A entrevista inusitada



A perspectiva de conversar cara a cara com Penny foi o que sustentou Gustavo nos quinze dias que se seguiram; a possibilidade de assumir um relacionamento sério com uma garota pela primeira vez na vida – mesmo que essa garota fosse justamente a filha do presidente do Gringotes – lhe causava um nervosismo que ele nunca havia experimentado antes.


Fora isso, o seu trabalho com Rita Skeeter estava ficando cada vez mais desagradável; como se não bastasse ter que servir como um faz-tudo para ela, que não conseguia tratá-lo como um colega de trabalho e sim como um escravo, agora tinha que ver as suas fotos serem publicadas em meio a reportagens distorcidas e tendenciosamente fofoqueiras de um jeito que lhe dava vergonha.


Para completar, começaram a aparecer fotos no Profeta Diário relacionadas ao torneio que ele tinha certeza de que não havia tirado. Para evitar que houvesse alguém mexendo em seu material de trabalho durante a sua ausência, Gustavo resolveu ir a Hogwarts naquela semana para buscar a câmera fotográfica que, a pedido de Rita, ficara guardada no castelo no dia da sessão de fotos com os campeões. Foi aí que pode comprovar o quanto Harry fora prejudicado com a entrevista: vários alunos, a maioria deles da Sonserina, usavam um distintivo escrito “Apoie CEDRICO DIGGORY, o VERDADEIRO campeão de Hogwarts, e o citavam caçoando por onde ele passava.


Tomado pela culpa, Gustavo não se animou em passar pelo meio daqueles alunos. Em vez disso, preferiu entrar no corredor ao lado e ficar esperando que eles terminassem a troca das aulas, acomodando-se perto do vão embaixo da escada, onde havia sido deixado um pequeno caldeirão cheio de um líquido verde-escuro. O único problema foi que dois alunos começaram a descer a escada, dirigindo-se justamente em sua direção. Um deles, um garoto de olhos esverdeados e cabelos negros milimetricamente em desalinho, falava com o colega:


- Acho que essa hora o Baruffio já deve estar pronto; se funcionar será um sucesso, podemos vendê-lo e...


- Hã, Edu – interrompeu o outro garoto –, precisava acender o fogo para o elixir ficar pronto?


- Mas é óbvio que sim! – Irritou-se o primeiro. – Não me diga que você se esqueceu de lançar o feitiço!


- Claro que não; eu não sou um mané – respondeu o outro com um sorriso sem graça, então apontou a varinha para a base apagada do caldeirão e ordenou: – Incêndio!


Uma grande chama se acendeu, mas tão grande que ultrapassou a altura do caldeirão em mais de um metro e os garotos deram um passo para trás, assustados; o garoto de cabelos negros tropeçou e caiu sentado no chão.


Antes que a cena pudesse chamar atenção dos alunos da Sonserina, Gustavo apontou a varinha para as chamas e ordenou: – Reducto! –, fazendo o fogo se reduzir para um tamanho perfeitamente aceitável.


- Está vendo, Ben? – O garoto chamado Edu se levantou reclamando. – Eu lhe dei uma tarefa! E você fracassou miseravelmente, de novo! Será que você não consegue fazer nada sem causar uma catástrofe?


Sem dar atenção ao colega, o garoto olhou atônito para Gustavo para agradecer. Tinha os olhos muito azuis, diferente dos olhos castanhos de Penny, mas a cor do cabelo e os traços do rosto o denunciavam.


- Você é o Ben Clearwater? – Gustavo perguntou intrigado, guardando a varinha.


O garoto o olhou, sem entender.


- Sou eu sim, por quê?


O rapaz ficou sem reação; já tinha começado, agora não tinha para onde fugir. Tirou do bolso um rolo de pergaminho – que era a carta que Ben tinha escrito para Penny e que ela, por engano, colocara dentro do saco de moedas que lhe deu no dia em que se conheceram – e o entregou a ele.


