O traje esquecido



Se Penny já tinha um carinho especial por Gustavo desde a primeira vez que se falaram, sua admiração por ele aumentou muito depois daquela revelação. Embora estivesse realmente atordoada com a notícia, só de imaginar o quanto ele se esforçara para lhe contar o seu maior segredo sem exigir nada em troca já era suficiente para que os seus sentimentos por ele se tornassem mais fortes do que nunca; afinal de contas, ele só tinha feito isso para que ela não se magoasse, porque já tinha percebido o quanto ela estava envolvida.


Penny não tinha como não se comover; ela mesma foi encarregada de providenciar uma hospedagem para Gustavo e Rita nos arredores de Hogsmeade, e de despachar para eles uma carta informando o dia e horário da partida do Expresso de Hogwarts, que seria justamente na sexta-feira de lua cheia...


Mesmo acreditando que Gustavo pudesse fazer alguma coisa para contornar essa situação, ela não se admirou quando o exemplar do Profeta Diário de sábado foi distribuído sem qualquer foto na matéria sobre a chegada das delegações de Beauxbatons e Durmstrang. No domingo de manhã, Penny recebeu uma coruja de Hogsmeade, e ficou emocionada ao ver uma carta escrita pelo próprio Gustavo:


Penny,


Cheguei a Hogwarts na sexta, mas infelizmente não pude acompanhar a chegada das delegações; digamos que não tenha sido uma das minhas melhores noites. Mas acho que não vai haver problemas para o jornal; o Cálice de Fogo acabou sorteando um campeão a mais para Hogwarts e agora a Rita não fala sobre outra coisa. Ela está muito animada com o que pode acontecer; não vou entrar em detalhes pois sei que o Ben sempre mantém você informada sobre tudo. A propósito, encontrei a minha irmã aqui; ela me contou que foi selecionada para a Lufa-lufa.


Desculpe por escrever assim, mas eu tenho sentido falta das nossas conversas. Espero não ter lhe assustado da última vez que conversamos. Se fosse possível, eu gostaria de encontrar você em breve.


Com carinho, Gustavo


Ela terminou de ler a carta e a apertou em seu peito, sentindo uma vontade enorme de abraçar Gustavo naquele mesmo momento. Por que ele tinha que ser um lobisomem, por quê? A vontade dela era estar com ele ali, para compensá-lo de alguma forma... 


Penny teve que guardar a carta rapidamente ao ouvir a voz de seu pai; ao contrário dela, o Sr. Clearwater parecia nervoso e apressado.


- Era só o que me faltava! Esse moleque não toma jeito mesmo!


- Algum problema, pai? – Perguntou Penny dirigindo-se para onde o seu pai estava, o quarto de Ben.


- Acabei de descobrir que o seu irmão se esqueceu de levar o traje a rigor que eu comprei para ele – respondeu o Sr. Clearwater, segurando um conjunto de terno e gravata cinza e uma camisa cor-de-rosa que havia tirado do guarda-roupa. – O traje faz parte do Torneio, estava na lista de materiais! Agora vou ter que dar um jeito de levar isso até ele; será que o correio-coruja dá conta?


- Eu posso fazer isso, pai – disse Penny; uma ideia acabara de surgir em sua mente. – Eu estava mesmo precisando falar com o Ben; posso levar para ele próximo fim de semana em Hogsmeade, agora em novembro.


- Ótima ideia filha; faça isso. Não se esqueça de levar os sapatos também.


- Pode deixar comigo, pai – respondeu a garota, e voltou para o seu quarto, sorridente.


Realizada por poder se encontrar novamente com Gustavo; ela apanhou uma pena no tinteiro e um pergaminho e começou a escrever:


Gustavo,


Fiquei surpresa ao receber uma carta sua, é muita gentileza da sua parte me manter informada do que está acontecendo em Hogwarts. O Ben nunca mais me escreveu, ele deve estar atolado de deveres por conta da aproximação dos N.O. M’s. Mas não se preocupe, porque ele nunca manda os detalhes direito.


Eu também estou sentindo a sua falta, mas quanto a isso também não se preocupe; consegui arrumar uma desculpa para ir a Hogsmeade no dia 21 de novembro, que é quando os alunos terão permissão para visitar o povoado. Que tal a gente se encontrar no Três Vassouras?


Espero que você esteja OK, a gente se encontra aí.


Penny.


Ela despachou a correspondência e se deitou na cama, pensativa; era difícil imaginar que Gustavo fosse um monstro ou coisa parecida. Nem de longe. Ele não era perigoso e nem nada; muito pelo contrário, era ele quem a fazia se sentir feliz. Contemplando o teto do quarto, Penny subitamente descobriu que não se importava com o fato dele ser um lobisomem; para ela, a coisa que ela mais queria era estar com a pessoa que lhe fazia bem.


 


As edições do Profeta Diário dos dias que se seguiram confirmaram aquilo que Gustavo havia afirmado em sua carta: o Cálice de Fogo tinha escolhido, efetivamente, dois campeões para Hogwarts. Entretanto, um deles era Harry Potter e, como Penny bem sabia, ele não tinha idade suficiente para concorrer.


Apesar disso, ao que tudo indicava, o garoto tinha conseguido novamente driblar as regras e o deixaram participar mesmo assim. Rita Skeeter não ficou para trás; tanto que o seu artigo para o Profeta Diário não foi tanto uma notícia sobre o torneio, mas uma versão extremamente pitoresca da vida de Harry. Quase toda a primeira página da edição de quarta-feira fora ocupada por uma foto dele; o artigo (que continuava nas páginas dois, seis e sete) só falava nele, os nomes dos campeões de Beauxbatons e Durmstrang (errados) tinham sido espremidos na última linha do artigo e o outro campeão de Hogwarts sequer fora mencionado.


- Como foi que conseguiram permitir que ele competisse? – Penny indagou ao ler a matéria em casa, na hora do jantar. – Pensei que só os alunos maiores de idade pudessem participar.


- Isso era o que se esperava – concordou o Sr. Clearwater. – Mas as regras diziam que o Cálice de Fogo deveria escolher o nome de quem ele julgasse mais digno de representar suas escolas; resta saber como o garoto fez para conseguir enganar um objeto mágico tão poderoso para aceitar a inscrição dele.


- Para mim essa história está muito mal contada – retorquiu Penny. – Deveria haver apenas um campeão para cada escola; não interessa se um Cálice maluco sorteou o nome de um aluno que claramente sabotou as regras. Ele deveria ser punido, isso sim. Ou será que resolveram puni-lo o fazendo participar do torneio? Porque pelo que eu entendi o negócio não é tão fácil assim, tem a questão da taxa de mortalidade e tudo o mais; ou será que só eu fiquei preocupada quando o ministro falou sobre os alunos serem expostos a um perigo mortal?


- Isso foi em torneios anteriores – disse o Sr. Clearwater. – Por conta das mortes, o torneio ficou suspenso por quase um século; as provas exigiam que os campeões enfrentassem dementadores, lobisomens, essas coisas. Espero que sejam mais prudentes desta vez.


Penny sentiu um frio na barriga; acabara de se deparar com o seu velho dilema: seu pai. Ela sabia muito bem que ele jamais iria permitir que ela namorasse um lobisomem.


Sem saber o que fazer, ela passou as semanas que se seguiram convivendo com um conflito interno em sua mente, vendo-se obrigada a decidir se realmente estaria disposta a enfrentar tudo para ficar com Gustavo, mesmo sabendo do perigo que podia correr.

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