A reviravolta



Vários dias se passaram depois da chegada da confirmação da reprova de Penny no teste admissional para o Gringotes, mas o clima ainda estava tenso na casa dos Clearwater. Penny não teve mais coragem de tocar nesse assunto – e em nenhum outro – com a sua família. Ela bem sabia que nada havia mudado em sua vida; não conseguira o emprego dos sonhos, continuava dependendo da boa vontade de Ben e o seu namoro com Percy continuava a ser escondido.


Aliás, ela já não sabia se podia continuar chamando aquilo de “namoro”. Percy não lhe mandara resposta alguma sobre a sua carta. Por um lado, ela até entendia a posição do rapaz; certamente ele também não conseguira o tão sonhado emprego no ministério e, assim como ela, perdera completamente as esperanças de um dia poder fazer algo útil da vida.


O Sr. Clearwater evitou o máximo que pôde relembrar a filha do seu fracasso no teste admissional. Mas na véspera do jogo da Inglaterra, Penny resolveu quebrar o silêncio – ela ainda dependia do bom humor de seu pai para lhe contar o seu pequeno segredo.


- Você deve estar desapontado comigo, não é, pai? – Arriscou ela, tentando se explicar.


- Creio que desapontado não seja a palavra correta – respondeu o Sr. Clearwater, sem sorrir. – Talvez confuso ou mesmo decepcionado, não sei que palavra usar para dizer que eu realmente não esperava por isso. O que pretende fazer, agora?


- Eu vou me preparar para prestar o exame novamente no ano que vem. Nenhuma outra carreira me interessa que não seja no Gringotes.


- Um ano em casa, se preparando – analisou o Sr. Clearwater. – Só espero que não seja um ano perdido?


- Prometo que não vou decepcionar – decretou Penny convincente. – E eu também vou aproveitar para me aprimorar um pouco mais nas tarefas de casa, quem sabe aprender uns feitiços domésticos.... É sempre bom saber essas coisas, não?


- Sim – observou o Sr. Clearwater, vagamente. – A sua mãe nunca trabalhou fora, mas era uma excelente dona de casa. Aliás, você bem que podia começar a me acompanhar nos eventos do Gringotes, os meus colegas sempre levam as esposas, e como eu não tenho uma...


- Eu ficaria honrada – agradeceu Penny.


- Bom, então vamos começar com o jogo de amanhã; a Inglaterra vai jogar contra a Transilvânia – disse o Sr. Clearwater. – Nós vamos acampar desta vez, já pensei em todos os detalhes, mas é bom você me acompanhar nos preparativos para ir se acostumando.


- Ah, que bom – Penny deu um sorrisinho sem graça; não sabia por que achava isso estranho, mas tinha a ligeira impressão de que o seu pai não ficara exatamente satisfeito com a conversa.


 


Penélope teve a sensação de que seu pai passara a noite cozinha quando se levantou no dia seguinte, acordada pelo batuque de copos e pratos.


- Bem na hora! – Exclamou o Sr. Clearwater para a filha, quando a viu descer as escadas.


Ben também estava acordado, e conversava com o pai num tom bem mais preocupado do que de costume.


- É sério pai, é melhor você não ir – disse o garoto. – Não é óbvio? Primeiro você torceu pela Inglaterra no jogo contra o Brasil, e a Inglaterra perdeu; depois, você torceu pela Penny para passar no teste admissional...


- Você quer parar com essa bobagem? – O Sr. Clearwater o interrompeu, irritado.


- Depois, Gales e Escócia desclassificados! – Insistiu o garoto. – Você não percebe pai? Você é pé frio!


- Isso não tem a menor lógica! – Respondeu o Sr. Clearwater. – Você vai ver, a Inglaterra vai ganhar desta vez. Vai ser um jogo digno de final de Copa do Mundo; eu é que não vou deixar de assistir.


Ben revirou os olhos, inconformado.


- Só espero que não tenhamos que usar uma Chave de Portal dessa vez? – Arriscou Penny.


- Não, não – O Sr. Clearwater respondeu, cauteloso. – Nem temos tempo para isso, o jogo vai ser a quilômetros daqui. Desta vez nós vamos aparatar... O Benjamin vai fazer uma aparatação acompanhada comigo...


- Ah, que ótimo – disse Ben, visivelmente contrariado.


Fazia pouco tempo que Penny havia passado no exame de aparatação e ainda não se sentia segura para aparatar. Se não fosse pelo seu pai agora, ela nem experimentaria; preferia usar a rede de flu, mais lenta, porém mais segura. Mas, tratando-se de Ben, era óbvio que não concordava com a ideia do Sr. Clearwater de ir assistir ao jogo; fazia tempo que ele o atormentava para fazer uma aparatação acompanhada, e agora que podia não se mostrara ao menos interessado.


- Então, pegue a varinha – o Sr. Clearwater ordenou à filha. – Benjamin, venha para cá e me dê sua mão.