- Veja o que eu tenho aqui.


O garoto pegou o pergaminho, abriu-o e começou a ler. Edu estava atrás dele, e tentava ler a carta por cima do ombro do colega.


- Onde você conseguiu isso? – Questionou Ben compassadamente, olhando para Gustavo. – Essa letra é minha! Eu escrevi isso! Então você... conhece essa música?


Gustavo estava prestes a dizer que sim, esperando que ele fosse dizer: “você conhece a minha irmã? ”, mas teve que mudar a resposta na última hora.


- Não, eu conheço a Penny. Ela não é sua irmã? Ela me falou de você. É um... prazer te conhecer – ele disse, tentando parecer o mais natural possível.


- Está legal, isso foi esquisito – retrucou Ben. – Quem é você?


- Gustavo – ele disse embaraçado –, eu sou...


- GUSTAVO? – O garoto arregalou os olhos. – Nome legal – desconversou em seguida.


Nesta hora, Edu, que tinha tomado a carta das mãos do colega, apontou para o pergaminho, chamando a atenção de Ben.


- Eu conheço essa música; não é aquela assim? – Ele começou a cantarolar o trecho de uma música, mas, logo que Ben ouviu, balançou a cabeça negativamente.


- Não, não é essa...


- Assim fica difícil ajudar você – concluiu Edu, devolvendo o pergaminho.


Um grupo de garotas que vinha passando no corredor se aproximou, querendo saber do que se tratava. Uma delas tomou a carta da mão de Edu e começou a lê-la em voz alta; as demais caíram na gargalhada, chamando a atenção de outro grupo de estudantes que passava pelo local. Em questão de segundos, vários alunos se aglomeraram curiosos, passando a carta de mão em mão.


- Não! – Desesperou-se Ben, levando as duas mãos à cabeça.


- Accio! – Ordenou Gustavo depressa; o pergaminho voou para as suas mãos e ele o guardou no bolso.


- Vamos sair daqui rápido! – Decretou Ben, apressado.


Eles se viraram em direção ao corredor central, que agora estava livre; Gustavo entrou na sala onde estava guardada a câmera, e foi seguido por Ben e Edu, que fechou a porta ao passar.


Não houve tempo para Gustavo se desculpar; assim que entraram na sala, Rita Skeeter apareceu do nada, adiantando-se para abraçar Ben como se o conhecesse de longa data.


- Rita, você por aqui, que... coisa – disse o garoto com um sorriso visivelmente forçado.


- Ele sempre rejeita os meus abraços – derreteu-se a repórter. – Pensei que você fosse se candidatar para ser o campeão de Hogwarts!


- Eu não posso – explicou Ben. – Ainda não fiz dezessete...


Primeiro teria que fazer dezesseis, pensou Gustavo, ainda sem entender como Rita fizera para aparecer numa sala dentro do castelo de Hogwarts.


- Você é mesmo uma graça! – Rita exclamou com um sorriso. – Sabe quem eu encontrei outro dia lá na redação? A Penélope! Ela comentou alguma coisa com você?


- Como se eu prestasse atenção ao que ela fala – respondeu o garoto em tom de deboche. – Então Rita, eu preciso ir agora; não quero me atrasar para a aula de Poções...


- Sim, claro – disse Rita. – Não quero atrapalhar. Apenas me responda se o seu pai comentou mais alguma coisa sobre mim depois daquele dia?


O garoto pareceu embaraçado e confuso.


- Então – começou ele –, o que acontece é que no dia que eu falei sobre o meu pai – e Rita se inclinou, mostrando-se interessada. – Bom, eu não queria decepcionar você, mas é que... – o garoto tomou fôlego. – O problema é que se eu falo a verdade, estou encrencado; se eu minto, estou encrencado. Acho que a gente devia parar de falar um com o outro.


