vai concordar.... Eu gosto de você, mas é que é difícil para mim, entende...


- Tudo bem, Penny – disse Gustavo com sinceridade. – Eu jamais poderia exigir de você uma coisa tão grande.... Não posso julgar você por isso; eu entendo você completamente...


Penny olhou para ele; lágrimas quiseram escorrer dos seus olhos. Como podia alguém ser tão perfeito?


Nem ela e nem Gustavo entenderam quando Ben se aproximou da mesa em que eles estavam, puxou uma cadeira e se sentou.


- Aqui está você, Ben – Penny enxugou os olhos rapidamente. – Este é o Gustavo.... Espere, vocês já se conhecem, não?


- Sim, eu fiz até uma música para ele – respondeu o garoto.


- Você fez o quê? – Encrespou-se a garota.


- Está tudo bem Penny, sem problema – Gustavo a tranquilizou. –Você me surpreendeu naquele dia, Ben; eu não sabia que você tocava violão. Seja bem-vindo; vou buscar umas bebidas para nós, o que acham?


- Ótima ideia – disse Ben. – Bem que a Penny falou que você era tão legal! Eu realmente sinto muito por ter feito você a Rita serem banidos de Hogwarts...


- Como é que é? – Disparou Penny.


- Não era sobre isso que vocês estavam falando? – Ben se encolheu na cadeira.


- A culpa não foi só sua – esclareceu Gustavo; Penny virou-se para ele, incrédula. – E nós já estamos tomando providências quanto a isso, não se preocupe.... Eu... – o rapaz se levantou, meio sem graça – já volto...


Mal ele saiu, Penny virou-se irritada para o irmão e disse:


- Depois eu vou querer saber direito dessa história, está bom? O que você quer aqui?


- Você ficou de me ajudar – respondeu Ben. – E então; no que pensou?


- É o seguinte – Penny se ajeitou na cadeira –, você vai lá, fala com a Alicia, enquanto eu fico olhando tudo aqui desta mesa. Estou mesmo querendo dar umas risadas...


- Posso conviver sem o seu sarcasmo – retrucou o garoto.


- Está bem, e o que você quer que eu faça?


- Eu sei lá! Me dá uma dica; você é uma garota, como gostaria de ser abordada?


Ele foi interrompido pela voz de um rapaz ofegante que acabara de chegar.


- Penny, eu preciso falar com você.


Ben arregalou os olhos, surpreso; ele e Penny se viraram e deram de cara com Percy Weasley.


- O que você está fazendo aqui? – Questionou Penny.


- Acabei de ter uma reunião com Dumbledore em Hogwarts, então resolvi vir aqui e acabei encontrando você.... As coisas estão voltando a dar certo para nós, Penny! Eu fui promovido a assistente pessoal do Sr. Crouch; ele teve que se afastar por um tempo, e de agora em diante eu vou representá-lo no Ministério e no Torneio Tribruxo! Não é o máximo? – Ele olhou para Penny com um semblante preocupado. – Então, será que você pode me dar mais uma chance? Para nós dois?


- Isso não faz diferença para mim! – Irritou-se Penny, batendo na mesa com força.


Gustavo, que acabara de chegar com três cervejas amanteigadas, sentou-se ao lado de Penny, colocou a mão em seu ombro e perguntou:


- Está tudo bem aqui?


Percy olhou para eles sem acreditar.


- Eu já entendi – disse ele. – Você não pode fazer isso comigo! Não depois de tudo o que eu fiz por você!


- Ele é só um colega de trabalho – explicou Penny, impaciente.


- Trabalho? – Questionou Percy. – Você está trabalhando? Onde? Por que não me contou?


- Por quê? Porque você nunca se interessou em perguntar o que estava acontecendo comigo! Tudo o que você tem feito é pensar em si mesmo e no seu cargo idiota no Ministério!


- Não Penny – retorquiu Percy – Eu só queria estar à sua altura; você sabe disso! Você sabe que a minha família não tem dinheiro; eu só queria ser digno de você!


- Você só queria impressionar o meu pai, foi isso o que você disse o tempo todo – sentenciou Penny. – Se acha que sou tão superficial assim, prefiro que vá embora. A gente não tem mais nada para conversar.


O garoto abaixou os olhos, arrasado. Depois, tornou a levantá-los e tomou coragem para dizer:


- Eu ainda vou ser ministro da magia, Penny. E você vai se arrepender disto que está fazendo comigo.


Ele deu meia-volta e foi embora; Gustavo ofereceu a Penny um pouco de cerveja amanteigada.


