Teste admissional



A derrota da seleção inglesa para os brasileiros na abertura da Copa Mundial de Quadribol afetou tanto o humor do Sr. Clearwater que Penny não teve coragem de falar com ele nos dias que se seguiram. Não que ele fosse capaz de cometer alguma loucura, mas, na situação em que ela se encontrava, até isso poderia servir de empecilho na hora de falar sobre Percy. Ela imaginou que, se a Inglaterra ao menos tivesse ganhado o jogo, o Sr. Clearwater ficasse tão animado que nem se aborreceria com a novidade.


Ben, pelo contrário, não estava preocupado com nada disso. Quando o exemplar do Profeta Diário de sexta-feira chegou, ele foi o primeiro a dar a notícia que colocaria, de vez, tudo a perder.


- Olha pai, você está no jornal!


O Sr. Clearwater tomou rapidamente o jornal das mãos do garoto.


- O quê? Deixe-me ver isso!


Ele ajeitou o jornal e começou a ler a matéria em voz alta:


Apesar de meses de preocupações com os preparativos da Copa Mundial de Quadribol, claramente se percebe que o Ministério da Magia não está preparado para organizar esse evento de tamanha magnitude – informa nossa correspondente especial, Rita Skeeter. Na última terça-feira, pouco antes do início do jogo de abertura, era possível encontrar Ludo Bagman, o chefe dos Esportes Mágicos, no meio do acampamento improvisado num lugar acessível aos trouxas tendo que apagar fogueiras mágicas que disparavam faíscas violentas a seis metros de altura, embora afirmasse que estava tudo tranquilo e não havia quase nada para fazer.


“É inadmissível que o próprio chefe de departamento esteja aqui falando sobre balaços e goles a plenos pulmões, sem a menor preocupação com a segurança antitrouxa” – afirma David Clearwater, o competente presidente do Gringotes, atualmente apontado como o solteiro mais cobiçado da Grã Bretanha. Por conta disso, o próprio ministério teve que escalar, de última hora, um esquadrão de bruxos só para alterar a memória dos trouxas que já começam a desconfiar das atípicas aglomerações de estrangeiros em locais públicos.


- De onde é que ela tira essas coisas? – Trovejou o Sr. Clearwater, amassando o jornal inteiro com apenas um movimento; Penny podia jurar que nunca vira o pai tão bravo. – Será possível que esse jornal não tem nada mais interessante para publicar? Mais um deslize desses e a minha reputação vai por água abaixo!


- Mas ela falou bem de você, pai! – Disse Ben. – Até chamou você de competente!


- Bem? – Retorquiu o Sr. Clearwater. – Isso é péssimo, eu não falei nada disso para ela! Ainda por cima me chamou de “o solteiro mais cobiçado da Grã-Bretanha”; o que vão pensar? Que eu uso o cargo que tenho para me dar bem com a mulherada? Anos de dedicação ao Gringotes e ela consegue estragar tudo em um parágrafo! Agora eu vou ter que me retratar com Ludo e com o ministro, isso é gravíssimo!


Ele pegou as vestes e saiu de casa apressadamente, sem ao menos terminar de tomar o café da manhã, e deixou Penny e Ben sozinhos olhando um para a cara do outro.


- Parabéns Ben – disse Penny com sarcasmo. – Você conseguiu piorar as coisas.


- Não sei do que você está falando, mas tenho certeza de que a culpa não é minha – defendeu-se o garoto.


Penny soltou um suspiro pesado.


- Eu só estava esperando por uma oportunidade do papai estar de bom humor para falar com ele sobre o Percy, mas você conseguiu acabar com tudo em menos de cinco minutos. Você bem que podia ao menos pensar em colaborar de vez em quando...


- Ou você podia falar logo com ele e acabar de vez com essa tortura – respondeu Ben. – Já sabe que ele não vai gostar mesmo... 


Num acesso de raiva, Penny atirou com força no garoto o seu grapefruit, que ele apanhou depressa e saiu de casa também, sem dizer para onde ia. Finalmente sozinha, ela se largou no sofá. Não fazia ideia de onde o irmão tinha ido, mas isso também não importava; agora tinha que pensar em uma nova oportunidade para falar com o pai. Talvez esperasse por uma vitória da Inglaterra.... Ou, quem sabe, a carta de Percy com a notícia do novo emprego chegaria primeiro.... Isso seria perfeito; ela só precisava combinar os detalhes com Percy...


Ela então se levantou para pegar uma pena e pergaminho, mas repentinamente se lembrou da última carta que recebera do namorado...


