As sombras do futuro



Por mais repetitiva que fosse a manchete do Profeta Diário, a notícia da fuga de Sirius Black ainda causava alvoroço em toda a comunidade bruxa da Grã-Bretanha. Dentre os estudantes de Hogwarts, então, voltar para casa depois de um ano tão atípico estava sendo bem mais agitado do que de costume. Afinal, não era sempre que um assassino condenado conseguia escapar do ministério, como ocorrera havia poucas semanas. E só de imaginar que ele estivera o tempo todo nos arredores da escola, mesmo com toda a proteção que o castelo oferecia, já era suficiente para todos saírem inventando muitas teorias diferentes – uma mais mirabolante do que a outra – sobre o que realmente acontecera. Isso somado à descoberta de que houve, durante todo o ano, um lobisomem lecionando Defesa Contra as Artes das Trevas, fazia com que os alunos mais exaltados, como Percy Weasley, por exemplo, tivessem muito a dizer, mesmo na hora de desembarcar do Expresso de Hogwarts na estação King’s Cross.


- Eu já disse e repito: se eu conseguir entrar para o ministério, apresentarei várias propostas sobre a execução das leis da magia! – Disse ele à única pessoa que queria escutá-lo, sua namoradinha Penélope.


A garota deu um sorriso e agarrou-se ainda mais ao braço do namorado.


- Ah Percy, você é sempre tão responsável – derreteu-se ela. – Mas não acha que está na hora da gente falar sobre outro assunto assim – ela jogou um de seus cachos para trás do ombro – mais importante?


- Mas Penny, o que pode ser mais importante para o ministério neste momento do que o desaparecimento de um assassino condenado que fugiu de Azkaban e está foragido?


A garota insistiu com o olhar.


- Quero dizer, claro que agora vai haver a Copa Mundial de Quadribol e tudo o mais e...


- Percy! – Insistiu ela. – Estou falando de nós dois! Este foi o nosso último ano em Hogwarts, sabe o que isto significa? Como é que vamos fazer para ficar juntos, agora?


- Nós vamos continuar nos falando por carta, como fazemos todos os anos – respondeu Percy, eficiente.


- Sim, mas agora é diferente! Eu pensei que, talvez, sei lá, você pudesse ir à minha casa...


- E enfrentar o seu pai? – Retorquiu o rapaz. – Penny querida, eu não sei se você reparou, mas eu vou precisar ser mais do que um estudante recém-formado em Hogwarts para impressionar o presidente do Gringotes.


- Não precisa de tanto assim para impressionar o meu pai – contrapôs Penny. – Você já me conquistou; isso é suficiente.


Percy só não retribuiu a gentileza com um beijo porque na hora o irmão mais novo de Penélope chegou disposto a interrompê-los.


- Penny! – Disse ele. – O papai já está esperando a gente no carro.


- Eu já estou indo! – Disse a garota, irritada.


- Está bem, e o que você quer que eu diga para ele?


- Ah, dá um tempo, Ben – protestou Percy. – Olha, toma isso aqui! – O rapaz meteu a mão no bolso das vestes, pegou uma moeda e entregou-a ao garoto. – Por que você não vai até o carrinho de doces e compra um pacote de balas de alcaçuz?


O garoto pegou a moeda e olhou para Percy com desprezo.


- Um galeão? – Disse Ben com reprovação. – Só acho que a minha irmã vale um pouco mais do que isso.


Percy bufou e meteu a mão no bolso novamente, entregando-lhe mais algumas moedas.


- E eu não estou falando de dinheiro! – Disse Ben com firmeza, tomando as moedas com violência da mão de Percy. Depois se virou para a sua irmã: – O que eu digo para o papai?


- Diga que eu... estou no banheiro, sei lá, inventa alguma coisa!


- Certo, eu vou dizer que você teve uma dor de barriga e está fazendo o número dois, então.


Penny se boquiabriu indignada; Percy a abraçou carrancudo, tentando fazê-la não dar atenção ao irmão.


- Porque é exatamente isso o que você está fazendo! – Com um grito de provocação, o garoto seguiu em direção à plataforma nove e meia.


- Olha, não liga para o Ben – disse Penny, encabulada. – Sabe que ele é meio...


- Eu não estou ligando – disse Percy com dignidade. – Como eu disse, eu já estou encaminhado para entrar no ministério; o papai está cuidando disso. E, assim que eu conseguir o emprego, Penny, eu prometo que vou me apresentar ao seu pai.


- Você jura? – Derreteu-se Penny.


- Sim – respondeu Percy. – Farei tudo o que estiver ao meu alcance para nós ficarmos juntos.


Eles teriam se despedido com um beijo se não tivessem sido interrompidos mais uma vez, agora por uma corujinha agitada que tropeçara neles ao escapar das mãos de Rony, e que ninguém sabia de onde tinha vindo.


- Bom, eu tenho que ir – disse Penny, segurando as pontas dos dedos de Percy como se com isso pudesse prolongar a sua companhia. – Sabe, o meu pai está esperando...


- Não se preocupe Penny. Irei escrever quando tudo estiver certo.


Penny ainda olhou para o namorado pela última vez antes de cruzar a plataforma. Era estranho se despedir dele assim, como se fosse pela última vez, sem saber exatamente o que esperar do próximo encontro.


Ela localizou o seu pai rapidamente. O Sr. Clearwater estava parado na frente do carro, logo na saída da estação. Penny sorriu envergonhada para ele, entrou no carro e sentou-se no banco do passageiro. Seu irmão Ben já estava sentado no banco de trás, saboreando satisfeito um pacote de balas de alcaçuz.


- Desculpe pela demora, pai – disse ela.


- Não se desculpe – respondeu o Sr. Clearwater. – O seu irmão me contou tudo.


O garoto ergueu as sobrancelhas e deu um sorrisinho; Penny sentiu as maçãs do rosto se avermelharem.


- Não é que o senhor está pensando, pai. E-eu posso explicar...


- Não precisa; o Benjamin já me explicou. Eu entendo, acontece com todo o mundo, não precisa se envergonhar; é uma coisa totalmente natural...


Ela se virou e lançou um olhar assustado ao irmão. Suas bochechas mudaram do vermelho para o amarelo.


- Como pude deixar escapar isso? – Prosseguiu o Sr. Clearwater. – Estive tão atarefado com o trabalho que não me atentei que você iria querer se despedir da sua turma no último ano em Hogwarts! Eu entendo completamente, também já passei por isso. Mas pense pelo lado positivo: você agora vai começar uma nova fase de sua vida, vai conhecer gente nova... E os verdadeiros amigos nunca se afastam; acredite, até hoje eu ainda encontro alguns colegas dos tempos de Hogwarts. Agora mesmo, no verão, a Inglaterra vai sediar a Copa Mundial de Quadribol; você deve reencontrar alguém durante os jogos.... De repente você pode até convidar uma de suas amigas sua para ir assistir à abertura da Copa com a gente, o que acha?


- Ah pai, eu acho que seria maravilhoso! – Penny disse agradecida; já sabia muito bem quem iria convidar.


Eles rumaram em direção a Godric’s Hollow, onde moravam num luxuoso chalé de dois andares. Penny estava extremamente aliviada; se tudo corresse bem, apresentar Percy ao seu pai seria muito mais fácil do que ela imaginava.

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