- Você está bem, Penny? – Perguntou ele. – Quem era ele?


- Um idiota – respondeu a garota, inconformada. – E ainda faz eu me sentir culpada, o babaca...


Ela tomou um grande gole da bebida. Ben olhou para a cena e se levantou, inconformado.


- Mulheres – pestanejou ele.


- Espera aí Ben, aonde você vai? – Penny o puxou de volta.


- Vou me juntar ao Percy ora, já vi que você não vai me ajudar...


- Não vá embora; espere – disse Penny. – Você está certo, eu prometi que ajudaria.


- Não vai precisar – respondeu o garoto. – Eu decidi que não vou ao baile; não tenho o traje a rigor.


Penny abriu um sorriso.


- Pois pode começar a comemorar Ben, porque foi exatamente isso o que eu vim fazer aqui hoje!


Ela mostrou a mala que havia trazido; o garoto a abriu e olhou incrédulo para o traje a rigor.


- Penny – ele disse, examinando a roupa –, você sabe qual a vantagem de ter você como irmã?


- Não, qual é?


- Eu esperava que me dissesse, porque eu não sei! – Ele examinou os sapatos. – E olha só quanta inteligência, você trouxe os sapatos do papai! Está vendo, mais um motivo para eu não ir ao baile.


A garota sentiu uma sensação gélida percorrer a sua barriga de repente; acabara de se lembrar da coincidência com a predição da vidente no Beco Diagonal e ficou sem reação.


- Está bem, eu levo isso de volta – disse ela, voltando a si. – Mas isso não é motivo para não ir ao baile; se você não consegue convidar a garota que quer, tente convidar outra com quem você tenha mais contato, entende? Tenho certeza de que se você convidasse a Mari, ela aceitaria.


- Eu não posso convidar a Mari. O Edu vai convidá-la.


Penny olhou ao redor; a única garota que, se não se levasse em conta a companhia de Hagrid e do Professor Moody, estava desacompanhada, tinha acabado de se levantar de uma mesa ao fundo do salão se dirigia até o balcão para buscar uma bebida.


- E que tal a Hermione Granger? – Penny sugeriu. – Ela é bem inteligente, e é bonita.


- Ela vive andando com o Potter para todo lado, esqueceu? – Justificou-se Ben. – E ela ainda está brava comigo por causa dos... distintivos.


- Você está falando daqueles distintivos Apoie Cedrico Diggory? – Perguntou Gustavo.


- O que foi que você aprontou desta vez? – Penny o repreendeu.


- Eu não aprontei nada, está legal? Ela que me fez comprar uns distintivos de uma tal fale que está rolando na Grifinória, daí eu revendi todos para o Draco por três sicles cada um e o pessoal da Sonserina enfeitiçou todos com aquela mensagem de Potter fede. Agora ela não quer mais falar comigo.


Penny passou a mão pela cabeça, inconformada.


- Mas você não toma jeito mesmo! Pois bem; está aí um ótimo motivo para você se desculpar. E é melhor se apressar, ela está chegando!


O garoto se levantou contrariado. Como a mesa deles ficava próxima ao balcão, ele precisou dar apenas dois passos para se aproximar de Hermione. Chamou a sua atenção, mas tudo o que ela fez foi lançar um gélido olhar de profundo desprezo; intimidado, Ben deu um passo para trás e esbarrou sem querer com o braço na alavanca do garrafão de bebidas, e a máquina começou a jorrar abóbora espumante com toda força, enchendo de espuma crescente todos os lugares que a bebida atingia.


Quem estava próximo do balcão teve que se levantar para não ser atingido; o próprio Ben teve que afastar uma bola enorme de espuma do rosto e, quando olhou para Hermione, viu que ela não estava em melhor situação que ele, e, para piorar, estava furiosa.


Gustavo também não foi poupado; ele olhou para Penny, havia espuma em seus cabelos e ela estava paralisada. O rapaz então empunhou depressa a varinha, fez um movimento circular e disse: – Tergeo!


O feitiço aspirou todo o líquido e a espuma, deixando tudo limpo e seco em um segundo; Gustavo guardou a varinha no bolso e Ben voltou para a mesa, assustado. Ele olhou sério para Penny e disse:


- Mais alguma ideia brilhante?


O esforço da garota para não rir foi inútil; ela só parou de rir quando reparou em uma bruxa de aspecto estranho que vinha andando na direção deles.