Várias coisas se passaram por sua cabeça naquele momento, mas a pior de todas foi admitir que Ben tivesse razão; a única coisa que estava conseguindo era prolongar o sofrimento.


 


Como Percy simplesmente não escrevera mais nada desde a arrogante resposta ao convite de Penny, restou a ela apenas esperar pelo próximo jogo da Inglaterra na Copa Mundial de Quadribol. Desta vez, ela estava determinada a torcer a qualquer custo pela vitória da seleção inglesa; só isso poderia mudar o humor de seu pai – e, de quebra, também a sua sorte.


O que ela não esperava era que a sua sorte mudaria antes mesmo do que imaginava; dois dias antes do jogo, o correio-coruja chegou de manhã trazendo, junto com o Profeta Diário, uma inconfundível carta de Hogwarts, num envelope amarelado e endereçado com tinta verde-esmeralda.


- Querida, acho que são os seus N.I.E.M’s – disse o Sr. Clearwater.


Penélope se acalmou só pelo fato de ter sido chamada de “querida”. O Sr. Clearwater pegou uma faca em cima da mesa e abriu o envelope, embora Penny já soubesse do resultado – claro! Como ela não pensara nisso? Suas excelentes notas já valiam mais do que qualquer troféu da seleção inglesa no quadribol.


- E vejam isso! – Exclamou o Sr. Clearwater sacudindo a cabeça. – Excelente em Feitiços, Poções, Transfiguração, Defesa contra as Artes das Trevas, Herbologia, Adivinhação e Aritmancia! Só o que eu tenho a dizer é que com isso o seu emprego está praticamente garantido no Gringotes!


- Mas olha só que coisa, papai! – Disse Penny, tentando segurar ao máximo o seu enorme sorriso.


E não era só por causa da chance de falar sobre Percy que ela estava feliz... Sempre sonhara em seguir os passos do pai.... Para ela, trabalhar no Gringotes era tudo o que planejara durante toda a vida; e agora, ver a enorme satisfação no rosto do pai era melhor do que qualquer coisa que esperara desde o início das férias de verão.


- Vou agendar o teste admissional para você hoje mesmo! – Concluiu o Sr. Clearwater.


Penny arqueou as sobrancelhas, sem entender.


- O teste é só uma formalidade – explicou o Sr. Clearwater. – Sua vaga já está garantida, mas o negócio funciona mais ou menos assim: todos têm que passar pelo teste; não posso facilitar as coisas para você. Mas é claro que eu nem iria precisar! Com essas notas, a probabilidade de você passar é de cem por cento. Vou incluí-la no exame da próxima quinta.


- No dia do jogo da Inglaterra? – Engasgou-se Ben, que só nesse momento se interessou pela conversa.


Penny lhe lançou um olhar provocativo.


- Tudo bem pai, eu não preciso mesmo ir assistir ao jogo...


- Quer saber de uma coisa? Nós também não vamos – respondeu o Sr. Clearwater. – Nesse dia, irei pessoalmente acompanhá-la até o Gringotes para a realização do exame.


- Mas eu vou poder ir ao jogo, não é, pai? – Perguntou Ben, preocupado.


- Quanto a você, bom, acho melhor não ir – determinou o Sr. Clearwater. – Vou mandar cancelar as nossas entradas. Você vai ficar em casa, dando um apoio moral para a sua irmã.


- Mas é o dia do jogo da Inglaterra! – Desesperou-se Ben. – Por que eu não posso dar um apoio moral para ela lá do estádio? Nós vamos enfrentar os vikings da Noruega!


- Nada disso – disse o Sr. Clearwater, em tom de quem encerra a conversa. – Somos uma família; temos que estar do lado da sua irmã nesse momento, torcendo por ela. – Ele virou-se para a filha. – Então está combinado: ninguém vai ao jogo. Se houver alguma coisa que você queira me perguntar, se eu puder ajudar...


- Não se preocupe – disse Penny com satisfação. – Não tem como eu estar mais preparada do que isso.


Ela não sabia o que era melhor: se a certeza de passar no teste ou a cara inconsolável de seu irmão.


 


Nada podia abalar a confiança de Penny quando o sol iluminou a manhã de quinta-feira, o dia marcado para o seu teste admissional para o Gringotes. Ela estava tão confiante de que conseguiria passar que acordou impestivamente às sete horas da manhã, depois de uma longa e tranquila noite de sono.


O Sr. Clearwater pelo contrário, estava mais ansioso do que a filha e não pregou os olhos a noite toda.