O garoto se levantou do sofá e se juntou ao pai, sem um pingo de animação.


- Preparados? – O Sr. Clearwater perguntou aos filhos e, sem esperar pela resposta, ergueu a varinha. Com um grande estrondo, os três desapareceram.


No segundo seguinte, viram-se no meio de uma charneca deserta de onde podiam ver, ao longe, centenas de barracas montadas na ondulação suave de um grande campo, no rumo de uma floresta no horizonte. Alguns bruxos começavam a se agrupar por ali como numa espécie de convenção, todos vestidos como trouxas, embora que a maioria sem muita habilidade.


Os Clearwater devem ter chamado atenção porque, assim que eles apareceram, um homem usando um terno com botas de borracha até as coxas veio falar com eles.


- Bom dia – cumprimentou o homem. – Basílio Plank, do Departamento dos Transportes Mágicos.


- Bom dia Sr. Plank, sou David Clearwater, tenho uma barraca reservada desde ontem...


- Vocês têm licença para aparatar? – Questionou Basílio. – Qual a idade do garoto?


O Sr. Clearwater nunca mentia.


- Quinze – ele respondeu, discretamente. – Mas eu...


- Se não tem licença, suponho que vou ter que lhe aplicar uma multa. A multa por aparatar sem licença é de quatrocentos galeões.


- Mas isso é um absurdo! – Exclamou o Sr. Clearwater. – O garoto chegou inteiro, não rachou e nem nada!


- Não podemos brincar com a segurança – respondeu Basílio. – O lugar é habitado por trouxas, o ministério vem trabalhando duro nisso há meses – ele entregou um pergaminho com a multa ao Sr. Clearwater. – Agora, deixe-me ver onde é que vocês vão ficar... Clearwater... – Ele consultou a lista em outro pergaminho. – A uns quatrocentos metros para aquele lado, primeiro acampamento que você encontrar. O gerente é o Sr. Payne.


- Obrigado – disse o Sr. Clearwater contrariado, e fez sinal para os seus filhos o acompanharem.


Os três seguiram andando pelo acampamento. O Sr. Clearwater, visivelmente mal-humorado, não parava de reclamar:


- Aposto que é tudo por causa daquela reportagem da Skeeter – disse ele. – Que foi inventar que o ministério andava descuidado com a segurança; agora estão aplicando multas exorbitantes para qualquer coisa...


- A propósito – observou Penny –, não é ela, ali?


Havia uma mulher loura e de roupas extravagantes, com óculos de aro de pedrinhas, contemplando a entrada dos que chegavam.


- A própria – o Sr. Clearwater contraiu os olhos. – Ah, mas se ela pensa que vai estragar a minha reputação desta vez, está muito enganada...


- É assim que se fala pai! – Apoiou-o Ben.


- Vamos nos livrar dela – decretou Sr. Clearwater. – Filho, você a distrai enquanto eu e a sua irmã entramos no acampamento para armar a nossa barraca.


- Sério? É esse o seu plano? – Estranhou o garoto.


- Rápido, não temos o dia todo! – O Sr. Clearwater apressou o garoto, que saiu em direção a Rita Skeeter.


Mal ele conseguiu desviar a atenção da jornalista, o Sr. Clearwater e Penny passaram rapidamente pela entrada do acampamento e se depararam com o gerente do lugar, o único trouxa legítimo em uma área de muitos hectares, que só estranhou o fato de o Sr. Clearwater não ter se atrapalhado com o dinheiro; ele já começara a desconfiar das roupas e da atitude daquela gente esquisita acampada ali.


- Não deve ser tão simples assim esconder uma multidão de bruxos em lugares acessíveis aos trouxas – disse Penny. – Por isso o motivo de tanta paranoia...


O Sr. Clearwater permaneceu em silêncio até alcançarem a orla da floresta no alto do campo, onde havia uma área livre com um pequeno letreiro enfiado no chão em que se lia “Clear Water”.


- Parece que encontramos – disse o Sr. Clearwater. – Pelo menos vamos ficar perto do estádio, mas vamos ter que armar esta barraca à mão; nada de magia. Agora cadê o Ben para ajudar?


- Quer que eu vá procurar por ele, pai? – Ofereceu-se Penny.


- É uma boa ideia; ele não deve estar longe.


Ela fez o caminho de volta em busca do irmão, mas subitamente se surpreendeu com um rapaz ruivo com óculos de aro de tartaruga do outro lado do acampamento: ninguém menos do que o seu namorado Percy Weasley, acompanhado por um senhor vestido impecavelmente como trouxa, de terno e gravata.


- Penny! – A voz de Ben a trouxe de volta à realidade. – Achei que vocês fossem me deixar para trás!


- Não que a gente não tivesse pensado nisso – alfinetou a garota, e voltou com o seu irmão para o local onde seu pai os esperava, não sem antes dar uma última olhada para se certificar que o rapaz era mesmo Percy.