- Espera aí; eu conheço aquela senhora! – Ela apontou com o dedo trêmulo. – Ela é uma vidente, fez três predições para mim outro dia no Beco Diagonal!


- Maravilha – disse Ben. – Será que ela pode me ajudar no dever de Adivinhação? Estou atolado de deveres de casa e aquela morcega velha ainda quer que eu faça predições para os próximos dois meses...


- Para com isso Ben, é sério!


Porém a bruxa já havia se aproximado deles, e dirigiu-se a Ben com as mãos estendidas como se quisesse tocá-lo; havia uma expressão de espanto em seu rosto, como se estivesse vendo uma coisa extremamente assustadora, então apontou o dedo e disse:


- Você! Você vai se encontrar com ela, sim! Antes que complete a maioridade, encontrará a mãe que nunca conheceu! A busca pelo desconhecido pode ser fatal se o intento não for verdadeiro; muito cuidado, ou o menino que já nasceu amaldiçoado terá um ato de coragem aniquilado pelo ataque de um lobisomem...


- NÃO!!! – Penny levou a mão à boca; seus olhos se encheram de lágrimas, ela deu meia-volta e correu, correu pelo vilarejo afora e desapareceu.


- Maluca – concluiu Ben balançando a cabeça, mas procurar a vidente, viu ela não estava em lugar algum.


 


Preocupado com o sumiço repentino de Penny e o destino que ela levara ao sair do Três Vassouras, Gustavo resolveu procurá-la pelo povoado, enquanto Ben voltou para o castelo para guardar o seu traje a rigor. O rapaz a encontrou encostada à cerca que rodeava a Casa dos Gritos, numa ladeira que ficava um pouco mais alta e afastada do resto do povoado.


Fazia um tempo firme, de brisa suave. Penny estava cabisbaixa e com os braços cruzados sobre a cerca; viu que Gustavo chegou, mas não quis olhar para ele. O rapaz encostou-se ao seu lado tentando fitá-la e disse:


- Eu sinto muito. Eu juro que farei tudo o que estiver ao meu alcance para jamais permitir que alguma coisa aconteça ao seu irmão.... Nem que para isso eu tenha que partir para sempre...


Penny tentou dizer alguma coisa, mas as lágrimas foram mais rápidas do que as palavras.


- Não é culpa sua.... Você não tem culpa de nada do que aconteceu com você. Eu só não queria que uma coisa dessas acontecesse com o Ben por minha causa, porque eu sei que às vezes a gente se desentende, mas ele é o meu único irmão, e eu o amo tanto...


- Eu entendo você, Penny – disse Gustavo. – Eu me lembro de quando levei a mordida; a minha família ficou arrasada. O meu pai tentou me salvar, e acabou morto.... Não quero que ninguém passe pelo que eu passei.


Penny olhou para o rapaz com uma expressão que mesclava emoção e incredulidade.


- Eu nem sei o que dizer Gustavo, eu, eu realmente sinto muito...


- Não quero que tenha pena de mim. Você tem razão; eu devo ficar sozinho. Eu só quero mesmo que saiba o quanto você é importante para mim; sei que o meu segredo estará bem guardado com você.


Ele abaixou a cabeça e saiu. Uma grande lágrima morna escorreu pelo rosto de Penny até o seu queixo; aquela podia ser a última vez que veria o rapaz na vida. Ela sabia muito bem que ele seria mesmo capaz de partir para sempre; ele seria capaz de fazer qualquer sacrifício por ela, mesmo que tivesse que deixar para trás tudo o que já havia conquistado.


- Gustavo, espere! – Ela chamou.


O rapaz parou e tornou a se virar. Penny se aproximou dele, sentindo o coração bater com tanta força que quase podia tocá-lo.


- Não vá embora; eu quero ficar com você!


Atônito, Gustavo deu um passo na direção dela.


- Eu não tenho medo – prosseguiu Penny, antes que o rapaz pudesse falar. – Eu confio em você, Gustavo; não tenho medo do que aquela bruxa disse e nem me importo com o que o meu pai vai dizer.... Eu só não posso deixar você sozinho porque eu realmente me importo com você...


Ela inspirou profundamente, olhou nos olhos dele e disse baixinho:


- Eu gosto mesmo de você, Gustavo.


O rapaz não respondeu; apenas aproximou-se mais dela, pôs a mão em seu rosto e deslizou os dedos por trás da sua orelha até a sua nuca; então seus olhos se fecharam, e Gustavo lentamente buscou os lábios de Penny como se fossem uma fonte de água limpa, e ele, um viajante sedento no deserto.

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