A despedida



Penny não viu como o tempo passou naquele dia; estava com os pensamentos fixados em Gustavo e, a cada minuto que passava, mais tinha certeza do que sentia por ele.


Ela só não entendia o porquê ele fora embora, sem se deixar envolver pelo momento... E não era a primeira vez que isso acontecia. Penny não entendia isso; ela era bonita, e os dois se entendiam tão bem; por que então ele passava tanto tempo sem vir vê-la, se ela tinha vontade de estar com ele a todo minuto...


Era certo que Gustavo fez o que pôde para se encontrar com Penny nas semanas seguintes. Ele não deixava de passar no escritório do Profeta Diário sempre que podia, embora ela soubesse que o seu trabalho estava cada vez mais exaustivo e exigindo que ele se esforçasse mais do que nunca, principalmente com a aproximação do Torneio Tribruxo. Não houve quem não notasse que decididamente houvera um aumento na quantidade de reportagens que saíam diariamente no Profeta Diário a respeito do torneio. As notícias surgiam dia após dia como um germe excepcionalmente contagioso: quem ia tentar ser o campeão das escolas, que é que o torneio exigia, em que os alunos de cada escola se diferenciavam uns dos outros, históricos dos torneios anteriores...


Penny estivera tão envolvida com isso que até se esquecera do desentendimento que tivera com Ben; o garoto demorou quase um mês para mandar a resposta da última carta que ela tinha escrito:


Penny,


Segui o seu conselho e hoje, depois da aula de Herbologia, pela primeira vez me aproximei da Alicia Spinnet, a artilheira da Grifinória. Ela estava lendo o aviso sobre a chegada das delegações de Beauxbatons e Durmstrang daqui a uma semana, e eu me aproximei para ler e fiquei lado a lado com ela por três segundos.


O problema é que eu reparei que ela é mais alta do que eu quase uma cabeça; não sei se foi porque eu dobrei os joelhos para me esconder atrás do Edu.


Tudo teria dado certo, se não fosse o besta do Edu ter se virado para perguntar o que eu estava fazendo, porque aí eu tropecei e derrubei a armadura de metal que fica no corredor. O Filch ficou uma fera e disse que vai me dar uma detenção, mas eu não estou preocupado, porque eu sei que ele não pode fazer isso.


De qualquer forma, se eu não for para Hogsmeade no terceiro fim de semana de novembro, provavelmente é porque eu estarei limpando o corujal.


Atenciosamente, Ben.


A tentativa de Penny de conter o riso foi inútil; era engraçado como o seu irmão não conseguia deixar de ser criança nem quando estava tentando parecer maduro.


As cartas do garoto serviram ao menos para distrair Penny quando Gustavo deixou de aparecer. Eles nunca mais tinham tido a oportunidade de ficar juntos; Penny chegou a pensar em ir ao Caldeirão Furado para perguntar por ele, mas não queria parecer desesperada, embora ficasse preocupada quando ele desaparecia sem dar notícias; sentia a sua falta, tinha medo de que ele se envolvesse com outra pessoa e assim correr o risco de perdê-lo para sempre...


Na última semana de outubro, Gustavo finalmente resolveu aparecer no escritório do Profeta Diário. Penny havia terminado o expediente, quando saiu e se deparou com ele ao pé da escadaria. Seus olhos se fixaram no rapaz, que parecia extremamente apreensivo, mas, passado um instante, Penny sorriu; Gustavo ficou profundamente aliviado.


- Gustavo, o que está fazendo aqui? – Ela perguntou ao descer as escadas. – Por que não entrou?


- Eu só vim para falar com você – ele respondeu.


Penny sorriu por dentro teve o pressentimento de que uma coisa muito boa estava prestes a acontecer. O céu banhava a tarde com um sol de outono; os dois seguiram andando e Gustavo achou melhor começar a falar de uma vez.


- Você já sabe que na próxima sexta-feira vai começar o Torneio Tribruxo, não é?


- É verdade – concordou Penny. – As delegações de Beauxbatons e Durmstrang vão chegar a Hogwarts ao final da semana; o Ben me mandou uma coruja dizendo algo a respeito.


- Ele continua mandando corujas para você? – Estranhou Gustavo.


- Continua sim; e você nem sabe da maior – Penny abriu um sorriso. – Ele está gostando da Alicia Spinnet, uma garota da Grifinória, mas não tem coragem de falar com ela. Ele se atrapalha todo!


- Mas ele fala essas coisas para você? – Indagou Gustavo. – Vocês devem ser muito próximos...


- Que nada! Ele só faz isso porque é um garoto impossível, você devia ver as coisas que ele escreve; é muito engraçado, você ri demais! Qualquer dia desses eu vou trazer a carta dele aqui para você ver...


- Isso vai ter que ficar para a próxima – disse Gustavo; sua expressão mudou de repente. – Estou partindo para Hogwarts; fui escalado para ajudar na cobertura do Torneio.


Penny contraiu os lábios; embora já esperasse por isso, não queria aceitar que tivesse que se despedir dele tão cedo.


- Mas ainda dá tempo – disse ela, parecendo preocupada. – Você só deve partir na sexta, não?


- Sim, mas, na verdade, eu não devo mais aparecer por aqui esta semana – Gustavo começou a parecer apreensivo, embora se esforçasse para manter a calma. – Hoje é o último dia que eu tenho para preparar a minha poção; amanhã começa a lua cheia de novo e aí fica complicado...


- Por que na lua cheia é complicado? – Penny sorriu. – Por acaso você é um lobisomem ou coisa parecida?


Houve um silêncio audível. Gustavo confirmou com a cabeça; Penny mudou repentinamente de expressão. Seus olhos agora estavam postos no rapaz, que parecia extraordinariamente calmo, embora muito pálido.


- Eu tinha quatorze anos quando levei a mordida – disse ele, sentindo um estranho tremor atravessar seu rosto. – Era isso que eu precisava falar, já faz um tempo.


Penny mal conseguia se mexer. Estava boquiaberta, com uma expressão de terror no rosto. Ela ainda juntou coragem para falar, com a voz embargada.


- M-mas aí você toma essa poção e não se transforma...


- Não me transformo totalmente... A poção do acônito ainda é considerada uma descoberta recente. Me deixa seguro, entende? Desde que eu a tome uma semana antes da sexta-feira de lua cheia, posso conservar as faculdades mentais quando me transformo... Ela permite que eu não vire um perfeito monstro uma vez por mês. Mesmo assim, minhas transformações são... são terríveis. É muito doloroso alguém virar lobisomem.


Penny bem que esboçou dizer alguma coisa, mas tinha um nó na garganta que a impedia de dizer o que quer que fosse.


- Penny, tem mais uma coisa – continuou Gustavo. – Preciso que você preste atenção.


Os dois ficaram frente a frente; Gustavo segurou em suas mãos, olhou-a bem nos olhos e disse:


- Eu não falo sobre isso. Não falo sobre isso com ninguém. Só achei que você deveria saber porque... – Ele tomou fôlego. – Porque eu estou realmente gostando de você.


Penélope fechou os olhos por um instante e depois os reabriu. Então deslizou os dedos pelo rosto de Gustavo, sorrindo discretamente.


- Seu segredo está guardado comigo.


Eles se afastaram e Penny apertou os olhos num suspiro prolongado, deixando que lágrimas lhe escorressem pelas maçãs do rosto.

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