- Como vai a minha filha preferida e futura colega de trabalho? – Perguntou ele, com um sorriso visivelmente preocupado no rosto e tomando um gole da sua décima quinta xícara de chá. – Eu não quis atrapalhar você à noite, sei que esteve se preparando para o teste, isso é bom, é importante, sabe como são os duendes, eles gostam de aplicar pegadinhas...


- Eu vou passar – respondeu Penny confiante, passando creme de amendoim em uma torradinha. – Não vejo a hora de fazer esse teste para começar logo a trabalhar!


- E eu vou estar aqui, torcendo por você – disse Ben, estranhamente despreocupado.


Penny podia jurar que ele estava aprontando alguma coisa, mas preferiu não pensar nisso. Às oito horas, desaparatou junto com o seu pai rumo ao Banco dos bruxos.


O seu nível de tranquilidade desapareceu completamente no momento em que ela se viu diante do Gringotes, um edifício muito branco que se erguia acima das lojinhas do Beco Diagonal, no centro de Londres. Parado diante das portas de bronze polido, usando um uniforme vermelho e dourado havia um duende de cara carrancuda, que cumprimentou Penny e seu pai com uma reverência quando entraram.


Eles passaram pelas portas de prata e desembocaram em um grande saguão de mármore, onde havia mais de cem duendes sentados em banquinhos altos atrás de um longo balcão, escrevendo em grandes livros-caixa, pesando moedas em balanças de latão, examinando pedras preciosas em óculos de joalheiro. Havia ao redor do saguão portas demais para se contar, e outros tantos duendes acompanhavam pessoas que entravam e saíam por elas.       


Somente no momento em que se despediu de seu pai, Penny sentiu o peso do que a aguardava. Acompanhou um duende franzino até o salão de testes, onde encontrou, já aguardando, umas quinze pessoas. Sentiu-se aliviada – até ali tivera a impressão de que seria a única bruxa a trabalhar no meio dos duendes.


Ela foi juntar aos demais e ficou esperando, em silêncio, o início do teste. Sentiu um frio na barriga ao imaginar a responsabilidade de fazer parte daquilo, trabalhando no lugar mais seguro do mundo destinado à guarda dos tesouros das famílias bruxas...


- Hora de começar – anunciou um duende logo após a chegada dos dois últimos bruxos. – As portas ao redor desta sala estão identificadas com os nomes de vocês; cada um de vocês realizará o teste separadamente. O desafio os aguarda dentro das respectivas salas. Quem terminar está dispensado; o resultado será enviado amanhã pelo correio-coruja.


Assim como todos os que estavam no salão, Penny foi procurar pela porta identificada com o seu nome. Encontrou-a logo; conforme esperava, os nomes estavam em ordem alfabética. Ela reparou que foi uma das primeiras a localizar a sua porta. Respirou fundo, e abriu-a.


“Primeiro desafio cumprido”, ela pensou, só para aliviar um pouco a tensão que estava sentindo, e mal se atrevendo a olhar o que vinha a seguir.


Mas não havia nada assustador ali, apenas uma mesa e sobre ela sete garrafas de formatos diferentes em fila.


Penny apanhou um rolo de papel que havia ao lado das garrafas. Abriu-o e começou a ler:


Eis um desafio difícil de acertar; apenas uma de nós o ajudará ao seu objetivo alcançar,


Uma de nós o fará conseguir; as outras o farão fracassar,


Duas de nós conterão vinho de urtigas; três de nós aguardam em fila para lhe matar.


Não toque em alguma de nós se esta não for a sua escolhida.


E para ajudá-lo lhe daremos quatro pistas:


Primeira, por mais dissimulado que esteja o veneno, você sempre encontrará um à esquerda do vinho de urtigas.


Segunda, são diferentes as garrafas de cada lado, mas se você quiser vencer nenhuma é sua amiga.


Terceira, é visível que temos tamanhos diferentes; nem anã nem giganta guardam a melhor pedida.


Quarta, a segunda à esquerda e a segunda à direita são gêmeas ao paladar, mas diferentes à vista.


“Genial”, Penny pensou; suas ideias clarearam e a sua ansiedade começou a diminuir. Nada de magia, apenas lógica; uma charada. Bem que o seu pai lhe alertara que os duendes gostavam de pregar pegadinhas; a maioria dos grandes bruxos não tem um pingo de lógica; poderiam ficar presos ali para sempre.