A repórter deu uma gargalhada que revelou três dentes de ouro. Ben deu a volta por trás dela, atentando-se a uma pena que corria por um pergaminho para frente e para trás, como se estivesse patinando. Ele ainda conseguiu ler a frase:


Era possível sentir a emoção nos olhos espantosamente azuis de Benjamin Clearwater, um garoto encantador cujo pai...


- O que é isso? – Questionou o garoto.


- É a minha pena de repetição-rápida – explicou Rita. – Não dê atenção a ela, eu uso a pena só para poder conversar livremente com os entrevistados.


Duas garotas da Corvinal entraram de repente na sala procurando pelos garotos. Uma delas estava bem animada e sorridente, mas a outra parecia desdenhosa e mal-humorada.


- Ben, aqui está você – disse a primeira garota, que tinha cabelos louro-vermelhados e crespos. – Eu queria mostrar para a Alexia aquela carta que a Cho me mostrou...


- Ô menina sem noção, eu não tenho tempo para isso não – Ben respondeu irritado. – Estamos atrasados para a aula de Poções!


- E o que vocês estão fazendo aqui? – Questionou a garota mal-humorada, reparando na presença de Rita e Gustavo com a sua câmera.


- Nada – respondeu Edu, impaciente. – Bom, se nos dão licença...


- Está certo – respondeu Rita. – O prof. Snape não vai gostar nada de ver os alunos chegarem atrasados na sua aula. Que tal se você passasse por aqui depois da aula para a gente conversar mais um pouco, Ben?


- Depois da aula é difícil, Rita – disse Ben, claramente procurando uma desculpa –, porque eu tenho que...


- Ensaiar! – Intrometeu-se Edu. – É verdade, eu e o Ben tocamos numa banda de rock.


- Como é que é? – Indagou Ben, levantando uma sobrancelha; as duas garotas também olharam para Edu, sem entender.


- Uma banda adolescente? – Rita disse empolgada. – Ora, que coisa mais interessante!


- E nós também fazemos parte da banda – complementou a garota sorridente.


- NÃO! – Os dois garotos gritaram ao mesmo tempo.


- E por que não? – Indagou Alexia, a garota mal-humorada. – Por que a Mari não pode fazer parte da sua banda fictícia?


- É que “Fictícia” é o nome da banda – Ben explicou depressa para Rita, sorrindo sem graça antes de fazer uma careta para a colega.


- Tecnicamente – disse Edu com ar de importância –, se a banda é fictícia é porque ela ainda não existe oficialmente, por isso não podem participar; essa é a lógica. Você bem que podia raciocinar de vez em quando.


- E você bem que podia ter uma cabeça do tamanho normal, mas não tem – retrucou a garota chamada Alexia.


Edu olhou para Ben em busca de ajuda, mas o garoto apenas encolheu os ombros e confirmou:


- Não tem...


Rita Skeeter soltou mais uma gargalhada aguda e escancarada; Gustavo reparou que a pena de repetição-rápida continuava a patinar sobre o pergaminho.


- Ora, mas que graça – disse a repórter, recuperando o fôlego. – E quais são as músicas que vocês tocam?


- Não são músicas conhecidas – Edu apressou-se a responder. – A gente só toca as nossas próprias composições.


- Que beleza – disse Rita, sem muita convicção. – Realmente é uma beleza. E onde vocês guardam as músicas que escrevem? Vocês podem nos mostrar?


- Aqui – respondeu Ben, apontando para a própria cabeça. – Onde elas ficam guardadas em segurança.


- E quantas já conseguiram decorar?


- Quantas o quê? – Perguntou Ben, que tivera a atenção desviada por outro garoto da Corvinal que acabara de entrar.


- Oi pessoal, achei vocês – disse ele. – O que é que está pegando aqui?


Todos os adolescentes que estavam na sala passaram a mão pela cabeça e murmuraram, se lamentando.


- Kevin, o que está fazendo aqui, criatura? – Perguntou Edu.


- Bom, já que temos uma plateia – disse Rita –, que tal se vocês fizessem uma demonstração das suas músicas para nós?


