A filha do presidente



Ao chegar à sua casa, os pensamentos de Penny estavam tão distantes que ela quase deixara o seu pai sem resposta quando discursava sobre o resultado do pronunciamento do ministro da magia.


- Grande noite, não? – Ele disse, animado. – Sem dúvida, o primeiro de muitos eventos que participaremos juntos!


- É verdade, pai; eu também gostei muito. Está tarde, então acho que já vou dormir...


Ela lhe desejou boa noite e foi para o seu quarto, pensativa. Chegando lá, reparou que uma coruja havia lhe trazido uma correspondência. Pensando ser uma carta de Gustavo, a garota correu para abri-la, mas, quando finalmente desenrolou o pergaminho, logo reconheceu a caligrafia de seu irmão:


Penny,


Fiquei profundamente ofendido por ter vindo para Hogwarts sem que você se despedisse de mim. É a primeira vez que venho a Hogwarts sozinho e você não tinha o direito de fazer isso comigo.


Sei que está chateada por conta do que eu falei, mas se falei aquilo foi só porque eu não gosto de ver a minha irmã saindo com caras por aí. Você é única irmã que eu tenho e não imagina o quanto isso é humilhante para mim.


Agora, se você não quiser falar comigo, tudo bem; mas fique sabendo que eu vou escrever até que você resolva quebrar o silêncio, nem que seja para me mandar parar de escrever.


Sem mais, subscrevo-me.


Seu irmão, Ben.


Havia um sorrisinho no canto dos lábios de Penny quando ela terminou de ler a carta. Se havia uma coisa que Ben não suportava era ser ignorado; ele só ficava satisfeito quando estava bancando o engraçadinho ou sendo o centro das atenções.


Ela estava determinada a não falar mesmo com ele, mas já tinha a resposta na ponta da língua e não conseguiu manter o pacto de silêncio. Agarrou uma pena no tinteiro e um pergaminho, e começou a escrever:


Ben,


Espero que você logo cresça e comece a se interessar por garotas, de preferência por uma garota que tenha um irmão mais novo igual a você, para que veja o quanto está sendo infantil.


Se estou saindo com alguém, é porque já tenho idade para isso; você deveria aproveitar e começar a fazer o tipo de coisa que garotos da sua idade fazem, como sair com os amigos ou se aproximar das garotas, por exemplo.


Lembre-se sempre: eu sou a irmã mais velha, então eu sou quem devia tomar conta de você e não o contrário.


Mesmo assim, prefiro acreditar que você já tem idade para se cuidar sozinho, por isso me abstenho de ficar pegando no seu pé, e penso que você devia fazer o mesmo comigo.


Sem mais, Penny.


Ela enrolou o pergaminho e o guardou em sua bolsa, decidida a despachar a carta apenas no dia seguinte.


 


O temporal já se esgotara quando o dia amanheceu, embora o céu continuasse ameaçador; pesadas nuvens cinza-chumbo se espiralavam no alto quando Penny chegou ao seu trabalho, ainda sem entender o que havia lhe passado pela cabeça quando pensou que tivesse se arrumado para um encontro na noite anterior. Era certo que Gustavo estava ali a trabalho, enquanto ela era uma convidada; obviamente não haveria a oportunidade se falarem.


O que ela não conseguia era ter que aceitar isso; queria que Gustavo estivesse ali como os demais convidados, que pudesse conversar com ele livremente como amigos...


Não demorou muito, a primeira correspondência do dia chegou e não foi nada agradável: Cornélio Fudge enviou um berrador para reclamar da reportagem de Rita. A jornalista, como sempre, não perdeu a oportunidade de alfinetar a falta de preparação do ministério e, em vez de falar sobre o evento da noite anterior, preferiu publicar uma matéria intitulada “NOVOS ERROS DO MINISTÉRIO DA MAGIA”, onde acusava um funcionário do ministério de ter se envolvido numa briga com policiais trouxas por causa de um alarme falso de “Olho-Tonto” Moody – segundo Rita, um ex-auror idoso que “se aposentou ao se tornar incapaz de distinguir um aperto de mão de uma tentativa de homicídio”, e teve que alterar várias memórias para poder escapar dos policiais. Cuffe ficou uma fera; pela primeira vez em vários anos, teria que publicar uma retratação. Rita Skeeter chegou mais tarde e passou a manhã toda na sala do editor discutindo com ele.


Às onze horas, Penny saiu para almoçar e se surpreendeu ao encontrar por acaso Gustavo sentado a uma mesa na calçada da Sorveteria Florean Fortescue, com a cara enterrada em um exemplar do Profeta Diário.


- Gustavo, você por aqui? – Perguntou ela. – Não devia estar lá com a Rita?


- Penny? – Ele se levantou confuso. – Mas você não devia.... Desculpe – o rapaz se acalmou, colocou o jornal sobre a mesa e puxou uma cadeira para a garota. – Acho que perdi a noção do tempo; nem tinha percebido que já são... onze horas?


- Estou em horário de almoço – ela explicou, sentando-se; Gustavo fez a mesma coisa. – Eu sei, eu almoço cedo. Que pena, não é; a gente nem se falou ontem à noite. O danado do meu pai já sabia de tudo sobre o tal evento secreto e nem me falou nada!


- Pois é – disse Gustavo; havia um quê de apreensão em seu semblante que Penny logo percebeu. – E você não me falou que o seu pai era o presidente do Gringotes...


- Falei sim, naquele dia que a gente veio tomar sorvete, não lembra?


- Você disse que ele trabalhava no Gringotes; não que era o presidente.


Penny deu um sorrisinho preocupado.


- Então Gustavo, acontece que esse é o tipo de coisa que eu não falo para todo mundo... Não sei, às vezes percebo que as pessoas me tratam como se eu fosse um status, a “filha do Presidente”, e eu não queria que fosse assim. Eu só queria que as pessoas gostassem de mim pelo que eu sou, e não pelo que eu tenho, entende? É tão difícil encontrar alguém legal assim como você, eu sinceramente não queria ter lhe assustado...


Ela desviou os olhos e passou a mão pelo rosto até os cabelos, atordoada com o próprio desabafo.


- Não me assustou – disse Gustavo compreensivo, olhando Penny nos olhos. – Você estava linda.


Por um instante eles pararam, ouvindo somente a respiração um do outro, que foi ficando mais lenta; os seus olhos se fecharam, seus lábios entreabertos foram se aproximando até que...


- Desculpe Penny – disse Gustavo de repente, levantando-se. – Eu preciso voltar ao trabalho...


- Está certo – respondeu ela, voltando a si. – É melhor ir logo, porque o negócio lá está pegando fogo...


- Mesmo? O que aconteceu?


- Você não soube? O ministro mandou um berrador, parece que vão ter que publicar uma retratação e tudo. Quando eu saí, a Rita estava discutindo com o chefe.


- Neste caso, tenho mesmo que ir – ele fechou os olhos e suspirou. – A gente se vê outra hora...


- Está bem – Penny disse. – E Gustavo – ela chamou, fazendo com que o rapaz, que já havia recolhido a mochila e se colocado a caminho, se virasse para ela. – Não desapareça...


Gustavo assentiu com um sorriso e seguiu para a redação do Profeta Diário, enquanto Penny se debruçava de cara no jornal que o rapaz havia deixado sobre a mesa.


 


 

Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.