O seu futuro estava naquele pergaminho. Sete garrafas: três continham veneno; duas, vinho; apenas uma a faria passar. Penny leu o papel diversas vezes. Depois passou em revista a fila de garrafas, para cima e para baixo, resmungando e apontando para as garrafas. Finalmente, bateu palmas com a resposta em mente, e escolheu a garrafa do meio.


Só houve tempo de encostar o dedo na boca da garrafa escolhida; imediatamente as demais garrafas se dissolveram, restando apenas a sua sobre a mesa. A porta da sala se abriu; seu teste havia terminado. Um duende a aguardava para acompanhá-la até a saída, e ela foi para casa sozinha, sem poder falar com o seu pai.


Penny não queria se sentir estranha como estava se sentindo. Logo estaria trabalhando no Gringotes; sua vida se resolveria e aquela sensação desagradável iria passar. Por sorte, quando chegou à sua casa, encontrou-a vazia, e teve a certeza de que Ben tinha dado um jeito de ir assistir ao jogo.


Mas Penny não estava incomodada com isso. Era outra coisa que a incomodava: o silêncio de Percy. O rapaz nunca mais escrevera; nas férias de verão anteriores eles sempre ficavam se correspondendo por cartas. Por isso, depois de muito pensar sobre o assunto, ela resolveu escrever uma carta para o namorado só para saber como ele estava.


Mal ela despachou o correio-coruja, seu irmão Ben entrou pela porta da sala. Parecia meio animado, meio contido, e Penny não perdeu a oportunidade de atormentá-lo:


- Por onde você andou, hein mocinho?


- Ahn, oi Penny...


- Oi Penny que nada, não me diga que você foi assistir ao jogo mesmo quando o papai disse para você ficar em casa! Onde conseguiu o ingresso?


- Eu tenho os meus contatos – justificou-se Ben. – E eu não podia perder esse momento histórico! Você sabia que a Inglaterra ganhou? Foi tão emocionante, o Mercury agarrou o pomo no último minuto!


- Dã, é lógico que foi no último minuto, é assim que o jogo de quadribol acaba, sabia? – Penny debochou. – Como é que você pode ser tão burro e estar na Corvinal? Ah, mas espere só até o papai saber disso.


- Não seja por isso – contra-atacou Ben –; espera até você arrumar outro namorico desses escondidos para ver se eu não conto tudo para o papai. Oh, espera aí, acho que não preciso esperar, não é mesmo?


- Até parece – rebateu Penny. – O papai não vai nem ligar para isso quando chegar o resultado do meu teste admissional.


- Caramba Penny, eu guardei o seu segredo por dois anos! 


- É, mas parece que as coisas vão mudar por aqui, agora.


Não que Penny tivesse planos contra o irmão no momento, mas só de saber que não estava mais nas mãos dele já era uma grande conquista – afinal, conseguira virar o jogo. Tinha passado os últimos dois anos tendo que fazer tudo o que o garoto queria, sob a ameaça constante dele de, a qualquer momento, contar ao Sr. Clearwater sobre o seu namoro às escondidas.


Os dois irmãos ficaram se cutucando até a chegada do pai. Penny logo correu para recebê-lo; mal podia esperar para contar a ele sobre o seu teste.


- Pai, você não vai acreditar! – Disse ela. – Lembra que o senhor tinha me falado que os duendes adoram aplicar pegadinhas? Pois bem, o teste era uma pegadinha!


- Era uma pegadinha sim, filha – disse o Sr. Clearwater sem emoção. – E você caiu...


O sorriso de Penny desapareceu.


- Que brincadeira é essa? – Questionou ela, agora com um sorrisinho visivelmente preocupado.


- O presidente do Gringotes cuida pessoalmente da correção dos testes – respondeu o Sr. Clearwater, sério. – E você não foi aprovada.


- N-não pode ser – gaguejou Penny. – Deve haver algum engano, e-eu posso refazer o teste...


- Você vai ter que esperar até o ano que vem – respondeu o Sr. Clearwater. – O exame de seleção é muito rigoroso, quem é reprovado só pode se inscrever novamente depois de um ano. Eu lamento.


Houve um silêncio constrangedor; Penny não conseguia dizer mais nada por conta de um nó que se formou em sua garganta. Até Ben pensou um pouco antes de arriscar:


- Mas nem tudo está perdido; fiquei sabendo que nós vencemos os vikings!


O Sr. Clearwater apenas olhou para o filho pelo canto dos olhos e se retirou; na situação em que se encontrava, não teria outra reação nem se o garoto tivesse dito que acabara de botar um ovo.


 


 

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