- Então – disse Edu, visivelmente embaraçado –, na verdade, estamos sem os nossos instrumentos agora, então acho que vai ter que ficar para a próxima...


- Eu posso transfigurar uma vassoura – disse Rita com eficiência; ela era especialista em delatar mentiras e constranger pessoas. – Bozo, vá até o armário e nos traga uma vassoura.


Sem alternativas, Gustavo foi até o armário que ficava do lado de fora da sala e trouxe uma vassoura para Rita, que a transfigurou num violão e o entregou a Edu.


- Que maneiro, eu também quero um! – Animou-se Kevin.


Edu, agora muito confuso, coçou a cabeça olhou apreensivo para os demais. Sem cerimônia, Ben tomou o violão das mãos do colega, sentou-se em uma cadeira e ajeitou o instrumento sobre o colo.


- O que você quer que eu toque Rita? – Perguntou ele.


- Toque alguma composição sua, Ben. Ou você podia criar uma música, para vermos como funciona?


- OK, e você quer uma música sobre o quê? – Ele disse com naturalidade.


- Bozo registre isso! – Ordenou Rita, empolgada. – Quero guardar uma foto de recordação.


Sem perder tempo, o garoto começou a dedilhar o instrumento; todos ficaram atentos aos acordes do violão, até que Gustavo disparou um flash com a câmera e Ben resolveu inventar uma letra: “Bozo registra todos os momentos, para que a Rita tenha uma recordação”...


Sem reação, Gustavo balançou a cabeça e a sala explodiu em gargalhadas; todos riram, mas ninguém riu mais que Mari; ela riu tanto que ficou com os olhos marejados e o rosto dolorido, abaixou-se até o chão apertando a barriga e só se levantou depois que o garoto terminou a música: “Ele é o Bozo, o cara da câmera”.


- Muito bom! – Rita aplaudiu empolgada, forçando todos a fazer silêncio. – Realmente muito bom! Dumbledore devia convidá-los para tocar no Baile de Inverno!


- Baile do quê? – Disseram os alunos, quase todos ao mesmo tempo.


- O Baile de Inverno que vai acontecer na noite do Natal – explicou Rita. – É quando os rapazes convidam os seus pares para dançar e todos usam trajes a rigor; é uma tradição do Torneio Tribruxo!


- Era o que me faltava – disse Ben, incrédulo.


De repente, a porta da sala se escancarou. Todos olharam à volta para ver quem chegara, e deram com Alvo Dumbledore observando-os com uma cara nada amigável.


- Posso saber o que está acontecendo aqui? – Disse ele, com uma voz grave.


- Dumbledore! Que surpresa! – Disse Rita, parecendo encantada ao vê-lo. – Eu estava aqui dando uma palavrinha com os garotos, para mostrar como as novidades que vem acontecendo em Hogwarts afetaram a vida dos estudantes...


- Estes alunos deveriam estar neste momento na aula de Poções; exceto você, Kevin. Você deveria estar na aula de Transformação.


Cada um dos estudantes abaixou a cabeça; Dumbledore prosseguiu o sermão.


- Francamente Rita, primeiro a reportagem distorcida sobre Harry, e agora tirando alunos da aula para fazer entrevistas! Parece-me que não tenho alternativa senão proibi-la de entrar nas propriedades do castelo de Hogwarts de agora em diante. Isso fica comigo – disse, e apanhou o pergaminho, escrito frente e verso pela pena. – E a câmera ficará apreendida até a primeira tarefa. E vocês cinco – o diretor, dirigiu-se aos alunos –, quero que estejam em minha sala às sete da noite no sábado dia 28 de novembro para cumprirem a detenção. E são cinquenta pontos a menos para a Corvinal.


Os alunos se retiraram cabisbaixos; a não ser que Gustavo estivesse muito enganado sobre Ben, poderia apostar que ele iria direto dali escrever uma carta para a sua irmã.

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