O Sr. Clearwater já começara a montar as estacas no local, onde Penny o perdera completamente de vista.


- E então filho, conseguiu despistar aquela bisbilhoteira? – Perguntou o Sr. Clearwater, sem tirar os olhos do que estava fazendo.


- Não – respondeu o garoto , mas eu descolei um emprego maneiríssimo para a Penny no Profeta Diário...


- Você fez o quê? – Encrespou-se a garota, incrédula.


- A Rita falou que eles estão precisando de uma recepcionista – justificou-se Ben.


- Qual é o seu problema, hein? – Zangou-se Penny. – Você ao menos tem noção do que faz?


- Pessoal – interveio o Sr. Clearwater –, temos trabalho a fazer; vamos resolver isso depois.


- Bom, eu acho que vi uns amigos por ali e vou lá falar com eles – disse Penny impestivamente. – Preciso de ar fresco.


Ela saiu inconformada e foi andando em direção ao local onde avistara Percy. Recepcionista, ora essa, o que Ben estava pensando, que ela havia tirado Excelente em todas as matérias para ir servir cafezinho? Às vezes era difícil entender como o garoto conseguia se superar a cada vez...


Penny só conseguiu parar de pensar no assunto quando encontrou Percy ao lado do homem de terno e gravata, e sentiu o coração disparar quando o chamou.


- Percy!


O rapaz coçou a cabeça, pediu licença ao homem e foi falar com ela.


- Oi Penny...


- Eu estava preocupada! – Ela abriu um sorriso. – Vejo que conseguiu o emprego, por que não me contou?


- É que eu ainda estou em experiência... – justificou-se o rapaz.


- Ah, mas isso é maravilhoso! – Animou-se Penny, esperando por alguma reação do namorado.


- É sim – respondeu Percy. – Então, se não se incomoda, estou em horário de trabalho agora...


A garota desfez o sorriso e abaixou a cabeça.


- Então é isso? – Choramingou ela. – Eu digo que estou toda preocupada e você apenas me dispensa?


- Não, não foi essa a intenção – justificou-se o rapaz. – O que acontece é que eu não posso falar agora, o Sr. Crouch está precisando de mim. Estou meio atarefado no momento, mas como o seu aniversário está chegando, pensei em passar na sua casa e levar você para sair, falar com o seu pai, sabe? Olha Penny, eu realmente não posso falar agora...


A garota deu um sorriso tímido.


- Se for assim, está bem – ela respondeu. – Estamos combinados; você passa lá em casa, então...


- Perfeito, agora preciso ir. Até a próxima, então.


Ela mal podia acreditar que pelo menos uma coisa em sua vida estava dando certo. Era certo que ainda faltavam duas semanas para o dia quinze de agosto, mas até lá tinha tempo para se entender com o seu pai; quem sabe se o surpreendesse ao menos com os feitiços domésticos, ou se a Inglaterra se classificasse para a final.... Mas nada disso importava; ela, agora, de certa forma namorava um funcionário do ministério da magia, e tudo o que Percy queria era arrumar um bom emprego para impressionar o seu pai. Conseguira. Agora, bastava esperar...


Ela ainda ficou vagueando pelo acampamento, sonhadora, sentindo um friozinho na barriga ao imaginar a reação que o seu pai teria.... Quando chegou ao local onde a sua família estava instalada, percebeu que a sua barraca já estava praticamente montada.


- Tínhamos ar fresco aqui também, sabia? – Alfinetou Ben.


- Engraçadinho, você entendeu o que eu quis dizer – rebateu Penny.


- De qualquer forma – falou o Sr. Clearwater –, a senhorita estava encarregada de me ajudar com os preparativos para o acampamento. Devia ter ficado.


- Desculpe – respondeu Penny, arrependida; estivera tão interessada em falar com Percy que saiu sem cumprir a promessa que fizera. Mais um deslize desse tipo e podia colocar tudo a perder.


- Desculpas não vão resolver o problema – decretou o Sr. Clearwater. – Quando assumir uma responsabilidade a cumpra; esta é a primeira lição. Agora venha me ajudar com a fogueira, vamos fazer tudo de acordo com as normas de segurança. Essa partida já está me saindo muito cara...


Era óbvio que o Sr. Clearwater não estava exatamente de bom humor, mas fizera a escolha certa em acampar porque o jogo durou cinco dias. O maior problema, entretanto, foi que a Inglaterra deu vexame e não passou para a final. Perdeu por trezentos e noventa a dez, num dos desempenhos mais sinistros da história do quadribol.


Nada do que aconteceu nos dias que se seguiram foi capaz de levantar o humor do Sr. Clearwater; era de estremecer vê-lo falar sobre o estado da sua caixa de entrada por causa da sua ausência do trabalho durante cinco dias. Pelo menos agora Penny sabia que devia surpreender o pai de outra forma, uma vez que definitivamente não poderia esperar para encontrá-lo de bom humor.


 

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